Os Indomáveis (James Mangold, 2007)

Vou lhe confiar um segredo: tenho um problema seriíssimo com filmes. Nem sei se poderia falar disso assim, vai que se espalhe? Mas preciso dizer a alguém. Tenho um problema realmente grave com filmes. Na grande maioria das vezes, sinto-me tomado de um desejo torpe de ver espalhadas pelo chão as vísceras daquele personagem doce e ingênuo, quase sempre idealizado como meio quilo de uns retalhos ensangüentados, enquanto o pretenso açougueiro em questão, a quem eu devia ter odiado, deixa a cena com um brilho no olhar, um sorriso no rosto, e uns pedaços viscosos de massa encefálica agarrados aos vincos das solas dos seus sapatos, produzindo um hipnotizante som de esguicho enquanto se afastam. Revoltante, eu sei. Imagine você a baixeza, a sordidez subterrânea que me castra. É desumano, é doentio, este meu problema com filmes. Afinal, dá pra acreditar que isso nunca acontece?

Os Indomáveis (3:10 to Yuma) é um remake de Galante e Sanguinário (Delmer Daves, 1957), dirigido por James Mangold (Johnny & June), com um roteiro a três baseado num conto de Elmore Leonard. No filme, Daniel Evans (Christian Bale), sob o nó de uma dívida que pode lhe tirar a casa, aceita, por 200 dólares, integrar a escolta do perigoso Ben Wade (Russel Crowe), um assaltante de diligências que precisa pegar o trem das 3:10 só de ida para Yuma, onde será enforcado.

O primeiro elemento que chama a atenção em Os Indomáveis é o aprisionamento do espectador no personagem de William (Logan Lerman), filho mais velho de Dan Evans. William é um tipo extremamente comum em westerns: o adolescente impulsivo que se sente esmagado pelo quase dever de se tornar homem, no caso, com dois modelos distintos entre os quais acha que precisa escolher: seu pai, e o assassino. O diferencial, aqui, é o modo como James Mangold usa William, colocando seus olhos entre a lente da câmera e o deserto. Através deste filtro, Evans é um rancheiro miserável, aleijado e numa posição de autoridade sobre a família que simplesmente não deveria ser dele. Ben Wade, por sua vez, é livre, gentil e fascinante por esconder sob si histórias de tudo que William imagina existir além dos limites do pedaço de terra do seu pai. Evans é digno de pena, Wade, de admiração. O fato de Evans ser um pobre coitado, porém, pouco ajuda para que o espectador se compadeça por ele, mas é muito eficiente em causar uma repulsa, em catalisar um asco que se conecta a um sentimento de piedade de que teria sido melhor, pobre diabo, se ele tivesse morrido ainda na Guerra Civil. O próprio Ben Wade diz, em referência a um de seus homens mortos no assalto: “Tommy era um fraco. Tommy era estúpido. Tommy está morto”. Não há lugar para fracos no Oeste e é por esta mesma crença que William amaldiçoa o teto sob o qual nasceu e jura a si mesmo ser um homem muito melhor que o pai, nem que este homem seja Ben Wade, o criminoso, o assassino, o que tem duas pernas, o que pode alimentar sua mãe e seu irmão. O efeito de Wade sobre William começa logo quando o primeiro mata duas pessoas no fim do assalto à diligência, e este último, ignorando a ordem do seu pai para que recue, observa-o como se estivesse sob efeito de um feitiço.

Pode-se estabelecer também uma conexão interessante entre William e Charlie Prince (Ben Foster), o braço direito de Ben Wade no bando. Prince, literalmente, mata e morre por Wade. Nota-se a admiração pelo seu chefe em vários momentos, e é quase latente ao longo do filme. Como quando ele avisa do assalto, na cidade: “acho que uma diligência foi assaltada a uns 16 km. Pelo senhor Ben Wade em pessoa”. Ou quando ele e Evans se encontram pela primeira vez: “Cuidado, rancheiro, está falando com Ben Wade”. O respeito e a subserviência de Charlie Prince por Wade nada mais é que uma evolução do fascínio e encantamento que agem sobre William, provavelmente os mesmos que um dia agiram sobre Prince. Repare no ar de menino do personagem. Muito leve, um tanto distante, como se a perplexidade do impacto causado por Wade ainda existisse, mas sem a inocência, e um resto de infância (vivo no ímpeto adolescente de William) que ainda poderia ser notado, transparece fossilizado, crispado e petrificado pelo sol e a areia do Velho Oeste. Prince é uma criança insegura, de barba para parecer mais velho, e calejado pelas aventuras com Wade, as mesmas com as que William sonha no cercado da sua casa, sob as ordens do seu pai.

Mas Prince é mecânico no que faz. Cada movimento, cada instante em que tira a arma do coldre parece estudado e sem margem a falhas. A frieza do personagem (tal como a cena em que deixa alguém para queimar vivo) revela a intenção do diretor de desviar o curso do ódio do espectador do caminho de Wade, para que deságüe inteiro sobre Charlie Prince. Deste modo, Mangold estabelece dois lados bem claros no filme: um, de Prince e seu bando, destinado à antipatia do público; e o outro, de Evans e Wade, o mesmo lado, por sua vez, abençoado com a simpatia do espectador. Ao polarizar seu filme deste modo, Mangold praticamente canta o prelúdio da cena final, infelizmente, a ruína de Os Indomáveis.

Tudo até aqui esteve sob a influência de Ben Wade, que domina o filme, seus personagens e seu público, usando sangue e o lado sádico de todos nós como componentes essenciais de sua sedução. A imoralidade absoluta e uns vestígios turvos de algo como um código de honra se misturam e se confundem num espiral que invariavelmente leva à morte de algum personagem. Pense bem, e não irá tão longe para descobrir que Wade não mata ninguém durante o filme sem que tenha um motivo concreto, e quando o faz, não consegue esconder o tom cruel mas divertido com que mede seus atos. Um dos elementos que torna, a princípio, o personagem tão forte, é a dificuldade do espectador em se estabelecer em relação a ele, ora desenhando bichinhos, ora matando, ora sendo agradável à mesa, ora matando, ora recitando a Bíblia, ora matando de novo, ora salvando a todos, ora matando mais uma vez. E isso, principalmente, por já existirem dois grandes halos para os quais se dirigem os sentimentos distintos de quem assiste: Evans e Prince. Wade, porém, tanto é um meio termo entre os dois, quanto não há termo nenhum que o meça. Tanto tem os dois dentro de si, quanto é muito maior do que eles. É esta dubiedade que abre fronteiras do personagem, que faz o espectador se incomodar consigo mesmo conforme o que sente por ele, e que James Mangold erra ao quebrar.

A cena final é a resposta para uma série de acontecimentos estranhos com o roteiro, como se estivesse, nas últimas trinta ou quarenta páginas, rabiscado e cheio de observações. A incoerência do personagem de Wade, um dos motivos do grande problema, levaram, ao que parece, a uma cascata de adaptações que claramente não faziam parte do rumo “ideal” das coisas. A partir daí, você verá com freqüência tentativas frustradas de justificar a mudança brusca de comportamento do personagem. A verdade é que não havia como simplesmente preparar o terreno para um desvio tão violento. Para que desse certo, todo o filme merecia ser trabalhado em torno disso. No entanto, se espera que a plausibilidade dos acontecimentos seja atestada por frases como “você não é assim tão mau” e uma revelação sobre o passado de Wade que constrange à medida que sua função dentro do filme se esclarece. Isto não era necessário. O que realmente me incomoda nem é a esquizofrenia do personagem, mas como o filme deixa claro que quer me enfiar o final goela a baixo, percebendo que ele não se sustenta, baseando-se na possibilidade de eu ser burro demais para perceber o mesmo. “Jimmy, ligaram do estúdio. O final vai ter que ser assim, ó”. “Ah, nem dá nada, só muda isto aqui, aqui e aqui, que a galera sai do cinema com um sorriso deste tamanho”.

No chão sujo de um dos estabelecimentos de Abiline, poucos minutos antes da partida do trem para Yuma, Dan Evans fala de suas inglórias e de sua imagem como pai. Ben Wade, então, escolhe um lado. Escolhe ajudá-lo. Os motivos não são claros. Não se sabe se por respeito (depõe a favor desta versão o desenho que Wade faz de Evans na sua Bíblia e todo o tempo que passam naquele quarto) ou por pena (a favor deste toda a construção do personagem de Evans e da principal subtrama envolvendo ele e sua imagem aos olhos de William, pesando no momento exato em que Wade finalmente toma sua decisão, com Evans no chão daquele lugar, contando de como não era “nenhum herói”, com a corrente das algemas de Wade em torno do seu pescoço). Ou, na verdade, pelas duas razões (mais certo que, construída sobre uma base movediça, termina não havendo razão alguma nos seus atos). Mas repito, a verdade é que isso nem me incomoda como deveria. Wade poderia ter feito tudo o que fez sem razão nenhuma mesmo (a quem se preocupa com o que é ou não é plausível em uma ficção), a imprevisibilidade era uma de suas características. O problema está em diretor e roteiristas (sei lá de quem é a responsabilidade) acharem que ele precisava de um motivo e acabarem colocando o filme num caminho auto-destrutivo. A preocupação por delimitar extremos de “bom” e “mau” pode ser vista em toda sua mediocridade na cena em que William tem Wade sob sua mira, no final do filme, como se os dois únicos rumos de sua vida estivessem no limiar daquele gatilho (quase dá pra ver Jim Cuanninghman saindo direto de Donnie Darko e baixando entre penas e plumas sobre a terra rubra de Abiline).

No entanto, mesmo que Wade fizesse tudo o que fez sem tentativas de se justificar, ainda permaneceria o problema (pra mim é um problema) de ele ter escolhido um lado, dissolvendo a ambigüidade em relação ao público, forçando-o a tomar um partido definitivo quanto a seu personagem. Apenas a virada instantânea de caráter não determinaria sua personalidade, o que acontece se somado àquela frase de William e o trecho em que ele narra como foi abandonado pela mãe aos oito anos. E esta é a razão pela qual comecei este texto como um psicótico com sangue nos olhos (e rezo para que você tenha chegado até aqui antes de ligar para um hospício, sem que antes recomendasse uma lobotomia frontal pra início de tratamento), principalmente, para que minha decepção com o final de Os Indomáveis ficasse mais clara. O cinema é mágico exatamente por nos permitir, de vez em quando, entrar na pele de personagens absolutamente livres no seu mundo, capazes de coisas que simplesmente não poderíamos fazer na palidez do lado de cá da tela. Ben Wade é um personagem fascinante até o momento em que começa a chorar sua infância desgraçada. Não há como não se divertir ao ouví-lo cantar a musiquinha sobre seu enforcamento, e como vê-lo destripando o filho da mãe que ficou com o seu cavalo é agradável, ainda que perturbador por ser agradável, efeitos conhecidos, como nos finais de Laranja Mecânica e Dogville. Se acho um disparate Ben Wade ter matado todo seu bando? Claro que não. Além de ter matado o bando, ele deveria ter matado o Evans, o William, os cavalos e alguns arbustos.

Os Indomáveis não deixa de ser um bom filme, apesar desta minha visão sobre as coisas. A tensão da meia hora final é eletrizante (especialmente pra quem se importar com o personagem do Bale), Charlie Prince consegue ser um vilão arrepiante mesmo franzino, com meio metro de altura e voz de menina, e Ben Wade, até certo momento, é um dos personagens mais fascinantes dos últimos anos. Vale a pena ser conferido, por ser um bom filme, por ser um representante de respeito de um gênero pelo qual eu daria tudo para que voltasse em definitivo, e por ser, em última instância, um gosto de sangue guardado na raiz da garganta, e pedindo por mais.

2/4

Luis Henrique Boaventura

Anúncios

3 Comentários

Arquivado em Resenhas

3 Respostas para “Os Indomáveis (James Mangold, 2007)

  1. Victor Ramos

    Kramba! hehehe Um longo texto desse pra dar 2/4? rs De todo modo está excelente! Sou fã de suas resenhas, Luis.

  2. Pô, vc deu essa nota horrível só porque esperava mais sangue, ou porque queria ver o Wade matar todo mundo (o que quase ocorreu)????
    Ahh…dá um tempo. Não coloque sua nota baseado no que você espera do filme, mas do que ele é!

  3. Acabei de assistir o filme e tive que vir procurar na internet algo para que eu aceitasse esse final wtf? de 3:10 to Yuma, ou alguém que compreendesse meus sentimentos. Obrigada man,o senhor fez ajudou em ambos os problemas.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s