Arquivo do mês: outubro 2008

O Filme de Nick (Wim Wenders & Nicholas Ray, 1980)

vlcsnap-30201.png picture by danfou

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O que Ray e Wenders tramam em Lightning Over Water é impressionante, visceral e provavelmente inigualável. Se o fascínio do cineasta alemão pela morte do Cinema tomaria-lhe a obra anos mais tarde, sua melhor e mais consistente observação sobre o tema continua aqui, neste pequeno exercício conceitual em que ambos exploram os limites da mídia como forma de registrar os últimos momentos em vida de Nick, pouco antes de ser abatido pelo câncer que lhe fragilizava há anos – a morte literal não é da própria arte, mas de um de seus mais importantes fundamentadores, cabe então à dupla radicalizar estética e narrativa para provocar a ruptura do classicismo tão de perto sonhado em deixar para trás.

Há muito pouco de parâmetro artístico se comparado O Filme de Nick a qualquer outro filme feito até então. O emblemático esquema de filmagens intercaladas, diegéticas e extra-diegéticas, em película ou vídeo, naturalmente metalingüísticas ou plenamente ensaiadas, como se surgissem como um novo em meio ao processo maquiavélico de manipulação, utiliza muito das experimentações de Welles em seu feroz Verdades e Mentiras. Wenders e Ray deixam claro jamais se importarem com o quanto de verídico restará ao corte final – Ray sequer participou da edição, por motivos óbvios – e nem mesmo isso é necessário para transformá-lo em um melhor ou pior filme. Se vemos Ray esbravejar enquanto acorda ou participar de um sonho de Wenders como figura mística, é natural que tudo faça parte da visceralidade conceitual, do choque.

E é choque duplo, esta ode pessoal – fica difícil, na realidade, separar o que é de Wenders e o que é de Ray, ao passo que Ray é o próprio filme – ao diretor de tão importantes filmes como No Silêncio da Noite, Johnny Guitar ou Sangue Sobre a Neve. Ao mesmo passo em que acompanha-se uma impressionante coleção de registros de ideais, pensamentos e, no fundo, um verdadeiro acerto de contas de Ray, uma figura marcada pelo mau-trato do tempo – sua aparência, em certos momentos, é assustadora, desgastada, cansada, apática, e sempre salientada pela câmera abusivamente, muito próxima ao pensamento de envelhecimento, de morte, que, afinal, era seu interesse – vive-se um processo de constante readaptação à linguagem, de cuja origem é um mistério.

É verdadeiramente impossível separar a verdade da encenação em Nick’s Film, mas tampouco importa. O câncer de Ray é verdadeiro, e suficiente. Seus gestos, olhares, voz envelhecida, feição destruída pela doença, mas sem jamais largar o cigarro – a pose clássica de Ray, encarando os atores segurando o pito, é cena marcante do filme dentro do filme, enquanto ele mesmo tenta dar prosseguimento a testes de elenco para o filme que, segundo o material restante, pretendia fazer – são o próprio filme. Tudo está ali, em um plano, um gesto ou olhar. Ao afirmar, durante uma exibição de The Lusty Man, que jamais trabalhava com roteiro pronto, que seus finais ditavam o começo, logo dava a dica do que realmente move o filme. Ele sabia estar à beira da morte o tempo todo, tanto é que este foi o fato que lhe mobilizou a chamar Wenders para o projeto. Sabia como terminaria, e assim pensava o resto. Se pode parecer um abuso de Wenders permitir tão maldosas imagens após a morte do Mestre, esquece-se a moral. Fica clara a necessidade em se preservar os desejos de Ray, tanto quanto é visível que a alma do projeto era simplesmente ele.

Se, ao final, a experiência é desgastante, passando-se quase que por um processo de anti-filme – O Filme de Nick é lento, esquisito e provavelmente muito pouco pensado narrativamente -, temos certeza de que tudo era proposital. Pensa-se o Cinema de outro jeito, vive-se outro momento, uma única experiência. É muito menos um filme do que Cinema e sua intersecção com a vida, com o efêmero, pura e simplesmente. Wenders faria logo em seguida o genial O Estado das Coisas, dessa vez com Samuel Fuller – se O Filme de Nick é a morte, O Estado das Coisas só pode ser o funeral. Poderia ter parado por aí. Já havia discursado– e muito – sobre o fim dessas coisas, e o fruto da insistência fora bem maior do que o imaginado. Afinal, de tanto falar sobre a morte do Cinema, Wenders acabaria matando o seu próprio. “Cut”, Wenders. Jamais esqueça a hora de cortar – até na morte, Nick Ray ensina.

4/4

Daniel Dalpizzolo

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Awake – A Vida Por um Fio (Joby Harold, 2008)

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Clay Beresford (Hayden Christensen, numa atuação bastante razoável, a meu ver) é um cara bem sucedido, pelo menos no sentido mais famigerado da expressão, mas que guarda um complexo de inferioridade em relação ao pai, morto quando ainda era pequeno de forma nebulosa (até o clímax, onde algumas peças se encaixam e os motivos para essa postura são explicitadas), além de manter um relacionamento secreto com uma garota (Jessica Alba, gostosíssima) que é desaprovada pela sua mãe (com quem também tem uma relação conflituosa) e precisa de um transplante de coração para continuar vivendo mais um tempo, missão essa que ele confia a um médico amigo seu (apesar de ser conhecido por já ter cometido erros em transplantes do mesmo tipo).

E é quando enfim ele consegue isso, o órgão para o transplante, que começa a ver, ironicamente somente depois que é sedado (mas a anestesia não faz o efeito esperado e ele pode sentir e escutar tudo o que acontece a sua volta), é que passa a enxergar coisas determinantes, deixando-o em desespero por não poder fazer nada, estando na situação que está, completamente imobilizado pela medicação.

Thriller com enredo interessante, que aborda de forma nem tão criativa assim a má prática da medicina (mas de forma eficiente), além de usar toda a problemática do personagem que se cria com a situação de forma interessante ao se contar e se re-contar a mesma história mais de uma vez no próprio filme. Curioso.

3/4

Rodrigo Jordão

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Morte Súbita (Greg McLean, 2008)

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Leiam essa sinopse: um cruzeiro pelas águas da Austrália se transforma em terror quando um grupo de turistas se torna presa fácil para um enorme crocodilo devorador de homens. Esperando em vão pela chegada do resgate em uma pequena ilha lamacenta, o medo rapidamente toma conta de todos. Muito provávelmente você pensou: “Meu Deus, mais um filme envolvendo crocodilos assassinos! Deve ser um desastre!!”.

E realmente seria, se o diretor fosse um qualquer. Mas nas mãos de Greg McLean, o promissor diretor de filmes de terror que surgui no cenário com o ótimo “Wolf Creek”, o filme se torna um suspense/terror interessantísssimo, graças ao tratmento quase documental que ele propõe na sua direção (ajudado pelas locações, no país natal do diretor, Austrália). Além disso, Greg McLean segue algumas premissas básicas de como prolongar o suspense, como a opção de só mostrar o monstro/vilão no final da película, ou ainda a opção de investir na tensão quase que constante (e de mostrar muito pouco dos ataques) ao invés de litros e litros de sangue e decapitações/mutilações/mortes em câmera lenta. O resultado: um filme extremamente tenso, que prende o telespectador drante todos os 96 minutos de filme.

Com essa estrutura, esse filme lembrou muito outro clássico de criaturas/vilões feito há mais de 30 anos atrás: Tubarão. Toda a sua estrutura (um ataque nos primeiros minutos de filme; a ambientação, com a apresentação dos personagens; o aparecimento do monstro; os personagens sendo atacados um a um; a tensão pela iminente presença do monstro, mesmo que não o vejamos, e o eletrizante confronto final) evoca boas lembranças do filme que despontou Spielberg. E, não só ele, como outros mestres do suspense/terror, ficariam bastante satisfeitos com o filme.

Com esse filme, Greg McLean se firma como um dos diretores mais promissores do terror na atualidade.

3/4

Adney Silva

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As Duas Faces da Lei (Jon Avnet, 2008)

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Era uma vez um diretor não exatamente aclamado. Ele gostava muito de filmes policiais e, um belo dia, resolveu juntar dois dos grandes nomes do cinema para um filme. Então, ele chamou Robert de Niro e Al Pacino e fez “Fogo Contra Fogo”, um filme que marcou época não apenas por ser excelente, mas justamente por ter colocado frente a frente esses dois grandes atores pela primeira vez. A história podia acabar aí. Mas, 13 anos depois, Jon Avnet resolveu juntar esses dois atores mais uma vez e fez o seu “As Duas Faces da Lei”. Dessa vez, Pacino e de Niro são dois parceiros (bem veteranos) na polícia. Após demonstrarem uma truculência ímpar ao espancarem o traficante Spider (50 Cent, numa “atuação” já esperada), são obrigados a passar por sessões psicológicas e se vêem envoltos em uma seqüência de assassinatos contra os bandidos que perseguiam. Enquanto tentam desvendar os crimes, precisam lidar com a desconfiança dos companheiros, que acham que Turk (de Niro) é o assassino.

O filme não é ruim. Longe disso. Mas, para um projeto que fez tanto alarde sobre si mesmo, Pacino e de Niro acabam sendo os únicos trunfos realmente interessantes. O roteiro é fraco, evidenciando o tempo todo que, ao final, seremos surpreendidos de alguma forma. Porém, pior que isso, é o fato de que dezenas de pistas são dadas no decorrer do filme, apenas para causar o efeito “meu Deus, estava o tempo todo na minha cara e eu não percebi”. A direção de Avnet também não ajuda. No final da projeção, a sensação é de “sim, e daí?”.

Definitivamente, por melhor que sejam Al Pacino e Robert de Niro, não basta apenas uní-los para se fazer um “Fogo Contra Fogo”.

2/4

Murilo Lopes de Oliveira

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Corrida Mortal (Paul W.S. Anderson, 2008)

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Confesso que fui assistir esse filme sem esperança alguma de que possa extrair algo de bom (ou, ao menos, de divertido, nele). Ainda mais quando temos na direção o, para ser bonzinho, abaixo da média Paul W.S. Anderson, diretor de tranqueiras como “Alien Vs Predador”.  Os únicos atrativos desse longa era o roteiro trash (refilmagem de “Death Race 2000”, com o David Carradine e Sylvester Stalone como antagonista!!!!), e a presença do grande papa dos filmes B, padrinho de muitos diretores famosos (Coppola é um deles), e que também produzia essa refilmagem, Roger Corman.

No fim, o que se pode constatar é que Death Race era o legítimo “filme de Macho”: temos a violência sendo servida aos galões, carros com as modificações mais absurdas possíveis, transformando os bólidos corrspondentes em “Máquinas para Matar” (algo como o antigo jogo – que foi proibido no Brasil – Carmageddon), Jason Shatham com cara de poucos amigs (como sempre), frases dignas de figurar em “pérolas do humor involuntário”, Joan Allen como uma “real bad ass motherfucker bitch”, e uma personagem feminina (a co-pilota de Jason, interpretada pela Natalie Martinez. Não sabe quem é? Veja o pedaço de mau caminho da foto.) que está lá apenas para mostrar seus atributos físicos (com direito a close na bunda dela). Só que acabei me divertindo com tudo isso!

Mais do que mostrar litros e litros de sangue, mortes, carros explodindo e tudo mais do que se espera em filmes de ação (com o ponto positivo de não explorar em demasia cenas em CGI, deixando todo o trabalho para os dublês e a física), o filme mantém um climão de filme B, muito provávelmente pela presença do Roger Corman na produção. Isso acaba gerando, se não um entusiasmo grande por uma obra-prima, ao menos um contentamento por uma diversão escapista duranta os 96 minutos do longa. É o típico filme para levar todos os seus amigos (especialmente se você tiver menos de 20 anos) e se divertir com a violência gratuita mostrada. Não é muito, mas acabou transformando “Death Race” na melhor incursão de Paul W. S. Anderson na direção.

Quem sabe isso não é um sinal para que o diretor abrace de vez a idéia de se transformar num diretor de filmes B?

2/4

Adney Silva

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Premonição (Sette Note in Nero / The Psychic – Lucio Fulci, 1977)

A obsessão como matéria-prima daquele suspense catalogado por Alfred Hitchcock se encontra quase sempre nas vias do desespero como a manifestação mais pura e brutal de um aparentemente simples sentimento de vazio, uma necessidade que só pode ser alimentada com o próprio corpo, entregue à rede da determinada investigação até que ele mesmo se torne o objeto investigado ou se confunda irreversivelmente com a substância, e embora os exemplos partam do film noir, Vertigo, Blow Up até o próprio Profondo Rosso, nunca o círculo se fechou num desenho tão irônico e simétrico como em Sette Note in Nero.
 
Por pouco o filme do Fulci nem é um giallo, estando mais para o suspense inglês do que para horror italiano, começando pela trama atipicamente valorizada dentro do fluxo incontido de imaginação que os velhos sádicos cultuam. E ela é conduzida quase que com minimalismo por um Lucio Fulci que embora não enlouqueça completamente como em Terror nas Trevas ou Pavor na Cidade dos Zumbis, demonstra uma elegância com a câmera que eu simplesmente não conhecia no cara, tido sempre como o mais grossão (e não menos espetacular) do triunvirato italiano.
 
Mas o filme é lindo… Apesar de essa beleza emergir livremente apenas durante a meia hora final, que talvez até por isso seja inteira um clímax (e a hora anterior, inteira um prelúdio). Não havia ainda encontrado no Fulci uma confluência de som e imagem tão plástica e perfeccionista como no Sette Note, o que o aproximou demais do Bava e do Argento no modo religioso e fanático de tratar esta imagem, mesmo que as proporções neste sentido ainda devam ser guardadas.
 
Sette Note só não é candidato a obra-prima porque a inversão na dosagem de distribuição da história ao longo dos noventa minutos resultam em dois terços de puro desenvolvimento quase desprovido de estilo, ou de criação autoral do diretor, descarregada no entanto intensamente durante a extraordinária meia hora final. Não em forma de surto como nos trabalhos posteriores, mas na embalagem vermelha de um verdadeiro artista visual, movimentando a câmera com uma leveza e uma doçura infernais, unindo a isso a trilha absolutamente fora de série que como se não bastasse tem importância narrativa explícita e acabou virando título do filme (ah propósito, ignorei o título nacional porque, primeiro, é pouquíssimo conhecido, segundo que é um spoiler e terceiro que é uma bosta).

Sette Note in Nero (ou Seven Notes in Black, ou The Psychic, ou Premonição, etc) é tão especial exatamente porque a heroína em questão não assimila um acontecimento externo como bandeira própria e parte numa cruzada para resolvê-lo e ao mesmo tempo resolver a si mesma. Ela é o tempo inteiro o próprio material de estudo, mesmo sem perceber. Não como em Blow Up onde o fotógrafo captura uma imagem alheia a sua vida e a toma para si, como também ocorre em Vertigo, Janela Indiscreta, Blow Out, Veludo Azul, etc… O labirinto percorrido por todos estes personagens, no caso de Virgínia, é interno, e ela não pode encontrar no seu final outra solução que não ela mesma, e neste sentido, Sette Note é mais como Peeping Tom. Não pode haver melhor exemplo de que a sede da obsessão só é saciada por um copo do próprio sangue.

4/4

Luis Henrique Boaventura

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Banho de Sangue (Reazione a Catena / Bay of Blood – Mario Bava, 1971)

Banho de Sangue é um dos filmes mais sarcásticos e filhos da puta de todo o cinema, brincando com o espectador num jogo ilimitado que estreita as relações do que ocorre dentro e fora da tela até um nível de quase interação para finalmente se mostrar como uma tomada de poder irrefutável do cineasta sobre seu filme e seu público. O início dá o tom perfeito, porque logo depois que o Bava assassina o assassino com cinco minutos de filme você sabe que não está diante de qualquer coisa.

Os personagens de Banho de Sangue são todos pedras em falso de um caminho que não leva para frente, mas para baixo, para o abismo de um pesadelo onde o espectador não tem a quem recorrer. Os centros de gravidade de uma história comum são desintegrados sobre o fundo de uma mensagem clara: você está amarrado e forçado a curtir apenas e nada mais que uma dúzia de miolos e tripas se esparramando – como a vítima em Terror na Ópera – portanto pare de chiar e aproveite.

Os pólos de sentimento despertados usualmente, o ódio e a empatia, são chacoalhados e confundidos do início ao fim. Primeiro que já não podemos odiar um assassino que morre na mesma seqüência em que matou, depois que todo personagem pelo qual começamos quase a simpatizar ou morre de forma espetacular antes de qualquer coisa ou se revela um filho da puta, o que até poderia incitar também um princípio de simpatia, é claro, caso não fosse espicaçado por algum outro assassino logo em seguida.

O resultado é absurdo, é inédito. Banho de Sangue é algo como o teste de fogo, a porta da frente desse cinema fantástico italiano. Os 80 minutos formam um trajeto de ‘purificação’ (ou maculação, como queiram) sobre o público, do qual é extirpado qualquer poder, qualquer influência, qualquer peso minimamente significativo dentro do filme, restringido apenas a assistir o que ocorre e se deleitar com o sadismo maravilhoso de Mario Bava. O espectador nunca foi tão impotente como em Banho de Sangue, que é ao mesmo tempo um manifesto em favor deste mesmo espectador, do ato de assistir a um filme. O material mais convincente possível de como é bom parar de se preocupar com o mundo e curtir uns corpos estraçalhados. Além de ter aquele que é provavelmente um dos 5 melhores finais de todos os tempos…

4/4

Luis Henrique Boaventura

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