Arquivo do mês: fevereiro 2010

Wild Tigers I Have Known (Cam Archer, 2006)

Pra começar, creio não ter usado o critério mais ortodoxo do mundo para escolher assistir a este filme: fui atrás dele após saber que a música de Emily Jane White (que leva o mesmo nome do filme) havia sido feita para esse filme. Nem sabia do que se tratava, mas resolvi assistí-lo. E foi uma experiência frustrante. Mas vamos começar pelo começo.

Há alguns meses, eu concluí um curso de roteirização cinematográfica e, dentre os teóricos de roteiro que vimos estava o polêmico Syd Field. Dentre várias outras coisas, Field sugere que um roteiro, para ser bom, tem que oferecer um bom conflito e alguns pontos de virada na trama, chegando até mesmo a metrificar cada um dos três atos do roteiro, indicando exatamente onde cada ponto de virada deve se localizar. Na época, mesmo sem estudar muito a fundo as teorias de Field, eu não me senti muito à vontade com suas idéias. Talvez um dia eu venha a pesquisar um pouco mais e tentar compreendê-lo, mas com uma coisa eu tenho que concordar com o “guru da roteirização”: se o filme não tem um bom conflito, ele não rende. E é exatamente deste mal que sofre “Wild Tigers I Have Known”.

Sobre a trama: Logan é um garoto de 13 anos meio deslocado. Só tem um amigo, é silencioso e sua mãe parece meio desleixada. Mas, mais do que isso, Logan sente-se atraído por um cara mais velho de sua escola e se masturba frequentemente pensando no rapaz. Além disso, sua escola está em estado de alerta, porque fica nos arredores de um bosque, onde vivem alguns leões-da-montanha.

Provavelmente essa premissa seria mais que o suficiente para algum roteirista/diretor realizar um filme interessante sobre amadurecimento e descoberta da própria sexualidade. Mas o diretor Cam Archer (que também assina o roteiro) acha mais legal apontar o dedo pro personagem principal e dizer “ele é gay, ó!”. E os primeiros quarenta minutos são exatamente isso: Logan andando sozinho pra cima e pra baixo, sem falar com ninguém, deitando no meio do mato, se masturbando e sonhando acordado com Rodeo, o cara com quem ele fantasia. Ou seja, o conflito do filme é o fato de Logan ser gay.

Não é por nada mas, por mais que ainda vivamos em uma época bastante preconceituosa, eu não acredito que “ser gay” seja um conflito bom o bastante para um filme. Pensem comigo: filmes como “Monster”, “Milk” e (claro) “Brokeback Mountain” eram protagonizados, sim, por personagens que tinham relacionamentos homossexuais, mas não era esse o ponto. O conflito era maior do que a simples sexualidade. Aí Cam Archer faz um filme focado na questão da sexualidade de um garoto de 13 anos mas esquece de um detalhe básico: seu personagem não vê isso como um problema. Ele não sofre por sentir atração sexual pelo colega mais velho. Muito pelo contrário, ele procura uma forma de se aproximar do cara para, finalmente, abrir o jogo e ver se o rapaz também é gay e se sente algo por ele. Aliás, aí pode existir um conflito bem mais interessante, mas o diretor simplesmente joga isso pra escanteio, porque pra ele é mais legal filmar mais uma cena do Logan se masturbando ou usando as maquiagens da mãe ou se travestindo. A essência do personagem desvanece na busca imbecil do diretor.

No meio dessa encrenca toda temos, portanto, um personagem que não sabe muito bem o que está fazendo. Tudo naquela estética a la Gus Van Sant (que é produtor desse filme): planos intermináveis em árvores, prédios, pátios de escola. Mas Gus Van Sant sabe como lidar com essa estética e não deixou a peteca cair em “Last Days”. Cam Archer, longe de ser Van Sant, precisa colocar pontuais falas de “estou entediado” para que seus personagens lembrem o público que tudo é parado e monótono porque assim são as vidas dos mesmos. E deve ser verdade mesmo… eu, pelo menos, detestaria morar em uma cidade onde só tem uma escola e um bosque.

Enfim, o erro maior de Cam Archer é querer ilustrar a dor e o desolamento de alguém que não se incomoda nem um pouco com o deslocamento. O resultado é um filme aborrecido, sem alma e que enche a boca pra dizer absolutamente nada.

Mas a música da Emily Jane White é bonita.

1/4

Murilo Lopes de Oliveira

Anúncios

9 Comentários

Arquivado em Resenhas

Crime e Paixão (Hustle – Robert Aldrich, 1975)

Aldrich passou a maior parte da carreira dirigindo filmes de gênero para estúdios de Hollywood e enquanto isso, já que não tinha toda liberdade do mundo pra falar na lata aquilo que pensava, trabalhou de diferentes formas os arquétipos de gênero procurando pontuar esses trabalhos com algumas observações mais incisivas sobre a sociedade, a violência, a paranóia das relações humanas em tempos de pós-guerra – e vá lá, em todos os tempos – e as situações limites em que muitas vezes o homem se encontra e que podem despertar nele reações extremas e perigosas. Com o sucesso de Os Doze Condenados, feito para a MGM no final da década de 1960, Aldrich ganhou muito dinheiro, e como era doido de pedra – não daquela pedra, pelo menos até onde sei – torrou toda grana abrindo uma produtora própria pra fazer os filmes que queria do jeito que desse na telha e sem dever nada a ninguém.

Ele é um cara fodão em praticamente todas as fases de sua filmografia, mas ver um filme de Aldrich pós-68 é uma sensação tão intensa quanto transar sem camisinha com prostitutas gostosas e  cleptomaníacas num beco de um bairro barra-pesada de Nova York. Você está de cara com algumas questões-chave para a degradação social tão trabalhada pelo cinema americano da década de 1970, e como Aldrich está muito distante de ser um cineasta cínico – como um Haneke, por exemplo – existe em seus filmes uma áurea impassível de indignação e revolta com toda essa merda que acontece diariamente, um posicionamento de alguém realmente puto com a realidade que não se omite nem faz de conta que mora num castelo nos Alpes e observa tudo como se estivesse acima de todas as coisas.

Nesse sentido, e pra acabar de vez com a enrolação, Crime e Paixão é um filme de síntese tão extremo quanto funcional. Aldrich assim como seu protagonista, um detetive que precisa resolver o caso do assassinato de uma atriz adolescente de filmes pornôs, passa o filme inteiro tentando fugir de sua “missão” – contar a história de uma investigação, que na verdade só começa no final – e nos convida a percorrer as ruas de uma metrópole para observar e eventualmente confrontar os mais variados tipos de corrupção moral e social – assassinato, estelionato, drogadição, prostituição, aliciamento de menores, assaltos, estupros, vingança, seqüelas de guerra, enfim, o protagonista está no front contra a delinqüência e as merdas do mundo e quanto mais tenta se afastar delas mais parece ser engolido por este redemoinho aparentemente insolucionável de instabilidade social.

O personagem de Burt Reynolds é visivelmente a representação carnal da própria indignação de Aldrich, a materialização de um momento em que ele resolveu chutar o tal do balde e mandar tudo pra puta que pariu. Quanto mais tenta se esconder da sujeira e da escória (parafraseando Travis Bickle pra ficar bonito) mais ela o procura – e visto que é apaixonado por uma prostituta, ainda assim, parece realmente estar disposto a deixar certas coisas de lado com a expectativa de que tudo um dia possa ser diferente. Mas Aldrich é um pessimista, e com esse filme sujo, feio – esteticamente inclusive, o que para quem conhece Aldrich é perceptivelmente um afronte do diretor – e cheio de amoralidades não nega que aqueles valores que busca resgatar estão ameaçados, mas que eles existem. Era este o dilema de Aldrich, um homem que saudava os novos tempos com uma raiva tremenda, mas que sabia que esta raiva que sentia não representava necessariamente a maldade intrínseca do homem, mas apenas sua indignação com o fato de que as coisas não eram do jeito que queria que fossem – a cena de violência/amor bruto dele com a prostituta é genial nesse sentido. As ações estão ligadas com temperamento e emotividade, e não são fruto de uma equação matemática – te educaram dum jeito, vai ser daquele jeito a vida toda, etc. Sim, eu tinha que cutucar A Fita Branca, mas foda-se, o que eu queria dizer mesmo é que Aldrich é foda!!!!!!!!! [/piada interna mode off].

4/4

Daniel Dalpizzolo

18 Comentários

Arquivado em Comentários

Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds – Quentin Tarantino, 2009)

Não costumo gostar de ensaios de fatos históricos – e menos ainda quando a resolução destes fatos são peças importantes dentro da narrativa – porque são sempre simplesmente tratados como fatos, o que é mau para o cinema. Como Operação Valquíria, do talentoso Bryan Singer. Toda vez que algo assim acontece, eu torço – mesmo sabendo que é inútil – pro cara pirar o cabeção, e uma vez em um milhão de vezes tudo que eu queria e que achava impossível acontecer na tela, acontece. Se Tarantino tivesse dirigido A Paixão de Cristo, Pedro pularia na frente da cruz com granadas e uma AK-47 dizendo “say hello to my little friend”, ou algo assim.

O Christoph Waltz é a personificação da mola propulsora de todos os grandes momentos do filme, mesmo quando ele não está lá (como na cena da taverna). O texto, os gestos, os olhares e os movimentos da câmera, todos escritos para dizerem o oposto do que estão dizendo (o que talvez seja a principal característica do film noir), e que faz de cada momento um momento a menos antes que tudo vá pelos ares, uma iminência dosada de modo genial, a raiz de toda a tensão propagada em Bastardos Inglórios (o cap. 1 já te deixa sem nervos pra continuar). Waltz hipnotiza, é simplesmente bom ficar olhando enquanto ele fala. Pitt tá fantástico também (e de novo. a essa altura acho que ninguém questiona que o cara é um dos grandes dos últimos anos)

Das referências, é sem dúvida o principal filme do Tarantino, e eu tô pouco me fodendo se o cara é arrogante e prepotente enquanto continuar combinando o talento a esses adjetivos. Porque é muito bom que haja lá fora alguém com prestígio e habilidade que esteja fazendo o que, no fundo, todos nós que curtimos cinema adoraríamos fazer. Parece uma criança brincando de ser ora Leone, ora John Ford, Godard, Ferrara ou De Palma. Como brincávamos de ser o Romário ou o Ronaldo (eu era o Paulo Nunes, sempre), assim como quase dá pra visualizá-lo rindo e apontando o dedo todo empolgado sempre que ouve alguém dizer “Antonio Margheriti”, ou vê alguém polindo (ó que fofo) as letras do nome de Henri-Georges Clouzot.

Não concordo que seja a obra-prima, ao menos hoje não. Ainda acho Kill Bill um ponto de equilíbrio perfeito dentro da filmografia do Tarantino. Mas é isso, alguns vários excelentes momentos costurados pelo amor sempre tateável ao cinema na forma de um texto perfeito (quem disse que não era importante?…), de travellings deslumbrantes (dentro da sala de cinema, principalmente), de decisões criativas que eu aplaudo de pé e, acima de tudo, do domínio absoluto sobre todos os objetos – seja a câmera, a luz, a cor, o ritmo, os atores – que gravitam submissos ao redor dele. Master of his domain. (referências o/)

4/4

Luis Henrique Boaventura

Screenshots!

A mise-en-scène vive. Aqui um belo exemplo do que se pode fazer dando um blow up num mesmo quadro. Os espelhos e a iluminação que traça contornos fosforescentes do primeiro, a harmonia perfeita do círculo e do balanço de vermelhos no segundo, o reflexo se sobrepondo ao cartaz do lado de fora no terceiro, e as várias meias-luas do último num crescendo sutil em direção à belíssima Mélanie Laurent.

ou: Bastardos Inglórios (Quention Tarantino, 2009) – Marcelo Dillenburg – 4/4

ou: Bastardos Inglórios (Quentin Tarantino, 2009) – Vinícius Laurindo – 4/4

11 Comentários

Arquivado em Comentários, screenshots

Onde Vivem os Monstros (Where The Wild Things Are – Spike Jonze, 2009)

Esse filme causou um efeito estranho comigo, o primeiro acho que a palavra mais certa é agradecimento, ao Jonze, por ter conseguido algo que eu ainda não tinha visto no cinema, que é a perfeição em transformar em imagem todo o universo fantástico que é a mente de uma criança, esse universo que não tem limites. Foi uma viagem mesmo ao meu próprio imaginário, de quanto tinha uns 5, 6 anos, da época em que tudo ganhava outra conotação, outra dimenssão, onde formas comuns poderiam ganhar tons fantásticos, onde lugares comuns poderiam se transformar em cavernas, castelos, fortalezas submarinas e etc, e isso sem ao menos precisar fechar os olhos. Onde a brincadeira se torna tão real que por vezes tu se emociona com ela, tu fica com medo dela. E o legal mesmo é que ele não filma isso de uma forma superficial, no sentido de apenas entregar a idéia, não, ele realmente se entrega, ele faz algo semelhante ao Lynch quando puxa seus pesadelos pra tela, só que aqui regressa até a infância e puxa os sonhos (e até pesadelos) da forma mais fiel possível, que é transbordando pureza, que é realmente entendendo o imaginário de uma criança. E monstrando em imagens isso.

E tem o outro efeito que causou em mim, que eu não vou chegar a dizer que é desagradável, mas sim estranho. É o afastamento, o quanto distante aquilo que eu vejo na tela está com o que eu me tornei hoje. Quando eu saí do cinema falei pra minha amiga que se eu tivesse assistido esse filme com os meus 5 anos, seria o filme da minha vida, mas agora, pensando melhor, eu acho que ele é justamente pra quem já passou por isso, uma última oportunidade que o Jonze te da de relembrar o teu inconsciente infantil. E falo relembrar mesmo, não viver, e é por isso que digo que é estranho. Pq tu entra nesse universo com o cinismo que tu adquiriu, um certo cinismo que fica impossível desvincular. Tu sorri enquanto vê eles brincando de guerra de lama, ou construindo uma fortaleza com pedaços de árvore, mas não se emociona da forma que se emocionaria caso ainda fosse uma criança, no sentido de desejar estar vivendo aquele momento. O que tu sente é semelhante a olhar uma gravação antiga tua, criança, em um churrasco de familia, na piscina, etc, só que aqui ele filma o que não poderia ser filmado, o que tu lembra vagamente em ter “passado”, em ter “existido”, mas não poderia ter sido feito por um registro de câmera. Bom, agora ele fez.

Repetindo, eu ainda não tinha visto isso no cinema. Poderia citar A História Sem Fim como um filme que se aproxima nesse sentido, mas não, o que acontece nesse aqui transcende tudo isso. Esse filme tem que ser respeitado.

3/4

Thiago Duarte

2 Comentários

Arquivado em Comentários

Mother (Madeo – Bong Joon-ho, 2009)

nullnull null

Não é melhor que Memórias de Um Assassino apenas pq isso é impossível, mas se aproxima muito. Esse Joon-ho, ele é um ignorante. Ainda ta pra existir um cara que consiga transbordar personagens com tanta intensidade como ele. E esse nem muda muito em relação aos outros que assisti do cara, aqui se troca a família em busca da garotinha na toca do monstro, ou dos detetives em busca do assassino, pela mãe em busca da absolvição do filho. Buscando cegamente isso, assim como em todos os outros, só que não é a justiça que ela busca, apenas a segurança dele, e explora os limites da intensidade desse sentimento, que certamente é dos mais apaixonados que podem existir, provavelmente o mais. Não deve existir pessoa mais capaz que o Joon-ho pra tratar dessa figura, desse vulcão feroz, cego, que pode ser o coração de uma mãe. Ele consegue fazer com que tudo seja perdoado, ou pelo menos apaziguado, colocando esse coração como bandeira, como justa causa. É daqueles filmes que fazem tu sentir por tudo e por todos, a sensação de aperto vem de todos os lados, como se não existisse uma solução, e deixar quieto talvez seja o mais próximo da satisfação que tu possa sentir. Ele cria um monstro e um anjo ao mesmo tempo, faz com que tu odeie e ame no mesmo segundo, as mesmas figuras. É muito talento que esse coreano tem.

4/4

Thiago Duarte

2 Comentários

Arquivado em Comentários

Screenshots! – Expresso Para Berlim (Berlin Express – Jacques Tourneur, 1948)

null
null
null
null
null
null
null
null
null
null
null
null

4 Comentários

Arquivado em screenshots