Arquivo do mês: dezembro 2009

2012 (Roland Emmerich, 2009)


Creio existir um limite para tudo. É notório que filmes constróem suas próprias realidades baseados em recriações inspiradas na nossa. Talvez isso ocorra por facilidade de associação por parte do espectador ou para transmitir uma mensagem que seja provocativa ou reflexiva, seja simplesmente para você se desligar por duas horas aproximadamente de sua vida rotineira nos moldes exigidos pelo capitalismo ou com a intenção de refletir uma opinião na tela.

2012 tenta se encaixar na primeira categoria. Entretanto, calcado em efeitos especiais excepcionais tenta a todo custo ofuscar uma pobreza irritante de todos os outros elementos componentes da estória e os clichês atirados na cara do espectador da pior forma possível, sem o menor refinamento.

O filme é um arrasa quarteirões repleto de uma dramaticidade repetitiva e personagens nada carismáticos (abusando de momentos “ooooooh” com mortes apoteóticas, previsíveis e dispensáveis). O pior mesmo é o cinismo do tipo “quero ser democrático e mostrar que os USA não são tudo no mundo”, algo que soa terrivelmente forçado e que não consegue fugir do óbvio. Nem transferir a tecnologia de produção das arcas para a China adiantou ou atirar a “importância” da África no finalzinho funcionou. Ainda assim as constrangedoras cenas do Presidente americano negro que prefere morrer com seu povo (oooooooh, e olha que até tentaram colocar o italiano também…mas, curiosamente não teve a “cena” de ser “engolido” pelas águas em uma cena “histórica”), a cruzada intermitente (e absolutamente ridícula pelos seus excessos) do personagem de John Cusack e sua família estúpida – naturalmente com direito a salvar a arca no final “trilegal” (oooooooooh) ainda prevalecem.

Tudo, com exceção aos efeitos especiais, é péssimo, absolutamente tolo e parece tentar fazer o espectador de idiota, chega a ser ofensivo e constrangedor. Um dos piores do ano, sem dúvida.

1/4

Silvio Tavares

Vi nessa semana… O Emmerich em dois lados, o manipulador genial de Independence Day, e o desastrado de 2012. O grande truque dos filmes-catástrofe (na verdade é condição sine qua non pra funcionarem) é te venderem uma verdade pela qual você está louco pra acreditar. Ele PRECISA te abduzir, caso contrário é como assistir alguém jogar água num formigueiro. E as pessoas sabem fazer a leitura quando algo não vai bem. Fui no cinema com uma galera e a reclamação de todo mundo era sobre a falta de realismo, que nada daquilo era verídico e tal (até ouvi uma frase sensacional “mas é ficção cara”, “não importa, isso nem na ficção”, haha). Aí alguém vem e diz “ah tá, tu queria realismo em 2012, cinema não tem essa pretensão, vai ver documentário”, etc. Aí entra o discurso do melhor filme do Chris Nolan. Cinema é arte da ilusão e todo cineasta é um mágico, e no caso do Emmerich, o truque é te fazer acreditar no que se passa na tela, porque faz parte da natureza do blockbuster (um troço meio sci-fi-pós-moderno-essas-porras): você paga pra sentir emoções dependendo do que tá escrito na embalagem (comédia pra sorrir, romance pra se emocionar, etc), e o barato dos filmes-catástrofe é que eles têm a pretensão de oferecer todo um pacote (e os que melhor fizeram isso foram Independence e Titanic, disparados). Pra um filme como 2012 dar certo ele precisa oferecer ao espectador a possibilidade de se sentir em um mundo com o prazo de validade expirando (‘2012′, dã), onde não haverá pra onde correr; aí você vê determinado personagem se despedindo do pai e automaticamente associa como seria a situação, como seria ver uma onda gigante vindo em sua direção sem ter como escapar, etc, etc. sempre que um personagem estiver prestes a morrer, você vai estar lá ao lado dele (pra morrer também, afinal).

2012 falha o tempo inteiro em te ‘capturar’ pra dentro do filme porque não te conecta ao personagens (caralho, nem na cena do cachorro deu certo), porque é mera espetacularização, porque cada super-efeito-especial tem o mesmo resultado de ver uma fileira de dominós sendo derrubada e porque, essencialmente, quebra as próprias regras. Como na cena da fuga com a limo/avião. O espectador precisa ter um fiapo de conexão com a realidade, caso contrário, a mentira não vai funcionar nunca.

0/4

Luis Henrique Boaventura

ou: 2012 (Roland Emmerich, 2009) – Djonata Ramos

10 Comentários

Arquivado em Comentários

Screenshots! – Judex (Georges Franju, 1963)

Ah, essa raríssima habilidade pra compor o icônico… Fica claro de onde Michele Soavi tirou a idéia pro assassino de O Pássaro Sangrento. A força da imagem em Judex é um troço descomunal. Inesquecível.

null null null null null null null null null null null null null

4/4

Luis Henrique Boaventura

3 Comentários

Arquivado em Comentários, screenshots

Atividade Paranormal (Paranormal Activity – Oren Peli, 2009)

Fraco, muito fraco, e a tentativa de tensão crescente falha miseravelmente. sério, era pra eu ficar tenso em ver aquele tabuleiro pegando fogo? em ver um lençol levantando? em ver pegadas de farinha no chão? chego a achar esse filme arrogante demais, ele esnoba todo recurso que o cinema pode oferecer pra poder criar uma atmosfera boa, toda liberdade que tu tem pra criar universos, modificar eles, utilizar elementos reais misturados com ficionais pra poder intensificar a experiência cinema como um todo e etc, simplesmente pra se vangloriar de ser extremamente fiel a supostos acontecimentos reais. Sim, em uma hora da noite uma porta bate, isso poderia ser real. um lençol se movimenta, poderia ser real.. e etc. Isso são acontecimentos com uma capacidade extrema de assustar quando vividos por alguém, quando lidos em algum artigo, quando ouvidos de outra pessoa… Claro que sim, pq aí é sua realidade e como a conhece sendo posta em dúvida. Não é uma mentira. Mas o cinema É uma mentira. É uma mentira consciente e voluntariosa que tu paga para assistir. Esse cara não pode esperar que as duas linguagens do medo se misturem, se confundam. Eu ver na minha casa um lençol se movimentando do nada, eu vou me cagar de medo e correr pra mãe, agora eu assistir um lençol se movimentando no cinema, da forma mecânica que foi, fria, sem clima… é nada. Eu não vou me assustar, eu não vou ficar tenso, ele tem que criar isso, ele tem que criar a atmosfera, o clima… Não jogar na tela coisas que supostamente meteriam medo na vida real achando que vai funcionar também, sem cuidado algum. O cara se da o luxo de abdicar tudo isso. Nossa, é uma vergonha isso aqui.

0/4

Thiago Duarte

O pior filme do ano. Confesso que não estava esperando muita coisa, mas não esperava tanta ruindade. Fica claro o amadorismo (no mau sentido) do filme, algo do tipo “vamos pegar uma câmera qualquer e filmar a esmo, ninguém vai se importar mesmo”, e, nesse caso, estragou toda a ambientação do mesmo. As obveidades do “roteiro” (a cada noite os acontecimentos serem mais “intensos” são tão gritantes que você poderia descrever todo o filme após os 10 primeiros minutos, e toda a enrolação apenas para ver as cenas de suposto “terror” (sim, suposto, porquê elas não te envolviam nem um pouco, graças a obveidade descrita anteriormente) foi uma encheção de saco enorme. E os supostos “atores” estavam terríveis, não dava para simpatizar ou sentir raiva de seus personagens, apenas rir da sua atuação.

E assim temos mais um fenômeno “Bruxa de Blair” sendo que esse é bem pior (e eu acho “Bruxa de Blair” bem ruim).

0/4

Adney Silva

9 Comentários

Arquivado em Comentários

Anticristo (Antichrist – Lars Von Trier, 2009)

Beleza quem acha que esse filme se agarra em metáforas, mas comigo, independente de qualquer uma, ele funcionou de forma bem boa pela simples imagem escorrida e o significado imediato dela.

Ignorando por enquanto o fator mulher e as metáforas que ele pode ter depositado nesse ser, na primeira hora e pouquinha o meu sentimento foi de acompanhar uma espécie de experimento emocional dos mais horripilantes, nojentos, que já assisti, criado por um dos personagens que mais me causou incômodo, e não falo dela, e sim dele. Como se toda atmosfera, o ambiente daquele lugar, fosse um laboratório que intensificasse a podridão emocional da sua cobaia.

O personagem que o Dafoe criou, confesso, me gelou em certas partes. A natureza racional dele, frieza, criando jogos do medo, experimentos de cura através de injeção de dor, de traumas… como se o remédio pra uma queimadura fosse enfiar a mão no fogo. Ok quem não considera cinema, quem não considera terror, mas o que eu vi em boa parte do filme é cinema, é terror, e dos bons.

Até que a reviravolta acontece, e a vítima não é mais vítima, na verdade não existe mais vítimas, apenas filhas da puta. Eu entendo perfeitamente quem diz que isso vai totalmente contra suas preferências, visão etc, quanto a cinema. Que a personalidade afetada do diretor tenta ser mais importante que a imagem, e ganha uma imponencia irritante, mas de qualquer forma, pra mim falha, e ainda resta muita coisa boa. Principalmente o contraste doentio do casal. Um que durante o filme todo mostra uma racionalidade, frieza enojante, um facinio pela deblitação emocional, como se sentisse prazer em dar agulhadas na alma, enquanto ela se mostra o oposto disso, uma pessoa pulsante, necessitada pela dor explicita, fisica, pelo sangue, pelo sofrimento externo, o mal se manifestando de todas as formas naquela floresta. Tem várias coisinhas que me incomodaram, mas acho que bem menos que pra maioria, mas no geral, funcionou comigo.

3/4

Thiago Duarte

ou:

Anticristo (Lars Von Trier, 2009) – Djonata Ramos – 1/4

Anticristo (Lars Von Trier, 2009) – Luis Henrique Boaventura – 0/4

1 comentário

Arquivado em Comentários

Marnie, Confissões de uma Ladra (Marnie – Alfred Hitchcock, 1964)

Acho que boa parte do pessoal daqui sabe o quanto eu sou fã do Hitch.. E uma das razões de eu ser fã dele é que, além dos seus maravilhosos filmes mais conhecidos, a sua carreira é composta de pérolas que podem ser consideradas como “obras bastardas”, que, por um acaso do destino, ou por serem avançadas demais para a época, ou ainda por qualquer outro motivo, não são tão exaltadas pelo grande público. Marnie, não só é uma dessas obras, como pode ser considerado o último filme de uma era grandiosa de Hitchcock.

Originalmente produzido para promover a volta gloriosa de Grace Kelly as telas do cinema, “Marnie” parte do conflito psicológico e sexual de uma mulher, causado por um trauma de infância, que a leva a praticar roubos constantes à pessoas com as quais ela trabalha, para explorar todo esse confronto ao passado sombrio da personagem principal, através da obsessão do seu último empregador, que a obriga a casar com ele, a fim de que, tal qual um animal selvagem, ele consiga “curá-la” e domá-la”. Apesar de não ter o suspense habitual de que muitos esperam de uma obra do diretor (na verdade, é um filme de personagem, a Marnie do título), o filme é material legitimamente hitchcockiano, ousado, filmado ao modo clássico de Hitch, o que ainda comsegue provocar o interesse contínuo do espectador.

O modo como é conduzida a trama faz com que todos os personagens mostrem que possuem os seus “esqueletos no armário”. Um grande exemplo é o personagem de Sean Connery. Ao mesmo tempo que percebemos que ele possui um certo apreço por Marnie, algumas de suas atitudes são condenáveis à primeira vista. Mas, mesmo assim, nos pegamos “torcendo” por ele, para que descubra o que a alfige tanto. E, ao observarmos Marnie, compreendemos o que atraiu tanto o personagem de Connery: por trás de uma aparência gélida, há uma certa fragilidade no seu olhar (graças a interpretação de Tippi Hedren), como um “animal acuado”.

Talvez o filme não tenha feito muito sucesso na época, ou ainda não é tão lembrado como tantos outros, mas por trás da falta de suspense habitual, há todos os elementos clássicos da filmografia de Hitch aqui em sua época mais áurea. E isso é um motivo mais do que suficiente para termos uma interessantíssima obra deste diretor.

3,5/4

Adney Silva

3 Comentários

Arquivado em Comentários

500 Dias Com Ela (500 Days of Summer – Mark Webb, 2009)

Em 500 Dias Com Ela, um filme cruel e bonito, alternada e simultaneamente, Tom (Joseph Gordon-Levitt, excepcional) é um arquiteto que, ao invés de exercer sua profissão, trabalha criando textos para cartões de pêsames e de felicitações. No escritório ele conhece Summer (Zooey Deschanel, adequadamente esquisita), uma garota que leva a felicidade a todos que a conhecem, exceto a ela mesma. Mesmo avisado de que a menina é difícil, Tom se envolve com ela e, à medida que a relação se intensifica, se apaixona. Summer o alerta de que não tem nenhum interesse em amor ou em relacionamentos , até porque não acredita neles, e ainda assim, não desgruda do rapaz, sabendo que, no fundo, ele a faz muito bem. Essa será a perdição e, já ao finalzinho do filme, a redenção de Tom.

500 Dias Com Ela não tem nada de comédia romântica. Não é comédia, embora tenha algumas passagens engraçadas, e não é romance de modo algum. Sua estrutura picotada e sem ordem cronológica (os 500 dias do relacionamento são expostos, por amostragem, num sistema de vai-e-vem) leva ao espectador sucessivos momentos de carinho e de desprezo por parte de Summer, uma sucessão de eventos que destrói a estrutura psicológica de Tom, que já era bem frágil. Trata-se de tema nada agradável, embora o diretor Mark Webb doure a pílula o máximo possível com citações cinematográficas, referências à cultura pop e tiradas espirituosas.

Webb constrói Summer como uma criatura de paradoxos. Ao contrário do que seu nome indica, ela é fria como o inverno em grande parte parte do tempo. Apesar de ter a sensibilidade emocional bem apurada, ela é extremamente desapegada a qualquer pessoa e muito cruel, embora não de maneira voluntária. Talvez isso seja o que mais dói, já que não se pode sequer demonizá-la. Summer é assim, e Tom, que tem vocação para a baixa auto-estima e para o masoquismo, demora a perceber.

Entretanto, ambos têm muito a acrescentar ao outro – e nisso reside o maior achado do filme, embora Webb pontue esta percepção por meio de uma narração em off e de um grilo-falante sob a forma da irmã mais nova de Tom, Rachel, que não são nada sutis. Se Summer sai do processo mudada, porém sem maiores traumas, Tom, já naturalmente vulnerável pelo simples fato de estar apaixonado (o que, por vezes, leva o espectador a se perguntar se Summer não está certa, se o amor e a paixão compensam de fato), também muda, e para melhor, porém sofrendo todos os horrores possíveis. Na penúltima cena do filme, de uma beleza embriagadora, ele descobre que terá sido a pessoa mais importante na vida de Summer, embora não do jeito que ele queria. Summer será sempre sua, sem nunca ter sido de fato. Toda a paixão, todo o amor não correspondido e todo o sofrimento, então, terão valido a pena.

3/4

Amílcar Figueiredo

 

6 Comentários

Arquivado em Resenhas