Arquivo do mês: janeiro 2009

Foi Apenas um Sonho (Sam Mendes, 2008)

Pode-se fazer um paralelo com esse filme e Beleza Americana (que é bom, mas não mereceu tantos Oscars assim). Principalmente na questão envolvendo “a ilusão do sonho norte-americano”, só que aqui essa imagem é transportada para os anos 50. Ou seja, ter uma bela casinha num lugar bucólico, ter um emprego, filhos, uma bela esposa que cuida do lar e dos filhos, enfim, tudo que era considerado o modelo de perfeição naquela época.

Acontece que, ao contrário do seu filme oscarizado, Sam Mendes não investe na ironia e mergulha de cabeça no drama dos protagonistas em querer sustentar este sonho norte-americano. E muito do sucesso desse longa pode ser creditado à fotografia do Roger Deakins que, através do jogo de luzes, ressalta o estado de espírito dos protagonistas, que estão bem (mas nada digno de nota). É curioso também notar que, no meio desse turbilhão de emoções, o único que tem pela consciência de que esse modelo perfeito não existe é o personagem interpretado por Michael Shannon.

Pena que Sam Mendes resolve diminuir o impacto da sua obra nos minutos finais, onde ele simplesmente deixa explícito, sem a maior necessidade, o epílogo da tragédia que se desenhava durante o filme. Caso terminasse o filme cinco minutos antes, teríamos um impacto muito maior, um final muito mais elegante e interessante, sem a necessidade de desenhar com todas as letras a mensagem do filme.

2/4

Adney Silva

ou: Foi Apenas um Sonho (Sam Mendes, 2008) – Thiago Macêdo Correia – 1/4

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Museu de Cera (Andre de Toth, 1953)

É curioso como o cinema de horror dos anos 50/60, apesar de ser claramente definido como B, reserva incontáveis supresas. Esse filme, que é uma refilmagem de “Os Crimes do Museu”, de 1933 (com o Oscarizado Michael Curtiz na direção) é um claro exemplo.

Além de conter a primeira atuação de Charles Bronson em frente as câmeras (sem dizer uma palavra, mas mostrando a que veio) e de ter o mestre Vincent Price (em um dos seus primeiros trabalhos no cinema de horror) com sua imponente presença, o filme, em seus pouco mais de 80 minutos, traz um conto de horror bem contado e redondo em sua direção, além de trazer uma direção de arte e cenografia de dar inveja a muitos filmes mais abastados (a casa do escultor, em especial, é um deleite para os olhos, por conta das esculturas de cera).

Vale lembrar, como curiosidade, que House of Wax também é conhecido por sua técnica inovadora na época: o cinema 3D. Em determinado momento do filme, uma sequência em especial foi filmada de forma proposital para enfatizar os efeitos tridimensionais, onde um homem faz diversos malabarismos com uma bola amarrada por um fio em uma raquete, em frente ao museu de cera para chamar a atenção do público em conferir o espetáculo. Ele faz uma série de movimentos com a bola e raquete dando a impressão de acertar as pessoas que estão assistindo o filme sentadas nas poltronas do cinema.

Tudo isso é contado a maneira habitual dos filmes de terror dessa época (aposta do terror e suspense constante, em detrimento a tendências mais gore; uso intensivo da trilha sonora – em especial o teremim – para enfatizar o clima de terror; alguns maneirismos de câmera típicos do expressionismo – mesmo se tratando de um filme colorido), resultando num filem que, se não é a oitava maravilha do mundo, se torna interessante de se assistir, por mostrar como uma mente inteligente e até certo ponto brilhante pode-se se tornar louca e vingativa por conta de eventos trágicos e, especialmente, por termos a lenda Vincent Price mostrando todo o seu talento.

O que, infelizmente, não se pode ser dito sobre a refilmagem que fizeram 50 anos depois. Por que insistem em estragar os clássicos??

3/4

Adney Silva

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A Casa dos Maus Espíritos (William Castle, 1958)

Pois é, enquanto o nosso editor-chefe mergulha profundamente nos giallos e seus realizadores italianos, eu vou mais fundo na história do terror e mergulho nos clássicos filmes B produzidos na era de ouro do cinema fantástico (além é claro do grande realizador nacional José Mojica Marins).

Antes do slasher ser apresentado ao cinema por Mario Bava com seu Banho de Sangue, antes dos giallos italianos serem sinônimos de terror e suspense cinematográfico, antes do slasher ser apropriado pelos norte-americanos na década de 80, tivemos uma outra época de ouro para o gênero. Nas décadas de 50 e 60, através de estúdios menores (como a Allied Artist, Hammer ou a Amercian International Pictures), cada um com os seus atores-chaves (como Peter Cushing para a Hammer, ou Vincent Price para a Allied), diretamente oriundos do cinema B, com orçamentos e cronogramas apertadíssimos, mas uma criatividade intensa, vários realizadores como William Castle, Roger Corman e Richard Mathelson, conseguiram produzir filmes interessantíssimos, que influenciaram (e influenciam) muito do que é feito no gênero até hoje.

Um dos gêneros mais explorados no subgênero de horror nessa época eram as “casas assombradas por espíritos malígnos”. Dentro desse sub-gênero, que se iniciou no final dos anos 50 e que, mesmo um pouco “fora de moda” nos dias de hoje, teve representantes significativos (como Poltergeist, de Tobe Hooper, e O Iluminado, de Stanley Kubrick), um dos maiores representantes é sem sombra de dúvida é House of the Haunted Hill, protagonizado pelo ator-símbolo Vincent Price.

Uma das coisas mais interessantes nesse filme (e que é comum em várias obras desse gênero) é a realização de um suspense constante e totalmente satisfatório através de um roteiro comum, mas que explora todas as características do gênero, aliados a direção segura de William Castle, além do uso habitual e eficiente da fotografia escura, da trilha naturalmente opressiva e ambientação sóbreia, proporcionando um horror psicológico, subjetivo ao filme. Mas o maior trunfo do longa se chama Vincent Price. O sua interpretação shakesperiana, aristocrática, que imprimia aos seus personagens, se mostrava perfeito para as produções B do gênero. E aqui não foi diferente.

Mas tudo isso não levaria o filme a ser um dos maiores sucessos de bilheteria na época se não fosse a campanha maçica de marketing imprimida por Castle (que também era produtor do longa). Provávelmente um dos primeiros a aplicar uma agressiva campanha de marketing no mundo do cinema, Castle utilizou um dispositivo especial para assustar o público nas salas de exibição, um sistema batizado de “Emergo”, que consistia num esqueleto humano iluminado movimentado por um complexo mecanismo de polias, cordas e correias, que era arremessado por cima das pessoas justamente na cena do filme onde um esqueleto emergia de um tanque de ácido. Em vários outros filmes ele se utilizou dessa abordagem agressiva, para promover uma maior interação entre o espectador e a obra exibida, com truques que, apesar de serem de execução simples e, até certo ponto, rudimentares, alcançavam o seu objetivo.

Após quase 50 anos após a sua realização, o filme soa, em certos momentos, datado, especialmente pela interpretação teatral (que era comum nos filmes da época) dos atores. Entretanto, ao percebermos que muitos dos filmes atuais do gênero se utilizam de litros e litros de sangue e vísceras para transportar o espectador numa atmosfera de medo e pavor (antes que me tacam pedras, não tenho nada contra os slashers. Só que nem sempre é a melhor opção), é sempre bom olharmos para os pioneiros, e perceber que o terror não necessáriamente precisa dos tons rubros para a sua realização, basta uma boa ambientação e um controle do ritmo da história a ser contada.

Pressinto que esse será apenas a primeira de muitas resenhas desse gênero.

3/4

Adney Silva

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Schock (Shock – Mario Bava, 1977)

Mommy, i have to kill you.

Arquitetura do medo em estado puro. Estão ali, todos os insights, todos os conceitos, toda a matéria-prima pra se um dia você resolver fazer um filme com uma atmosfera insuportável e manter o espectador na palma da sua mão, já saber por onde começar. É impressionante como nada foge ao controle do mestre, como todas as decisões tomadas em todos os momentos certos podem levar uma historieta imbecil ao status de obra de arte do horror italiano.

Em Schock, Mario Bava não apenas pratica a fina arte da sugestão como corresponde à cada insinuação oferecendo algo muito maior do que parecia inicialmente. Ele gasta em torno de uma hora preparando terreno, brincando, jogando com o público, provocando sua sede além do limite só pra em seguida afogá-lo numa imersão climática que não oferece nem permite uma fuga. Os últimos dez minutos, principalmente, são poderosíssimos, além do climão surreal onipresente e reforçado por uma seqüência mais criativa que a outra naquele que talvez seja o filme mais inventivo do cara, considerando a crueza do ambiente e do próprio potencial que a trama oferecia.

Schock é o filme de despedida de Mario Bava numa carreira que nasceu tarde e sequer completou o 20º aniversário, deixando, afinal, a impressão de que talvez não precisasse. A herança e a influência de Bava ainda estão para ser devidamente atestadas, assim como seu talento pra manipulação (que é bem dizendo a habilidade básica do cineasta) e sua estranha capacidade pra amplificar-se ilimitadamente. Foi absoluto como artesão das cores e dos movimentos, no despudor pra torcer e desfigurar a narrativa, pra construir atmosferas que sustentavam-se sozinhas, para encerrar sua trajetória exatamente da maneira que merecia. Porque Schock é obra-prima-ponto-final.

4/4

Luis Henrique Boaventura

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Lista de Indicados ao Oscar 2009

Mais um ano, mais um Oscar, mais polêmica, e todo aquele climão e falatório que a gente adora. Pra celebrar a maior festa do cinema (em sua 81ª edição), o Multiplot! está preparando uma cobertura especial que vai ao ar dia 9 de fevereiro, menos de duas semanas antes da cerimônia. Artigos, resenhas dos indicados e edições especiais dos Tops! , tudo pra ir aquecendo até a noite de entrega do careca.

Segue abaixo a lista. O Curioso Caso de Benjamin Button larga na frente com 13 indicações. Destaque também para a lembrança póstuma a Heath Ledger, cujo aniversário de morte, coincidentemente, é hoje. Ledger foi tema no Especial James Dean, relembre o ator no belo texto de Thiago Macêdo Correia.

De resto, que acharam da lista desse ano? Concordam? Discordam? Os votantes da Academia precisam morrer? Falem aê:

Melhor filme:
– “Quem Quer Ser um Milionário?”, de Danny Boyle
– “Frost/Nixon”, de Ron Howard
– “O Curioso Caso de Benjamin Button”, de David Fincher
– “Milk – A Voz da Liberdade”, de Gus Van Sant
– “The Reader”, de Stephen Daldry

Melhor diretor:
– Danny Boyle – “Quem quer ser um milionário?”
– Ron Howard – “Frost/Nixon”
– David Fincher – “O curioso caso de Benjamin Button”
– Gus Van Sant – “Milk – A voz da liberdade”
– Stephen Daldry – “The reader”

Melhor ator:
– Mickey Rourke – “The wrestler”
– Sean Penn “Milk – A voz da liberdade”
– Frank Langella – “Frost/Nixon”
– Brad Pitt – “O curioso caso de Benjamin Button”
– Richard Jenkins – “The visitor”

Melhor atriz:
– Meryl Streep – “Doubt”
– Kate Winslet – “The reader”
– Anne Hathaway – “O casamento de Rachel”
– Angelina Jolie – “A troca”
– Melissa Leo – “Frozen river”

Melhor ator coadjuvante:
– Heath Ledger – “Batman – O cavaleiro das trevas”
– Josh Brolin – “Milk – A voz da liberdade”
– Robert Downey Jr. – “Trovão tropical”
– Philip Seymour Hoffman – “Doubt”
– Michael Shannon – “Revolutionary road”

Melhor atriz coadjuvante:
– Amy Adams – “Doubt”
– Penélope Cruz – “Vicky Cristina Barcelona”
– Viola Davis – “Doubt”
– Taraji P. Henson – “O curioso caso de Benjamin Button”
– Marisa Tomei – “The wrestler”

Melhor longa de animação:
– “Wall.E”
– “Kung Fu Panda”
– “Bolt – Supercão”

Melhor filme em língua estrangeira:
– “Revanche”, de Gotz Spielmann (Áustria)
– “The class”, de Laurent Cantet (França)
– “The Baader Meinhof Complex”, de Uli Edel (Alemanha)
– “Waltz with Bashir”, de Ari Folman (Israel)
– “Departures”, de Yojiro Takita (Japão)

Melhor roteiro original:
– “Frozen river”
– “Na mira do chefe”
– “Wall.E”
– “Milk – A voz da liberdade”
– “Happy-go-lucky”

Melhor roteiro adaptado:
– “O caso curioso de Benjamin Button”
– “Doubt”
– “Frost/Nixon”
– “The reader”
– “Quem quer ser um milionário?”

Melhor direção de arte:
– “A troca”
– “O curioso caso de Benjamin Button”
– “Batman – O cavaleiro das trevas”
– “A duquesa”
– “Revolutionary road”

Melhor fotografia:
– “A troca”
– “O curioso caso de Benjamin Button”
– “The reader”
– “Batman – O cavaleiro das trevas”
– “Quem quer ser um milionário?”

Melhor mixagem de som:
– “O curioso caso de Benjamin Button”
– “Batman – O cavaleiro das trevas”
– “Quem quer ser um milionário?”
– “Wall.E”
– “Procurado”

Melhor edição de som:
– “Batman – O cavaleiro das trevas”
– “Homem de Ferro”
– “Wall.E”
– “Procurado”
– “Quem quer ser um milionário?”

Melhor trilha sonora original:
– Alexandre Desplat – “O curioso caso de Benjamin Button”
– James Newton Howard – “Defiance”
– Danny Elfman – “Milk – A voz da liberdade”
– Thomas Newman – “Wall.E”
– A.R. Rahman – “Quem quer ser um milionário?”

Melhor canção original:
– “Down to Earth”, de Peter Gabriel and Thomas Newman – “Wall.E”
– “Jai Ho” de A.R. Rahman – “Quem quer ser um milionário?”
– “O Saya”, de A.R. Rahman e Maya Arulpragasam – “Quem quer ser um milionário?”

Melhor figurino:
– “Austrália”
– “O curioso caso de Benjamin Button”
– “A duquesa”
– “Milk – A voz da liberdade”
– “Revolutionary road”

Melhor documentário de longa-metragem:
– “The betrayal”
– “Encounters at the end of the world”
– “The garden”
– “Man on wire”
– “Trouble the water”

Melhor documentário de curta-metragem:
– “The conscience of Nhem En”
– “The final inch”
– “Smile Pinki”
– “The witness – From the balcony of room 306”

Melhor edição:
– “O curioso caso de Benjamin Button”
– “Batman – O cavaleiro das trevas”
– “Frost/Nixon”
– “Milk – A voz da liberdade”
– “Quem quer ser um milionário?”

Melhores efeitos especiais:
– “Batman – O cavaleiro das trevas”
– “Homem de Ferro”
– “O curioso caso de Benjamin Button”

Melhor maquiagem:
– “O curioso caso de Benjamin Button”
– “Batman – O cavaleiro das trevas”
– Hellboy II – O exército dourado”

Melhor animação de curta-metragem:
– “La maison en petits cubes”
– “Lavatory – Lovestory”
– “Oktapodi”
– “Presto”
– “This Way Up”

Melhor curta-metragem:
– “Auf der strecke (On the Line)”
– “Manon on the asphalt”
– “New Boy”
– “The Pig”
– “Spielzeugland (Toyland)”

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Screenshots! – Minority Report (Steven Spielberg, 2002)

Murilo Lopes de Oliveira

Minority Report é azul. É uma ficção científica baseado em K. Dick que referencia e reverencia Kubrick. Spielberg cria belos quadros num futurismo frio, onde um homem corre pra provar uma inocência que ele não sabe se realmente possui, contra um sistema que ele mesmo exaltava. Um dos melhores trabalhos de Spielberg… em azul!

*texto: Minority Report (Steven Spielberg, 2002) – Vinícius Laurindo

Clique nas imagens para ver em tamanho original:

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A Troca (Clint Eastwood, 2008)

Contrariando uma própria expectativa ruim, eu me vi absolutamente estarrecido ao final – e ao longo também – de Changeling, pela surpresa grandiosa que foi ver que o filme de Clint Eastwood nada tinha de convencional, acadêmico ou burocrático, como cheguei a ouvir (e, talvez, acreditar). Changeling é um exercício de linguagens, utilização de métodos que buscam um funcionamento maior de estudo de personagens e nisso a narrativa varia entre a evidência e o improvável.

Li agora um texto do Eduardo Valente em que ele cita a chave clara de compreensão do que está sendo filmado por Eastwood. Nele, Valente cita que em determinada cena no hospício “fica claro então que ele não está falando aqui da luta do indivíduo contra a instituição/o sistema, mas sim do Homem (encarnado aqui numa mulher, mas não só ela) frente ao inexplicável”. E o inexplicável é o próprio medo, a própria obstinação, a insegurança; a injustiça no final das contas mais parece um pequeno ponto em tanto horror explicitado na tela (e a palavra “horror” foi outra perfeita citação do Eduardo Valente). Diante de um ser desconhecido, Christine (a personagem de Angelina Jolie, em uma atuação precisa e nada exagerada, como muitos disseram), parece ela mesma o mal (a fotografia já como marca do diretor, em meio a sombras, o posicionamento de câmera), uma improvável classificação de vítima que não ordena a definição do que se passa com aquele personagem.

Changeling é um filme aberto, é um filme para ser sentido por quem ver, não como pura manipulação massificada (como a ordem da classificação melodramática poderia parecer), mas como trabalho de um autor ainda interessado em entender os seres que caminham pelo mundo à margem da estrada iluminada. Clint Eastwood fez outro grande filme, desses que parece um milagre de cinema que somente um artista superior poderia conduzir de tal modo. Incrível!

3,5/4

Thiago Macêdo Correia

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