Arquivo do mês: outubro 2009

Na Teia do Destino (The Reckless Moment – Max Ophüls, 1949)

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Existe o universo usual de todos os demais filmes e existe a dimensão obscura do film noir, para o qual qualquer tema, quando abstraído, é ampliado dez vezes. Ou de que outra forma uma alegoria da mulher moderna diante da instituição familiar (cara, como isso soa grotesco) daria uma obra-prima? Na Teia do Destino é devastador, e não é algo semi-pronto como estava Carta de uma Desconhecida. Aqui o Ophüls (um ilusionista diabólico filho da mãe) precisa se virar, e ele arquiteta tudo lindamente, trazendo abaixo (como é característica do gênero) os muros que separam pessoas por classes de moral, jogando com os conceitos de protagonista e vilão da narrativa clássica. Primeiro ele te oferece uma personagem central sólida, com aquela velha situação pronta de heroína numa cruzada pela defesa de um dos pilares-mestres da sociedade. Tudo truque. É a partir da entrada do chantagista (motor do filme e o antagonista exato), um cara que o Ophüls pega nas mãos, amassa, soca, gira no ar, vira do avesso e devolve ao espectador completamente destroçado, que Na Teia do Destino inverte papéis, sabota a si mesmo e arma pra cima do espectador apenas pra destruí-lo no final, o único momento em que o Ophüls finalmente é sincero e te mostra que o filme, na verdade, não era o filme. Que os primeiros 20 minutos são apenas um prefácio e que o tempo todo o ponto de vista esteve do lado errado. Uma das mentiras mais bem contadas do cinema.

4/4

Luis Henrique Boaventura

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Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds – Quentin Tarantino, 2009)

Se a minha relação com o cinema tem qualquer coisa de um relacionamento amoroso, então os filmes de Quentin Tarantino tiveram lá sua importância na minha iniciação sexual. Os delírios de conotações homossexuais em Cães de aluguel sempre me pareceram claros, mas nunca duvidei da existência de algo sugestivo naquela injeção de adrenalina, em Pulp fiction. Ou em Mia dançando sob os efeitos da droga de Vincent, ao som de Girl, you’ll be a woman soon.

Os anos foram passando, e nossa relação foi se desgastando, pouco a pouco perdendo o fôlego, até que, no fim das contas, passei a olhar para a maior parte dos filmes tarantinescos (Kill bill continua sendo nossa montanha Brokeback, QT!) como quem observa uma antiga namorada: consciente de que tivemos os nossos momentos de paixão, mas cuja ardência ficou algo perdido no tempo, como hálito no vento.

Mas eis que surge esse Bastardos inglórios, aparentemente fazendo a cabeça de todo mundo. E a minha sensação foi a de ter reencontrado, no cinema, aquela mesma pessoa, só que mais madura e, por isso mesmo, mais interessante. Como a versão aprimorada de um modelo imperfeito. A menina que não saía da minha cabeça durante a adolescência, mas que aprendi a contemplar com certa distância, virou um mulherão encorpado, experiente e segura de si. Parecia inacreditável.

Percebi que ela compreendeu, com o passar dos anos, que sua vasta enciclopédia pop mental era divertida, mas que precisava de um algo a mais para ser realmente atraente. Foi aí que ela aprendeu a conversar com inteligência e desenvoltura, descobrindo, nesse processo, o tempo e suas implicações. Uma evolução e tanto. Tornou-se uma coisa linda, tamanha elegância e imponência. E que me conquistou de vez.

4/4

Vinícius Laurindo

ou: Bastardos Inglórios (Quentin Tarantino, 2009) – Luis Henrique Boaventura – 4/4

ou: Bastardos Inglórios (Quention Tarantino, 2009) – Marcelo Dillenburg – 4/4

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Matar ou Morrer (High Noon – Fred Zinnemann, 1952)

Uma síntese verdadeira e pungente sobre a solidão. Solidão esta representada pela percepção de que aqueles que te ajudaram a cinco anos podem simplesmente mudar de idéia quando fantasmas do passado resolvem assombrar a mesma cidade que você ajudou a apaziguar. Não somente mudar de idéia, mas também lhe aconselharem a ir embora, a salvar a sua pele antes que seja tarde demais (ou, na verdade, salvar a pele deles).

Entretanto, contrariando a todos, ele resolve ficar. Muitos de vocês podem pensar que ele tomou essa decisão pelo fato dele estar preocupado com o destino daquela cidade. Ou porque ele ainda se sente como o xerife. Ou por conta de uma lembrança antiga. Ou por todas essas razões juntas. E muitos da cidade chegaram a pensar nisso inicialmente. Mas há algo mais que sintetiza essa decisão.

Poderia dissertar muito mais sobre essa maravilha do western, contada quase que em tempo real, que magnifica o conceito de “homem solitário”, não através de palavras, tiros, brigas, mas através pura e simplesmente da imagem e do silêncio, além da inexorável sensação de passagem de tempo descrita anteriormente, intensificada ainda mais pelos vários relógios que são mostrados no decorrer dos seus enxutos e eficientes 85 minutos, além da interpretação mais-do-que-magistral de Gary Cooper, contido, transmitindo todas as emoções em gestos mínimos (como, aliás, todo o filme; especialmente nos maravilhosos 20 minutos finais).

4/4

Adney Silva

ou: Matar ou Morrer (Fred Zinnemann, 1952) – Marcelo Dillenburg – 3/4

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Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds – Quentin Tarantino, 2009)

Muito se falou sobre o filme de guerra que Tarantino pretendia fazer após completar Kill Bill. O elenco traria Sylvester Stallone, Bruce Willis e Arnold Schwarzenegger; depois os rumores migraram para a escalação de Adam Sandler; a seguir o filme trataria de soldados condenados à morte… Veio o projeto Grindhouse, para o qual Tarantino filmou À Prova de Morte. Mas ele não havia esquecido o projeto de Bastardos Inglórios. No fim das contas: o elenco traz Mélanie Laurent, Cristoph Waltz e Brad Pitt. E os tais bastardos inglórios são um grupo de soldados infiltrados na França controlada pelos nazistas durante a Segunda Grande Guerra, com o objetivo de assassinar e aterrorizar soldados alemães.

Há muitos grandes cineastas ao longo da história do cinema. Para ir além do grupo dos ótimos e entrar no seleto rol dos gênios, é necessário fazer pelo menos um filme que seja maior que o próprio cinema, e Tarantino acaba de conseguir isso. Em Bastardos Inglórios ele perde totalmente o respeito por qualquer resposta pronta, por todas as regras. O diretor desmonta e remonta a obra a seu bel prazer, passeia por enquadramentos, por quebras de narrativa, mostra sequências românticas e matanças desenfreadas sem perder a mão em nenhum momento.

Mas o mais importante é que ele faz isso tudo e mesmo assim consegue não se afastar do público. De fato, é o contrário, o diretor parece estar continuamente dialogando com o espectador, questionando as impressões que este leva para o cinema. Quando o artista consegue se aproximar de tal forma daqueles que apreciarção sua arte, sem deixar de imprimir sua marca, como questionar o resultado?

O ato final de Bastardos Inglórios surge como um epifania, e confere tal poder à obra que é capaz de desvanecer qualquer dúvida acerca do que Tarantino vinha construindo até então. Não há pontas soltas, não há equívocos, nem aleatoriedade. Há uma idea brilhante, há um diretor brilhante executando essa ideia. O resultado disso é aquele filme citado no início, aquele que diferencia os artistas. E a conclusão disso você provavelmente já deduziu: Tarantino realizou sua obra prima.

4/4

Marcelo Dillenburg

ou: Bastardos Inglórios (Quentin Tarantino, 2009) – Luis Henrique Boaventura – 4/4

ou: Bastardos Inglórios (Quentin Tarantino, 2009) – Vinícius Laurindo – 4/4

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Velvet Goldmine (Todd Haynes, 1998)

Confesso não ser um conhecedor do cinema de Haynes. É apenas o segundo filme seu que tenho o prazer de assistir. Por coincidência, ambos foram motivados pela mesma paixão: a música.

No caso do anterior (Não Estou Lá) fui atrás de um filme que tratasse do meu ídolo mor Bob Dylan; nesse aqui, atrás de algo de David Bowie, meu segundo músico favorito, atrás apenas, por óbvio, de Dylan. Mas, os filmes não se cruzam somente por essa particularidade musical, mas também em termos estruturais. A sensação que tive é que Velvet é um ensaio para o que viria a seguir com I’m Not There. A narrativa toda quebrada, com misto de passado e presente, fatos misturados com lendas e por aí vai… a questão é que, diferentemente do que vi em I’m Not There, Velvet é um pouco mais instável, às vezes soa bastante confuso, quase como um mosaico de imagens, uma colcha de retalhos, mas reparem, isso não é uma crítica, já que todos os retalhos são interessantes. O fundamental é que o filme explode na tela, bem como o movimento que expõe (a fase Glam do rock, puxado, claro, pelo camaleão) você de fato vive aquele movimento intensamente, assim como o personagem de Christian Bale, que é o repórter encarregado de investigar a vida de Brian Slade (o pseudo Bowie) e que tem sua vida, de certa forma, bastante afetada, pois quando mais jovem era fã de Slade e seu movimento.

Alternando momentos semi-documentais (como em I’m Not There) e ficção-baseada-livremente-em-fatos-e-lendas-“reais”, Velvet Goldmine é uma experiência bastante intrigante e interessante, apesar de bem complexa. A questão que me surge é, se o filme tem o mesmo impacto pra quem não curte/conhece essa fase da música, assim como os envolvidos (Bowie, Iggy Pop e até Lou Reed – inclusive tocando músicas desse último, como Satellite of Love). Costumo dizer que filmes com pré-requisitos são falhos, já que os conhecimentos externos devem somar e não sustentarem toda a bagaça, não sei, pode ser que falhe, mas comigo não falhou, não sei se porque adoro os (pseudo) envolvidos ou porque é um grande cinema.

Na via das dúvidas, grande filme.

3/4

Djonata  Ramos

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A Primeira Noite de Tranquilidade (La Prima Notte di Quiete – Valerio Zurlini, 1972)

Não pensei que fosse encontrar de novo uma cumplicidade tão perfeita entre ator e diretor quanto em Le Samouraï, do Melville. E tomei no cu, óbvio. Culpa, mais uma vez (e não por acaso), de Alain Delon, o maior de todos. Zurlini filma de dentro e para dentro do francês, que É o filme. Cada sombra e variação de luz e partícula de neblina ao longo de A Primeira Noite de Tranquilidade é parte de um só organismo, composto por Dominici e o mundo que o rodeia. Antes de entrarem em contato com a lente de Zurlini, os ambientes são absorvidos por Delon, que lhes confere dor, lamento e cores mortas antes de devolvê-los destruídos à câmera, que se move sempre quieta e receosa, como se se movesse em torno de um leito de morte.

4/4

Luis Henrique Boaventura

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King Kong (Ernest B. Schoedsack & Merian C. Cooper, 1933)

A obra inspiradora para o remake de Peter Jackson está bem distante daquela áurea épica e monumental que PJ construiu na sua obra, como fã ardoroso da história, criada em começos da década de 30, que mostra a louca viagem de Carl Denham à procura de nova perspectiva de filmagem. Na verdade, a personagem de Denham aqui assume um papel mais questionador, exigindo do produtor a contratação de um rosto bonito e a presença feminina, já que o público queria um romance na aventura; e pouco tem de obstinação megalômana por cinema, como PJ revestiu o seu personagem (dando tons mais pessoais).

Há muitas distinções possíveis de serem feitas nesta obra original – que também falha na ideologia um tanto quanto eurocêntrica ao mostrar os nativos – negros – atabalhoados, sedentos pelo rosto dourado (mostrando o americano/europeu como Apocalypto o fizera, blargh) e fazendo piadinha com a violência dos rifles dos “exploradores” em relação a eles -, mas o mais importante é que este filme é bem mais seco, objetivo e quiçá até pesado. Tratando King Kong como uma besta, um animal que se perde na paixão por Ann, o filme parece louvar o seu desfecho trágico e em nenhum momento há um pressuposto de correspondência amorosa, talvez até de forma a realçar o papel da personagem feminina, que deveria apenas berrar e clamar por um homem a lhe salvar, que é Jack Driscoll, herói que surge por força do momento. Além disso, destaca-se a ininterruptividade das sequência na ilha, pois tudo toma ação em apenas um dia – eles chegam, Ann é raptada, entregue ao gorilão, já correm atrás dela, acham e levam o bichano -, dando um fôlego bom à trama, apesar de não se aprofundar em qualquer personagem. Aliás, o grande ideal do filme é mesmo o do velho provérbio arábe de que a fera morre por conta da paixão desenfreada pela bela – e talvez isso seja até mais trágico do que um amor mais correspondido (ou não) como na obra de 2005.

Em suma, pode-se observar o King Kong original como obra analisadora – mas não contestadora – da épica hollywoodiana, em que o diretor de cinema, para satisfazer as exigências de público e executivo, corre atrás de um belo rosto e de um monstro, realçando esta observação na fala de Denham ao apresentar KK no palco (ele diz algo similar a “trouxe-o apenas para satisfazer curiosidade da audiência”). Para obter ainda mais efeito, a fera é realmente devastadora, devorando qualquer um que passe por seu caminho e correndo de qualquer forma, a destruir o que se vê ao seu entorno. Isso dito, penso que King Kong tanto acerta ao retratar bem tal panorama, como falha ao, de certa forma, valorizá-lo e justificá-lo, não dando a tal tragicidade a KK como personagem central da obra (fica parecendo que ele, também, é apenas o monstro ideal para este tipo de filme – e comparando este viés aqui com o que PJ toma, o original ainda cai). De todo modo, é uma grande oportunidade de se observar os efeitos especiais em seus primórdios – o filme ganha pontos com as lutas entre KK e bichos, e mesmo comendo o povo, é divertido assistir a tudo isso e danem-se os preceitos – e permitir uma boa análise metalinguística para os mais interessados na contextualização da trama.

3/4

Cassius Abreu

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