Arquivo da tag: Filmes

Screenshots! – Emboscada (Lured – Douglas Sirk, 1947)

por Fernando Mendonça

Alguém aí consegue imaginar Douglas Sirk filmando Boris Karloff?
Podem acreditar, isso existe. E o medo também…

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A Dama Fantasma (Phantom Lady – Robert Siodmak, 1944)

Um paradoxo ambulante. Todo o primitivismo narrativo e a ingenuidade já pouco comum em meados de anos 40 em conluio com um insight mais radical que o outro. A cena em que Kansas segue o barman pelas ruas de Nova Iorque é uma coisa de outro mundo em termos de composição de planos, de iluminação e de ritmo, mas o troço mais absurdo é a parada de 3 minutos que Siodmak faz em um quartinho com uma banda de jazz destruindo a altas horas da madrugada pra plateia nenhuma, onde rola uma espécie de onomatopeia visual pra uma impensável cena de sexo entre a mulher e o bateirista. Outra solução fantástica é a cena da morte do mesmo bateirista, quando o assassino se levanta cobrindo com o corpo a única réstia de luz da cena, literalmente o apagando do filme.

Pena A Dama Fantasma estar em pedaços, e os longos e aborrecidos hiatos entre uma grande ideia e outra impedem de concebê-lo como uma unidade. Não se trata de uma irregularidade planejada como em Baixeza ou Os Assassinos; apenas consequência de uma limitação imposta por provável falta de autonomia. Ainda assim, no cinema, vale mais um único ponto alto que uma linha sempre estável e consistente de mediocridade.

2/4

Luis Henrique Boaventura

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Chamas que Não se Apagam (There’s Always Tomorrow – Douglas Sirk, 1956)

Da overdose de filmes do Douglas Sirk que sofri nos últimos dias, com certeza, a que me deixou mais seqüelas foi a do assombroso “Chamas que Não se Apagam”. Um melodrama puro, pleno como somente Sirk era capaz de fazer. A narrativa de um homem perfeito (Fred MacMurray), com vida perfeita (lar, esposa, filhos, emprego…) que de repente se vê atormentado pelo passado na figura de uma antiga paixão (Barbara Stanwyck), é de uma transparência constrangedora. Seu monólogo durante a desesperada declaração de amor que faz a esta, dá boa demonstração da amargura que o filme instaura:

“Falei com você e fui para casa. Vivo nela há anos. Sinto-me à vontade lá. Sentei, tentei ler o jornal, relaxar, mas não pude, Norma. De repente, me desesperei em minha própria sala. Senti-me preso numa tumba feita por mim mesmo, como se os anos fossem pedras a fechá-la. E eu vivo, querendo fugir. Vivo e querendo você!”

Mas o que mais me impressionou foi o uso do P&B, tão soberbo quanto os melhores technicolors que Sirk legou na mesma década (dentre os maiores de todo o cinema). Chega a ser dolorosa a criação de abismos negros que a fotografia causa nos rostos dos atores, bastando pra isso um movimento, um close, um gesto de amargura das situações vividas. Sirk é bastante cruel ao afundar seus personagens nestas sombras e quase faz do melodrama um derivado do horror, algo que não seria estranho a um homem que enxergava na classe média americana um reflexo de sua original sociedade alemã, aquela que gerou Hitler.

E tem quem ache que o gênero está limitado ao que as telenovelas cospem.

4/4

Screenshots!

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Screenshots! – O Gato de Nove Caudas (Ill Gatto a Nove Code – Dario Argento, 1971)

por Luis Henrique Boaventura

Dizem que estava no roteiro. “Homem de terno pega trem na estação”. Argento leu e entendeu isto aí:

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A Bela Junie (La Belle Personne – Chistophe Honoré, 2008)

Havia na Nouvelle Vague sobretudo um reconhecimento de todo o cinema que veio antes. Reconhecimento da maturidade, certamente. Muito já se falou da reedição que Christophe Honoré faz do “movimento” francês em seus filmes, mas o que na verdade existe ali é uma edição da paixão que os cineastas do período nutriam pelo cinema. A paixão de Honoré parece ser por aquela época e não pela própria paixão que movia os filmes.

A Bela Junie, por exemplo, é um filme sem pai, logo, um filme sem conselhos. É um filme sobre jovens sem adultos (até os professores são quase colegas, vide aí Louis Garrel) ao redor que tomam por maiores todos os problemas que enfrentam. Não há aquela balança moral (ou amoral, tanto faz) que nos distraia e nos aprofunde de fato em alguma coisa.

Honoré não consegue construir bem a personagem-título ao ponto em que o que vemos não passa de uma má encenação de um problema que não existe (o encontro final entre Junie e o professor de Louis Garrel é de uma falha tremenda de construção de discurso), onde um rosto possuidor de uma expressão erradamente já pretende se valer como o todo.

1/4

Ranieri Brandão

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Em Paris (Dans Paris – Christophe Honoré, 2006)

Um filme com homens. De homens para homens, homens que sofrem, que gozam, que choram, que vivem…

A sensibilidade da vida costuma estar muito presente em filmes ‘femininos ‘ (As horas como exemplo mais evidente pra mim), e é verdade, em se tratando de arte parece absurdo querer sexualizar uma obra ou a forma como ela afetará seus receptores. Mas isso é um fato: raros são os filmes que se atrevem a mostrar homens com tanta sensibilidade…

A masculinidade é um aspecto complexo, muito mais do se imagina. A idéia de “ninguém entende as mulheres”, eu acho, surgiu apenas para desviar o foco desses seres confusos, retraídos, endurecidos e orgulhosos que são os homens. Nesse sentido Honoré surge como um candidato a especialista dos homens (os outros filmes dele comprovam isso). Temos nesse filme, três homens lapidares, os dois irmãos e o pai (Guy Marchand), um núcleo familiar já diferente do convencional, unidos pela lembrança da irmã mais nova, que um dia decidiu se suicidar. Os três parecem agarrar-se para sobreviver à tragédia, para se convencerem de que vale à pena viver, para se motivarem a continuar chorando e sorrindo, enfrentando em cada dia seu mal.

um filme que faz eu me apaixonar um pouco mais pela vida. Remédio certo para dias melancólicos e felizes, amigo para todas as horas; nesse filme um ombro para compartilhar um pouco de mim.

4/4

Fernando Mendonça

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RoboCop (Paul Verhoeven, 1987)

As primeiras imagens de RoboCop, de Paul Verhoeven, sugerem que nossa visão foi vencida. Tudo é visto pelo filtro da imagem televisiva – gasta, logo irônica, porque estamos num futuro em que um certo tipo de imagem (a publicitária), pelo contrário, ganhou – que nos dá conta de tudo o que precisamos saber sobre o mundo a ser construído (ou melhor a ser vivido visceral e grosseiramente) pelo filme.

O segmento desta imagem é o que realmente choca. Se somos deixamos aos cuidados das notícias para explicar um mundo e ao olhar clássico destruído pelas imagens destas notícias, o incômodo maior é saber que nosso herói, Robocop, possui um mesmo mecanismo de olhar este mundo-ao-redor – seus olhos funcionam como uma TV de notícias sobre tudo aquilo que se move à sua frente.

Na verdade, a falha é que este projeto, do robô que combate o crime, é um crime em si: não consegue destruir totalmente a resistência das velhas lembranças tormentosas (que são sentidas pelo protagonista, apenas) através de tudo o que é grosseiro no cinema de Verhoeven e na sua crença em mostrar todo tipo de saliências e sangue para confirmá-lo com precisão. Trata-se aí de um grande filme sobre um futuro perdido em nossa própria inteligência sacana.

3,5/4

Ranieri Brandão

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