Arquivo do mês: novembro 2009

As 3 Faces do Mal (The Washing Machine / Vortice Mortale – Ruggero Deodato, 1993)

Tem um tom de thriller convencional que vai sendo frame-a-frame ‘estragado’ e sugado pra uma atmosfera erótico-hermético-onírico-wtf quase como uma representação do plot policial comum quando absorvido pelo horror (no caso, o italiano [no caso, o de Deodato **no caso, o do cara que fez Cannibal Holocaust**] – dois gêneros que se combinam pra parir uma aberração de muito mau gosto da ‘genética’ cinematográfica – ou qualquer merda nesse sentido).

A estrutura copia o conceito do “Vortice Mortale” (título original), ou seja, segue em ciclos se perdendo e submergindo num espiral de acontecimentos e bizarrices, quando aquela linha espessa entre o sóbrio e o lunático vai se decompondo até que o nosso herói não passe de uma bola de vôlei jogada de um lado pro outro pelas tais “3 faces do mal” do título nacional, três das mulheres mais fantasticamente vagabundas-filhas-da-mãe já representadas num filme (uma delas literalmente o estupra, a outra mantém uma relação lésbico-pedófila com uma garota cega, e a outra quase dá pra ele em um museu diante de dezenas de deficientes visuais – isso pra ficar nos fatos mais notórios).

Não que seja mais um italiano totalmente doido e desorientado, pelo contrário, a elegância da narração do Deodato e o ritmo todo habilidoso com que ele vai te cercando e te trazendo pra o que mentia ser um suspense ordinário e que na verdade é puro delírio são troços que, por mais que travistam o filme em uma aura de anarquia e porralouquice “e ok, derramei chá de coca no roteiro, vâmo filmar essa porra de qualquer jeito”, trazem lá dentro girando uma em torno da outra a mais absoluta loucura coexistindo com a mais transparente consciência, ou seja, sabia que o sabiá sabia assobiá.

4/4

Luis Henrique Boaventura

Screenshots!

Se alguém entendeu alguma coisa de toda essa merda que eu vomitei aí, beleza, pra todos os outros, vejam The Washing Machine; vai ficar claro feito água:

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2012 (Roland Emmerich, 2009)

Primeiramente, você conhece Roland Emmerich? Então sabe que ele recebeu essa alcunha de “mestre do desastre” não à toa. Se você gosta de suas catástrofes anteriores, provavelmente goste dessa também, se não gosta, acho que não vai ser aqui que passará a gostar, afinal, ele acaba repetindo-se. Emmerich não passa de um louco que quer ver o circo pegar fogo e não poupa esforços para realizar as mais fantásticas catástrofes que o cinema já concebeu.

Mas vou logo avisando, se você não gosta de filmes com clichês (pais separados, filho que chama o pai pelo nome e gosta mais do padrasto “cool” – leia-se rico – entre outras pérolas) com enredos rasos, com diálogos patéticos tirados dos Teletubies, com choro forçado, com situações nada nada verossímeis, é… passe longe desse. Mas se você é adepto do bom e velho filme catástrofe onde só se preocupa com as… catástrofes, bom, veja! Aqui o Emmerich, por incrível que pareça, amplificou o que já havíamos visto em O Dia Depois de Amanhã. 2012 é totalmente frenético a partir dos seus, sei lá, 40 minutos, quando o Cusack vai buscar sua família numa limousine afim de escaparem dos primeiros sinais do desastre, essa sequencia, na minha opinião, é o grande momento do filme, é tão forçada, exagerada, tão… tão… cinema. Pena que as partes que entrecortam as espetaculares sequências de destruição não sejam boas o suficiente pra dar liga ao filme e torná-lo realmente bom, somado a isso a sua duração exagerada (já que grande parte dela é enxertada com os tais bla bla blas) acabam tirando um pouco do divertimento “porralouca”que se espera, mas nada que comprometa a experiência como um todo.

Enfim, desligue um pouco esse cérebro aí, compre um sacão de pipoca um refrizão e aproveite o fim do mundo.

2/4

Djonata Ramos

ou: 2012 (Roland Emmerich, 2009) – Silvio Tavares/Luis Henrique Boaventura

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Teu Vício é um Quarto Fechado e Só eu Tenho a Chave (Sergio Martino, 1972)

O Martino parece ter uma tendência irresistível e maravilhosa pra sempre torcer e anular o gênero conforme lhe der na telha. Aqui ele desmente o giallo (como já havia feito ao final de Sra. Wardh) pra se assumir como uma adaptação de Allan Poe, ter lapsos de thriller erótico/lésbico, depois se transformar num horror claustrofóbico e psicológico permeado por triângulos, quadrados e retângulos amorosos, só pra mudar de idéia outra vez e cair de cabeça numa trama esquizofrênica de conspiração. Pra se ter uma idéia ele troca de protagonista três vezes em 90 minutos, e o modo sem vergonha como usa e joga fora cada personagem é uma das manifestações mais exemplares daquele fluxo de (in)consciência incontido que dominou o jeito de filmar desses italianos. Basicamente tem dois tipos de personagens no filme: os que entram pra morrer e os que entram pra trepar. Apesar de que os que entram pra trepar acabam morrendo também então eu sei lá, enfim.

O mais podre, demente, errado e pervertido dos giallos. Ou seja, é obra-prima.

4/4

Luis Henrique Boaventura

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Distrito 9 (District 9 – Neill Blomkamp, 2009)

Muito mais por falta de tempo do que por excesso de vadiagem deixarei de partilhar impressões mais detalhadas de Distrito 9, mas não poderia passar este dia pós-filme sem registrar um pouco do meu contentamento. Posiciono-me mais ou menos ao centro dos dois grupos fanáticos que se formaram para, respectivamente, amar e odiar o debut de Neil Blomkamp – digo “mais ou menos” por estar muito mais próximo à adoração do que ao ódio, embora meu gostar não tenha a mesma entonação que o dos fãs assumidos. Serei aquilo que o filme despreza, rasga e destitui por completo do seu centro gravitacional: um exemplo de precaução e de pretenso equilíbrio.

Distrito 9 é cinema muito próximo da selvageria, onde o instintivo prevalece e o intelecto é deslocado para uma espécie de vácuo. Com isto, recebemos uma peça de estrondo brutalmente manejada como um filme-vômito, onde nada parece ser controlado, onde tudo é grotescamente – reconhecendo a grotesquidade com grande fascínio – arremessado à tela, onde impera o caos e as ideias parecem ser injetadas diretamente na veia do espectador. Em questão de minutos estamos ali, no meio da baderna, compreendendo cada uma das referências ao lado de cá de um jeito um tanto quanto estranho, como se estivessemos a par daquela realidade há anos, o que pode ser considerado o maior dos elogios à medida que reconhecemos no Cinema a necessidade de o realizador fazer o espectador comprar seu mundo particular e, principalmente, respeitá-lo (basta dizer que não há qualquer estranheza em ver o povo alienígena se chapar com comida de gato, muito menos em ver o mercado negro do produto se ampliando, etc – teria outros tantos exemplos). O mesmo acontece com a linguagem de câmera, que mistura conceitos básicos de estética cinematográfica com linguagens dinâmicas e inusitadas como a de televisão e video-game de uma maneira impossível de ser sintetizada por palavras. Através disso, a impressão que se tem é de que poderiam existir milhões de ironias e metáforas e críticas sociais enrustidas, mas não consigo encontrar espaço para pensar o filme fora desta sua realidade, talvez por ela ser tão bem apresentada e sustentada, talvez por transformar-se com o passar do tempo em um monumento de si mesmo. Não que eu não goste do gradativo enxugamento deste universo, desta emulação narrativa de video-game onde todo o filme gira em torno de uma visão em primeira pessoa e da forma como isto consome o filme até transformá-lo em um caroço lapidado. Pelo contrário: residem aqui alguns dos maiores méritos de Distrito 9, alguns dos motivos que fazem deste um filme tão divertido de um jeito tão vulgar. Apenas acredito que, da mesma forma com que torna o filme uma experiência bastante interessante sob este ponto de vista de divertimento porralouquista e vagabundo, permite a ele o contentamento de ser apenas isto. Penetramos no Distrito 9 e, ao sairmos dele, levamos nada além do saco de pipocas vazio para atirarmos no lixo. Novamente reitero: não é defeito, mas a constatação de uma conseqüência natural da proposta – uma proposta que é bastante comum mas que cada vez mais parece difícil de ser executada por Hollywood. Em seu primeiro filme, e fora deste eixo que abriga Michael Bay, Tony Scott e Uwe Boll, Neil Blomkamp conseguiu. Ainda assim, não há nada de novo no front; apenas o referido respeito ao seu próprio cinema, que deveria ser uma regra mas é responsável por fazer deste um filme de tamanho destaque.

3/4

Daniel Dalpizzolo

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Olhos de Serpente (Dangerous Game – Abel Ferrara, 1993)

Há dois filmes maravilhosos dentro de Olhos de serpente, de Abel Ferrara, e eles não apenas coexistem de maneira harmoniosa como ainda por cima se completam.

O primeiro deles é um visceral metafilme que impressiona também pelo fato de parecer um compêndio das aspirações cinematográficas de seu diretor, especialmente pela íntima e conflituosa relação entre vício e religião.

O segundo, por sua vez, fala sobre até que ponto uma pessoa pode ser consumida, física e mentalmente, pelo processo de criação artístico. (desafio: tente não pensar em Heath Ledger)

O mais perturbador, no entanto, é quando percebemos o elo com a mente do criador — seria Keitel o avatar do próprio Ferrara? Não sei, mas assusta a maneira como ele insufla que essa Hollywood imunda não é lá muito diferente dos submundos nova-iorquinos de seus outros filmes.

4/4

Vinícius Laurindo

ou: Olhos de Serpente (Abel Ferrara, 1993) – Daniel Dalpizzolo – 4/4

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Screenshots!: Nastassja Kinski em A Lua na Sarjeta (Jean-Jacques Beineix)

Talvez apenas no próprio Femme Fatale, do De Palma, essa instituição sagrada do film noir tenha sido tratada com tanta devoção como em a Lua na Sarjeta, encarnada aqui pela inacreditável Nastassja Kinski. O cuidado de Beineix é o mesmo: captar o corpo, lábios, olhos, cabelos, e rearranjá-los do outro lado da lente na forma estonteante de uma deusa.

*texto: A Lua na Sarjeta (Jean-Jacques Beineix, 1983) – Luis Henrique Boaventura

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Cão Branco (White Dog – Samuel Fuller, 1982)

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É, não adianta, esse é obra-prima forte mesmo. O Fuller mostra aqui que dá pra juntar tudo no pacote, clichês, sociologia, trilha sonora, ENQUADRAMENTOS DO CARALHO, polêmica, etc, sem perder a mão. a questão é que, ele pega tudo e faz da forma mais direta possível. Trata do racismo sem nenhuma sutileza (e quem disse que suteliza é qualidade, necessariamente?), entra pela porta dando um bico, esfrega na cara do público médio americano (e do mundo, course) – muito bem representado pelo velhinho simpático e repugnante, dono do cão – a sua hipocrisia.

Um povo que está tão evoluído que, prescinde de um Star Wars (quem viu entenderá a raferência hehe) da vida, sequer soube lidar com uma questão tão… tão… simples? quanto o racismo. Simples do ponto de vista de que é uma imbecilidade tão óbvia que, bom… enfim. E fora que ele filma o cão, dando indícios claros de que ele não é o verdadeiro culpado, não nos faz acusá-lo, mas também não nos faz aceitá-lo, o que é pior, já que a gente não sabe bem o que quer em relação a ele. Fica aquela coisa de se autopodar.

A sequência final é bem ilustrativa disso, ao passo que, ao que parece, o cão está, de fato, curado. A câmera vem flutuando, girando, mostra a feição dele, língua pra fora, simpático… gira, gira, quando fecha os 180º, bom… ali está: a outra face, a raiva estampada na cara do bicho, essa dualidade (sem contar que, ali a gente vê, que não só é um racista, mas um assassino nato e te pergunta: há ressocialização? nah, mete um tiro nessa praga). O Fuller conseguiu mostrar a dualidade através da imagem em questão de segundos, e com um giro de câmera excepcional. E nem vou citar as câmera lenta, esse cara, definitivamente, sabe usá-la (a cena acima que o diga). Dá mais pena ainda daquele vômito que atende pelo nome de Crash.

4/4

Djonata Ramos

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