Quinta-feira, Julho 3, 2008

Top! Décadas: 80

Nesta semana, anos 80. A ’década perdida’ que acabou se revelando entre os ploteiros como uma das mais apaixonantes do cinema. Desde a explosão pipoca, contraposta de um extremo pessimismo e finalmente equilibrada por muito sangue e decapitações estilosas. E como sempre, o primeiro top nos comentários virá aqui pra cima. Participe!

Top! do Leitor:

Fábio Rockenbach

Como o Daniel falou, extremamente difícil, porque não dá pra desvencilhar a memória afetiva. Por isso, acabei fazendo um misto que reflete o que eu gosto e me marcou na década, deixando mais de 30 filmes de fora - e bons filmes ficaram de fora, dos irmãos Taviani e Kieslowski a Verhoeven e Joe Dante, de “Império Contra-Ataca” e “Harry & Sally” a “O Homem Elefante”, “Amadeus” e “Ran”. Fazer o que…

PS: Não consigo achar que foi a década perdida ( a meu ver não existe isso, cada uma tem seus méritos, demais para serem desabonados por títulos depreciativos como esse )

01. Os Caçadores da Arca Perdida (Steven Spielberg, 1981)
02. Os Eleitos (Phillip Kaufman, 1983)
03. Touro Indomável (Martin Scorsese, 1980)
04. De Volta para o Futuro (Robert Zemeckis, 1985)
05. Fanny & Alexander (Ingmar Bergman, 1982)
06. Conta Comigo (Rob Reiner, 1986)
07. Ligações Perigosas (Stephen Frears, 1988)
08. Os Intocáveis (Brian de Palma, 1987)
09. Era uma vez na América (Sergio Leone, 1984)
10. Um Tiro na Noite (Brian de Palma, 1981)

Tops! da Equipe:

Jailton Rocha

A década mais marcante para mim. Comecei a ver cinema nela, e depois cresci vendo e revendo filmes dessa época, com isso, esses filmes do top são mais que especiais. O primeiro e segundo filmes é meu TOP 1 de todas décadas.

01. De Volta Para o Futuro Parte II (Robert Zemeckis, 1989)
02. De Volta Para o Futuro (Robert Zemeckis, 1985)
03. Sexta-Feira 13 (Sean S. Cunningham, 1980)
04. Era Uma Vez na América (Sergio Leone, 1984)
05. Os Caçadores da Arca Perdida (Steven Spielberg, 1981)
06. Depois de Horas (Martin Scorsese, 1985)
07. Os Intocáveis (Brian DePalma, 1987)
08. Scarface (Brian DePalma, 1983)
09. Conquista Sangrenta (Paul Verhoven, 1985)
10. Star Wars Episódio V - O Império Contra Ataca (Irvin Kershner, 1980)

Adney Silva

Assim como quase todos do nosso blog (e, acredito eu, muitos dos que comentam nele) passei toda a minha infância na década de 80. E isso significava horas maravilhosas em frente a televisão graças as tão queridas Sessões da Tarde. essas sessões servram, para muitos, como a iniciação nesse mundo maravilhoso (minha primeira ida ao cinema foi aos cinco anos, em 1985). Mas isso não significa que essa década foi feita apenas de blockbusters ou de comédias adolescentes. Foram produzidas nessa época pérolas cinematográficas maravilhosas, desde um filme p & b com as cenas mais realistas de boxe já feitas, até um dos manifestos anti-guerra mais contundentes e ímpactantes do cinema, além das OP incontestáveis do “quadrilátero maldito” Carpenter, Verhoeven, de Palma e Cronenberg. Com vocês, os escolhidos.

01. Touro Indomável (Martin Scorsese, 1980)
02. Eles Vivem (John Carpenter, 1981)
03. Vestida Para Matar (Brian de Palma, 1980)
04. Robocop (Paul Verhoeven, 1987)
05. Vá e Veja (Elem Klimov, 1984)
06. A Mosca (David Cronenberg, 1986)
07. Indiana Jones e o Templo da Perdição (Steven Spielberg, 1984)
08. Faça a Coisa Certa (Spike Lee, 1989)
09. Uma Cilada Para Roger Rabbit (Robert Zemeckis, 1988)
10. Curtindo a Vida Adoidado (John Hughes, 1986)

Daniel Dalpizzolo

Uma pena eu decidir ser racional num momento como esse e não entupir essa porra somente com filmes do De Palma, do Cronenberg e do Carpenter, porque a idéia é mais tentadora do que se pode imaginar. Somente esses três - e ainda tem muita coisa incrível que ficou de fora - já seriam o suficiente pra justificar a importância do cinema dos anos 80 - os filmes citados teriam espaço de sobra nos tops das décadas seguintes.

01. Eles Vivem (John Carpenter, 1988)
02. Vestida Para Matar (Brian De Palma, 1981)
03. Depois de Horas (Martin Scorsese, 1985)
04. Veludo Azul (David Lynch, 1986)
05. Memórias (Woody Allen, 1980)
06. Videodrome (David Cronenberg, 1982)
07. Era Uma Vez na América (Sergio Leone, 1984)
08. Tenebre (Dario Argento, 1982)
09. Fitzcarraldo (Werner Herzog, 1982)
10. Faça a Coisa Certa (Spike Lee, 1989)

Marcelo Dillenburg

A década de 1980 traz a mais peculiar combinação entre os filmes que marcaram a minha infância, naquelas saudosas tardes em frente à TV, e os grandes filmes “sérios” que eu só fui descobrir, e apreciar, anos mais tarde. O ponto comum é que todos os filmes da lista possuem méritos suficientes para sobreviver a inúmeras revisitas, e continuar me agradando como cinéfilo e como filho da década em questão.

01. Amadeus (Milos Forman, 1984)
02. Faça a Coisa Certa (Spike Lee, 1989)
03. Aliens – O Resgate (James Cameron, 1986)
04. Os Caçadores da Arca Perdida (Steven Spielberg, 1981)
05. Era uma Vez na América (Sergio Leone, 1984)
06. Guerra nas Estrelas: Episódio V – O Império Contra-Ataca (Irvin Kershner, 1980)
07. Ran (Akira Kurosawa, 1985)
08. O Iluminado (Stanley Kubrick, 1980)
09. Curtindo a Vida Adoidado (John Hughes, 1986)
10. De Volta para o Futuro (Robert Zemeckis, 1985)

Vinícius Laurindo

Ok, o cinema oitentista foi extremamente divertido e pode muito bem ser simbolizado por um pipocão. Mas também foi uma época repleta de privilégios cinematográficos: De Palma emplacou um combo de qualidade quase alienígena; Wenders elaborou a mais refinada atualização de Rastros de Ódio; Tarkovski levou seu caráter devastador às últimas conseqüências a fim de encerrar sua monumental filmografia; Leone ergueu um evento de gênero equivalente a uma trilogia; e, acima de tudo, um milagre polonês de aproximadamente dez horas de duração. Isso, sem contar as menções honrosas, tais como O Dinheiro, Faça a Coisa Certa, Fitzcarraldo, Dublê de Corpo; Touro Indomável, A Mosca, A Lei do Desejo, Eles Vivem, Enigma de Outro Mundo, Videodrome, Depois de Horas e Gosto de Sangue.

01. Decálogo (Krzysztof Kieslowski, 1989)
02. Vestida Para Matar (Brian De Palma, 1980)
03. Veludo Azul (David Lynch, 1986)
04. Vá e Veja (Elem Klimov, 1985)
05. Crimes e Pecados (Woody Allen, 1989)
06. Paris, Texas (Win Wenders, 1984)
08. Um Tiro na Noite (Brian de Palma, 1981)
08. Gêmeos - Mórbida Semelhança (David Conenberg, 1988)
09. O Sacrifício (Andrei Tarkovski, 1986)
10. Era Uma Vez na América (Sergio Leone, 1984)

Pedro Kerr

A década de 80 foi bem particular. Alguns dizem que foi a década perdida, década obscura. Sem ficar nessa divisão entre os filmes que fizeram sucesso na sessão da tarde e os outros ditos mais sérios, tem muita coisa em comum entre esses dois lados, um exagero, um desprendimento, que talvez seja o que torna essa década querida.

01. Um Tiro na Noite (Brian De Palma, 1981)
02. Veludo Azul (David Lynch, 1986)
03. Eles Vivem (John Carpenter, 1988)
04. Gêmeos - Mórbida Semelhança (David Cronenberg, 1988)
05. Os Caçadores da Arca Perdida (Steven Spielberg, 1981)
06. A Morte do Demônio (Sam Raimi, 1981)
07. Faça a Coisa Certa (Spike Lee, 1989)
08. Era Uma Vez na América (Sergio Leone, 1984)
09. Depois de Horas (Martin Scorsese, 1985)
10. Tenebre (Dario Argento, 1982)

Thiago Macêdo Correia

Não sou da turma que fala mal da década de 80. Na verdade foi bastante difícil montar este top, tendo que deixar Bergman, De Palma, Cronenberg e Allen de fora. Mas os filmes que figuram na lista abaixo listada foram muito bem escolhidos, sendo quase todos eles obras de indubitável valor estético e de reflexão pungente (e um deles entra como um dos favoritos no quesito saudosismo). Acabou que a divisão ficou equilibrada entre os realizadores norte-americanos (os “donos da década”, com seus filmes pop) e russos, poloneses, alemães (detentores dos primeiros lugares).

01. O Sacrifício (Andrei Tarkovsky, 1986)
02. Não Matarás (Krzysztof Kieslowski, 1988)
03. Paris, Texas (Wim Wenders, 1984)
04. Era Uma Vez na América (Sergio Leone, 1984)
05. Touro Indomável (Martin Scorsese, 1980)
06. Caçadores da Arca Perdida (Steven Spielberg, 1981)
07. Faça a Coisa Certa (Spike Lee, 1989)
08. Fitzcarraldo (Werner Herzog, 1982)
09. Gosto de Sangue (Joel Coen & Ethan Coen, 1984)
10. Curtindo a Vida Adoidado (John Hughes, 1986)

Luis Henrique Boaventura

Impossível pra mim separar o cinema dos anos 80 do que se passava às tardes na década seguinte. Quem teve boa parte da sua infância dividida por vinhetas de Sessão da Tarde não consegue manter a ‘razão’ (como se fosse necessário…) e ignorar que o que realmente o emociona é ver e ouvir Stand By Me ou Can’t By me Love a um balde de pipoca de distância da TV. E ainda assim, mesmo sem o reforço eloqüente da nostalgia, restam obras-primas absolutas como Era uma Vez na América, Tenebre e Depois de Horas…

01. Trilogia De Volta Para o Futuro (Robert Zemeckis, 1985/1989/1990)
02. Era uma Vez na América (Sergio Leone, 1984)
03. Conta Comigo (Rob Reiner, 1986)
04. Tenebre (Dario Argento, 1982)
05. Depois de Horas (Martin Scorsese, 1985)
06. O Iluminado (Stanley Kubrick, 1980)
07. Veludo Azul (David Lynch, 1986)
08. Curtindo a Vida Adoidado (John Hughes, 1986)
09. Nascido Para Matar (Stanley Kubrick, 1987)
10. Amadeus (Milos Forman, 1984)

Amílcar Figueiredo

Foi a década em que o pessimismo invadiu os corações e as mentes das pessoas. A Era de Aquário não chegou, afinal de contas, e todo aquele free love dos anos anteriores não impediu a Guerra Fria, a fome em massa e outros horrores. Que bom que tivemos grandes filmes para compensar isso, mesmo aqueles que não couberam na lista dos dez mais: A Mulher do Aviador (Eric Rohmer), A Lei do Desejo (Pedro Almodóvar), Crimes e Pecados (Woody Allen), Ran (Akira Kurosawa), Gosto de Sangue (Joel e Ethan Coen).

01. Vá e Veja (Elem Klimov, 1985)
02. E.T. O Extraterrestre (Steven Spielberg, 1982)
03. Veludo Azul (David Lynch, 1986)
04. Gêmeos - Mórbida Semelhança (David Cronemberg, 1988)
05. Faça a Coisa Certa (Spike Lee, 1989)
06. O Túmulo dos Vagalumes (Isao Takahata, 1988)
07. A Balada de Narayama (Shohei Imamura, 1983)
08. Um Tiro na Noite (Brian De Palma, 1981)
09. O Desespero de Veronika Voss (Rainer Werner Fassbinder, 1982)
10. Amantes (John Cassavetes, 1984)

Quarta-feira, Julho 2, 2008

Ninotchka (Ernst Lubitsch, 1939)

“Garbo laughs”

Foi com este slogan que a Metro Goldwin Meyer compôs a linha de frente da campanha promocional de Ninotchka, de Ernst Lubitsch, durante aquele que é considerado o ‘Ano de Ouro’ da velha Hollywood – e do qual é um dos meus representantes preferidos. A jogada, tão perspicaz quanto qualquer linha de diálogo deste absurdo veículo de comicidade, não apenas representa a brincadeira com a persona cinematográfica de Greta Garbo, atriz pouco utilizada em comédias e popular justamente pela intensidade dramática das linhas de seu rosto. Também diz muito sobre a própria estrutura de Ninotchka. Não a personagem. O filme.

São muitas as curiosidades que marcam os bastidores históricos da produção de Ninotchka. A principal delas é o encontro de dois dos maiores mestres da comédia ligeira, fato na época ainda não sabido pelos responsáveis deste encontro incrível entre o texto de Billy Wilder e a direção de Lubitsch. Wilder jamais negou ser filho do cinema de Lubitsch, o que seria uma grande heresia, é verdade, mas parece ter encarado seu único projeto em conjunto com o grande mestre como uma genuína aula, sem se satisfazer plenamente com a cadeira de pupilo.

O resultado é uma combinação sublime entre a malícia e a ironia de Wilder com o romantismo e a agilidade dos filmes de Lubitsch, lidando concomitantemente com temas tão distintos como o amor impossível e a sátira social sem jamais perder o equilíbrio, e utilizando a própria saliência de Garbo como atriz principal para balancear o império de um ou outro estilo de cinema – tanto é que a partir do primeiro riso da protagonista, um momento sempre prometido, mas mantido em suspense minuto a minuto, é que a história de amor começa a se desenrolar.

Antes do riso anunciado de Garbo, o que é trabalhado é o riso de quem vê. A primeira meia hora é praticamente um surto em termos de comicidade. A trama, ambientada durante o domínio comunista na União Soviética, joga três enviados russos dentro de uma Paris puramente capitalista e recheada de desejos. São três dos personagens secundários mais engraçados já vistos, dignos de fazer qualquer filme dos irmãos Coen passar vergonha – cuja importância é retomada no terço final, outro luxo de explosão cômica. É durante a preparação para a entrada de Garbo que se encontram as principais sátiras de Ninotchka à guerra de ideologias que marcou o século XX, sempre embaladas pelas falas certeiras e de duplo sentido – marca de Lubitsch que Wilder potencializou nas décadas seguintes – e pelo tom caricatural sempre presente, transformando algumas passagens em um veículo tão curioso quanto uma charge política.

A ironia continua presente ao longo de todo o filme, mas é transformada depois do riso em pano de fundo para uma história de amor impossível no melhor estilo velha-guarda, sempre deliciosa de se acompanhar e respaldada por um olhar romântico tão inebriante quanto cínico. E nem mesmo a surpreendente metragem do filme – são quase duas horas de idas e vindas, coisa pouco comum e usual a uma comédia romântica – consegue fazer de Ninotchka um filme menos fascinante, seja pelo texto sempre surpreendente, pelo respaldo inventivo e absolutamente hilário dos coadjuvantes, ou talvez pela impressionante direção de Lubitsch, fazendo a câmera e o filme flutuarem cena por cena na mesma proporção em que os pés bêbados de Garbo riscam o salão em sua dança embriagada.

4/4

Daniel Dalpizzolo

Quarta-feira, Julho 2, 2008

Os Quatro do Apocalipse (Lucio Fulci, 1975)

Os Quatro do Apocalipse se ensaia como um western fantasticamente singular para acabar sendo atravessado por uma direção preguiçosa e sem inventividade alguma (com o uso de câmera subjetiva mais imbecil que eu já vi). Estou inclusive surpreso por encontrar um Fulci tão diferente do qual ouvi falar. Não há talento, não há criatividade, não há intimidade com cinema. Só o que há é um princípio de ousadia (contida), que ainda sozinha não serve pra nada.

A bem da verdade é que a violência (representada em especial pelas duas coisas que prestam no filme: a cena da tortura do xerife e a do canibalismo) é o único elemento capaz de levar o espectador do início ao fim de uma odisséia incrivelmente maçante pelo deserto. E que tinha tudo pra ser espetacular, o que é mais triste.

Fulci não se desprende em nenhum momento dos vínculos com o western clássico. Sempre que ameaça libertar a imaginação e mandar tudo à puta que pariu, recua e se apega ao que já foi feito e que ele sabe que dá certo. Toda a condução da trama da vingança é constrangedora, incluindo aí aquele final que surge como se houvessem itens a cumprir numa cartilha de como se fazer um filme. Sempre que o Fulci louco começava a parecer tomar o controle, o cdf baixava com tudo, o que acaba fazendo da própria ausência de identidade de Os Quatro do Apocalipse algo ruim.

Prefiro culpar a insegurança, e deixar pro cara um resto de crédito.

1/4

Luis Henrique Boaventura

Terça-feira, Julho 1, 2008

Sabotagem, ou O Marido era o Culpado (Alfred Hitchcock, 1936)

Atenção, este texto contém spoilers!

Em primeiro lugar, vale esclarecer o seguinte: quando foi lançado originalmente no Brasil, essa obra recebeu o título de O Marido era o Culpado. Mais recentemente, quando do lançamento em DVD, o filme foi batizado de Sabotagem, tradução literal do título original, Sabotage. O que temos em Sabotagem é uma estória de gato e rato, em que um policial disfarçado tenta desmascarar um terrorista, envolvido este em um plano para detonar uma bomba em Londres. O terrorista é casado, mas sua esposa não sabe sobre suas atividades ilegais.

Pertencente à primeira fase inglesa da carreira de Hitch, Sabotagem poderia muito bem acabar sendo relegado ao grupo dos filmes menos notáveis do mestre. Temos aqui alguns vislumbres do talento do diretor para a composição de ambientes e para a exposição, quase ao nível da dissecação, dos sentimentos de seus personagens. Entretanto, a estória em si não apresenta nada de particularmente inspirado, e o elenco é possivelmente dos mais fracos com que Hitchcock já trabalhou.

O que coloca Sabotagem no mapa, por assim dizer, se resume a uma seqüência. O cunhado do terrorista, um garoto de não mais que dez anos, recebe a incumbência de entregar um pacote. O espectador sabe se tratar da bomba, e que ela será ativada por um timer. Enquanto caminha pelas ruas de Londres, o garoto vai sofrendo contratempos, enquanto os minutos se passam e vida e morte lentamente se aproximam com o passar dos ponteiros de um relógio. Hitchcock consegue criar um crescendo de tensão que atinge um nível praticamente insuportável, antes de alcançar seu clímax. E esse clímax deixa a platéia com a sensação de que algo realmente saiu errado, de que não era aquilo que deveria ter sido filmado. Trata-se, sem exagero, de uma das melhores cenas da carreira brilhante do diretor.

Mas isso diz respeito à forma. Algo mais a destacar essa cena é o conteúdo. Em praticamente toda a obra de Hitchcock, a vida humana é tratada com indiferença. Pessoas morrem, e isso serve apenas para motivar ações. Apenas em Sabotagem e, em menor grau, em Agente Secreto, Hitch reflete sobre o valor da vida e sobre o impacto da morte. Especialmente em Sabotagem, a perda de uma vida é medida pelo impacto que ela causa sobre os vivos, trazendo a tona desespero, raiva, vergonha, frustração. A morte não é apenas um evento que prenuncia uma nova jornada para os personagens, é um marco que coloca em xeque suas crenças, e altera sua postura com relação à vida e com relação aos demais personagens. Tanto que essa morte acaba sendo determinante para o desfecho de uma trama política muito mais extensa do que a vida do personagem morto poderia influenciar.

O próprio Hitch comentou essa cena, classificando-a como “um erro”, em função da recepção negativa do público. Exímio na arte de conduzir platéias, o diretor, nesse caso, as presenteou com algo que elas não queriam ver, e se arrependeu. Em seus trabalhos seguintes, ele não mais eliminou personagens destinados a ser estimados pelo público. A questão é que, se esse foi um erro, foi talvez o erro mais bem sucedido da história do cinema, pois, por mais que o público possa ter desgostado, não é função da arte oferecer sempre beleza e finais felizes. E o resultado final, em Sabotagem, dessa subversão da regra básica do filme popular é de um valor artístico destacado.

No fim das contas, Sabotagem acaba tornando-se praticamente uma lição de cinema, uma vez que mostra como uma cena, uma opção narrativa, pode transformar algo essencialmente simples em algo diferenciado, merecedor de atenção e de análise. Era Hitch fazendo história, antes mesmo de se tornar o maior.

3/4

Marcelo Dillenburg

Sexta-Feira, Junho 27, 2008

Top! Décadas: 90

Prosseguindo com a nossa série de tops sobre as décadas cinematográficas, aqui estão as listas para os anos 90 (lembrando que o primeiro top colocado nos comentários ganhará espaço de luxo em nosso post).

Top! do Leitor:

Caio Lucas

01. Thelma & Louise (Ridley Scott, 1991)
02. Os Bons Companheiros (Martin Scorsese, 1990)
03. Se7en – Os Sete Crimes Capitais (David Fincher, 1995)
04. Cães de Aluguel (Quentin Tarantino, 1992)
05. Dança com Lobos (Kevin Costner, 1990)
06. Clube da Luta (David Fincher, 1999)
07. Boogie Nights (P.T. Anderson, 1997)
08. Pulp Fiction - Tempo de Violência (Quentin Tarantino, 1994)
09. Forrest Gump – O Contador de Histórias (Robert Zemeckis, 1994)
10. O Grande Lebowski (Irmãos Coen, 1998)

Tops! da Equipe:

Marcelo Dillenburg

Confesso que tenho um problema com o top da década de 1990. Até hoje não consegui estipular uma preferência clara, e por isso minha lista muda direto, e até um tanto radicalmente. O que eu sei é que amo O Rei Leão, o Fincher chutou traseiros e o Miyazaki fez sua obra-prima (sim, acho Mononoke melhor que Chihiro). Ah, sim, e Los Angeles - Cidade Proibida eu considero bastante subestimado, deveria figurar sempre em listas de melhores.


01. O Rei Leão (Roger Allers & Rob Minkoff, 1994)
02. Seven – Os Sete Crimes Capitais (David Fincher, 1995)
03. A Princesa Mononoke (Hayao Miyazaki, 1997)
04. Los Angeles – Cidade Proibida (Curtis Hanson, 1997)
05. Além da Linha Vermelha (Terrence Malick, 1999)
06. O Profissional (Luc Besson, 1994)
07. Matrix (Wachowskis, 1999)
08. Pulp Fiction - Tempo de Violência (Quentin Tarantino, 1994)
09. O Silêncio dos Inocentes (Jonathan Demme, 1991)
10. Forrest Gump – O Contador de Histórias (Robert Zemeckis, 1994)

Daniel Dalpizzolo

Desculpem-me pela enxurrada de Ferraras, mas não tenho muita escolha, simplesmente minha obsessão faz com que qualquer coisa filmada por ele esteja de cara um passo à frente das outras. No mais, só obras-primas. O De Palma mais humano, o Cronenberg mais insano, Kubrick no seu melhor momento desde Dr. Fantástico, Scorsese e sua aula de cinematografia, o mais inventivo e genial filme dos Coen, Solondz e um dos grandes sarcasmos já filmados e, pra completar, o blockbuster mais vulgar, perverso e divertido do cinema americano. Década fantástica.


01. New Rose Hotel (Abel Ferrara, 1998)
02. The Blackout (Abel Ferrara, 1997)
03. Crash (David Cronenberg, 1995)
04. O Pagamento Final (Brian De Palma, 1993)
05. O Rei de Nova York (Abel Ferrara, 1990)
06. De Olhos Bem Fechados (Stanley Kubrick, 1999)
07. Os Bons Companheiros (Martin Scorsese, 1990)
08. Barton Fink (Joel & Ethan Coen, 1991)
09. Felicidade (Todd Solondz, 1998)
10. O Vingador do Futuro (Paul Verhoeven, 1990)

Adney Silva

Foi no final dessa década que o meu interesse por cinema despertou, graças (curiosamente) a um filme que nem está na lista. Isso mostra o quanto essa década foi boa. Especialmente quando citamos o ano de 1999, que têm três representantes nesse top. Destaque para - esse sim - o blockbuster mais sarcástico, perverso e diveritdo existente, obra do genial Paul Verhoeven.

01. Tropas Estelares (Paul Verhoeven, 1997)
02. De Olhos Bem Fechados (Stanley Kubrick, 1999)
03. Pulp Fiction (Quentin Tarantino, 1994)
04. Cidade das Sombras (Alex Proyas, 1998)
05. Além da Linha Vermelha (Terence Mallick, 1998)
06. Barton Fink (John & Ethan Coen, 1991)
07. O Rei Leão (Roger Allers e Rob Minkoff, 1994)
08. Magnólia (Paul Thomas Anderson, 1999)
09. eXistenZ (David Cronenberg, 1999)
10. True Lies (James Cameron, 1994)

Amílcar Figueiredo

A Década de 90 foi tão rica, cinematograficamente falando, que filmes excepcionais só puderam receber menções honrosas: Garotos de Programa (Gus Van Sant), Dead Man (Jim Jarmusch), Central do Brasil (Walter Salles), Vestígios do Dia (James Ivory) e A Estrada Perdida (David Lynch). Mais grave ainda, a lista abaixo poderia ter sua ordem facilmente modificada, com exceção do primeiro: Altman na cabeça.

01. Short Cuts - Cenas da Vida (Robert Altman, 1993)
02. Contos das Quatro Estações (Eric Rohmer, 1990, 1992, 1996, 1998)
03. A Salvo (Todd Haynes, 1995)
04. Além da Linha Vermelha (Terrence Malick, 1998)
05. Segredos e Mentiras (Mike Leigh, 1996)
06. Bom Trabalho (Claire Denis, 1999)
07. Fim de Caso (Neil Jordan, 1999)
08. A Fraternidade é Vermelha (Krzysztof Kieslowski, 1994)
09. Tudo Sobre Minha Mãe (Pedro Almodóvar, 1999)
10. Underground - Mentiras de Guerra (Emir Kusturica, 1995)

Cassius Abreu

Confesso que não sou tão entusiasta e longe de ser grande conhecedor dos filmes da década como vários outros participantes daqui, mesmo sabendo que nela estão meu filme favorito; as obras-primas verdadeiras do Tarantino, do Shy, do Spielberg e da Coppola; os momentos que me fizeram adorar Kieslowski e Altman e o estopim da retomada da minha boa vontade para com o cinema nacional (em noções históricas mesmo). É, pensando bem, a década é genial, talvez até superior que a vigente, e o meu pensamento inicial estava errado.

01. O Rei Leão (Roger Allers & Rob Minkoff, 1994)
02. Cães de Aluguel (Quentin Tarantino, 1992)
03. Short Cuts - Cenas da Vida (Robert Altman, 1993)
04. O Sexto Sentido (M. Night Shyamalan, 1999)
05. As Virgens Suicidas (Sofia Coppola, 1999)
06. A Trilogia das Cores (Krzysztof Kieslowski, 1993 a 1994)
07. O Jogador (Robert Altman, 1992)
08. Central do Brasil (Walter Salles, 1998)
09. Além da Linha Vermelha (Terrence Malick, 1999)
10. A Lista de Schindler (Steven Spielberg, 1993)

Jailton Rocha

90’s: o surgimento de Fincher, Tarantino, e outros; a volta de James Bond (depois de um hiato de 6 anos); Tim Burton nos presentando com uma obra que é ao mesmo tempo violenta e poética; Spielberg e Cameron dando início aos CGI; e muitas coisas mais marcaram essa década.

01. Se7en – Os Sete Crimes Capitais (David Fincher, 1995)
02. Pulp Fiction - Tempo de Violência (Quentin Tarantino, 1994)
03. O Talentoso Ripley (Anthony Minghella, 1999)
04. Vamos Nessa (Doug Liman , 1999)
05. 007 Contra Goldeneye (Martin Campbell, 1995)
06. A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (Tim Burton, 1999)
07. Jurassic Park (Steven Spielberg, 1992)
08. O Exterminador do Futuro 2 - o Julgamento Final (James Cameron, 1991)
09. O Rei Leão (Roger Allers e Rob Minkoff, 1994)
10. Dança com Lobos (Kevin Costner, 1990)

Pedro Kerr

Pra começar com o top, aquela conversa de quase sempre: são os melhores filmes de todos os tempos (da década de 90) da última semana. E bom, isso até explica muita coisa, além de muita coisa boa ter ficado de fora (e sem menção honrosa, sem massagem, desse jeito só piora). E bom, resolver um pouco desse drama em escolher um ou outro já mostra que essa é uma das décadas que me gustas mucho (provavelmente todas as outras também, hehe).

01. Barton Fink (Irmãos Coen, 1991)
02. Pulp Fiction (Quentin Tarantino, 1994)
03. Os Bons Companheiros (Martin Scorsese, 1990)
04. O Grande Lebowski (Irmãos Coen, 1998)
05. Jovens, Loucos e Rebeldes (Richard Linklater, 1993)
06. Violência Gratuita (Michael Haneke, 1997)
07. O Pagamento Final (Brian De Palma, 1993)
08. Instinto Selvagem (Paul Verhoeven, 1992)
09. Mistérios e Paixões (David Cronenberg, 1991)
10. Clube da Luta (David Fincher, 1999)

Thiago Macêdo Correia

E sou eu mais um a citar a riqueza cinematográfica da década de 90, com grandes produções de gênios como Robert Altman e Stanley Kubrick (os primeiros lugares), novos mestres como os irmãos Coen (com dois filmes na lista, ainda que merecendo figurar mais vezes), passando por Woody Allen revisitando Bergman, Clint Eastwood louvando o amor, Kieslowski reverenciando a pulsação da música, Solondz mostrando que o mundo é um lugar muito pior que se imagina, e Wong Kar-Wai explodindo em desejo. Ainda que De Palma, Scorsese e Almodóvar fiquem como menções honrosas, é justo que um pequena obra-prima como o devastador estudo humano de Atom Egoyan esteja entre os citados, pois faz jus à grandiosidade do cinema narrativo, com utilização da montagem não-linear de modo extraordinário (alô, Iñarritu!).

01. Short Cuts (Robert Altman, 1993)
02. De Olhos Bem Fechados (Stanley Kubrick, 1999)
03. Fargo (Joel Coen & Ethan Coen, 1996)
04. Felizes Juntos (Wong Kar-Wai, 1997)
05. A Liberdade é Azul (Krzysztof Kieslowski, 1993)
06. Barton Fink (Joel Coen & Ethan Coen, 1991)
07. Felicidade (Todd Solondz, 1998)
08. As Pontes de Madison (Clint Eastwood, 1995)
09. Desconstruindo Harry (Woody Allen, 1997)
10. O Doce Amanhã (Atom Egoyan, 1997)

Sexta-Feira, Junho 27, 2008

Zero de Conduta (Jean Vigo, 1933)

A transação cinematográfica dá a forma. A social, o conteúdo. Zero de Conduta, penúltimo dos poucos filmes do francês Jean Vigo (mais conhecido pelo clássico O Atalante, e que morreu logo depois de finalizá-lo por causa de uma crise de tuberculose), talvez reflita em seus sensíveis e hipnotizantes 40 minutos algumas das imagens mais importantes dos registros fílmicos das primeiras décadas do século XX, e embora normalmente as afirmações do tipo sejam pouco funcionais, justifica-se como um dos mais fundamentais momentos do cinema pré-Cidadão Kane (somente utilizando uma demarcação histórica de compreensão instantânea).

O filme basicamente traduz para celulóide o sentimento de revolta social para com a repressão, concentrando-se em um grupo de crianças que dias depois de retornarem das férias ao internato onde estudam realizam uma mobilização contra a severidade de seus professores. Um discurso aparentemente desgastado, mas que impressiona justamente pela maneira como Vigo dá forma ao seu radicalismo, revigorado por um crescendo narrativo impecável que vai da doçura até a efervescência sem jamais quebrar a essência de Cinema – e não são poucos os filmes de esquerda que esquecem da mídia para fazer panfletagem.

Porque Zero de Conduta é magia pura, genuína, daquela que faz com que paremos nossa rotina para fixarmos o olhar numa tela de tevê durante duas horas, três, ou mais. Um casamento perfeito entre a forma e o discurso, que consegue ao mesmo tempo transmitir um encanto quase ingênuo e impressionar pela força de seu argumento. E é também um dos maiores exemplos de cinema anárquico e libertário já produzidos, simplesmente porque nada pode ser mais delicioso do que ver a sensação de liberdade ganhando forma em uma guerra de travesseiros.

4/4

Daniel Dalpizzolo

Quarta-feira, Junho 25, 2008

Sex and the City (Michael Patrick King, 2008)

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Sex and the City, a série, foi uma das mais interessantes obras vinculadas na televisão em muitos anos. Acompanhando a rotina de vida de 4 mulheres de Manhattan, em seu mundo de luxo, futilidades e preocupações sentimentais (sexo, sexo, sexo!!!), a série se revelou um bom estudo do comportamento feminino universal, mesmo que ali estivessem retratadas mulheres de alto poder aquisitivo e um meio tão superficial. O caso é que o texto delicioso espantava qualquer vestígio de obviedade e capacitava os dramas ao alcance de qualquer “leitor” mais atencioso. Além da ousadia impar - até então - na abordagem da liberdade sexual em um meio de comunicação tão amplo (ainda que Sex and the City passasse na HBO, a quantidade de pessoas que alcançava era gigantesca), com mulheres de 30 anos se portando como homens e libertando de amarras para discutir - e fazer - (MUITO) sexo na busca de suas definições pessoais. No final das contas, Sex and the City, a série, não tem muitos poréns, foi de execução primorosa. Já Sex and the City, o filme, tem lá suas muitas cotas de erros. Em primeiro lugar, a obviedade de parecer um episódio estendido, ou 5 episódios unidos, já que o filme tem inacreditáveis duas horas e meia de duração. Na primeira meia hora ele se basta em “explicar” um pouco a série para quem não acompanhava (outra obviedade) e se limita aos preparativos do mais comum dos eventos em qualquer comédia romântica que se preza: o casamento. E aqui está uma absurda obviedade ao se considerar fazer o filme, a vontade de ganhar dinheiro. E desenvolver o filme como uma comédiazinha qualquer auxiliaria em um alcance maior de público, os mais conservadores poderiam não se chocar tanto. Por sorte, uma “reviravolta” (oh) muda os rumos do filme que aos poucos vai ganhando os contornos conhecidos de maior acidez nos conflitos e os personagens se tornam mais interessantes para o público (quem que viu a série vai compreender a Carrie querendo se casar?). E aparece, finalmente, o sexo, personagem importante na série, mas mero coadjuvante errôneo no filme. Como outros vários coadjuvantes, como Jennifer Hudson, com funcionalidade óbvia e descartável.

Mesmo que em alguns momentos role uma boa inspiração no texto, como em citações críticas da inflação (através do aumento do custo dos clássicos Manolos), de referências boas à série ou em várias “piadinhas” internas (a homossexualidade de Cynthia Nixon), o geral é bastante razoável, ficando muito aquém da qualidade indubitável do texto da série. Sorte as quatros atrizes estarem tão bem em seus papéis (destaque para Kristin Davis, a de menor brilho, tanto na série quanto no filme, mas dona da cena mais forte do filme) e conhecerem seus personagens como cada um de seus sapatos de 525 dólares. Sorte mesmo foi a palavra determinante para avaliar Sex and the City, o filme, positivamente, mesmo depois de tantos pontos contra. Afinal, houve um dia uma série brilhante.

2/4

Thiago Macêdo Correia

Terça-feira, Junho 24, 2008

Rebecca (Alfred Hitchcock, 1940)

Um dos mais populares filmes de Alfred Hitchcock é este Rebecca, tanto por representar o único Oscar de melhor filme recebido pelo gorducho mais popular da velha Hollywood quanto por ser o primeiro de seus trabalhos financiado por um estúdio norte-americano. Mas não vejo outros motivos para que tenha se transformado em ícone cinematográfico que não sejam ligados a este grupo de conquistas extra-filme. Embora passe muito longe de figurar entre seus piores filmes, como Suspeita e Cortina Rasgada, Rebecca vale nitidamente mais por ser o primeiro veículo do diretor dentro da grande indústria de cinema, já que como filme consegue desperdiçar boa parte dos atrativos apresentados pelo excesso de carga amarrada às costa do desenvolvimento do mistério.

O principal motivo para tanto parece ser bem simples, já que não existe filme no mundo produzido por David O. Selznick, o grande símbolo dos estúdios cinematográficos do período de maior respeito da indústria, que não tenha sofrido intervenções particulares do produtor. Rebecca é vendido como um grande show-room das principais características do cinema de Hitchcock, e embora comprado por muito mais, justifica-se exatamente dessa forma. É uma extensa vitrine de obsessões e características do diretor, moldada do jeitinho que o chefe gosta, quase como um cartão de entrada no qual estão inscritas as mais importantes feições que o suspense iria revelar em Hollywood nos anos seguintes, através das inovações técnicas e narrativas do primeiro especialista do gênero.

Embora seja sedutor saber de um filme que catalisa a essência de Hitchcock em uma estória só, o conceito acaba revelando também a fragilidade que o cinema de superfície apresenta quando feito de forma superficial. São mais de duas horas de esquetes que tentam trabalhar sob o mesmo discurso - é um filme sobre o passado-, mas que passam longe de vitaminar uma construção de continuidade, transmitindo uma sensação de inconstância narrativa e contando com momentos mais longos do que o ideal e outros que poderiam ter sido inflados sem que se perdesse fluência. Mas nem isso é suficiente pra fazer de Rebecca um filme ruim, o próprio universo gótico em que se insere permite a Hitchcock filmar alguns momentos muito interessantes, além de inaugurar um conceito fantástico de filme ligado a uma imagem que nunca existiu.

2/4

Daniel Dalpizzolo

Terça-feira, Junho 24, 2008

Santos e Demônios (Dito Montiel, 2006)

Lançar um olhar sobre um filme como Santos e Demônios requer cautela, das mais cuidadosas possíveis. Estamos diante de um dos filmes mais pessoais já feitos, sem sombra de dúvidas. Ele não é simplesmente uma reunião de lembranças de um passado que é projetado na tela por seu realizador, Dito Montiel. É Dito também que está retratado, autenticamente e complexamente em cada frame do filme. Ele se assume como realizador de uma leitura própria de sua história e resolve contar o que aconteceu por meio de sua memória, real e imaginária, que conflitam durante o filme em momentos que personagens falam para a câmera, se assumindo claramente como algo, definições e constatações, sejam elas dos próprios personagens, sejam elas de Dito sobre eles/ele (em determinado momento ele, Dito personagem, assume que irá abandonar todos no filme, sendo isso sua memória atual de um passado que ele irá revisitar buscando esses motivos). Existe também a opção do off sempre em ritmo mais brando que a cena que acabou de ser projetada, a repetição exata da fala em cima de outra cena, mas que prova que o fragmento ali transposto por Dito, o diretor, pode ser o que ele pensou que fosse e não exatamente como se deveu a realidade exata. Ou ainda que devesse seguir da maneira mais eloqüente, justamente a fim de evitar as complicações que decorreram dali.

Santos e Demônios se utiliza da metalinguagem de maneira extraordinária. Dito é diretor e personagem, e o personagem no filme que revisita seu passado o faz por meio da leitura de seu livro, da sua dramatização da própria história; mas essa dramatização pode não condizer necessariamente com o que foi, mas com o que ele projeta ter sido e o conflito dele com essa “realidade histórica” no presente é que leva Dito, diretor e personagem, ao reconhecimento e confrontação de si mesmo. Um estudo inexplicável a uma alma perdida em suas rupturas, brilhantemente interpretado por todo o elenco, de Shia LaBeouf a Rosário Dawson, de Chazz Palminteri a Dianne Wiest, chegando a um desempenho magistral de Robert Downey Jr, ator capaz de compreender todo o momento de (re)visão interior que seu personagem - e o diretor - imprime ao longo desse caminho. Notável a coragem de Dito Montiel em se lançar em algo desse nível de intimidade. E absoluto o resultado alcançado por ele.

4/4

Thiago Macêdo Correia

Terça-feira, Junho 24, 2008

Agente 86 (Peter Segal, 2008)

Agente 86, a série de TV, surgiu na década de 60, época em que a série James Bond era uma novidade e uma grande febre, então uma paródia de Bond era algo até ousado. Infelizmente, não conheço a série para tecer maiores comentários, mas atualmente, depois de vários filmes do agente 007, além das cópias, variações, clones e paródias afins, o quê Agente 86, o filme, poderia trazer? Felizmente, muita coisa. A principal foi não se apoiar tanto no agente britânico. Claro que aqui temos mais um agente que trabalha para um órgão secreto do governo (C.O.N.T.R.O.L.E.) que tem suas bugigangas e trabalha com uma parceira (Agente 99) tentando combater uma organização terrorista (K.A.O.S.), mas Maxwell Smart, aqui vivido por Steve Carell, definitivamente não é um James Bond. Carell traz uma certa inocência ao personagem que sonha em largar o serviço burocrático da C.O.N.T.R.O.L.E. e ser um agente de campo, para executar as missões secretas. Essa disputa interna na Agência é muito bem trabalhada no filme, mostrando o atrito entre os agentes. Maxwell se encontra no meio dessa disputa quando vê que os agentes de campo não levam a sério o serviço burocrático, então, ao mesmo tempo em que tem que provar que esse serviço é tão importante quanto o trabalho em campo, também não vê a hora de largar isso e partir para as missões.

Steve Carell é um dos melhores comediantes da atualidade, que utiliza um humor que não dispensa o pastelão, mas muitas vezes é mais discreto que outros como Jim Carrey ou Mike Myers. Ele não faz tantas “caras e bocas” como Carrey e nem se monta para fazer mil personagens como Myers na série Austin Powers. Nada contra os outros (que também curto), mas Carell é diferente e essa diferença é bem vinda. E falando de Austin Powers, outra paródia famosa de James Bond, Agente 86 se diferencia dela e muito já que em nenhum momento se vê na obrigação de apelar para chamar a atenção. Aqui não temos cenas bobas que muitas vezes constrangeram o público, nem piadas de baixo calão. Essa necessidade de querer aparecer a qualquer preço muitas vezes incomoda nos filmes do gênero. Agente 86 se difere dos demais quando consegue ser bem engraçado sem precisar se rebaixar. Além disso, o filme também investe em ótimas cenas de ação. Para completar o pacote, temos a beleza de Anne Hathaway fazendo a Agente 99 formando um ótimo par com Carell, e o elenco de apoio também rende muito. Dwayne Johnson (ex-The Rock) faz o 23 que é o agente sensação da C.O.N.T.R.O.L.E., Alan Arkin (que trabalhou com Carell em Pequena Miss Sunshine) faz o chefão da agência e Terence Stamp é Siegfield, chefe da K.A.O.S., sem falar nas divertidas participações de Bill Murray e James Caan. Dessa forma, Agente 86 se destaca como uma das melhores comédias dos últimos tempos.

4/4

Jailton Rocha