Arquivo do mês: março 2009

Amantes (Two Lovers – James Gray, 2008)

Quando eu assisti Vidas Amargas pela primeira vez (e por todas as revisões), eu senti, desde a primeira cena, uma sensação de que algo muito ruim se anunciava. Bastou o James Dean entrar em cena e eu fiquei suspenso, durante todo o filme, com a respiração alterada e a expectativa do pior que deveria chegar. Two Lovers me causou a mesma sensação de suspensão, de uma tragédia que só esperava um espaço para se instalar.

Na narrativa de pouco menos de duas horas que James Gray envereda, acompanhamos a vida (sim, é um resumo de uma vida) de Leonard, interpretado com um brilhantismo alucinante por Joaquim Phoenix, que disse ser esta sua última atuação (fez bem, nunca mais faria nada superior), um rapaz que depende de remédios para controlar sua depressão, que voltou a viver com os pais após ter sido abandonado pela ex-noiva, que pensa na morte durante todo o tempo de sua quase vida. Os pais de Leonard querem que ele se envolva com Sandra, filha de um possível futuro sócio do pai, no ramo das lavanderias a seco (a vida é tão distante que nada ali se molha, a não ser Leonard, desde a sufocante primeira cena do filme). Leonard não se opõe a vontade dos pais e aceita conhecer Sandra, mostrando sua consideração pela família (tema principal da filmografia de Gray).

No meio do caminho, Michelle surge, a vizinha “problemática” de Leonard. No meio do caminho, surge o amor. No meio do amor, surge um triângulo, um losângo, um absurdo geométrico de instabilidade sentimental, de impossível definição e cálculo. Não bastasse o filme ser um dos grandes estudos de personagem já feitos, não bastasse a atuação antológica de Joaquim Phoenix, não bastasse as excepcionais interpretações de Isabella Rossellini, Gwyneth Paltrow e Vinessa Shaw, não bastasse todos os planos serem de um deslumbre estético de posicionamento, tempo, perspectiva, não bastasse ser uma aula de cinema, Two Lovers é ainda das histórias mais perfeitas e tristes já relatadas no cinema moderno. E no final disso tudo, a tragédia de “serem felizes para sempre”.

4/4

Thiago Macêdo Correia

ou: Amantes (James Gray, 2008) – Silvio Tavares – 4/4

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Elogio ao Amor (Éloge de l’Amour – Jean-Luc Godard, 2001)

O presente é preto e branco, desfragmentado, ilógico, frio, ininteligível, sem perspectivas. Já o passado é colorido, caloroso, e só porque já passou pode ser visto como tendo sentido, e tudo que poderia ter ocorrido de diferente pode ser apreendido em sua totalidade, só agora que não é mais possível. E como o presente é obscuro e por isso mesmo perigoso, a memória funciona como âncora – individualmente, coletivamente/historicamente, e cinematograficamente – nesse filme do Godard que só ganha sentido na meia hora final, justamente quanto saímos dum presente fugidio para ter acesso ao que veio antes, e é emblemático que esse flashback seja captado em vídeo e com cores quase impressionistas.

Junte umas alfinetadas certeiras num cinema enlatado de espetáculo (representado pelo Spielberg, ok, mas vamos dar um desconto) e a maior carga de calor humano que já vi num filme do diretor e sai uma coisa genial assim.

4/4

Robson Galluci

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Cinegame! – 03/04

Nesta sexta-feira é dada a largada para mais uma emocionante temporada do Cinegame! [/vinheta da F1]. Durante as próximas 8 semanas, Rodrigo Jordão (chutado do Cinema em Cena, chutado do emprego e chutado da casa da mulher, mas que aqui está), apresenta essa série viciante de jogos sobre cinema que já está em sua terceira edição, primeira aqui no MP!.

O Cinegame terá uma seção fixa ali em cima, no topo do blog, ao lado da “Equipe”. A partir de agora, todos os posts relativos ao Cinegame serão apresentados pelo homem da testa grande, o mago do paint, o imperador continental do ócio, sr. Rodrigo Jordão:

Hey drugues! Tá chegando a hora!

Todos os detalhes foram acertados nessas últimas semanas e já temos formatado todo o Regulamento do CINEGAME temporada 2009. Veja como vai funcionar:

– Regulamento –

– Toda sexta-feira, durante 08 semanas, serão propostos aqui no Multiplot! novos desafios do CINEGAME, envolvendo conhecimento cinematográfico;

– Qualquer um pode participar do CINEGAME, não sendo necessário se cadastrar no WordPress;

– O envio das respostas para os games semanais deverão ser encaminhadas para o email do Multiplot!, que fica ali à direita na aba “Contatos”, mas que de qualquer forma é o seguinte: multiplotcinema@gmail.com ;

– A cada semana, além das respostas que deverão ser enviadas via email, os participantes devem ficar atentos ao BÔNUS, que será dado a quem responder antes, no espaço para comentários do post do CINEGAME, a algum enigma em específico. Só o que responder primeiro é quem leva os pontos extras (sendo que haverá uma bonificação menor para o 2º e o 3º a responderem certo também);

– As provas serão postadas, via de regra, por volta das 20:30;

– As respostas, tanto nos comentários quanto para o e-mail, devem ser enviadas até o prazo máximo de QUARTA-FEIRA, às 23:59.

– O esquema de pontuação será acumulativo, sendo que é importante participar todas as semanas, se o participante quiser mesmo ganhar. E é importante salientar que cada participante deverá escolher um nickname único para participar, sendo que deve assinar cada email com as respostas para os games semanais com o mesmo nick, toda semana (não é permitido mudar de nick durante a competição);

– Toda sexta, junto com o novo game semanal, será atualizado o ranking com a pontuação de cada participante, disponível ali em cima, na seção do CINEGAME;

– O grande vencedor será conhecido apenas após o dia 22/05, data marcada para o último game da temporada;

– Aquele que acumular mais pontos nessas oito semanas de gincana, receberá em casa 3 DVDs, selecionados pelo próprio vencedor, a partir de uma lista que será disponibilizada pela organização do CINEGAME.

É isto gente. Qualquer dúvida, por favor, perguntem aí. No mais, até sexta-feira!

Rodrigo Jordão

 

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Tabela de Notas

Novidade no MP!! A partir de hoje, teremos uma sessão permanente aqui à direita (abaixo da barra de pesquisar) chamada Tabela de Notas, com notas (dã) de zero a dez para lançamentos, dadas pelos redatores do MP! a cada novo filme que o pessoal for vendo. A tabela vai ser atualizada e complementada constantemente, sem que haja a necessidade de avisar aqui, portanto é só clicar ali de vez enquando. Enfim:

Clique na imagem para ver em tamanho original:

E ainda hoje tem os tops, fiquem com a gente.

Abraço!

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Gran Torino (Clint Eastwood, 2008)

Sério, é anormal a forma que esse velho consegue em certo ponto de seus filme, em algum momento qualquer, e provavelmente de forma totalmente variável de pessoa pra pessoa, injetar aquela sensação azeda diretamente no íntimo, no músculo principal, deixando ele totalmente pesado e enrugado. Geralmente pelo excesso de humanização, de transbordar a emoção na tela de uma forma que poucos conseguem filmar tão bem quanto o Clint. Mas a diferença aqui em relação aos outros dele é justamente esse tom de despedida que ecoa durante o tempo todo, a imponência sendo substituida pela impotência, na verdade essas duas travando uma batalha épica que óbviamente teria um fim dramático.

E realmente aquele final é sem dúvidas o revide mais lindo da carreira dele, onde poucas vezes o sangue foi derramado de forma tão poética e doce. É sem explicação o que aquela cena causa, na hora tu sabe que ta de frente com um daqueles momentos sem volta, onde só um matador calejado conseguiria filmar com tamanha sensibilidade o que tudo aquilo representa. E é aí que o real sentido dessa arte se manifesta, a possibilidade de enxergar com os olhos de outros, se tornar um observador passivo da situação, como se tivesse por de trás de qualquer uma daquelas janelas, ou becos, etc, e sofrer junto. Observando o que tanto falam como a descontrução do ícone, e talvez até seja a mesma coisa, mas eu vejo como uma humanização dele, ou até como a lágrima final do Clintão, do Clintão matador. É o momento de redenção mais belo que eu já vi no cinema, e não falo apenas do personagem do filme, mas toda persona cinematográfica dele podia ta simbolizada ali.

É lindo demais, cara. E é tão lindo pq esse filme não poderia ter sido feito por ninguém mais, e em nenhuma outra época. Só alguém com a vivência do Clint, e a história cinematográfica dele, poderia causar essa explosão na tela. Poderia ser o encerramento perfeito de uma vida, espero que não, mas poderia ser sim.

4/4

Thiago Duarte

ou: Gran Torino (Clint Eastwood, 2008) – Adney Silva – 4/4

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O Gato Negro (The Black Cat – Lucio Fulci, 1981)

Não surpreende que Gato Preto, uma das obras mais extraordinárias importadas do cinema fantástico italiano, seja até hoje tão mal-interpretada. É um filme feito nos parâmetros particulares do diretor Lucio Fulci, ou seja, quem reluta em aceitar a ficção num nível mais extremo (geralmente levada ao grande público como mera imitação da realidade) periga encará-lo como produto de humor involuntário, o que acontece muito e que, com todo respeito, é uma puta burrice.

O conto de Allan Poe, inúmeras vezes adaptado e referenciado no cinema, funciona quase como uma espécie de termômetro pro estilo de cada autor do horror italiano nas três grandes obras-primas como versões do texto: o média-metragem homônimo de 1990 de Dario Argento, o surto narrativo de Sergio Martino em Teu Vício é um Quarto Fechado e Só eu Tenho a Chave (73) e, finalmente, o filme que é assunto desde texto. E “versões” do conto como forma de dizer, na verdade, porque no caso de Martino e Fulci, Poe é pego de referência meio distante, fuzilado, desmembrado, esfolado até o osso e, finalmente, reconstruído, do jeito que der. E se não der, também, os caras estão pouco se fudendo.

Em Gato Preto, Fulci versa por um equilíbrio entre a classe do horror climático e aquela conhecida demência criativa num misto de tons. Nem o 8 de Uma Sobre a Outra, nem o 80 de Zombie, nem o 800 de Terror nas Trevas. Gato Preto é o tipo de filme onde a câmera se movimenta deslizando pela rua na companhia de um homem solitário, em plena madrugada, numa belíssima composição de neblina e arquitetura européia com um sopro de film noir. Em seguida, no palco de uma das atmosferas mais bem compostas do cinema fantástico italiano, o homem começa a fugir desesperadamente de um gatinho, até ser preso, encurralado e morto pelo bicho, que é um dos vilões mais diabólicos e dissimulados do cinema, além de ser de longe o personagem mais inteligente do filme.

Insights geniais como sempre, travessura com os personagens (o Fulci chega a literalmente mentir para o espectador, em certo momento), referências a Hitchcock, e o plot que pega o pouco de insanidade do conto original e se reinventa e ultrapassa criando um filme que ri na cara de quem acha que arte tem que ter chão, teto e quatro paredes.

Filmar um giallo é fácil, amigo. Agora, pra fazer a porra dum gato assassino de meio palmo de altura funcionar no nível dessa obra-prima, o cara tem que ser muito cuiudo, ou nascer Lucio Fulci.

4/4

Luis Henrique Boaventura

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Gran Torino (Clint Eastwood, 2008)

O cinema, dentre as suas inúmeras características, adora produzir ícones. Aqueles personagens que, uma vez presentes na tela, ofuscam tudo e todos que se atreverem ficar ao seu lado; aqueles personagens que basta uma cara mais feia que fazem o mais malvado dos vilões chorarem que nem mulherzinhas de medo. Clint Eastwood, em seus mais de 50 anos como ator (e mais de 30 como diretor), interpretou dois desses “caras durões”: “O Pistoleiro Sem Nome”, dos faroestes de Sergio Leone; e Dirty Harry, o policial implacável que usava de todos os métodos (principalmente os menos ortodoxos) para fazer a lei. Como diretor, Clint já filmou uma espécie de “epitáfio do velho pistoleiro sem nome” em “Os Imperdoáveis”. Agora, como sua última atuação, em “Gran Torino” (digirido também por ele), Clintão faz o “epitáfio de Dirty Harry”.

Nesse filme, Dirty Harry veste a pele de Walt Kowalski, um funcionário aposentado da indústria automotiva que também participou da Guerra da Coréia que, após a sua esposa falecer, se vê sozinho em um bairro outrora tradicional e representativo do idealismo norte-americano dos anos 50/60 que agora é totalmente tomado por imigrantes orientais. Essa convivência forçada exacerba nele as suas opiniões racistas, principalmente pela presença constante deles o fazer lembrar dos momentos vividos na Guerra da Coréia. Com o passar do tempo, através de uma série de eventos (incluíndo uma tentativa de roubo do seu Gran Torino feita por um deles) , ele acaba se simpatizando com eles, especialmente pela influência da família vizinha.

É praticamente impossível observar Kowalski nesse filme sem lembrar do policial implacável criado por Don Siegel na década de 70. Ranzinza, cara de poucos amigos, extremamente racista, e extremamente implacável ao defender o seu território (para depois rever os seus conceitos pré-concebidos), Clint se utiliza de sua persona e de seu personagem icônico para expressar a questão da passagem de tempo e de como algumas pessoas relutam em acompanhá-lo. Mais até do que isso, o filme, através de uma estrutura totalmente classicista e tradicional de se fazer cinema (até porquê Clintão é um dos últimos representantes desse estilo), monta um melodrama de encher os olhos de lágrimas do telespectador.

Muitos reclamarão dos intensos clichês que aparecerão no filme (especialmente no que diz respeito a questão da redenção do personagem principal). Entretanto, já há muito tempo Clint Eastwood estrutura sua filmografia dentro desse estilo, especialmente nessas últimas décadas, onde ele trabalhou muito bem as questões da deconstrução dos ícones. E Gran Torino versa principalmente sobre esse tema, não só em cima da destruição dos ícones, mas da desconstrução dos antigos valores, da eterna necessidade do ser humano de exorcizar seus fantasmas internos antes que eles os atormentem a tal ponto de destruírem a sua vida. Sendo assim, o momento de redenção do filme não só é extremamente eficiente dentro da trama, como também é um tapa na cara na construção habitual do arquétipo do herói, descontrundo-o por completo. E é nesse ponto que se encontra a beleza do filme.

Por tudo isso, se você se acha durão, “Gran Torino” vai desmistificar essa imagem após as suas duas horas de filme. E te devastar emocionalmente. Contudo, garanto que você sairá extremamente contente com o que assistir.

4/4

Adney Silva

ou: Gran Torino (Clint Eastwood, 2008) – Thiago Duarte – 4/4

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