Arquivo do mês: novembro 2008

Operazione Paura (Mario Bava, 1966)

Bava apenas orquestra a mais poderosa opressão atmosférica da história do cinema. Não tem explicação. São 80 minutos do que há de mais puro, selvagem e sensorial; um cinema que se comunica pela cadência do coração e pela linguagem dos poros.

Logo que o sol se põe, o filme mergulha num deslumbrante pesadelo. Em Operazione Paura, há outro mundo por trás das coisas, um mundo irreal e alucinógeno que só se revela no escuro de uma meia-noite, e que só chegou perto de ser tão bem trabalhado quanto aqui em Depois de Horas, do Scorsese, e A Hora do Lobo, do Bergman. É esse ar feérico e macabro de dimensão paralela que é tão talentosamente usado como matéria-prima da atmosfera inacreditável construída por Mario Bava e que entorpece e confunde e dilacera os sentidos.

E cada plano é arquitetado pelo mestre como uma tela, porque via de regra o homem que começou como pintor posiciona a câmera em um canto obscuro do cenário e realiza a mágica da luz, do som e do movimento que seus ex-colegas nunca sonharam, dando vida (como Kubrick em Barry Lyndon, mas superior) a um universo que é claramente propriedade das tintas, das molduras e da imaginação, porque chega um dado momento em que você não distingue mais se o vento realmente sopra na cena ou se os seus ouvidos já interpretam como verdade o que é apenas sugerido pelo ambiente.

E as cores, apesar de menos carregadas que no trabalho sensacional feito em Seis Mulheres Para o Assassino, compõe-se de uma harmonia muito mais precisa e diabólica jogando o filme no ralo daquele redemoinho lisérgico operado nas escadarias, ou pelo labirinto entre as salas, ou por qualquer outra fenda que se abra para a fábula entre uma ou outra via da realidade, porque Operazione Paura é tudo isso, é completo a representação fantástica e saturada de um sonho/um surto/um estado orgásmico de loucura escrito no verso da madrugada sob a razão encantada de um feiticeiro e de sua câmera.

Um dos dez maiores do mundo inteiro.

4/4

Luis Henrique Boaventura

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Stalker (Andrei Tarkovsky, 1979)

“Quando o homem nasce, é fraco e flexível; quando morre é impassível e duro. Quando uma árvore nasce, é tenra e flexível; quando se torna seca e dura, ela morre. A dureza e a força são atributos da morte; a flexibilidade e a fraqueza são a frescura do ser. Por isso, quem endurece, nunca vencerá…”

Esta é talvez a maior desconstrução de um lugar comum para revelar o que pode ser uma verdade absoluta. É um diálogo que sai da boca de um dos protagonistas, o único “crente” que, diante de uma força que ele não compreende totalmente, embora acredite nela, leva-o a respeitar a autoridade, a imponência desta força, a famosa “Zona”, acompanhado de um escritor e um cientista, ambos incrédulos, mas admitidos de suas encucações existenciais, buscando o verdadeiro sentido de suas existências.

Tarkovski dirige como nunca vi ninguém dirigir um filme antes. Aqueles que acham que Kubrick é “lento demais” em seus filmes, irão vê-lo como um Michael Bay após assistir um Tarkovski. Stalker tem 163 minutos de duração onde ocorrem poucos acontecimentos, mas nesses poucos acontecimentos, Tarkovski desnuda a forma como o ser humano enxerga o mundo e seus mistérios, sejam eles físicos ou espirituais não deixando pedra sobre pedra. Para o diretor, só é possível o ser humano compreender a sua existência quando ele assume a sua impotência diante do mundo e de tudo o que ele significa e acredita que há algo mais do que os olhos podem ver. Neste sentido, Tarkovski é especialmente cruel com os “incrédulos”, aqueles que não conseguem compreender que há mais coisas entre o céu e a terra do que imagina nossa vã filosofia. Tarkovski trabalha com a infelicidade tanto de crentes como com a de descrentes. Mas é direto: mesmo num quadro geral de infelicidade e miséria, os descrentes são mais infelizes do que os crentes. Num mundo cada vez mais cético, Stalker poderia representar um “despertamento” não para o misticismo, não para o sobrenatural irracional, mas para a espiritualidade intrínseca a todo ser humano, que, se estimulada corretamente, o ensina a negar a si mesmo em prol do outro, contribuindo para uma harmonização do indivíduo não só para com o seu próximo, mas para com o mundo que o cerca, onde para Tarkovski (e para o cristianismo, a fé do diretor) está a verdadeira felicidade, o sentido da vida, mesmo em um mundo sépia, desolado, com uma sociedade desesperançosa e cética.

4/4

Daniel Costa

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Screenshots! – Os Intocáveis (Brian De Palma, 1987)

Jailton Rocha

Brian De Palma registra magistralmente em todos os detalhes a Chicago da década de 30.

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Fim dos Tempos (M. Night Shyamalan, 2008)

Quando eu vi esse filme pela primeira vez no cinema eu fiquei totalmente sem saber o que falar depois, foi aquela sensação “bah, não é horrível, o Shyamalan sabe filmar e tal, mas…” não sabia o que pensar de pessoas correndo de plantas. Mas a merda é que ele não saía da minha cabeça, não por alguma mensagem oculta que eu começava a desvendar ou algo assim, mas pq eu lembrava das cenas nas casas, dos suicidios, daquela ingenuidade dos personagens, etc… e achava bem agradável (sei lá como definir). Mas ainda tinha essas plantas, essa mensagem de “sozinhos não somos ameaças” e um monte de coisa que me enchiam demais. E aí nessa revisada foi tudo pro espaço e surtei com o que tava vendo (e sério, era hilário demais, eu mal conseguia acreditar).

Existe um certo personagem no filme (aquele na imagem do centro – que provavelmente não foi interpretado pelo Shy só pq ele não teria a cara cômica que esse exigia), que considera hot dogs subestimados, já que possuem proteinas e não sei o que e é ele (e apenas ele) que nos fala que as plantas estão se rebelando contra os humanos. Parece absurdo no inicio, e ninguém mais adere essa teoria. Ninguém desconfiaria que o que poderia causar essa epidemia suicida seria a mãe natureza em uma atitude de auto preservação eliminando as ameaças do mundo, nós humanos. Mas claro que pra um sujeito que se questiona por que Hot Dogs não são comidos de manhã, tarde e noite, esse tipo de pensamento não se torna algo tão absurdo, e então ele fala que são as plantas as responsáveis, e na falta de uma explicação melhor (ou qualquer outra explicação) os personagens se agarram a essa possibilidade, e começa então a batalha incessante entre duas raças: humanos contra arbustos. Mas não pensem que será fácil, já que eles têm o vento ao seu favor (filhas da puta!). Enquanto isso nós reclamamos da imbecilidade do roteiro em fazer com que plantas hipnóticas lancem seus pózinhos ao vento fazendo com que nós humanos tenhamos que fugir dele para não cometermos suicidio. Ah sim, mas há outro requisito, apenas sofre as consequências quem esteja em um grupo grande (mas isso não foi o cara do hot dog que falou, isso foi outra teoria lançada por um dos personagens, quando um grupo maior cometeu suicidio enquanto o dele não, já que a única explicação racional (?) para isso seria que as plantas não atacam quando não se sentem ameaçadas, hmmm). E nós continuamos achando imbecil ver plantas assassinas cumplices do vento.

Os personagens se agarram desesperadamente há uma explicação qualquer, por mais absurda que seja, apenas para ter novamente o controle da suas vidas “eu vou me matar pq as plantas querem assim”. Eles pensam isso quando estão frente a frente com o desespero da morte, precisam de uma explicação para se sentirem melhores, enquanto que com nós é a mesma coisa, embarcamos no racíocinio deles, de que as plantas estão se sentindo ameaçadas e por isso despejam toxinas seiláoque na atmosfera (de novo, méritos para o cara do Hot Dog), apenas para termos novamente o controle do filme. Acreditar nesse absurdo faz com que você tenha as redeas novamente, e assim consiga malhar com mais propriedade. Não basta o filme ter cenas fantásticas como as dos corpos caindo da construção,ou da arma que vai passando de mão em mão, ou do carro com um rasgão no teto,ou da casa da velha, ou da casa do sujeito com a 12, ou ver pessoas fugindo delas mesmas com medo do que possam fazer a si próprios, ou até correndo do vento achando que plantas estão lançando toxina nele (isso não é engraçado pq achamos que eles estão certos, caso contrário o filme fica sem explicação) etc. Aquela explicação das abelhas no início do filme parece mastigadinho demais “pra onde foram as abelhas? Importa pra onde foram as abelhas?” etc, mas é isso mesmo. É o trabalho mais egocentrico do Shyamalan, uma birra com todos que reclamavam de seus roteiros, tipo A Vila, Sinais etc “eram ruins? Ok,o que será que vão dizer de plantas assassinas, hein?”. Quando falam que a intenção do Shyamalan era realmente fazer um filme B, ou um filme ruim, eu discordo, o que pareceu pra mim é que ele faz de tudo pra desviar os olhares, fazer com que você preocupe com uma coisa que é extremamente imbecil, enquanto poderia apenas curtir idiotas fugindo de si próprios morrendo de forma extremamente original. É mais ou menos o oposto com o que ele costuma fazer com os outros filmes, onde é sempre criticado por seus roteiros, por suas pretensões na mensagem, aqui ele faz o oposto, faz com que você fique tentando bancar o Sherlock para descobrir o pq de tudo aquilo, enquanto que o que realmente interessa está pulsando na tela. É mais ou menos o chute do balde do Shy. Cada cena envolvendo um suposto ataque de planta ele trata com um to irônico, as vezes aumentando a trilha de uma forma totalmente desproporcional, ou com algum diálogo hilário (pra alguns involuntariamente, pra mim bem voluntário), e até imagino ele se deliciando ao ver críticas que apontam que é idiota ter plantas assaim no filme (e não falo isso como sendo positivo, acho ele bem bestão, mas esse humor funcionou comigo nesse, em A Dama não deu muito certo). A intenção é totalmente idiota (no sentido de “pegadinha para crítico que me crítica”) mas o resultado foi visualmente fantástico.

Mas quado o assisti pela primeira vez o que eu mais estranhei foi o aparente descaso do Shy com os personagens. Se pegar qualquer outro dos seus filmes anteriores, ele os tratava com total admiração, respeito, ficava evidente que ele adorava cada um deles (o garotinho do sexto sentido, o cara do corpo fechado, a bryce, etc) e nesse aqui ele pega dois tipos totalmente wtf, pelo menos foi o que pareceu pra mim no ínicio. Agora até isso já considero um acerto, ele pega os próprios protagonistas pra alivio cômico, não se preocupa em coloca-los em situações idiotas (como a fala com a planta, ou a mulher no filme todo, ou até correndo do vento), usa díalogos cheesy (o que não é propriamente uma novidade na carreira do Shy,mas enfim), em dois adultos de uma ingenuidade tão infantil que chega a ser agradável (pelo menos funcionou comigo agora). Enfim, essa revisada fez extremamente bem pra mim,considero a cena da velha se suicidando uma das melhores da carreira do cara, e esse aí já entra pros meus preferidos junto com Corpo Fechado, Sinais e A Vila.

4/4

Thiago Duarte

ou: Fim dos Tempos (M. Night Shyamalan, 2008) – Sílvio Tavares – 2/4

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Lisa e o Diabo (Lisa e il Diavolo / Lisa and the Devil – Mario Bava, 1973)

Lisa e il Diavolo é a alegoria substancial da perdição humana, entregue e rendida num pesadelo paralelo aos feitiços de um manipulador mais terrível, mais pervertido e articulado, cheio de um bom humor como manifestação quase sexual do seu talento: Mario Bava.

Se o senso comum nos traz os autores sempre como deuses onipotentes de seus mundos, Bava faz questão de ser o diabo, e na verdade é próprio desses italianos a exploração basicamente da mesma história de personagens jogados num labirinto de lâminas e de sangue sem outra saída possível que não seja o próprio inferno, e por isso que Lisa e o Diabo é tão impressionante, tão diferente. Banho de Sangue, Terror nas Trevas e até Tenebre são todos exercícios pulsantes de inventividade, documentos de apologia total à criatividade e à imaginação acima de todas as coisas, mas é em Lisa e o Diabo que Bava se volta totalmente para a própria obra, desvelando com um olhar interno sobre os mecanismos, artifícios e engrenagens deste discurso de absolutismo autoral.

É a partir deste princípio que Bava construiu aquela que provavelmente é a mais perfeita síntese da ação de um criador sobre suas criaturas, divertindo-se ilimitadamente, como antes e como outros, num universo próprio onde todos os personagens são marionetes à mercê da mais pura, da mais perfeita e mais nuclear definição que se pôde algum atribuir à liberdade. Queimem o que os poetas escreveram, Bava celebra o próprio poder em cada centímetro quadrado da sua obra-prima. São pouco mais de 90 minutos transcorrendo num universo onde o tempo inexiste. Uma atmosfera de cores e de luzes que se amplifica e se desconstrói pelas ordens do mestre. E é uma composição mais deslumbrante que a outra, um plano mais cuidadoso e obsessivo de quem se viu apaixonado pelo seu próprio cinema.

Lisa e o Diabo é uma ode, uma ópera de Mario Bava a si mesmo e à vazão ininterrupta da maldade que no plano da imaginação e do teatro é finalmente livre para fluir conforme o paladar carnívoro do demônio que uns preferem esconder, outros, celebrar sob os ritos sangüíneos de um verdadeiro estupro cinematográfico.

4/4

Luis Henrique Boaventura

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Screenshots! – O Novo Mundo (Terrence Malick, 2005)

Djonata Ramos

Quem gosta de cinema e não curtir essas imagens, é bom arranjar outro hobby.

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Screenshots!

Pessoal, novidade no Multiplot!. A partir de hoje, toda a terça-feira, é dia do Screenshots!, quadro onde celebraremos a beleza bruta do cinema e a devoção religiosa à sua essência: a imagem. A criatividade e o apuro técnico e artístico dos grandes mestres em planos fantásticos, enquadramentos extraodinários, composições de cena fodáças dos filmes mais bonitos do mundo. E como achamos que nossos filmes favoritos merecem essa homenagem, estamos convidando outros dez blogs para participar.

Por aqui, um membro da equipe por semana postará de 5 a 10 screenshots do filme que ele bem entender, comentando ou não. Toda a terça, combinado? Que comece a bagaça!

Barry Lyndon (Stanley Kubrick, 1975)
Luis Henrique Boaventura

Ah, sério, não dáva pra estrear com outro. Eu até imagino a cena, o Kubrick andando pelos corredores de um museu qualquer “hm, bons quadros, pena que não se movimentam e… opa, mas peraê” e resolveu encher de vida aquelas paisagens impossíveis e personagens pautados do mistério com tinta nas veias. Porque era essa a especialidade do filho da mãe: realizar o irrealizável.

*texto: Barry Lyndon (Stanley Kubrick, 1975) – Rodrigo Jordão

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Convites:

Blog dos Cinéfilos
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Cinema-filia
Dementia 13
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No Escuro e Vendo
O Pássaro das Plumas de Gardenal
O Século da Luz
Olhar Implícito
Talking About Movies

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