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A Dama Fantasma (Phantom Lady – Robert Siodmak, 1944)

Um paradoxo ambulante. Todo o primitivismo narrativo e a ingenuidade já pouco comum em meados de anos 40 em conluio com um insight mais radical que o outro. A cena em que Kansas segue o barman pelas ruas de Nova Iorque é uma coisa de outro mundo em termos de composição de planos, de iluminação e de ritmo, mas o troço mais absurdo é a parada de 3 minutos que Siodmak faz em um quartinho com uma banda de jazz destruindo a altas horas da madrugada pra plateia nenhuma, onde rola uma espécie de onomatopeia visual pra uma impensável cena de sexo entre a mulher e o bateirista. Outra solução fantástica é a cena da morte do mesmo bateirista, quando o assassino se levanta cobrindo com o corpo a única réstia de luz da cena, literalmente o apagando do filme.

Pena A Dama Fantasma estar em pedaços, e os longos e aborrecidos hiatos entre uma grande ideia e outra impedem de concebê-lo como uma unidade. Não se trata de uma irregularidade planejada como em Baixeza ou Os Assassinos; apenas consequência de uma limitação imposta por provável falta de autonomia. Ainda assim, no cinema, vale mais um único ponto alto que uma linha sempre estável e consistente de mediocridade.

2/4

Luis Henrique Boaventura

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Top! Film Noir (Especial Anthony Mann)

O Especial vai passando do seu primeiro terço e, entrando na década de 50, Anthony Mann encerra sua contribuição para um dos principais capítulos do cinema clássico americano. A quem não conhece tanto do diretor, vale dizer que sua obra no film noir não é de modo algum menos importante que sua fase no western. Portanto, pra oficializar essa virada de página, nada melhor que um bom e velho top de gênero.

Luis Henrique Boaventura

01. No Silêncio da Noite (Nicholas Ray)
02. A Sombra da Guilhotina (Anthony Mann)
03. Fuga do Passado (Jacques Tourneur)
04. Almas Perversas (Fritz Lang)
05. A Marca da Maldade (Orson Welles)
06. À Beira do Abismo (Howard Hawks)
07. O Segredo das Jóias (John Huston)
08. O Quimono Escarlate (Samuel Fuller)
09. Na Teia do Destino (Max Ophüls)
10. Os Assassinos (Robert Siodmak)

Daniel Dalpizzolo

01. No Silêncio da Noite (Nicholas Ray)
02. A Marca da Maldade (Orson Welles)
03. A Morte Num Beijo (Robert Aldrich)
04. A Lei dos Marginais (Samuel Fuller)
05. No Silêncio de uma Cidade (Fritz Lang)
06. O Império do Crime (Joseph H. Lewis)
07. À Beira do Abismo (Howard Hawks)
08. A Força do Mal (Abraham Polonsky)
09. Fuga do Passado (Jacques Tourneur)
10. Pecado Sem Mácula (Anthony Mann)

Ranieri Brandão

01. Fuga do Passado (Jacques Tourneur)
02. A Morte num Beijo (Robert Aldrich)
03. A Marca da Maldade (Orson Welles)
04. Almas Perversas (Fritz Lang)
05. O Grande Golpe (Stanley Kubrick)
06. À Beira do Abismo (Howard Hawks)
07. Cinzas que Queimam (Nicholas Ray)
08. Baixeza (Robert Siodmak)
09. Entre Dois Fogos (Anthony Mann)
10. Anjo do Mal (Samuel Fuller) / Sombras do Mal (Jules Dassin)

Fernando Mendonça

01. Almas Perversas (Fritz Lang)
02. A Dama de Shangai (Orson Welles)
03. Chinatown (Roman Polanski)
04. O Terceiro Homem (Carol Reed)
05. O Homem Errado (Alfred Hitchcock)
06. Pacto de Sangue (Billy Wilder)
07. Moeda Falsa (Anthony Mann)
08. Amarga Esperança (Nicholas Ray)
09. Baixeza (Robert Siodmak)
10. O Destino Bate à Sua Porta (Bob Rafelson)

Vlademir Lazo Corrêa

01. A Marca da Maldade (Orson Welles)
02. A Morte num Beijo (Robert Aldrich)
03. No Silêncio da Noite (Nicholas Ray)
04. Almas Perversas (Fritz Lang)
05. Laura (Otto Preminger)
06. O Império do Crime (Joseph H. Lewis)
07. Raw Deal (Anthony Mann)
08. Curva do Destino (Edgar G. Ulmer)
09. Pick up on South Street (Samuel Fuller)
10. O Mundo Odeia-me (Ida Lupino)

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A Sombra da Guilhotina (Reign of Terror / The Black Book – Anthony Mann, 1949)

De tempos em tempos – e em intervalos cada vez mais largos – surgem esses objetos sobrenaturais como A Sombra da Guilhotina, que te fazem revisar a aplicabilidade de adjetivos como “obra-prima” e toda aquela gama de superlativos carnavalescos que a gente adora usar por aí. Apesar de que é complicado, há três meses que eu venho me apaixonando pelo cinema do Mann numa regularidade que já me fez colocá-lo ao lado de Tourneur, Hawks, Bava e todos os meus outros 492 diretores favoritos. Hoje mesmo revi O Homem dos Olhos Frios (que aguarda texto do Vlad aqui no mp), e comentava com o Dan como não sabia escolher um só na filmografia do cara. Como é que eu vou pôr Winchester acima de O Homem do Oeste, ou Tall Target acima de Devil’s Doorway… Se eu fizesse uma lista de Manns, o top 1 se estenderia até o 7º ou 8º filme. Mas isso foi antes.

A Sombra da Guilhotina (ou “No Reino do Terror”, como também aparece em alguns lugares, ou “The Black Book”, fazendo referência ao mcguffin) é obra absoluta. Tem no espírito o film noir que dominou a criação do diretor durante a década de 40, mas não é um noir, é um drama histórico que remonta os últimos dias do “Reino do Terror” e da queda de Robespierre na Revolução Francesa, mas também não é um drama, é um suspense de fritar os nervos a cada diálogo e cada traição, conspiração e reviravolta da trama que Mann manipula como se estivesse fazendo pizza; mas se for um suspense, é também um horror recheado de subterfúgios com fotografia expressionista, atmosfera medieval e cantos escuros de onde saem braços, revólveres e todo tipo de objeto cortante; mas se fosse mesmo um horror genuíno, não teria espaço pra um romance clássico conduzido por uma mulher que traga o protagonista pro seu próprio campo de gravidade como uma legítima femme fatale faria; e se estamos falando de femme fatale, estamos falando é de film noir, ou não, enfim, não sei de mais nada. Se pedir pra traçar uma linha de “A Sombra da Guilhotina” até o seu “respectivo gênero”, ou sub-gênero, ou pseudo-gênero que o fosse, qualquer pedaço de cartilha ou lista de características que oferecesse uma posição plausível de como definir o que não pode ser definido, eu acabo é me enforcando com a linha. Como disse no início, absoluto.

A condução da coisa também é algo que eu vou ficar anos tentando entender. A Sombra da Guilhotina é um bolo de elementos, é como se alguém pegasse mostarda com morango com calda de chocolate com uma jaca bem grande + o peixe que sobrou da sexta-feira santa, jogasse tudo no liquidificador e conseguisse servir o drink mais refinado de todos os tempos. E a porra do filme tem 86 minutos.

Daí que mesmo que o Mann conseguisse entregar o melhor de cada fragmento de gênero e pedaço da trama com êxito completo (pro romance temos duas ou três cenas-chave, pro desenvolvimento da parte histórica temos o prólogo, pra estabelecer antagonismo 5 segundos bastam. É fazer demais com quase nada), ainda assim é preciso algum tipo de bruxaria ou macumba do Zé Caolho pra reger cada menor detalhe como quem rege uma orquestra [/clichês de críticas de cinema = off], caso contrário uma coisa atravessa à frente da outra, a outra se coloca sobre a uma, a uma atropela a primeira, e o que era pra ser o maior samba do crioulo doido segue como se nem houvessem centenas de elementos pra coordenar. A Sombra da Guilhotina desfila ao longo da curta metragem como se fosse o filme mais normal do mundo, é uma loucura. Como Romário fazendo gol de cabeça com 1,68, como Garrincha jogando aleijado, como um imbecil enfiando analogias futebolísticas num texto sobre cinema e achando que tá tudo certo.

E já que narrar A Sombra da Guilhotina é 3º segredo de Fátima – eu não tenho idéia de como ele consegue, vou catar os momentos. Trata-se de um filme pleno e limpo como obra completa, ok, mas também se trata de uma sequência ininterrupta de momentos brilhantes do início ao fim. Sendo estupidamente seletivo, consegui reduzir bastante coisa a 50 screenshots de 7 cenas diferentes. Como é coisa demais (e dá trabalho, acreditem, eu não faria se não valesse a pena), coloquei em outra página que pode ser acessada pelo link abaixo. Até porque é lá que esse texto termina:

Screenshots!

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Mercado Humano (Border Incident – Anthony Mann, 1949)

É realmente incômodo, após assistir boa parte do que Anthony Mann filmou nos anos 40, perceber como seu cinema é pouco discutido ou sequer lembrado. Para mim, este contato mais profundo com Mann está sendo não somente um dos marcos de meu 2010, mas uma oportunidade de reflexão singular desse ato delicioso que é simplesmente escrever sobre um filme, convidar ao debate, fazê-lo sobreviver para além do tempo de projeção. E se em todos os filmes que eu comentei de Mann por aqui tive motivos para incentivá-los (vocês mesmo) a conhecerem seu cinema de perto (vão logo assistir esses filmes!), agora, mais do que nas outras vezes, impera em mim o desejo de que outras pessoas passem pelo que eu passei ao assistirMercado Humano, filme ao qual posso, sem medo nenhum, chamar de obra-prima.

Pela primeira vez posso estar realmente dispensado de falar mal de atores, roteiros ou qualquer outro problema de produção, porque Mercado Humanodá conta de tudo isso e vai muito além; tanto que também já não adianta falar de noir ou de como Mann se aproximava descaradamente do western, porque este é um filme tão moderno que ultrapassa a condição de gênero. Muito mais do que pensar uma renovação em Mann, ainda que ela ocorra em todos os sentidos, encontramos aqui um filme que convida a uma reavaliação do próprio cinema nos idos dos anos 40, ou por que não, do que ainda hoje abordamos, retratamos e questionamos com o cinema.

Em primeiro lugar, sobre a renovação de Mann, podemos centrá-la em dois eixos que partem diretamente do lugar narrativo, lugar por excelência do diretor: o objeto narrado, pois uma história, até então, nunca tinha sido tão importante em seu cinema (como vimos, seu maior trabalho era driblar a mediocridade dos enredos, conseguindo, por milagre, transformá-los em estudos da alma), e o objeto que narra, pois enfim o tratamento estético particular de Mann não precisa entupir apenas minutos iniciais ou finais, podendo agora ocupar toda e qualquer cena da totalidade do filme (sinceramente, chega dá medo o que ele faz com a câmera aqui, principalmente nos closes… É como se tocássemos Dreyer, como se todos os planos de uma imagem, até os mais distantes, transmitissem a impressão do estar em close).

Em segundo lugar (e para mim mais importante), Mercado Humano pode ser encarado como uma obra de transição do próprio cinema americano, um ápice do clássico que dá continuidade a um projeto de cinema o qual podemos enxergar o início lá em 1940, no eterno Ford de Vinhas da Ira. É preciso contextualizar que o filme de Mann narra os problemas com a imigração ilegal dos mexicanos para o território americano, e como alguns deles se submetiam a uma espécie de tráfico humano para conseguir adentrar na desejada nação, uma espécie de retorno à escravidão (sinceramente, poucos temas são mais atuais do que esse ainda em 2010). Como em Ford, deparamo-nos com homens que foram destituídos da terra, expulsos de uma geografia insana, pairando incertos por um mundo que já não encontra lugar digno para que eles sobrevivam. E se em 1940 Ford agregou toda a crueldade da América naquela cena monstruosa onde víamos um trator demolir a casa de uma família e prosseguir até passar por cima da sombra daquelas pessoas atropelando qualquer esperança que poderia lhes restar, em 1949 Mann encerra a década com uma das mais violentas cenas que o cinema já concebeu, permitindo que um dos homens infiltrados entre os mexicanos para desmascarar o tráfico seja atropelado por outro trator aos olhos de seus amigos e, muito pior, aos nossos olhos. Com esta cena – e muitas outras, e muitos outros filmes – Mann confirma ser um cineasta da desesperança.

Enfim, vou controlando aqui minha vontade de escrever mais pra sobrar um tempinho de ir rever o filme – se bem que esse deve ser um daqueles ao qual revisitarei sempre, por toda vida. E apesar de este ser meu último texto previsto para esta primeira parte do Especial (spoiler de planejamento, tem mais coisa vindo pela frente), não estou querendo criar nenhum ar de despedida. O problema é que eu não consigo me desapegar daquela sensação tremenda que é ver um filme e sentir que preciso por um tempo me despedir do mundo corriqueiro para viver mais. Tchau.

4/4 (com vontade profunda de marcar 5/4)

Fernando Mendonça

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Railroaded! (Anthony Mann, 1947)

Quando começamos a assistir Railroaded! temos praticamente certeza: eis uma das melhores coisas que Mann fez. Mas em pouco tempo a sensação vai se dissipando, diminuindo, indo, indo, ao ponto de quase pensarmos: eis um dos piores de Mann. Até que chegamos ao final junto com a convicção: NINGUÉM É COMO MANN! Esse emaranhado de emoções e reações ao filme pode ser iluminado por uma breve cena do mesmo, quando o casal de vilões está comemorando a perfeição de seu crime; ele, conta o dinheiro roubado, ela, deseja as notas; sedutoramente ela o envolve sobre o sofá e enquanto o beija tenta tomar-lhe o dinheiro com a mão livre… Exatamente o que Mann faz, mas ao contrário da beldade, consegue êxito. Mais uma vez, fica muito claro que os olhos de Mann estão nas condições disponíveis (atores e roteiro ruins, o que já se tornou lugar comum – tá, aqui estão piores), mas suas mãos estão enganando tudo isso, contrariando os tramites da produção para encontrar seu desejo: o cinema.

Como meu espaço é limitado vou logo para o que interessa nesse filme, a última parte dele, aproximadamente os 15 minutos finais (para quem se importa em saber eu não me importo com spoilers, já vou avisando…).

Em contrapartida ao chavão popular de que todo western de Mann não deixa de ser noir, aqui percebemos que já no noir Mann filmava westerns. Os criminosos daqui são como os bandidos do Oeste, os investigadores como xerifes, todos num preto e branco psicológico justificado pela soberania cinzenta da imagem, esta sim, dúbia. E atenção naquele casal de vilões! Que sacanagem Mann apronta com eles (Dan, você estava certo). São impagáveis cada uma de suas aparições, cada tapa desferido, cada aperto de braço, cada ímpeto e desejo expresso pela violência de seu contato (ah, essa deliciosa simbolização do sexo). E são justamente eles quem nos conduzem ao glorioso encerramento. A inesperada morte da vilã (eu avisei…), provocada pelo disparo seco do amante, inicia tudo. Aliás, um momento de rara beleza, tanto da atriz (Jane Randolph) como da própria filmagem (o lenço que ela arranca do bolso dele ao cair morta lembra o desabrochar de uma flor). Esse tiro antecipa outros, igualmente secos e certeiros, e é aí que entramos de uma vez por todas em território western.

O duelo final no restaurante escuro e vazio, com as cadeiras empilhadas sobre as mesas do recinto, corrobora a ambiência dos melhores saloons que o cinema já teve. E se lá pelo meio do filme, o investigador principal (Hugh Beaumont, um grande imbecil) ressalta que não lhe importam os sentimentos e sim as evidências, aqui Mann joga tudo pra cima (noir, evidência, lógica) para fazer o que sabe melhor com um câmera: sentir. É bem verdade que em seu próximo filme (T-Men) ele levará à sério este ascetismo contra os sentimentos (aí sim, com sucesso), por isso é muito bom encontrar neste um delírio voluntário, um verdadeiro gozo da câmera pela situação construída. Com o decorrer do tiroteio e a heroína baleada nós mesmos chegamos a desistir e incentivar: isso Mann, mata todo mundo, destrói o resto do cenário, acabe com os pontos de luz, faça o que quiser, mas continue fazendo…

Um filme que prova: Mann não precisa ser perfeito para ser imortal, basta ser ele mesmo.

3/4

Fernando Mendonça

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Desesperado (Desperate – Anthony Mann, 1947)

Nunca negamos que isso aqui é casa de louco (o último texto do Luis bem comprova isso, hehe), então vou começar a falar de Desperate pelo final. Uma porque o texto é meu e eu começo com o que eu quiser, e outra pelo simples fato de que aqueles 20 minutos são das melhores coisas filmadas por Mann, o que também significa que estamos diante de um cinema de apuro visual, narrativo e, ahn, sensorial (na falta de um termo melhor porque enfim, estou escrevendo isso tudo com o notebook no colo em um ônibus quicando numa estrada cheia de panela – e o motorista quase atropelou uma velha em cima duma faixa de segurança o que talvez possa ser um sinal) limítrofes, que impressionam como poucos e ao mesmo tempo dão uma vontade imensa e quase incontrolável de pegar um bastão de baseball e arrebentar o televisor de raiva por saber que jamais seria capaz de fazer uma coisa tão foda assim.

Em qualquer uma de suas fases Mann foi um grande precursor, e se percebe vendo sua carreira como um todo que ele realmente explorou das melhores formas as possibilidades de se extrair tensão e profundidade das cenas que filmava (o texto é tão bom e confiável que eu falei que começaria falando sobre a seqüência final e nem mencionei ela ainda). Mas enfim, a seqüência final, ou as duas seqüências finais (final-final mesmo é apenas uma, mas enfim[2]), é uma coisa absurda, capaz de resultar nesse descontrole todo que vocês tão presenciando (se é que alguém ainda tá lendo isso). Leone pra filmar Três Homens em Conflito deve ter visto Desperate de trás pra frente umas cinco vezes por dia durante seis semanas, ou se filmou sem olhar deve ter sido alertado mais tarde, olhado e depois batido na mesa e gritado “merda! Alguém conseguiu antes de mim”. Tarantino, como bom e aplicado cinéfilo que é, certamente também deu uma olhadinha pra cá ao filmar a seqüência inicial de Bastardos Inglórios ao redor de mesas e envolvendo conflitos com diálogos na defensiva e copos de leite.

A dilatação do tempo nessa tal seqüência em que mocinho e bandido estão frente a frente em uma mesa e separados por um relógio (daqueles barulhentos e chatos pra porra que contam os segundos) é de fazer vibrar, apertar o travesseiro, roer as unhas (não vejam com gente ao lado, pode acontecer alguma tragédia). O jogo de campo e contra campo, com cortes secos passando de rosto em rosto, o tique do relógio que vai tomando conta do ambiente e praticamente engole a ação até restar nada mais que closes em rostos suados e olhos apreensivos emoldurados pela fumaça do cigarro que empunha um dos personagens e que vão cercando o espectador e projetando aquela sensação de que a imagem vai resgar em duas é coisa do nível daquele duelo do Leone ao final de Três Homens ou da inquisição do caçador de judeus, e não é brincadeira. E se fosse vocês só saberiam vendo, então vejam, e constatem também como Mann é um gênio em transgredir regras de gênero e faz de Desperate um estado de confluência entre céu e inferno, acertos e erros, onde a mais romântica das ações é seguida de uma perseguição ou assassinato e tudo acontece com a maior das naturalidades como se fizessem parte de um mesmo pólo. E não fazem? Os filmes b da velha Hollywood sintetizavam a vida, diz que não.

4/4

Daniel Dalpizzolo

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Strange Impersonation (Anthony Mann, 1946)

Alguém aí já olhou para o espelho e teve a impressão de estar se enxergando pela primeira vez? Isso não é uma coisa que acontece sempre. Apesar de diariamente esbarrarmos em espelhos não é todo dia que, de fato, nos olhamos. Não consigo deixar de pensar Strange Impersonation como um filme em que Mann se dedicou a refletir este estranhamento do olhar pra si mesmo, do alguém que num ato involuntário enfrenta um processo de auto-descoberta em proporção tamanha, capaz de alterar não só o rumo da própria vida, mas do mundo ao redor.

Poucas vezes o cinema de Mann terá aberto semelhante rastro de destruição moral, apto mesmo a ser incluído na categoria baziniana de uma estética da crueldade. Isso porque sua espantosa protagonista Nora (Brenda Marshall), ao olhar-se no espelho, vê não somente a maldade mundana na qual está mergulhada, mas descobre-se igualmente capaz de dissimular, mentir e destruir; descobre-se humana. O acidente que lhe desfigura o rosto é o que lhe permite enxergar; e toda a transformação que enfrentará só será possível por esta irremediável perda, não a perda de uma pele, a qual será reconstituída com perfeição pela ciência, mas a perda de um olhar anterior, de uma inocência original.

Acompanhar a progressão da carreira de Mann nesta década negra é deixar o queixo cair e ver como questionamentos fundamentais ao homem foram abordados na dinâmica de seu olhar nada inocente. Um cinema de queda, de avesso, de contrários, por mais que a agilidade de seu bem-narrar disfarce tais conteúdos (outra face da subversão).

Um olhar superficial poderia facilmente acusar este filme por sua superficialidade. É impossível não se pegar rindo com alguns ‘descuidos’ tanto de roteiro (coincidências e acasos que beiram o sobrenatural, médicos que fumam numa sala de cirurgia) como de decupagem (inacabamento de alguns cortes, postura anti-natural dos atores), mas quando chegamos ao final de tudo também não dá pra ignorar como cada elemento foi coerentemente elaborado de acordo com o descuidado mundo criado por Mann, como dito, um mundo avesso. Cada inverossimilhança plantada em suas imagens condiz com o inverossímil da alma, nesse sentido, Mann nunca esteve mais próximo de Lang, que na mesma época legou um dos cinemas mais malditos que já se conheceu (aliás, este é um filme irmão de The Woman in the Window – 1944; não aprofundo a comparação pra não estragar a surpresa). E como em Lang, o que vemos aqui é uma manipulação que excede o tratamento cinematográfico, através de uma lógica desconexa e imprevisível, pautada por uma espécie de Destino (sim, o mesmo dos gregos).

O olhar de Nora ao espelho é um olhar de convencimento, de quase desistência, principalmente depois que o reflexo converte-se no expressivo julgamento que lhe assolará a derradeira impressão de felicidade. Aqui, Mann deixa muito claro que descrer na esperança é sua maneira de não sucumbir, de não desistir junto à personagem, iluminando um novo esclarecer de sua insistência ao noir. O cinema, mais do que um ato de criação (e para que assim o seja), também destrói, desfigura. E não são muitos os diretores que têm a coragem de declarar isso. Apesar de esbarrarmos com filmes diariamente, não é todo dia que, de fato, encontramos o cinema.

4/4

Fernando Mendonça

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