Wall-E (Andrew Stanton, 2008)

Pelo menos uma vez na vida, quem gosta de cinema já foi confrontado pela seguinte pergunta: “De que tipo de filme você mais gosta?”. E, também, pelo menos uma vez na vida, as pessoas que fazem essa pergunta ouvem a seguinte resposta: “Nenhum gênero em específico. Eu gosto de FILMES!”. Então… eu também gosto de filmes. Qualquer gênero, qualquer temática, qualquer duração, qualquer qualquer. Mas, pensando bem, filmes como Wall-E, o novo filme da Disney/Pixar, é justamente o “tipo” de filme que me ganha com mais facilidade.

Antes de explicar o porquê, gostaria de frisar que a Pixar, definitivamente, não erra (tá… eu ainda não vi Carros, mas mesmo que não venha a ser genial, tenho certeza de que não será nenhuma bomba). Nesse sentido, eu até tenho um pouco de “pena” das outras produtoras. Mesmo que a DreamWorks faça mil Shreks, ela não terá somado tanto quanto a Pixar somou, desde que lançou o genial Toy Story, em 1995 (aliás, ainda dá pra voltar um pouco mais no tempo e lembrar do curta Knick Knack, de 1989). A Pixar vem, filme após filme, galgando novos degraus no que diz respeito à qualidade de animação – tanto técnica quanto de conteúdo. E na minha não-tão-humilde opinião, 2008 (13 anos após Toy Story) foi o ano em que a Pixar atingiu seu ápice. Wall-E é o melhor filme lançado pelos estúdios Pixar.

Mesmo afirmando com tanta veemência, eu concordo que é bastante difícil organizar um top Pixar (mas, quem ler essa resenha, organize o seu top, aí nos comentários… depois eu tento também). Mesmo os mais “fraquinhos”, como Vida de Inseto e Monstros S.A., são animações excelentes, absolutamente dentro dos padrões de qualidade da Pixar (aliás… creio que as únicas animações 3D de outros estúdios pelas quais nutro algum “carinho” sejam “Formiguinhaz” e o primeiro “Shrek”). Mas, desde 2003, quando lançou Procurando Nemo, a Pixar instaurou um novo “ritmo” para as animações. Agora, além delas não mais estarem limitadas às crianças, ainda conseguiam trazer temas “de gente grande” junto com seus personagens fofinhos. Foi assim com Procurando Nemo, Os Incríveis e Ratatouille… e é assim com Wall-E. Portanto, vamos a ele.

Embalados pela música “Put On Your Sunday Clothes” (de Michael Crawford), entramos no que sobrou do Planeta Terra, no futuro de Wall-E. O planeta está, literalmente, um lixo. Tanto que, os seres humanos, há séculos, embarcaram em espaço-naves e foram viver, confortavelmente, no espaço. Porém, deixaram para trás pequenos robôs, que cuidariam da limpeza do planeta para que, dentro de cinco anos os humanos pudessem regressar e retormar suas vidas em seu planeta natal. Porém, mais de 700 anos se passaram e humano algum voltou. Os robôs fizeram seu trabalho até onde deu, mas o tempo, somado às catástrofes climáticas que passaram a assolar o planeta por causa da degradação ambiental, destruíram quase todos os robôs. Todo exceto um. A esse um, chamamos de Wall-E (que, na verdade, é a sigla da “companhia” que ficou responsável pela limpeza do planeta).

O pequeno robô lixeiro “acorda” toda manhã, calça suas esteiras, pega sua lancheira e sair em busca de mais montes de lixo para transformar em cubos que ele empilha até formar imensos arranha-céus. Não há ninguém no planeta com ele, além de uma barata. Como está (quase) absolutamente sozinho, a diversão do robô é catar do lixo “coisas legais” que ele guarda em sua casa. Sendo assim, Wall-E é um trabalhador comum. Acordo às 6, trabalha como condenado o dia todo e volta às 18 para relaxar vendo seu filme preferido (o musical “Olá, Dolly!”). Aliás, é desse filme que Wall-E extrai todas as referências que ele tem sobre a raça humana. Para ele, os humanos são seres que vivem todos juntos, cantam, dançam e, por vezes,se dão as mãos. Neste contexto devastador, solitário e frio, Wall-E “viveu” por sabe-se-lá-quanto-tempo. Entretanto, a chegada de uma nave trouxe a ele uma grande oportunidade.

Assim que aterrissou, a nave liberou uma pequena sonda-robô que, imediatamente, passou a procurar vestígios de vida no planeta. Reconhecendo a tal sonda como um semelhante, Wall-E passa a perseguí-la com curiosidade, na esperança de conseguir alguma convivência com a robô recém-chegada. Inicialmente hostil, a sonda não se mostra muito interessada em Wall-E (afinal, ele não é um ser vivo). Entretanto, após uma estranha tempestade, os dois têm a oportunidade de “se conhecer melhor”. Após descobrir que a sonda se chama EVA, Wall-E passa a mostrar a ela as coisas que juntou durante todos aqueles anos de solidão. Apesar da novidade, EVA não se mostra exatamente muito interessada nas tralhas que Wall-E lhe apresenta. Porém, quando este finalmente mostra uma pequena planta que havia encontrado anteriormente, EVA fica eufórica. Recolhendo a planta para dentro de seu corpo, EVA entra em um estado de hibernação, enquanto espera pela volta da nave. Quando esta enfim chega, Wall-E desespera-se ao ver que será separado de sua amada e, então, pendura-se na nave, começando sua aventura em busca de EVA e rumo à Axion, o refúgio dos seres humanos.

Ok, a introdução é essa. Mas, enfim, o que há de tão espetacular em Wall-E? Eu diria, sem pensar muito, que esse novo filme é a produção mais profunda da história da Pixar. Além de toda essa profundidade (que faço questão de comentar daqui a pouco), o filme faz referências e homenagens a diversos outros filmes, estilos e diretores. Impossível não se encantar com a beleza “quase muda” dos 30 minutos iniciais, que remetem a Chaplin… à cena da dança espacial, que homenageia “2001, Uma Odisséia no Espaço”. O próprio Wall-E, como muitos alardearam antes do filme ser lançado, parece-se muito com o E.T, do Spielberg e com o “Número 5”, do “filme de Sessão da Tarde”, “Um Robô em Curto-Circuito”. Entretanto, eu não estou interessado com o que Wall-E parece… falemos sobre o que Wall-E É!

Primeiramente, é necessário saber que Wall-E versa sobre duas temáticas principais: uma delas é bastante crítica e incisiva, pois trata-se de uma visão quase apocalíptica para o futuro do planeta, no que tange à questão ambiental. Além da Terra abandonada e corrompida vemos, na “segunda parte” do filme, uma humanidade destruída pelo completo ócio e pela publicidade massiva que serve apenas como ferramenta de controle de uma população que já não tem muito lugar para onde “fugir”. Mas, por mais forte que essa crítica seja e por mais que ela seja a temática mais “visível” do filme (a ponto das pessoas saírem da sala de cinema dizendo coisas como “bonito, né? Mostra direitinho como o mundo vai ficar se o homem continuar fazendo merda”), a verdadeira temática de Wall-E é bem mais “simples” e comum do que se esperava. Wall-E fala sobre amor. E é sob essa temática que é possível extrair o maior número de significações do filme.

A princípio, Wall-E é apenas a última criatura nesse mundo. Sozinho, no meio dos detritos, ele tem aquela visão sobre relações humanas comentada anteriormente. E ele deseja esse tipo de relação para ele. Afinal, o que mais alguém pode querer, além da companhia de um semelhante para pegar na mão? Vendo e revendo “Olá, Dolly!”, Wall-E chega até mesmo a decorar a dança que o protagonista faz e, em determinado momento, ao ver pelo trocentésima vez o filme, ele segura a própria mão, compreendendo-se completamente sozinho. Porém, com a chegada de EVA, a chance de realizar seu “sonho” se torna palpável. Ao “ir à luta”, Wall-E descobre que EVA possui, assim como ele, uma diretriz. Mas, ao contrário dele, ela não fazia simples cubos de lixo para serem empilhados. Classificada como “sigilosa”, a diretriz de EVA era tão imperativa para ela que não a permitiria perder tempo com um robô velho e sujo do planeta Terra. Por isso, quando Wall-E desvela sua vida, EVA até acha graça, mas não consegue compreender o que leva o robô a guardar tanta tralha ou a dar tanto valor a passos de dança e mãos dadas. Wall-E, por outro lado, está fascinado: EVA, além de ser uma semelhante, consegue fazer coisas extraordinárias, que ele jamais poderia fazer. Ela voa, ela é forte, ela tem uma arma que faz uma rocha imensa em pedaços. Mas essa seqüência, onde Wall-E mostra o que ele tem para EVA, duas partes em especial me chamaram a atenção. Em certo momento, ele mostra a ela um cubo mágico e, enquanto ele busca uma lâmpada ela, facilmente, resolve o complexo brinquedo. Impressionado, ele entrega a lâmpada a EVA. Quando esta segura a lâmpada, ela se acende. Intrigado, Wall-E pega novamente a lâmpada… e ela se apaga. Devolve-a para EVA e a lâmpada torna a se acender. Parav Wall-E, esses dois pequenos fatos são a confirmação de duas coisas: para EVA, a vida dele é simples demais… fácil demais de se entender. E, ao mesmo tempo, ela tem a capacidade de fazer algo na vida dele, que ele mesmo não pode fazer. Fascinado, Wall-E mostra a dança do musical e tenta pegar na mão de EVA. Mas, como ela não se mostra interessada, ele mostra-lhe a planta. A planta é a diretriz de EVA. A planta é o motivo dela existir. Encerrada a missão, não há motivo para ficar gastando energia. Ela se fecha e Wall-E passa a tentar compreender o que aconteceu. Quando a nave vem buscar EVA, ele resolve seguí-la, pois agora tem a certeza de que é ela quem irá tirá-lo da solidão a qual foi submetido por tanto tempo.

Uma vez dentro da Axiom, Wall-E e EVA se reencontram mas, para ela, ele é apenas um problema. Não compreendendo como ele acabou entrando na nave, ela tenta tirá-lo dali ao mesmo tempo em que procura resolver sua diretriz. Wall-E então entende que EVA tem “algo maior” para fazer. Se ele quiser continuar ao lado dela, terá que adaptar-se a isso e ajudá-la a cumprir tal missão. Aliás, nesse momento do filme, comecei a pensar na forma como o próprio Andrew Stanton (que criou a história original – depois transformada em roteiro por ele, Pete Docter e Jim Reardon) vê o amor. Se nos prestarmos a humanizar a relação de Wall-E e EVA a partir desse ponto, podemos dizer que Wall-E decide simplesmente doar-se a EVA, suprimindo o máximo possível seu ego, pelo privilégio de poder estar por perto. Assim, pouco a pouco, o objetivo de EVA vai tornando-se, também, o objetivo de Wall-E. Sem querer, eles já compartilham uma “vida”. Compartilham algo pelo que lutar, embora os objetivos sejam, inicialmente, diferentes. Inicialmente, pois, a doação de Wall-E é tão grande que, em pouco tempo, ele está ajudando EVA (a níveis extremos) pelo simples “prazer” de ajudar a “robô que ele ama”.

Dessa forma, eu retomo o primeiro parágrafo dessa resenha para explicar o porquê deste ser o “tipo” de filme que me pega com facilidade. Tecnicamente, Wall-E é só mais uma animação 3D “para crianças”. Embora, como aconteceu com Ratatouille, a divulgação tenha sido um tanto mais “fraca” do que em comparação com outras animações da Pixar (pelo menos a nível de Brasil), Wall-E foi vendido de uma forma muito errada por aqui. Quem mora em Curitiba talvez tenha visto os outdoors de divulgação de um certo shopping, onde lia-se “o bom de ter um robô como amigo é que ele nunca se cansa de brincar”. Aí você vai lá, vê o filme e percebe que o Wall-E não parece estar muito disposto para “brincar”. Ele tem uma preocupação muito grande para se dar ao luxo de brincar. Mesmo que o filme tenha suas cenas engraçadinhas (que funcionam muito bem), ele é, essencialmente, um filme bastante sóbrio, profundo e, até mesmo, triste. Wall-E não somente me surpreendeu, como também “conversou” comigo. Em pouco tempo, percebi que compartilhávamos alguns pontos de vista e, ao final da sessão, mesmo com os olhos vermelhos e a cara um pouco inchada, eu saí da sala com uma sensação reconfortante no peito. Enfim, talvez seja isso que faz a Pixar tão magnânima quando o assunto é animações. Dificilmente se sai indiferente após apreciar um de seus filmes.

P.S.: Agradecimentos à Gabrielle Staniszewski que foi de grande ajuda nas interpretações deste filme.

4/4

Murilo Lopes de Oliveira

11 Comentários

Arquivado em Resenhas

11 Respostas para “Wall-E (Andrew Stanton, 2008)

  1. Djonata

    muito bom o texto, Murilo. eu tbm adorei o filme, menos que você, como bem sabe haha, mas , sem dúvida, esse é um dos melhores da Pixar. e com absoluta certeza, é o mais carregado de sentimento, é muito bonito mesmo.

    01. Toy Story – 4/4
    02. Os Incríveis – 4/4
    03. Monstros S.A. – 4/4
    04. Wall-E – 4/4
    05. Ratatouille – 3/4
    06. Procurando Nemo – 3/4
    07. Vida de Inseto – 3/4
    08. Carros – 3/4

    Carros seria algo como 2,5/4 – mas vou evitar as quebradas.

    vi tbm o Toy Story 2 mas não lembro de nada. e definitivamente os caras não erram.

  2. Frequento o blog há um tempo, mas este é meu primeiro comentário, e por um bom motivo: Wall-E é maravilhoso!! Vai aqui meu singelo top-Pixar:

    01. Wall-E
    02. Toy Story
    03. Monstros S.A.
    04. Procurando Nemo
    05. Ratatouille

    PS: sou péssimo para dar notas!

    Abraços!

  3. Daniel Dalpizzolo

    Sou mais Toy Story, Ratatouille e Os Incríveis, mas Wall-E é um belo romance anárquico com alguns grandes momentos – e uma releitura bem interessante de 2001.

  4. Murilo

    então meu próprio top hehehe

    Wall-E
    Toy Story
    Toy Story 2
    Ratatouille
    Procurando Nemo
    Os Incríveis
    Monstros S.A.
    Vida de Inseto

    Todos ótimo, diga-se de passagem…

  5. master69

    O meu top Pixar:
    1. Monstros S/A
    2. Os incríveis
    3. Toy Story 2
    4. Procurando Nemo
    5. Vida de inseto
    6. Toy Story
    7. Carros
    8. Ratatouille

    Falta ver Wall-E…

  6. Luis Henrique Boaventura

    01. Procurando Nemo
    02. Os Incríveis
    03. Ratatouille
    04. Monstros S/A

  7. Por mais inferior que seja, é interessante observar que Wall-E mantém o que em Ratatouille a Pixar fez de mais impressionante: em essência, é mais Cinema do que muita coisa fotografada em carne e osso.

  8. Jailton Rocha

    Meu TOP Pixar:

    01. Ratatouille – 5/5
    02. Wall E – 5/5
    03. Procurando Nemo – 5/5
    04. Toy Story 2 – 5/5
    05. Monstros SA – 5/5
    06. Vida de Inseto – 4/5
    07. Toy Story – 4/5
    08. Os Incríveis – 3/5
    09. Carros – 3/5

  9. Meu top Pixar:

    01. Ratatouille
    02. Monstros S.A.
    03. Toy Story 2
    04. Procurando Nemo
    05. Toy Story
    06. Wall-E
    07. Os Incríveis
    08. Carros

  10. A meu ver Wall-E tem apenas uma falha: A inexplicável hostilidade inicial de EVA, paranoicamente atirando em tudo o que se move. Se ela é uma robô de exploração com objetivo de encontrar formas de vida, para quê uma arma? E o pior, porque sair atirando precipitadamente correndo o risco de destruir exatamente o que veio procurar? Temia encontrar aliens hostis ou robôs inimigos? Nada disso parece ter lugar na trama.

    Isso só não estraga a estória porque, de resto, o filme e TÃO MARAVILHOSO que compensa todo o resto.

    Meu top 5
    1 – Os Incríveis
    2 – Wall-E
    3 – Toy Story
    4 – Toy Story 2
    5 – Vida de Inseto

  11. Não só é o melhor da Pixar, como também é um dos romances da década.

    Wall-E
    Ratatouille
    Procurando Nemo
    Toy Story
    Monstros SA

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