Arquivo do mês: junho 2010

A Bela Junie (La Belle Personne – Chistophe Honoré, 2008)

Havia na Nouvelle Vague sobretudo um reconhecimento de todo o cinema que veio antes. Reconhecimento da maturidade, certamente. Muito já se falou da reedição que Christophe Honoré faz do “movimento” francês em seus filmes, mas o que na verdade existe ali é uma edição da paixão que os cineastas do período nutriam pelo cinema. A paixão de Honoré parece ser por aquela época e não pela própria paixão que movia os filmes.

A Bela Junie, por exemplo, é um filme sem pai, logo, um filme sem conselhos. É um filme sobre jovens sem adultos (até os professores são quase colegas, vide aí Louis Garrel) ao redor que tomam por maiores todos os problemas que enfrentam. Não há aquela balança moral (ou amoral, tanto faz) que nos distraia e nos aprofunde de fato em alguma coisa.

Honoré não consegue construir bem a personagem-título ao ponto em que o que vemos não passa de uma má encenação de um problema que não existe (o encontro final entre Junie e o professor de Louis Garrel é de uma falha tremenda de construção de discurso), onde um rosto possuidor de uma expressão erradamente já pretende se valer como o todo.

1/4

Ranieri Brandão

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Em Paris (Dans Paris – Christophe Honoré, 2006)

Um filme com homens. De homens para homens, homens que sofrem, que gozam, que choram, que vivem…

A sensibilidade da vida costuma estar muito presente em filmes ‘femininos ‘ (As horas como exemplo mais evidente pra mim), e é verdade, em se tratando de arte parece absurdo querer sexualizar uma obra ou a forma como ela afetará seus receptores. Mas isso é um fato: raros são os filmes que se atrevem a mostrar homens com tanta sensibilidade…

A masculinidade é um aspecto complexo, muito mais do se imagina. A idéia de “ninguém entende as mulheres”, eu acho, surgiu apenas para desviar o foco desses seres confusos, retraídos, endurecidos e orgulhosos que são os homens. Nesse sentido Honoré surge como um candidato a especialista dos homens (os outros filmes dele comprovam isso). Temos nesse filme, três homens lapidares, os dois irmãos e o pai (Guy Marchand), um núcleo familiar já diferente do convencional, unidos pela lembrança da irmã mais nova, que um dia decidiu se suicidar. Os três parecem agarrar-se para sobreviver à tragédia, para se convencerem de que vale à pena viver, para se motivarem a continuar chorando e sorrindo, enfrentando em cada dia seu mal.

um filme que faz eu me apaixonar um pouco mais pela vida. Remédio certo para dias melancólicos e felizes, amigo para todas as horas; nesse filme um ombro para compartilhar um pouco de mim.

4/4

Fernando Mendonça

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RoboCop (Paul Verhoeven, 1987)

As primeiras imagens de RoboCop, de Paul Verhoeven, sugerem que nossa visão foi vencida. Tudo é visto pelo filtro da imagem televisiva – gasta, logo irônica, porque estamos num futuro em que um certo tipo de imagem (a publicitária), pelo contrário, ganhou – que nos dá conta de tudo o que precisamos saber sobre o mundo a ser construído (ou melhor a ser vivido visceral e grosseiramente) pelo filme.

O segmento desta imagem é o que realmente choca. Se somos deixamos aos cuidados das notícias para explicar um mundo e ao olhar clássico destruído pelas imagens destas notícias, o incômodo maior é saber que nosso herói, Robocop, possui um mesmo mecanismo de olhar este mundo-ao-redor – seus olhos funcionam como uma TV de notícias sobre tudo aquilo que se move à sua frente.

Na verdade, a falha é que este projeto, do robô que combate o crime, é um crime em si: não consegue destruir totalmente a resistência das velhas lembranças tormentosas (que são sentidas pelo protagonista, apenas) através de tudo o que é grosseiro no cinema de Verhoeven e na sua crença em mostrar todo tipo de saliências e sangue para confirmá-lo com precisão. Trata-se aí de um grande filme sobre um futuro perdido em nossa própria inteligência sacana.

3,5/4

Ranieri Brandão

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Blow-Up – Depois Daquele Beijo (Michelangelo Antonioni, 1966)

Aquilo que faz os personagens de Michelangelo Antonioni sofrerem bastante é a filiação extrema deles ao roteiro que acreditam piamente ser conclusivo (em Profissão: Repórter a crença é pior: a de que se pode se esconder no corpo do outro). Desse modo, a traição que o personagem de Blow Up sofre é aquela do olhar, sua arma principal.

O que lhe escapa é aquilo que ele quer transformar em espetáculo. O olho da câmera, mais esperto do que ele, registra uma imagem que pode ser de um assassinato, mas jamais saberemos. Antes de tudo, este personagem, um fotógrafo/artista, parece possuir uma ideia muito segura de seu trabalho. Quando dirige as modelos isso fica claro: ao artista é concedido o poder da narração.

Logo, a falha deste homem é estar muito longe de uma narrativa espetacular (a do assassinato, tudo o que o envolve), é registrá-la sem no entanto dirigi-la. Não é bem para isso que servem as ampliações das fotos do fato? Para trazer, virtual e eternamente, aquele pedaço de crime para perto, para sobreviver num dedo de direção/encenação?

4/4

Ranieri Brandão

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Screenshots! – O Apicultor (O Melissokomos – Theo Angelopoulos, 1986)

por Fernando Mendonça

Ver um Angelopoulos é comemorar uma boda, reafirmar uma aliança, perceber que é preciso apaixonar-se filme após filme pra continuar respirando…

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