Arquivo da tag: dario argento

Screenshots! – O Gato de Nove Caudas (Ill Gatto a Nove Code – Dario Argento, 1971)

por Luis Henrique Boaventura

Dizem que estava no roteiro. “Homem de terno pega trem na estação”. Argento leu e entendeu isto aí:

Anúncios

3 Comentários

Arquivado em screenshots

Giallo (Dario Argento, 2009)

*spoiler no 3º parágrafo

É preciso cuidado. Desde os 5 minutos de filme, quando o primeiro clímax é um rapto ao invés de um assassinato, qualquer fã de cinema fantástico vai notar que Giallo NÃO É um giallo, e principalmente que precisará reorganizar suas expectativas ao longo da sessão. Isso por que, antes de mais nada, não se trata de um trabalho explícito, daqueles onde se sente a mão de Argento como fogos de artifício na tela. Câmera subjetiva, travellings, cores, uma atmosfera qualquer meticulosamente preparada, etc… Nada disso. Os assassinatos pontuando a trama – sempre pretextos para que os italianos exercessem cada qual o seu estilo – são coisa de um ‘gênero’ que ficou para trás, cristalizado entre anos 70 e 80, e cuja última menção honrosa é o já distante Sleepless.

Giallo é um thriller policial cuja estrutura se molda a dos filmes de serial killer contemporâneos (e que de todo modo não deixaram de beber da fonte inaugurada por Mario Bava). A ação principal é a do detetive em busca da solução do caso, enquanto que os momentos de corte do ritmo são exatamente os do assassino no esconderijo torturando sua vítima (ao invés de sair à noite por vielas soturnas em busca de outras). A tensão então se daria simplesmente através do resgate da vítima, de o detetive chegar a tempo, etc… Mas é quando ameaça decepcionar, quando você pensa que mataram Argento, esconderam o corpo e puseram a câmera na mão do sobrinho do produtor, que Giallo se mostra narrativamente brilhante.

Desde o primeiro momento, Argento estabelece uma conexão entre o detetive e o assassino, fazendo-nos crer que se tratam da mesma pessoa assim que Adrien Broody surge com lentes de contato no retrovisor do táxi. Em seguida são as memórias do detetive que colocam em jogo todos aqueles elementos-base do universo argenteano pra construção de uma mente psicótica. Logo depois, Argento tira o “Yellow” das sombras, e o que temos é um Broody coberto de maquiagem. Não existem outros personagens dividindo a atenção, não existem suspeitos possíveis, não existem dúvidas. Mesmo com as ações transcorrendo em aparente simultaneidade, o espectador não desconfia, ele SABE a solução para o whodonit. E toma no cu bonito.

O “giallo” do título está subvertido. Subvertem-se as expectativas, subverte-se o estilo do seu autor, subvertem-se os elementos que o compõem. O whodonit está do avesso, a câmera está presa, aquela velha lâmina reluzindo no ar é agora substituída por seringas, martelos e alicates. Mas o giallo está subvertido pelo próprio cinema, não por Argento, e Giallo nada mais é que uma representação do contemporâneo em relação ao passado, não em tom nostálgico ou de réquiem, mas de passagem. De alguém que reconhece que o fôlego acabou, que o cinema e tampouco o público são o que costumavam ser.

Argento então faz dos flashbacks a sua fuga. É através das lembranças do detetive que ele acessa esse mundo perdido pelos amantes do velho giallo ao pintar a tela de laranja e trazer de volta a câmera ao status de personagem, movimentando-a como se boiasse à deriva na água. Se dispostos um ao lado do outro e linearmente, os flashbacks montam um giallo fechado, independente do resto do filme; com início, meio e fim próprios. Com apresentação de personagens, testemunho do crime e vingança, tudo concebido a facadas. Em Giallo, é apenas na memória que as coisas continuam belas. O tempo presente é apenas seco (compare os finais de Giallo e Profondo Rosso).

E o filme permite esse respiro. Te convida a fugir dessa opressão do convencional para viajar trinta anos no tempo e voltar pra um mundo que parece desconhecer o fato de simplesmente não existir mais. Desde Terror na Ópera.

Giallo é o filme mais lúcido de todo o cinema fantástico italiano.

3/4

Luis Henrique Boaventura

10 Comentários

Arquivado em Comentários

Screenshots! – Suspiria (Dario Argento, 1977)

Luis Henrique Boaventura

Sangue, cores, luzes e formas. Não se engane, esta é apenas a primeira seqüência.

Clique nas imagens para ver em tamanho original:

9 Comentários

Arquivado em screenshots

Screenshots! – A Catedral (Michele Soavi, 1988)

Luis Henrique Boaventura

Um épico do horror italiano. A engenhoside, o talento, o humor negro, as composições, a maldade impressa em cada novo e mais inacreditável assassinato, e uma câmera que não tem cabos, suportes ou braços que a guiem. É como se nem existisse, e o espectador entrasse e planasse feito fantasma ao longo da grande catedral. Obra-prima desse bruxo do cinema fantástico.

Clique nas imagens pra ver em tamanho original:

5 Comentários

Arquivado em Comentários

Do You Like Hitchcock? (Dario Argento, 2005)

https://i0.wp.com/whiggles.landofwhimsy.com/funbag/hitchcock1.jpg

De todos os flertes com o cinema de Alfred Hitchcock já produzidos – e a lista é tão distinta que ao mesmo tempo podemos citar François Truffaut, Stanley Donen e Brian De Palma, pra ficar em apenas três exemplos – nenhum beira tanto o artifício quanto Do You Like Hitchcock, filme feito pelo mestre italiano Dario Argento pra tevê italiana que, numa combinação criteriosa de uma série de elementos evocativos a grandes momentos hitchcockianos, brinca com a obsessividade do espectador sobre o poder da imagem, da visão, ou simplesmente do voyeurismo.

Não há nada de inovador em seu discurso, nem deveria, mas como cinema artificial, da simples colagem de uma série de imagens sem qualquer densidade, Do You Like Hitchcock funciona perfeitamente – e a simples necessidade da execução de uma ação como propulsora de outra garante o tom de superficialidade. A troca de mídia parece ter despertado uma consciência cinematográfica essencial, de certa forma mantida – ou potencializada – na obra-prima La Terza Madre que Argento faria em seguida, dessa vez retornando ao cinema com o mais vagabundo e importante filme da nova safra de filmes-B.

É um pequeno conto juvenil de detetive amador ao melhor estilo “do yourself”, feito todo de recortes de alguns dos mais celebrados filmes de Hitchcock, viajando por referências óbvias como a montagem em saltos apresentando toda a vizinhança no início do filme ou a perna quebrada até outras mais trabalhadas, como a evocação de certo filme a partir de um simples acorde. É trabalhado sobre a ótica de Janela Indiscreta e uma homenagem a Pacto Sinistro, mas trabalha Disque M Para Matar, Um Corpo Que Cai e Psicose dependendo da necessidade e do interesse.

Mas mais importante do que celebrar a diversão que garante é registrar o nítido interesse de Argento em dar vida ao material, seguramente um filme em que o prazer de se assistir parece jamais ser tão intenso quanto o de produzir. Pode fugir completamente da perspectiva argentiana de cinema – seria mais como De Palma adaptando um conto de mistério da Coleção Vagalume – mas qualquer conjunto de imagens que receba tanto carinho e ao mesmo tempo um tom satírico tão invejável merece meu respeito.

3/4

Daniel Dalpizzolo

2 Comentários

Arquivado em Comentários

Mãe das Lágrimas (Dario Argento, 2007)

La Terza Madre é tão romântico no que diz respeito ao seu próprio universo e imagens que em certos momentos muito mais se assemelha a um turbilhão errático de Ferrara do que a um filme apocalíptico fantástico italiano – a cena do banho de Ásia Argento e seu primeiro encontro com a mãe são dignas do Cinema do ítalo-americano -, mas isso de maneira alguma representa uma possível troca de identidade de Dario Argento. Pelo contrário. É fruto da consciência.

Mãe das Lágrimas, o filme, veio ao mundo como complemento às duas partes anteriores da mitologia de Argento sobre as três bruxas – Mater Suspiriorum, Mater Tenebrarum e Mater Lacrimarum – mas em nenhum momento procura remeter, em estrutura ou discurso, aos anteriores Suspiria e Mansão do Inferno. Ao contrário do que havia feito anos antes em Sleepless, uma releitura do giallo setentista sob a ótica do cinema daquela época, Argento filma através das características cinematográficas do século XXI sua visão do filme-B moderno, um termo que na realidade se perdeu entre diferentes definições e hoje representa muito mais qualidade do que forma – vale resgatar que “b-movies” é uma definição utilizada desde o período do sistema de estúdios hollywoodiano e era utilizada para denominar os filmes feitos para passar na aba das superproduções, já que não tinham estrelas nem publicidade suficientes para conseguirem se vender sozinhos.

Como um legítimo filme-B, Mãe das Lágrimas é paupérrimo do ponto de vista técnico, preenchido por efeitos bastante ruins se comparados a qualquer produto cinematográfico atual – os elementos digitais jamais foram companheiros do diretor, o que pode ser notado também em Síndrome de Stendhal – e feito com baixíssimo custo, da mesma forma como qualquer outro filme de Argento. Mas os tempos são outros, e na visão de Dario este é o universo do verdadeiro filme-B contemporâneo, sem o jogo de luz e o misticismo que marcaram sua fase mais celebrada e recheado de poluição visual. É o tempo da globalização, do engarrafamento, da correria, do coletivo à frente do pessoal – assim como o filme, o primeiro da trilogia que se passa fora da esfera mitológica da mansão construída para a bruxa, fixando junto ao drama pessoal a histeria social.

Não é nenhuma coincidência, portanto, que ao contrário dos protagonistas anteriores, a personagem de Asia Argento seja muito mais do que uma simples curiosa pela mitologia – diferentemente da garota de Suspiria e do paspalho que assume a comissão de frente na metade final de Inferno, Asia não escolhe participar de toda a loucura, entra no jogo simplesmente para salvar o mundo. Afinal, estamos aqui para resolver uma trindade mitológica, ninguém melhor do que ela – a grande definição da heroína moderna e ao mesmo tempo a maior vampira do século XXI – percorrendo uma elegia à própria espécie para dar o ponto final ao apocalipse promovido pelas mulheres.

Foram poucos os cineastas que olharam com tanto carinho aos seus heróis, e Argento faz isso de maneira tão surpreendentemente romântica que alcança um tom de ternura absoluto em certos momentos, contrastando com a vastidão do feitiço macabro lançado pela Mater sobre uma Roma em devaneios – e propulsora de alguns dos momentos de morte mais intensos e sangrentos da filmografia diabólica de Argento. Asia alcança a invisibilidade, é protegida pelo espírito materno, recebe pistas de outro mundo e até se permite um banho pra lá de sensual debaixo do manto de morte e sangue que cobre a cidade, momentos antes de partir para a batalha definitiva na mansão de orgias escatológicas que serve de quartel para seu algoz, recheada de bruxas semi-nuas e moçoilas peitudas.

Dario Argento, em Mãe das Lágrimas, não apenas conclui sua trilogia como também quebra a barreira entre o cinema fantástico da década de 1970 e o apocalipse estudado pelo cinema do século XXI. Mais do que isso, bebe de fontes externas para voltar sua mitologia à adoração em diferentes esferas. Assim como Ferrara em New Rose Hotel e Assayas em Boarding Gate, Argento celebra o caos sentenciado pelo corpo feminino mas defende em sua plenitude a grande mistificação da mulher contemporânea, pelo bem ou pelo mal. Não poderia haver motivo maior para tamanha gargalhada, não é Asia?

4/4

Daniel Dalpizzolo

1 comentário

Arquivado em Resenhas

Mãe das Lágrimas (Dario Argento, 2007)

La Terza Madre é uma brincadeira que não deu certo. Desde a quase ausência da clássica extrema sofisticação visual e de criação de atmosfera daquele Argento de Profondo Rosso e Suspiria, quanto do deboche, do modo insano na condução de Tenebre e do próprio Prelúdio como proclamação fanática e religiosa do som e da imagem acima de tudo; La Terza Madre aparece movediço, desmembrado dos dois grandes pilares do estilo argenteano, seja pela inexplicável falta de imaginação no uso da câmera e da trilha que numa comparação direta é pulverizada pelas do Goblin (ou até do gênio Morriconi em O Pássaro das Plumas de Cristal, apesar da simbiose irrepetível entre Goblin e Argento continuar como catalisadora absoluta de sensações, cuja força semelhante apenas o próprio Morriconi encontrou ao lado de Sergio Leone), ou pela esquizofrenia do habitual quase anti-roteiro ter sido tristemente ineficiente, o que pode parecer um paradoxo, já que a ‘ineficiência’ (pensando em termos de ‘trama’, ‘história’) é precisamente sua característica mais marcante.

O que pega é que o grande caos comumente reproduzido por Dario Argento (devem até usar o cara em exemplos de “como não fazer…” em certos cursos de cinema…) e que sempre deu tão certo, aqui não funcionou. Porque era pra ter sido uma obra-prima. Todo o gore e o explicitismo celebrados no terceiro terço de Tenebre pulsam eletrizantes pelos 90 minutos de La Terza Madre, mas sem suporte, sem o toque e a inventividade que separariam o sangue, que percorre borbulhando toda a filmografia de Dario Argento, em duas distinções: cinema, e curiosidade.

O ataque de riso no final embasa a sábia decisão do italiano de não se levar a sério (até pelo tema imbecil, que se por um lado rendeu o excelente Suspiria, por outro, não dá pra esquecer que este não se utiliza dos elementos quase cômicos da dita mitologia das três bruxas ao longo de quase toda a trama – que na verdade não existe -, e que perde a força exatamente no didatismo e na inclinação trash dos últimos 10 minutos. Nada contra a inclinação trash, que poderia ter sido utilizada maravilhosamente).

Enfim, com o perdão dos parênteses gigantes e dos parágrafos sem pontos, La Terza Madre não funciona como aquele torvelinho de tensão sufocante, tampouco como brincadeira com o cinema promovida na última potência em Tenebre (e tinha como, o novelo de plots e situações pressupunha mil possibilidades). Enfim, pena, bem abaixo dos outros dois capítulos da trilogia.

1/4

Luis Henrique Boaventura

3 Comentários

Arquivado em Comentários