Arquivo do mês: maio 2010

Barren Illusions (Ôinaru gen’ei – Kiyoshi Kurosawa, 1999)

Barren Illusions, de Kiyoshi Kurosawa, é decerto um de seus trabalhos mais rigorosos – e talvez mais incompreendidos. Há nele tudo aquilo que faz deste Kurosawa um dos melhores cineastas contemporâneos: um modo de filmar.

Sim, pois não há como não lembrar de certos outros filmes seus e de suas questões primordiais: em Bright Future, como o drama pode ser tão inebriante? Em Cure, como o filme de serial killer pode sobreviver para além da grafia da violência e do psicologismo barato? Neste Barren Illusions, Kurosawa estrutura um universo onde as ideias vão sendo jogadas no caminho. O que sobra, é nada menos do que um relato sobre a vida de duas figuras e seu relacionamento que se esvazia, uma narrativa que se desfaz a todo momento, mas que é muito una como movimento e como painel de algum estado de coisas.

O que é mais importante é esta forma de Kurosawa filmar. Se nos outros revíamos os gêneros, neste filme revemos o cinema e sua infância. Não é a releitura do cinema dos Lumière, mas é uma adaptação a ele. Não é por acaso que as cenas nutram por dentro um desejo de refazer de outras formas, certos caminhos do “naturalismo” ou do “real” – aquela cena com os torcedores gritando algo como “é campeão” em português, sendo seguidos pela garota protagonista, resgata um certo frescor como as mulheres saindo da fábrica dos irmãos franceses. Trata-se de olhar novamente para certos problemas do cinema e da vida e desmontá-los ao ponto em que o que nos resta é um tipo de essencialidade não-material, mas muito discursiva.

3/4

Ranieri Brandão

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Espírito Selvagem (All the Pretty Horses – Billy Bob Thornton, 2000)

Cormac McCarthy está em alta. Desde o sucesso estrondoso de Onde os Fracos Não Têm Vez (pra quem não sabe: filme de 2007 dos Coen Brothers, que ganhou uns Oscars e yada yada), já foram adaptados mais dois romances seus para o cinema: A Estrada e Outer Dark (curta metragem), ambos de 2009. Além deles, foram anunciadas as adaptações de Meridiano de Sangue (com Todd Field na direção) e Cidades da Planície (direção de Andrew Dominik). Esse último será continuação direta deste Espírito Selvagem.

Baseado no livro “Todos os Belos Cavalos”, lançado por McCarthy em 1992, Espírito Selvagem conta a história de John Grady Cole e seu primo, Lacey Rawlins, que fogem de casa, na metade do século XX para ir ao México. Pouco antes de cruzarem o Rio Grande, juntam-se com Jimmy Blevins, um moleque de não mais que 13 anos. Após uma tempestade que faz com que Blevins perca seu cavalo, eles entram em uma cidade mexicana onde encontram o cavalo em poder de outro homem. Blevins, então, rouba seu próprio cavalo e se separa dos dois primos que seguem até um enorme rancho, onde conseguem trabalho. Porém, John Grady se engraça com a filha do fazendeiro e, por isso, o pai da moça chama a polícia, que prende os dois rapazes por serem cúmplices de Blevins no roubo do cavalo. Aí eles vão pra cadeia e se fodem um monte.

Espírito Selvagem possui um belo trabalho de fotografia e um elenco competente, porém, peca em seu ritmo, derivado de uma adaptação falha. É evidente que a adaptação do livro do McCarthy consistiu, simplesmente, em definir o que entrava e o que deixava de entrar no roteiro, o que gerou um filme que fala, somente, aquilo que escrevi como sinopse. Os eventos que os personagens passam não fazem diferença alguma no filme, uma vez que os próprios personagens não são impactados pelo que acontece, afinal de contas, a parte do livro que conta o se passa na cabeça dos personagens foi suprimida na adaptação. Não estou dizendo que o filme é ruim porque não é igual ao livro, longe disso. Mas penso que a adaptação deve ser mais do que um simples “recorta-e-cola” do livro. Os Coen, por exemplo, foram extremamente felizes na adaptação de Onde os Fracos Não Têm Vez: mesmo que, em questão de enredo, o filme pouco se diferencie do livro (a título de curiosidade, o filme e o livro são quase idênticos, à exceção de que umas duas ou três partes do livro não entraram no roteiro). A diferença cabal, que torna a adaptação dos Coen genial é que eles souberam como se inserir na história de McCarthy, empregando o estilo que eles construíram no decorrer de suas carreiras. Thornton não emprega estilo algum e se pendura, completamente, na força da obra original, o que é um erro. Cinema é diferente de Literatura. E, se o roteirista tivesse prestado um pouquinho mais de atenção no que estava fazendo, teria percebido que toda a mensagem central do livro (que é o que deve tê-lo cativado) se perdeu durante a adaptação e não foi substituída por nenhuma outra mensagem. O filme se tornou um invólucro vazio e sem força, nem mesmo na parte técnica.

No final das contas, McCarthy sabe se virar com um enredo simples (convenhamos: a trama não tem nada de surpreendente, mas McCarthy consegue dar ao livro porte de gigante)… Thornton não.

1/4

Murilo Lopes de Oliveira

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Halloween II (Rob Zombie, 2009)

Do pouco que vi do cinema do Zombie, não tinha motivo algum pra dar nova chance a qualquer trabalho seu que fosse, sobretudo após a sua péssima releitura do clássico supremo de John Carpenter, onde Zombie abre mão da sutileza, do fantasmagórico, até, para apelar às visceras – não que o problema mor sejam às visceras per se, mas a forma como é explorada, sem criatividade alguma, todas as mortes soam iguais, não há novidade, nem sequer beleza plástica há. H2 parte do ponto final de seu antecessor mas, diferentemente da primeira parte, Zombie aqui acerta em vários pontos, o que faz com que essa sequência fique bem acima do anterior, não que ele tenha se redimido, muito antes pelo contrário, está longe de tal feito, mas aqui ele acerta em cheio no gore, mais intenso, graficamente muito mais agressivo, os efeitos sonoros dando o tom da violência vista em tela e, não com o covarde intuito de assustar apenas, mas de chocar, funciona. Alguns assassinatos em especial merecem nota, como o da enfermeira e da garota de programa, extremamente secos, com efeitos sonoros impactantes.

Mas nem tudo são flores, assim como no remake, o problema maior reside na insistência de Zombie em “desvendar” Myers e suas motivações, aqui de uma forma ainda mais irritante do que a psicologia barata de Loomis (Malcolm McDowell), com visões e flashbacks que soam sempre deslocados e que culminam com um final demente, que quase faz tudo ir pelo ralo. Não fosse o já citado gore competente aliado também a um belo clima, com luzes e neblina que compõem sim, belos quadros, quase nada valeria a pena. Mas levando em conta o que foi visto no anterior, saí com relativa satisfação.

2/4

Djonata Ramos

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Nas Garras do Vício (Le Beau Serge – Claude Chabrol, 1958)

Se em diversos filmes de Claude Chabrol o mistério residia em algum movimento da mise en scène (um plano sequência, geralmente, que elucida mais do que vemos: um interesse oculto), em Nas Garras do Vício o mistério é o de corpo presente.

Desde o início, Chabrol estrutura o retorno à pergunta e ao desejo de se saber o que houve com Serge. Logo, temos este mistério à carne dos olhos e que, por isso mesmo, ao ser descoberto, deixa de ser um mistério maior para dar lugar à verdadeira jornada do filme: aquela que diz respeito ao personagem de Jean-Claude Brialy, François, que retorna à cidade como um estranho, como alguém que, de certo modo, jamais poderá fazer parte de todos os movimentos que não pôde captar em sua ausência. É um mundo que se fecha e que, nem com o nascimento de um filho, ao final, se resolve e se conserta.

O rosto de Serge, sendo desfocado por Chabrol, é a prova desse desajuste. Um milagre ao contrário.

4/4

Ranieri Brandão

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Screenshots! – Romy Schneider em L’Enfer, de Henri-Georges Clouzot

por Luis Henrique Boaventura

1964. Henri-Georges Clouzot ganha 150 profissionais e um largo orçamento para filmar L’Enfer, cuja pretensão assumida era de simplesmente “reinventar o cinema”. Mas o filme nunca foi terminado. Depois de 3 semanas louco e enlouquecendo a todos ao seu redor, Clouzot sofre um infarto. Pra mim, a culpa foi dela:

*As screens foram tiradas do fraco O Inferno de Henri-Georges Clouzot, documentário de Serge Bromberg e Ruxandra Medrea.

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O Testamento de Deus (Stars in My Crown – Jacques Tourneur, 1950)

Se considerarmos o subvalorizado Jacques Tourneur como o maior contador de histórias fantásticas da velha Hollywood, um de seus melhores filmes, O Testamento de Deus, parece a primeira vista ser justamente um contraponto a este rótulo de cineasta do inverossímil no qual foi embalado depois de filmaços como A Morta Viva e A Noite do Demônio, seus melhores trabalhos, essencialmente dependentes da ficção extremizada. De veia realista e estruturado sob uma clássica fórmula narrativa de westerns dramáticos de John Ford, é um filme sobre a vida em comunidades, e principalmente sobre a influência do meio na construção da visão de mundo e de valores de um homem, que resgata através de suas memórias parte do cotidiano da pequena cidade em que cresceu e da qual guarda diversas lembranças, tanto boas quanto ruins.

Ao mesmo tempo, o contraponto encontra um contraponto e tudo enfim acaba girando e se torcendo e se voltando pra um mesmo lugar e revelando, ao final desse ping-pong todo, que de objetiva existe apenas uma afirmação: Jacques Tourneur foi um dos melhores fabulistas do cinema e este seu cinema é todo de unidade, independente do gênero em que se instala. Porque o que interessa a Tourneur no resgate das memórias desse garoto não são os fatos, mas seu olhar sobre os fatos, a forma com que estas lembranças são construídas através da subjetividade que este olhar específico emana, o que faz de O Testamento de Deus um filme, porque não, muito próximo do fantástico se considerar que o que há de real em tela também adquire caráter subjetivo, imaginativo, por vezes possivelmente onírico.

E é realmente uma loucura. Há muito pouco de trama em O Testamento de Deus, assim como deve haver em todo bom filme sobre memórias – Alain Resnais explica; Abel Ferrara reforça; minha tia costureira concorda. Porque afinal, lembranças surgem neste fluxo descontínuo, flexível, alegórico e sempre ligadas a um sentimento que, da admiração ao rancor ou à simples felicidade ou tristeza, podem muitas vezes serem embaralhados e gerarem conexões curiosas e pouco confiáveis. Tourneur então associa continuidade narrativa a uma torneira despejando água, sem que estes pingos caiam sempre num mesmo ponto, mas de qualquer forma molhando todo o lugar. Analogias imbecis a parte, a conexão que se pode fazer entre as cenas é a relação entre o moleque e o pastor interpretado por Joel McCrea, uma espécie de mentor que substitui a característica figura do herói dos filmes de faroeste, mas que realiza a justiça com as armas mais incomuns já vistas em um western [/propaganda da Sessão da Tarde – até fim do ano uso bordões de todas as linhas] – como, por exemplo, em um dos momentos derradeiros e mais belos do filme, em que desarma a KKK com um pedaço de papel em branco. Este em especial é um momento sublime, daqueles que comprova a habilidade de Tourneur em lidar com sentimentos diversos, não apenas o medo e a tensão explorados em seus filmes de horror e suspense.

Além de tudo é um filme que olha para o passado (no caso o do menino e o dos Estados Unidos, que tinha no Velho Oeste a reestruturação de toda sua sociedade moderna, remontando as peças e se redesenhando politicamente, economicamente, socialmente, etcteramente) com um sentimento de nostalgia implícito que hipnotiza, capaz de acrescentar uma impressionante profundidade extra-diegética nas mais simples das ações (como um abraço ou simples olhar de admiração) que é capaz de fazer este faroeste ter o mesmo efeito que um daqueles vídeos velhos feitos por seu pai na chácara da vó (mas que merda, tô lembrando de todos os parentes escrevendo esse texto) enquanto você jogava futebol com uma bola de borracha velha e manchada de barro – ou cocô de vaca, se der sorte. E se não tirarmos proveito dessas sensações curiosas que filmes nos despertam e que muitas vezes são tão desconexas quanto a própria memória, bem, eu sinceramente troco essa coisa de analisar filmes pra ir na rádio comunitária comentar o campeonato de xadrez do grupo da terceira idade do bairro.

4/4

Daniel Dalpizzolo

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Foram 40 dias, 35 textos e 3 tops pra reviver um dos maiores de todos. O MP volta ao normal a partir de agora (pelo menos até o próximo Especial, cujo tema está sendo tranquilamente discutido pela equipe, só uma morte ou duas até agora). Abaixo o índice geral, e mais abaixo o texto do Nando, o último do Especial. A quem acompanhou até aqui, valeu mesmo! Só foi possível graças a uma mobilização envolvendo 9 pessoas, e agradeço demais a todo mundo.

– Índice –

– Tops! –

– Film Noir

– Western

– Anthony Mann

– Artigos –

– A Invenção do Cinema – Ranieri Brandão

– O Último Trágico – Fernando Mendonça

– Arquivo –

– Strangers in the Night (Anthony Mann, 1944) – Daniel Dalpizzolo

– The Great Flamarion (Anthony Mann, 1945) – Ranieri Brandão

– Two O’Clock Courage (Anthony Mann,  1945) – Fernando Mendonça

– Strange Impersonation (Anthony Mann, 1946) – Fernando Mendonça

– The Bamboo Blonde (Anthony Mann, 1946) – Luis Henrique Boaventura

– Desesperado (Anthony Mann, 1947) – Daniel Dalpizzolo

– Railroaded! (Anthony Mann, 1947) – Fernando Mendonça

– Moeda Falsa (Anthony Mann, 1947) – Fernando Mendonça

– Entre Dois Fogos (Anthony Mann, 1948) – Ranieri Brandão

– O Demônio da Noite (Alfred L. Werker / Anthony Mann, 1948) – Luis Henrique Boaventura

– A Sombra da Guilhotina (Anthony Mann, 1949) – Luis Henrique Boaventura

– Mercado Humano (Anthony Mann, 1949) -Fernando Mendonça

– Pecado Sem Mácula (Anthony Mann, 1950) – Daniel Dalpizzolo

– Winchester ’73 (Anthony Mann, 1950) – Thiago Duarte

– Almas em Fúria (Anthony Mann, 1950) – Ranieri Brandão

– O Caminho do Diabo (Anthony Mann, 1950) – Luis Henrique Boaventura

– Conspiração (Anthony Mann, 1951) – Daniel Dapizzolo

– E o Sangue Semeou a Terra (Anthony Mann, 1952) – Ranieri Brandão

– O Preço de um Homem (Anthony Mann, 1953) – Luis Henrique Boaventura

– Borrasca (Anthony Mann, 1953) – Murilo Lopes de Oliveira

– Música e Lágrimas (Anthony Mann, 1954) – Ranieri Brandão

– Região de Ódio (Anthony Mann, 1954) – Fernando Mendonça

– Um Certo Capitão Lockhart (Anthony Mann, 1955) – Thiago Macêdo Correia

– O Tirano da Fronteira (Anthony Mann, 1955) – Murilo Lopes de Oliveira

– Comandos do Ar (Anthony Mann, 1955) – Luis Henrique Boaventura

– Os Que Sabem Morrer (Anthony Mann, 1957) – Thiago Macêdo Correia

– O Homem dos Olhos Frios (Anthony Mann, 1957) – Vlademir Lazo Corrêa

– O Pequeno Rincão de Deus (Anthony Mann, 1958) – Daniel Dalpizzolo

– O Homem do Oeste (Anthony Mann, 1958) – Luis Henrique Boaventura

– El Cid (Anthony Mann, 1961) – Ranieri Brandão

– A Queda do Império Romano (Anthony Mann, 1964) – Vlademir Lazo Corrêa

– Os Heróis do Telemark (Anthony Mann, 1965) – Daniel Dalpizzolo

– O Espião de Dois Mundos (Anthony Mann, 1968) – Vlademir Lazo Corrêa

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