Terça-feira, Novembro 10, 2009

Distrito 9 (District 9 – Neill Blomkamp, 2009)

Muito mais por falta de tempo do que por excesso de vadiagem deixarei de partilhar impressões mais detalhadas de Distrito 9, mas não poderia passar este dia pós-filme sem registrar um pouco do meu contentamento. Posiciono-me mais ou menos ao centro dos dois grupos fanáticos que se formaram para, respectivamente, amar e odiar o debut de Neil Blomkamp – digo “mais ou menos” por estar muito mais próximo à adoração do que ao ódio, embora meu gostar não tenha a mesma entonação que o dos fãs assumidos. Serei aquilo que o filme despreza, rasga e destitui por completo do seu centro gravitacional: um exemplo de precaução e de pretenso equilíbrio.

Distrito 9 é cinema muito próximo da selvageria, onde o instintivo prevalece e o intelecto é deslocado para uma espécie de vácuo. Com isto, recebemos uma peça de estrondo brutalmente manejada como um filme-vômito, onde nada parece ser controlado, onde tudo é grotescamente – reconhecendo a grotesquidade com grande fascínio – arremessado à tela, onde impera o caos e as ideias parecem ser injetadas diretamente na veia do espectador. Em questão de minutos estamos ali, no meio da baderna, compreendendo cada uma das referências ao lado de cá de um jeito um tanto quanto estranho, como se estivessemos a par daquela realidade há anos, o que pode ser considerado o maior dos elogios à medida que reconhecemos no Cinema a necessidade de o realizador fazer o espectador comprar seu mundo particular e, principalmente, respeitá-lo (basta dizer que não há qualquer estranheza em ver o povo alienígena se chapar com comida de gato, muito menos em ver o mercado negro do produto se ampliando, etc – teria outros tantos exemplos). O mesmo acontece com a linguagem de câmera, que mistura conceitos básicos de estética cinematográfica com linguagens dinâmicas e inusitadas como a de televisão e video-game de uma maneira impossível de ser sintetizada por palavras. Através disso, a impressão que se tem é de que poderiam existir milhões de ironias e metáforas e críticas sociais enrustidas, mas não consigo encontrar espaço para pensar o filme fora desta sua realidade, talvez por ela ser tão bem apresentada e sustentada, talvez por transformar-se com o passar do tempo em um monumento de si mesmo. Não que eu não goste do gradativo enxugamento deste universo, desta emulação narrativa de video-game onde todo o filme gira em torno de uma visão em primeira pessoa e da forma como isto consome o filme até transformá-lo em um caroço lapidado. Pelo contrário: residem aqui alguns dos maiores méritos de Distrito 9, alguns dos motivos que fazem deste um filme tão divertido de um jeito tão vulgar. Apenas acredito que, da mesma forma com que torna o filme uma experiência bastante interessante sob este ponto de vista de divertimento porralouquista e vagabundo, permite a ele o contentamento de ser apenas isto. Penetramos no Distrito 9 e, ao sairmos dele, levamos nada além do saco de pipocas vazio para atirarmos no lixo. Novamente reitero: não é defeito, mas a constatação de uma conseqüência natural da proposta – uma proposta que é bastante comum mas que cada vez mais parece difícil de ser executada por Hollywood. Em seu primeiro filme, e fora deste eixo que abriga Michael Bay, Tony Scott e Uwe Boll, Neil Blomkamp conseguiu. Ainda assim, não há nada de novo no front; apenas o referido respeito ao seu próprio cinema, que deveria ser uma regra mas é responsável por fazer deste um filme de tamanho destaque.

3/4

Daniel Dalpizzolo

Sábado, Novembro 7, 2009

Olhos de Serpente (Dangerous Game – Abel Ferrara, 1993)

Há dois filmes maravilhosos dentro de Olhos de serpente, de Abel Ferrara, e eles não apenas coexistem de maneira harmoniosa como ainda por cima se completam.

O primeiro deles é um visceral metafilme que impressiona também pelo fato de parecer um compêndio das aspirações cinematográficas de seu diretor, especialmente pela íntima e conflituosa relação entre vício e religião.

O segundo, por sua vez, fala sobre até que ponto uma pessoa pode ser consumida, física e mentalmente, pelo processo de criação artístico. (desafio: tente não pensar em Heath Ledger)

O mais perturbador, no entanto, é quando percebemos o elo com a mente do criador — seria Keitel o avatar do próprio Ferrara? Não sei, mas assusta a maneira como ele insufla que essa Hollywood imunda não é lá muito diferente dos submundos nova-iorquinos de seus outros filmes.

4/4

Vinícius Laurindo

ou: Olhos de Serpente (Abel Ferrara, 1993) – Daniel Dalpizzolo – 4/4

Quarta-feira, Novembro 4, 2009

Screenshots!: Nastassja Kinski em A Lua na Sarjeta (Jean-Jacques Beineix)

Talvez apenas no próprio Femme Fatale, do De Palma, essa instituição sagrada do film noir tenha sido tratada com tanta devoção como em a Lua na Sarjeta, encarnada aqui pela inacreditável Nastassja Kinski. O cuidado de Beineix é o mesmo: captar o corpo, lábios, olhos, cabelos, e rearranjá-los do outro lado da lente na forma estonteante de uma deusa.

*texto: A Lua na Sarjeta (Jean-Jacques Beineix, 1983) – Luis Henrique Boaventura

null null null null null null null null null

Domingo, Novembro 1, 2009

Cão Branco (White Dog – Samuel Fuller, 1982)

null null null

É, não adianta, esse é obra-prima forte mesmo. O Fuller mostra aqui que dá pra juntar tudo no pacote, clichês, sociologia, trilha sonora, ENQUADRAMENTOS DO CARALHO, polêmica, etc, sem perder a mão. a questão é que, ele pega tudo e faz da forma mais direta possível. Trata do racismo sem nenhuma sutileza (e quem disse que suteliza é qualidade, necessariamente?), entra pela porta dando um bico, esfrega na cara do público médio americano (e do mundo, course) – muito bem representado pelo velhinho simpático e repugnante, dono do cão – a sua hipocrisia.

Um povo que está tão evoluído que, prescinde de um Star Wars (quem viu entenderá a raferência hehe) da vida, sequer soube lidar com uma questão tão… tão… simples? quanto o racismo. Simples do ponto de vista de que é uma imbecilidade tão óbvia que, bom… enfim. E fora que ele filma o cão, dando indícios claros de que ele não é o verdadeiro culpado, não nos faz acusá-lo, mas também não nos faz aceitá-lo, o que é pior, já que a gente não sabe bem o que quer em relação a ele. Fica aquela coisa de se autopodar.

A sequência final é bem ilustrativa disso, ao passo que, ao que parece, o cão está, de fato, curado. A câmera vem flutuando, girando, mostra a feição dele, língua pra fora, simpático… gira, gira, quando fecha os 180º, bom… ali está: a outra face, a raiva estampada na cara do bicho, essa dualidade (sem contar que, ali a gente vê, que não só é um racista, mas um assassino nato e te pergunta: há ressocialização? nah, mete um tiro nessa praga). O Fuller conseguiu mostrar a dualidade através da imagem em questão de segundos, e com um giro de câmera excepcional. E nem vou citar as câmera lenta, esse cara, definitivamente, sabe usá-la (a cena acima que o diga). Dá mais pena ainda daquele vômito que atende pelo nome de Crash.

4/4

Djonata Ramos

Sábado, Outubro 31, 2009

Na Teia do Destino (The Reckless Moment – Max Ophüls, 1949)

null nullnull

Existe o universo usual de todos os demais filmes e existe a dimensão obscura do film noir, para o qual qualquer tema, quando abstraído, é ampliado dez vezes. Ou de que outra forma uma alegoria da mulher moderna diante da instituição familiar (cara, como isso soa grotesco) daria uma obra-prima? Na Teia do Destino é devastador, e não é algo semi-pronto como estava Carta de uma Desconhecida. Aqui o Ophüls (um ilusionista diabólico filho da mãe) precisa se virar, e ele arquiteta tudo lindamente, trazendo abaixo (como é característica do gênero) os muros que separam pessoas por classes de moral, jogando com os conceitos de protagonista e vilão da narrativa clássica. Primeiro ele te oferece uma personagem central sólida, com aquela velha situação pronta de heroína numa cruzada pela defesa de um dos pilares-mestres da sociedade. Tudo truque. É a partir da entrada do chantagista (motor do filme e o antagonista exato), um cara que o Ophüls pega nas mãos, amassa, soca, gira no ar, vira do avesso e devolve ao espectador completamente destroçado, que Na Teia do Destino inverte papéis, sabota a si mesmo e arma pra cima do espectador apenas pra destruí-lo no final, o único momento em que o Ophüls finalmente é sincero e te mostra que o filme, na verdade, não era o filme. Que os primeiros 20 minutos são apenas um prefácio e que o tempo todo o ponto de vista esteve do lado errado. Uma das mentiras mais bem contadas do cinema.

4/4

Luis Henrique Boaventura

Quinta-feira, Outubro 29, 2009

Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds – Quentin Tarantino, 2009)

Se a minha relação com o cinema tem qualquer coisa de um relacionamento amoroso, então os filmes de Quentin Tarantino tiveram lá sua importância na minha iniciação sexual. Os delírios de conotações homossexuais em Cães de aluguel sempre me pareceram claros, mas nunca duvidei da existência de algo sugestivo naquela injeção de adrenalina, em Pulp fiction. Ou em Mia dançando sob os efeitos da droga de Vincent, ao som de Girl, you’ll be a woman soon.

Os anos foram passando, e nossa relação foi se desgastando, pouco a pouco perdendo o fôlego, até que, no fim das contas, passei a olhar para a maior parte dos filmes tarantinescos (Kill bill continua sendo nossa montanha Brokeback, QT!) como quem observa uma antiga namorada: consciente de que tivemos os nossos momentos de paixão, mas cuja ardência ficou algo perdido no tempo, como hálito no vento.

Mas eis que surge esse Bastardos inglórios, aparentemente fazendo a cabeça de todo mundo. E a minha sensação foi a de ter reencontrado, no cinema, aquela mesma pessoa, só que mais madura e, por isso mesmo, mais interessante. Como a versão aprimorada de um modelo imperfeito. A menina que não saía da minha cabeça durante a adolescência, mas que aprendi a contemplar com certa distância, virou um mulherão encorpado, experiente e segura de si. Parecia inacreditável.

Percebi que ela compreendeu, com o passar dos anos, que sua vasta enciclopédia pop mental era divertida, mas que precisava de um algo a mais para ser realmente atraente. Foi aí que ela aprendeu a conversar com inteligência e desenvoltura, descobrindo, nesse processo, o tempo e suas implicações. Uma evolução e tanto. Tornou-se uma coisa linda, tamanha elegância e imponência. E que me conquistou de vez.

4/4

Vinícius Laurindo

ou: Bastardos Inglórios (Quention Tarantino, 2009) – Marcelo Dillenburg – 4/4

Quarta-feira, Outubro 28, 2009

Matar ou Morrer (High Noon – Fred Zinnemann, 1952)

Uma síntese verdadeira e pungente sobre a solidão. Solidão esta representada pela percepção de que aqueles que te ajudaram a cinco anos podem simplesmente mudar de idéia quando fantasmas do passado resolvem assombrar a mesma cidade que você ajudou a apaziguar. Não somente mudar de idéia, mas também lhe aconselharem a ir embora, a salvar a sua pele antes que seja tarde demais (ou, na verdade, salvar a pele deles).

Entretanto, contrariando a todos, ele resolve ficar. Muitos de vocês podem pensar que ele tomou essa decisão pelo fato dele estar preocupado com o destino daquela cidade. Ou porque ele ainda se sente como o xerife. Ou por conta de uma lembrança antiga. Ou por todas essas razões juntas. E muitos da cidade chegaram a pensar nisso inicialmente. Mas há algo mais que sintetiza essa decisão.

Poderia dissertar muito mais sobre essa maravilha do western, contada quase que em tempo real, que magnifica o conceito de “homem solitário”, não através de palavras, tiros, brigas, mas através pura e simplesmente da imagem e do silêncio, além da inexorável sensação de passagem de tempo descrita anteriormente, intensificada ainda mais pelos vários relógios que são mostrados no decorrer dos seus enxutos e eficientes 85 minutos, além da interpretação mais-do-que-magistral de Gary Cooper, contido, transmitindo todas as emoções em gestos mínimos (como, aliás, todo o filme; especialmente nos maravilhosos 20 minutos finais).

4/4

Adney Silva

ou: Matar ou Morrer (Fred Zinnemann, 1952) – Marcelo Dillenburg – 3/4

Quinta-feira, Outubro 22, 2009

Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds – Quentin Tarantino, 2009)

Muito se falou sobre o filme de guerra que Tarantino pretendia fazer após completar Kill Bill. O elenco traria Sylvester Stallone, Bruce Willis e Arnold Schwarzenegger; depois os rumores migraram para a escalação de Adam Sandler; a seguir o filme trataria de soldados condenados à morte… Veio o projeto Grindhouse, para o qual Tarantino filmou À Prova de Morte. Mas ele não havia esquecido o projeto de Bastardos Inglórios. No fim das contas: o elenco traz Mélanie Laurent, Cristoph Waltz e Brad Pitt. E os tais bastardos inglórios são um grupo de soldados infiltrados na França controlada pelos nazistas durante a Segunda Grande Guerra, com o objetivo de assassinar e aterrorizar soldados alemães.

Há muitos grandes cineastas ao longo da história do cinema. Para ir além do grupo dos ótimos e entrar no seleto rol dos gênios, é necessário fazer pelo menos um filme que seja maior que o próprio cinema, e Tarantino acaba de conseguir isso. Em Bastardos Inglórios ele perde totalmente o respeito por qualquer resposta pronta, por todas as regras. O diretor desmonta e remonta a obra a seu bel prazer, passeia por enquadramentos, por quebras de narrativa, mostra sequências românticas e matanças desenfreadas sem perder a mão em nenhum momento.

Mas o mais importante é que ele faz isso tudo e mesmo assim consegue não se afastar do público. De fato, é o contrário, o diretor parece estar continuamente dialogando com o espectador, questionando as impressões que este leva para o cinema. Quando o artista consegue se aproximar de tal forma daqueles que apreciarção sua arte, sem deixar de imprimir sua marca, como questionar o resultado?

O ato final de Bastardos Inglórios surge como um epifania, e confere tal poder à obra que é capaz de desvanecer qualquer dúvida acerca do que Tarantino vinha construindo até então. Não há pontas soltas, não há equívocos, nem aleatoriedade. Há uma idea brilhante, há um diretor brilhante executando essa ideia. O resultado disso é aquele filme citado no início, aquele que diferencia os artistas. E a conclusão disso você provavelmente já deduziu: Tarantino realizou sua obra prima.

4/4

Marcelo Dillenburg

ou: Bastardos Inglórios (Quentin Tarantino, 2009) – Vinícius Laurindo – 4/4