Arquivo do mês: agosto 2009

Noites Brancas (Le Notti Bianche – Luchino Visconti, 1957)

Seria o amor um sentimento explicável, com características simples e descritíveis, existente em sua plenitude somente em um mundo onde a realidade não predomina sobre a imaginação?

O que dizer então de suas gradações – o amar demais, por exemplo – uma entrega total a subdivisão de um fluxo consciente utópico, onde o real não existe mais? (embora cá entre nós seja praticamente impossível imaginar algo em que ambas as esferas: realidade e fantasia sejam tão disjuntas a esse ponto).

Em Noites Brancas, uma obra prima de Luccino Visconti indicada por meu amigo Foras, todos os estágios desse sentimento controverso são expostos, independente de seus potenciais destruidores ou compositores na determinação de nossa felicidade. Felicidade esta também instável, frágil, perturbada. Visconti não nos poupa nem um segundo durante os 107 minutos de projeção. O diálogo de sombras com o espectador, as alternâncias entre o preto e o branco, o cenário tristonho, as expressões impotentes dos personagens diante de algo tão grandioso…tudo fala através do filme, tudo compõe a reprodução dos fragmentos que remetem a tal sentimento quando analisados como um todo. É preciso cada gota da construção dos planos e dos artifícios cinematográficos para compor uma estória que ilustra algo tão difícil de se dizer em palavras.

Os personagens são pessoas simples. Mário é tão simples que no início do filme, Visconti simplesmente se recusa a lhe conferir imponência sobre o cenário repleto de sombras e solidão. Ele é filmado à distância e tragado por ela, sem qualquer relevância em relação a um cão à procura de alimento ou a um grupo de pobres a perambular pelas ruas, ou mesmo uma pequena ponte erguida sobre um riozinho que se estende paralelamente ao asfalto.

Tão simples quanto ele parece ser a adorável Natalia, cuja dilaceração psicológica avançada (porém ainda assim progressiva) perante a ação da emoção produzida pelo amor que sentia por um homem misterioso é tão evidente que ficamos imaginando os limites e prejuízos que podem advir de tal sentimento. A percepção de Mário não é de todo incorreta: insanidade parece ser uma possibilidade. Erra, porém, diante do poderoso “amor”, que mal sabe ele a princípio, já o possuía, cegava e corrompia todo seu ser.

E quando totalmente à mercê de tal adversário, Mario decide lutar em um round injusto, suas pequenas vitórias representam momentos belíssimos. O que dizer da cena da dança no bar, coroada com uma beleza incomparável, mas impregnada com as mesmas contradições discutidas anteriormente: as diversas pessoas que se interpõem entre os dois contrastada com a felicidade estampada nos olhares, que não deixam de se cruzar como se o fluxo de energia fosse constante, a linda melodia contagiante contraposta com o incômodo da moça em não saber dançar e os movimentos desajeitados de Mario e Natalia, refletindo em cada segundo nos passos, o sentimento.

Ou dos inúmeros planos em que cenas se entrecruzam em microambientes distintos, cuidadosamente mostrados por Visconti como porções que captam todos os elementos em conjunto? A conclusão, por mais que sombria, também é contraditória, de certo modo. E aqui, recomendo a quem não assistiu o filme a parar por aqui e ir correndo procurar esse magnífico exemplar de como a arte pode ser perfeita. Seria a personagem de Natalie cruel o suficiente para envolver Mario em um ciclo de autodestruição e frustração infinito ou portadora de um amor tão infinito que era capaz de resistir a todos os tipos de tentações e manter a força perante o amado, mesmo com a distância e a incerteza de sua volta?

E o personagem de Mastroianni, não menos controverso, com relação a linda moça morena que parece encantada com ele, mas sofre de sua fúria incontida por um amor não correspondido em relação a outra mulher? Só há espaço no coração para um grande amor? Seria o final tão questionado pela simpatia de tal protagonista uma punição exatamente pelo descaso com relação a outras relações que poderia ter desenvolvido?

4/4

Sílvio Tavares

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Caramelo (Sukkar Banat – Nadine Labaki, 2007)

Em Caramelo (Sukkar Banat, 2007), a atriz Nadine Labaki, que também é a diretora do filme, interpreta Layale, uma esteticista que mora em Beirute e é apaixonada por um homem casado. Ela divide o salão de beleza com outras três mulheres, que também têm seus problemas: uma se sente velha demais para competir com mulheres mais jovens, outra vai se casar mas não é mais virgem e a última é gay. O fato de tais aspectos serem de menor importância ou mesmo irrelevantes em outras culturas já indica a ênfase do filme: estamos no Líbano, país onde as mulheres podem até se vestir como no Ocidente, mas que pratica os mesmos e velhos atentados contra a liberdade de expressão e sexual das mulheres árabes, embora de maneira menos ostensiva.

Dito isso, teríamos os ingredientes para um filmaço, mas infelizmente não é exatamente o que ocorre. Labaki opta por fazer um filme menos agressivo, quase esvaziando os choques culturais que existem no Líbano, nação que historicamente desempenhou o papel de ponto de encontro entre o Ocidente e o Oriente Médio e que, por isso mesmo, até hoje tem problemas de identidade. Não coincidentemente, algumas das mais belas passagens do filme mostram uma personagem quase que totalmente desvinculada desse contexto social: Rose, uma mulher idosa que tem que cuidar de Lili, sua irmã ainda mais idosa e que tem problemas mentais. Seu ato de amor por ela, que é um dos momentos mais bonitos que eu vi nos cinemas nesse ano, poderia ocorrer em qualquer outro lugar e com qualquer outra pessoa, homem ou mulher.

Ainda assim, o filme é bastante bonito. A suavidade dos tons dourados da fotografia e a edição de imagens, bastante eficiente, se juntam ao elenco de grande qualidade – e que realmente transmite a intimidade emocional que só os verdadeiros amigos têm – para deixar o filme muito acima da média. Num momento em que os cinemas exibem excrescências como Transformers – A Vingança dos Derrotados e Anjos & Demônios, o pequeno, porém sincero – ainda que com um jeitão de novela das 7 -, filme de Labaki é um verdadeiro colírio para os olhos maltratados do espectador.

3/4

Amílcar Figueiredo

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