Arquivo do mês: setembro 2008

James Byron Dean (Especial James Dean)

Foram 3 semanas, 32 textos e muita história do especial mais melancólico do MP!, uma experiência inesquecível pra gente da equipe culminando neste 30 de setembro que é sempre um pouco mais cinza que outros dias do ano. Gente, adoramos celebrar com vocês o maior mito do cinema, a juventude que ele representava e mais outros sete grandes talentos que foram pro palco de cima antes da hora. Valeu por tudo, continuem por aqui que a coisa não pára, e curtam os últimos e principais textos deste Especial (a biografia e as resenhas de Vidas Amargas, Juventude Transviada e Assim Caminha a Humanidade). E se você perdeu alguma coisa, o índice com todos os textos fica ali à direita até o próximo especial ou aqui, no post de abertura. Um abraço!
MP!
1931 – 1955

A imagem de James Dean como símbolo maior do mito cinematográfico talvez só pode ser comparada a de Marilyn Monroe. A diferença entre Dean e Monroe é que ela se ergueu em vida como a estrela máxima de Hollywood e era exatamente isso que desejava; já Dean desejava se encontrar em vida, achar um caminho e acreditava, talvez, que ser um grande ator fosse sinônimo de tal encontro, mas não viveu o suficiente para comprovar a tentativa. Quando James Dean morreu, exatamente 53 anos atrás, estava apenas começando a experimentar os resultados de seu trabalho no cinema. Somente os que viveram depois puderam saber ao certo a potência da figura de Dean. Quando sofreu o acidente fatal, Dean havia acabado de estrear seu segundo filme nos EUA, o icônico Juventude Transviada, de Nicholas Ray, e vinha do final das gravações de seu terceiro e derradeiro filme, o épico monumental de George Stevens, Assim Caminha a Humanidade. Antes disso, James Dean havia experimentado o reconhecimento de público e crítica com sua estréia no cinema em um papel protagonista (antes só havia feito pequenas pontas), com Vidas Amargas, de Elia Kazan. Tendo como base somente estes três trabalhos seria possível comprovar o talento de um ator?

James Byron Dean nasceu no dia 8 de fevereiro de 1931, perdeu a mãe aos 9 anos, passou a adolescência na casa dos tios, fez diversos tipos de esportes durante o colegial, estudou violino (um desejo da mãe) e fez dois anos da faculdade de Direito (um desejo do pai), se mudou para Nova York, começou a estudar no Actors Studio, sob a tutela de Lee Strasberg, onde aprendeu “o método” de criação que era incentivado, baseado em próprias experiências e na bagagem emocional do ator, fez inúmeros testes para a TV e conseguiu diversos papéis em programas ao vivo, fez amigos que o motivavam a querer viver a arte, pintava, fotografava e atuava intensamente, sempre buscando a perfeição, conquistou um papel de destaque em uma peça chamada O Imoralista, que foi vista por Elia Kazan, diretor que escalava o elenco de seu próximo filme, Vidas Amargas, e que decidiu conversar com Dean, a princípio, um perfeito estranho, em seguida, um perfeito Cal, personagem que Dean encarnou com maestria e que o revelou, visto também por Nicholas Ray, que iria fazer um filme sobre a rebeldia juvenil e viu em Dean a figura ideal para interpretar Jim Stark em Juventude Transviada, filme que se tornou o grande retrato do mito de James Dean, que era apaixonado pela velocidade mas havia sido proibido de manter seu hobby favorito (a corrida de automóveis) durante as filmagens de Assim Caminha a Humanidade, onde protagonizou ao lado de Elizabeth Taylor e Rock Hudson a história da decadência do Texas, dirigido por George Stevens, e que lhe valeu sua segunda indicação ao Oscar de melhor ator (a primeira por Vidas Amargas), ambas póstumas (e até então únicas na história da premiação), já que Dean havia morrido dirigindo seu Porsche Spyder, indo para uma de suas corridas, em 30 de setembro de 1955.

A biografia de James Dean pode ser resumida em um único parágrafo, num fôlego só, dado seu caráter breve. Mas o talento de Dean só pode ser analisado graças a várias revisões de seus estupendos desempenhos (o que faremos a seguir, nas resenhas de seus três grandes filmes), nunca nos possibilitando uma definição única sobre a genialidade do ator. Se sobre a vida pessoal de Dean (rumores de bissexualidade, o amor por Píer Angeli, sua personalidade retraída) só somos capazes de especular, sobre o talento imposto por ele nas composições de seus personagens podemos encontrar cada vez mais fatores que impossibilitem que se cesse a admiração. Pois, respondendo a pergunta se esses únicos trabalhos dariam conta de comprovar o talento de um ator, é claro que sim. Só não se pode saber se caso tivesse vivido, James Dean se tornaria ainda mais, o maior. Ao menos o que se teve dele bastou para o nascimento de um mito inabalável, o maior ator de sua geração, o maior ícone do cinema.

Thiago Macêdo Correia

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Assim Caminha a Humanidade (George Stevens, 1956) – (Especial James Dean)

A primeira imagem que temos do filme é o enorme Texas, cercado de nada por toda a parte, com um riacho se insinuando mais a frente. Logo vemos uma nuvem de poeira se aproximando, um rebanho de gado sedento, correndo o máximo que podem até seu pote de ouro. A medida que se aproximam o rebanho diminui a velocidade, quando a água está diante de seus olhos eles caminham calmamente, ordenados, até suas bocas encontrarem a recompensa. E depois? Depois são gados com sua sede saciada, nada mais. O riacho tão excitante de antes vira uma poça no meio do deserto.

O que o ser humano busca? Matar a sede? Matar a fome? Matar o que? Ter dinheiro o suficiente para… O que? E depois?

Assim Caminha a Humanidade narra a história de várias gerações de uma mesma família Texana, mostra as mudanças de um País com descoberta e consolidação do “ouro negro” nos Estados Unidos, denuncia o preconceito descabido em uma América supostamente em estado de evolução, mas acima de tudo lança e brinca com a proposta do: o que na verdade é a evolução, e o contrário disso? Em Assim Caminha a Humanidade o mundo evolui da mesma forma que seus personagens evoluem, e pra mim isso é o mais interessante mostrado.

Jordan – Bick – Bennet, um Texano ferrenho, daqueles que não consegue separar o lado político do pessoal. do tipo “falou do meu digníssimo Estado falou da minha digníssima mãe” (visão parecida que o Brasil tem dos Gaúchos), vai até a propriedade de um fazendeiro, em outro estado, para comprar um puríssimo sangue rebelde, do qual nunca deveria ser montado por uma mulher – Menos Leslie. E o encontro com o animal é justamente também com Leslie, filha do Fazendeiro. Imediatamente Bick apaixona-se pela moça, devido sua sinceridade e espírito confrontador. Leslie não esconde quem é, já em seu primeiro encontro com ele o acusa de ganancioso e ofende seu Estado. Mesmo ofendido o inevitável acontece, ele se apaixona pela rebeldia da moça e se casam. Lua de mel blá,blá,blá. Se conhecem a poucos dias e Leslie acompanha seu marido até sua nova casa, no Texas.

O choque é inevitável. Trocar o verde acolhedor da fazenda de seu pai, pelo laranja agressivo do redor de sua nova casa. O som dos pássaros beijando as plantas, pelo ronco do vento que mais parecia uma navalha (do tipo que pesava no ar, como se pudesse montar nele). E aí que realmente surge Leslie. O tipo de mulher que não precisa se adaptar ao ambiente, o ambiente que se adapte a ela. Já nos primeiros minutos no seu novo lar as diferenças nas personalidades dela e de seu novo marido começam a aparecer. Enquanto Leslie é uma idealizadora (e naquela hora talvez nem saiba ainda), na qual trata todos iguais, independente do que seja; seu marido mostra-se preconceituoso e arrogante. E pra piorar, Leslie tem um encontro com Luz, irmã de Bick e até então a mulher da casa. A única semelhança entre Luz e Leslie é a de não se importar em mostrar quem realmente são, ofenda quem ofender. E Luz não faz questão de esconder que a presença de Leslie na casa a desagrada.

Os primeiros dias da moça em seu novo lar são um inferno, ter que aturar a irmã megera que faz questão de mostrar quem manda, se adaptar a uma cultura totalmente diferente da sua, o descobrimento que ela e seu marido talvez não tenha tanta coisa em comum assim, e que agora mostrava todo seu preconceito até com ela, que o impedia de participar das conversas políticas apenas por ser mulher… E é aí que surge Jett Rink (James Dean), o personagem mais interessante do filme. Um misto de Foster Kane com a própria personalidade do ator. Cheio de ambição, cheio de paranóias, e completamente apaixonado por Leslie. Rick é um peão que trabalha nas terras de Bick. Bick não gosta de Jett, e a recíproca é a mesma. O único motivo que faz com que Jett ainda trabalhe naquelas terras é Luz, que nutre muito carinho pelo rapaz. E é aí que o filme começa a brincar com o espectador e a proposta: do que diabos é evolução? Tudo se encaminha perfeitamente para o caminho mais manjado possível: a moça idealizadora casa-se com o bruto preconceituoso, que será libertada pelo rebelde espirituoso. Mas não é bem assim. Os anos vão se passando, nenhuma personalidade vai mudando, e mesmo assim as coisas se mostram exatamente iguais. Leslie com Bick, e Jett sozinho.

O tempo passa e Luz morre em um acidente de cavalo (o cavalo que Bick foi comprar quando conheceu Leslie). Ela deixa em seu testamento um punhado de terras para Jett. Bick oferece o triplo do que aquelas terras valiam apenas para voltar a ter todo o controle de seus hectares de volta, mas por arrogância, ou talvez “visão de mercado”, Jett prefere ficar com o presente que lhe foi deixado. E faz bem, já que certo dia, Leslie vai visitar Jett em sua nova casa em sua nova terra, e acidentalmente, na despedida, pisa em um lamaçal fazendo com que um óleo preto surja do chão. Mas antes que ela pise, antes de ir embora, Jett e Leslie têm talvez a conversa mais importante do filme e que, de certa forma, já antecipa o futuro de cada personagem. Jett pergunta brincando se, por acaso, Leslie não teria alguma irmã bonita interessada em um cara pobre sobrando, e essa retruca alegando que “dinheiro não é tudo, Jett”, e ele em tom irônico responde “não quando você o tem”. De certa forma, e pelo que o filme mostrou até aí, Jett não está completamente errado. A própria Leslie, paixão da vida dele, só estava no Texas naquele momento porque um homem rico, dono de mais de meio milhão de hectares de terra, conseguiu a permissão do seu pai para levá-la para outro Estado consigo. Se até Leslie, com todo seu aparente descaso com o dinheiro, só conseguiu se apaixonar por um homem rico, não é absurdo pensar que infelizmente a evolução do ser humano esteja diretamente ligada a evolução do seu bolso, ou que evoluir para os olhos de quem vê seja muito mais importante que evoluir para o que você acha certo sendo evolução. E quando Leslie se despede de Jett o óleo negro surge do chão.

O tempo passa mais. Enquanto Leslie e Bick vivem (ou sobrevivem) em um casamento resumido pelo marasmo, Jett vira um dos maiores produtores de petróleo do mundo. Enquanto Leslie e Bick resumem sua vida a encaminhar o futuro dos seus filhos, agora ja crescidos, Jett resume sua vida a fazer a mágica da multiplicação das verdinhas. O pensamento conservador de Bick em apenas produzir gado em suas terras o deixa para trás no mercado econômico, enquanto Jett vai se tornando uma das pessoas mais poderosas do mundo no ramo do petróleo. Bick é obrigado a se render a Jett e admitir que a pecuária já não tem como concorrer com os poços de petróleo, e cede a pressão de deixar Jett perfurar suas terras por um preço bem razoável. E então finalmente a virada que o filme tanto sugestionava acontece: o peão vira rei e o patrão cavalo. Mas mesmo assim… Leslie ainda está com Bick. Jett ainda está sozinho. Jett está absurdamente rico, como Bick jamais sonhou ser. Mas de certa forma, nada muda, a não ser por Jett, que de um pobretão espirituoso, vira um ricaço preconceituoso e infeliz. Acabam-se os lados bons, Jett vira Bick e a obviedade da história vai pros ares.

É nessa parte que as mudanças começam a acontecer e o diálogo de antes entre Jett e Leslie se torna tão importante. O tempo passa, de novo. Bick agora já não tem mais a pressão de cuidar de suas terras, já está com a vida feita devido ao “presente” que recebeu de Jett por deixar suas terras serem perfuradas. Seus filhos decidem não mais seguir seu caminho, e um deles, o qual Bick tinha depositado todas as esperanças quanto a seguir com a tradição da família, além de resolver seguir o caminho da medicina, se casa com uma imigrante. Bick inda é o preconceituoso de antes, só que mais “relaxado”. O ambiente o transformava aos poucos em um cara não tão ruim. Então ele e toda sua família são convocados a comparecerem em uma festa onde o homenageado será Jett que falará através do rádio para o País inteiro. No momento em que deixou com que suas terras fossem perfuradas, praticamente virou um funcionário de Jett, e então, sem escolha, vai, com toda sua família. E é aí, quando os dois homens ficam cara a cara mais uma vez que temos a real dimensão do quanto o externo pode corromper o interno, que o que importa é o que nos cerca, e não exclusivamente o que somos. Jett é um beberrão (antes não era), arrogante (antes nem tinha como ser) e o preconceito exalava pelos seus poros. Enquanto Bick continua mudando e surpreendendo, como quando se enfurece por saber que algumas cabeleireiras se negaram a atender a esposa de seu filho por essa ser imigrante, a mando de Jett. Ou quando já no caminho de volta da festa, Bick e parte da sua família (incluindo aí a esposa imigrante de seu filho), param em um restaurante de beira de estrada para tomar café. O dono do restaurante é praticamente o reflexo de Bick alguns anos atrás, de Jett, agora, da suposta América evolutiva com seus poços de petróleo, ou da América antiquada, onde a pecuária prevalecia. O dono do restaurante era o símbolo da América estagnada que os cercavam, e das pessoas que a faziam. Bick se revolta ao ver esse homem expulsando uma família de imigrantes apenas por serem imigrantes, e parte pro soco com o sujeito. O homem preconceituoso que era Bick, agora lutando apenas pela honra e justiça de pessoas que ele nem conhecia. Uma evolução de caráter. Evoluiu porque deixou de ser preconceituoso e um idiota? Principalmente por que descobriu o que realmente traz satisfação para ele. E o que o fez evoluir? Esse é o final feliz? Ainda tem Jett…

Jett se torna o vilão? Não, o único pecado de Jett foi gostar tanto de Leslie ao ponto de não conseguir ter mais ninguém ao seu lado, e, em conseqüência ter como maior amante suas conquistas financeiras. Ele foi corrompido pelo mundo por não ter ninguém que o puxasse de volta. Bick era tão ruim ou pior que Jett, e mesmo assim teve sua redenção, teve Leslie, seu filho… Jett não teve a mesma sorte, e foi tragado pela podridão que o cercava. Onde que Bick acertou e onde Jett errou? Qual caminho que fez com que Bick e Jett alcançassem o desfecho que tiveram? Não fosse Bick ir à fazenda comprar o cavalo; não fosse ele ter conhecido Leslie; não fosse Luz ter morrido em acidente com esse mesmo cavalo; não fosse ela ter deixado as terras para Jett; não fosse Leslie ter descoberto o petróleo nessas terras; não fosse Bick ter impedido – mesmo que de forma preconceituosa – Leslie de viver rodeada ao mundo da política, economia, etc, e, de certa forma, a alienando da podridão, criando nela um mundo a parte do seu, que no final foi a sua própria salvação… A redenção nunca teria acontecido. Foi preciso um testamento, um passo em falso… Para que um homem tenha de fato evoluído, e em contra partida, para outro ter levado uma vida de merda. Bick então era melhor que Jett? Pode até ser, mas acho que o que definiu a mudança dos destinos dele foi algo muito mais fora do controle: a sorte. Não teve erro ou acerto, teve o acaso. Eu coloco os três personagens em um estado inicial igual. Aliás, todos os personagens do filme são um reflexo do mundo onde vivem. Todos começam como macacos, que podem chegar a seres humanos ou voltar para girinos, dependendo do ambiente que os rodeiam. Leslie foi criada em uma fazenda, Bick foi criado no meio da pressão de ser e ter mais, e Jett em um mundo onde foi e teve menos, mas sempre vendo quem era e tinha mais. Claro que não se pode desconsiderar a índole, mas não existe nada mais corruptível que o próprio mundo que o cerca, e isso que foi moldando o caráter de cada um deles. Bick foi salvo por Leslie, Jett quis tanto Leslie que seguiu o caminho “errado”. Mas o “vilão” virou “mocinho”, e o mocinho… Se fudeu. Onde o verdadeiro vilão da história era o mundo, os mais (bem mais) de meio milhões de hectares que eles pisavam.

Thiago Duarte

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Juventude Transviada (Nicholas Ray, 1955) – (Especial James Dean)

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A eternização e a mitologia, que vêm sido amplamente discutidas aqui, são, para mim, algo de bastante significado – e peculariadade. A procura insaciável a elas pode levar a uma tragédia; mas uma tragédia pode forçar ao encontro delas. É aquela velha questão: “o homem faz a história ou a história faz o homem?”. James Dean foi o maior exemplo disso no cinema – quiçá como Napoleão e Hitler para os livros de história -, e, apesar do brilhante Giant (e de um possível excelente desempenho em Vidas Amargas, ainda não visto), só encabeça este panteão graças à relação da juventude de sua época, sua própria vida e Juventude Transviada (cujo título nacional, ainda que tome partido, por ser sinônimo de “desviada” e, conseqüentemente, de algo errôneo – enquanto “Rebel”, do original, foi um termo que ganhou mais valor e significância a partir dos anos 50, como visto no Especial – não é necessariamente mal aplicado), obra que chegou a ser proibida em cidades dos próprios Estados Unidos da Aérica, pois poderia incitar ou sugerir algo acintoso aos jovens.

A pose de Dean, com as pernas cruzadas, as mãos nos bolsos do casaco bistoso e o encosto meio desleixado, ganharia mais peso ainda do que as passagens de Marlom Brando, por exemplo, em obras como Sindicato de Ladrões e O Selvagem, tornando-se ícone na década e referência hoje mesmo para os desconhecedores da obra – alguns diriam que virou até um símbolo pop ocidental do século XX, que perdura. O que Juventude Transviada trouxe, além disso, para merecer tal destaque e tantas discussões, para a história é o que engrandece o filme; o primeiro de Nicholas Ray (que, durante a pré-produção, de tão empenhado na idéia, desistiu de dois roteiristas) em CinemaScope.

Jim é um récem-chegado a uma cidadezinha americana qualquer e, na véspera de seu primeiro dia de aula no novo colégio, é pego bêbado e derrubado – por sinal, a abertura do filme, debochada, já ganha. É na delegacia que as três principais figuras do filme aparecdem, juntas, na “perdição” de seus caminhos. Judy (Natalie Wood) demonstra, de imediato, carência afetiva do pai, fugindo de casa para tentar conquistá-lo (e decepcionada ao saber que ele, nem assim, liga; uma vez que é sua mãe quem irá buscá-la). Por sua vez, o pequeno Platão (Sal Mineo) está somente com sua empregada: sua mãe, divorciada, viajou em pleno aniversário, que ele comemora matando animais. Por fim, os pais de Jim podem até oferecer a ele o dinheiro e – surpresa! – uma suposta dedicação caseira; todavia, ainda que pensem ser o necessário, são muito superficiais (vide uma fala, próxima do final, do pai de Jim: “I think I know my son”) e as discordâncias entre eles são lamentadas pelo rapaz.

Neste breve painel, o “ataque” crítico à figura paterna funciona ao se mostrar denso. Mais: bem faz o filme ao não optar por buscar grandes metáforas existencialistas, ou colocar questões sócio-políticas. Ou seja, há um foco exclusivo num sentimentalismo – e se há culpa na sociedade, isso não é o ponto principal da questão: ocorre apenas um relato de como os problemas “menores” são logo devolvidos (i.e., a delegacia, neste caso, só serve para pegar depoimentos rápidos e aparecimento dos pais, com sugestões de psiquiatras e conversinhas frouxas), pois são jovens de boa formação e não deveriam oferecer tanto problema a se atentar devidamente – entre quatro paredes que provoca o desequilíbrio inesperado. Contudo, enquanto a liberdade é recém lançada e de maneira ágil, e os pais estão cansados, após a II Guerra Mundial, os jovens vêem-se entediados pelas relações formais e pelo cotidiano irritante.

Não há repressão, barbárie ou desigualdade, mas sim falta de objetivos, falta esta preenchida por uma vida atônita, libertina ao extremo e com seus ‘desvios’ e riscos. E, como não recebem resposta (adultos sem reação, como o pai de Jim, que aceita os insultos e reclmaes de mãe e avó, culpando o exterior – daí as sucessivas mudanças – e não parando para pensar no interior), continuam fingindo-se. Assim, para serem aceitos, precisam de grupos fechados com “regras” e “padrões” distintos daquilo que vêem em casa. O grupinho de alunos provocadores testa Jim, após uma ecursão ao Planetário, com confrontos verbais e as facas (para variar, lembro-me de Laranja Mecânica e a sensação de prazer provindo das brigas de Jim com Buzz e entre as gangues é similaríssimo), além da Corrida da Morte que leva ao plot do filme.

Minutos antes da corrida, Buzz, namorado de Judy e grande oponente, mostra-se apenas mais um deles, talvez um “Jim” em outro estado, o que serve para tirar, de vez para quem ainda não percebera, um status de culpa do rival na corrida. Ele admite gostar de Jim; só que, de forma vaga, responde que aqueles duelos são necessários, ou seja, complementa as idéias supra-citadas. Diante do desespero da morte de um colega, os três garotos tentam se apoiar, mas não encontram resistência no seio familiar. Se o pai de Judy cumprimenta o filho pequenino, que leva uma arma e celebra a Era Atômica à mesa do jantar, nega-se a tomar a filha para um afago, justificando-se pela idade da garota, que é ruim (como se disesse à mãe e à filha que tenham calma, posto que os tempos melhores virão, o lance é esperar). Já o de Jim é patético ao se colcoar de avental e repetir chavões falsamente moralistas, que são ocos como os dramas existenciais de uma novela global. Com isso, tenta dizer que a idade é ótima para mentirinhas – outro a jogar a solução para o futuro, quando o garoto puder olhar para trás… Por fim, Platão tenta se agarrar cada vez mais à nova companhia, considerando Jim seu melhor amigo, mesmo tendo conhecido-o há horas (e orgulhando-se dele).

Após o falecimento de Buzz e com a sensação péssima de pessoa sem utilidade e que andou por caminhos duvidosos; reconhecendo-se pecador, mas querendo mais do que as palavras de remissão, e à procura de agir por algo bom, Jim sai de casa diante da fragilidade que lá encontra. Seus pais são estúpidos e é tristíssimo o momento em que o homem da casa silencia, cabisbaixo, a contragosto de seu flho, à mulher que tenta segurá-lo para que não delate o ocorrido. Afinal, problemas acontecem com todo mundo; alguém que resolva tudo e procure a verdade, pois seguimos em paz e não queremos ser perturbados ou nos perturbar. Na delegacia, nova decepção, pois aquele que lhe dera confiança não se encontra e as demais pessoas no lugar mandam-no para longe. Depois de muito tentarem, enfim, os jovens encontram um momento de união, fraternidade e ilusão numa mansão próxima ao Planetário. A seqüência leva ao doloroso desfecho de forma arrebatadora, embora eu mesmo tenha visto-a como uma tola preliminar do final na primeira vez em que vi o filme.

No encontro, Platão faz de Jim e Judy seus pais – vejam só, a satisfação ocorre quando os três passam-se por adultos, com piadinhas maldosas sobre a possibilidade de trazarem filhos ao lar (crianças são um saco; logo eles são um saco). Judy assume que só se exibira diante dos outros garotos e Platão também se abre, dormindo aos pés dos dois. Uma tomada aérea da piscina vazia é, sem dúvidas, um dos maiores planos de Juventude, ao conferir a sensação de tranqüilidade e pacífica vivência.

Findada uma série de mal-fadadas tentativas de acalmar Platão, a polícia afoba-se e provoca o fim anunciado. Ali, ao lado do Planetário, ao raiar de um novo dia – “quanto vale uma vida afina?”, o filme passa-se em pouco mais de 24h -, onde os confrontos começaram, mas também a relação fraternal; com o homem no espaço e, nas palavras do doutor, “a Humanidade, em sua própria existência, parece ser um episódio de poucas conseqüências”. A instabilidade da vida do jovem levou-o a ser emocionalmente frágil e, agora, vira um inocente que “não tem ninguém” nas palavras da empregada. Ou seja, a morte altera a percepção de como se vê uma pessoa. Não seria esse o próprio relato da persona James Dean? Talvez o casaco cedido pela personagem Jim ao garoto assassinado represente mais do que um gesto de solidariedade hoje.

A história faz o homem ou o homem faz a história? Dean morreu num acidente de carro, Wood afogada em circunstâncias duvidosas, e Mineo assassinado. Fato é que Juventude Transviada serviu à juventude, naquele momento, como o neo-realismo italiano e obras como Os Esquecidos ao Terceiro Mundo, e perdurou muito mais. Desilusório, inconseqüente, e talvez até banal. Sem dúvidas, a popularidade de um filme com um personagem chamado Jamie, sem idade definida, e com tudo isso, só podia transcender a própria sessão. E ter sido feito para a consagração, a eternidade e a mitologia.

Cassius Abreu

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Vidas Amargas (Elia Kazan, 1955) – (Especial James Dean)

Já no segundo ato de Vidas Amargas, Cal (James Dean) escala o telhado da casa de Abra (Julie Harris) para contar a ela sobre seu plano de fazer uma surpresa para o pai, no dia do seu aniversário. Espera contar com a ajuda de Abra, confidencia a ela tudo que ele havia feito até então para resgatar o dinheiro que o pai havia perdido em um negócio mal sucedido com alfaces, tempos antes e, mais que tudo, parece almejar uma espécie de perdão. Momentos antes, Cal havia se envolvido em uma briga, em defesa do irmão, mas logo em seguida bateu no irmão por conta da incompreensão deste diante de suas atitudes. Cal anda sem direção e está prestes a cair, durante todo o tempo, e mais uma vez isso quase acontece ao se despedir de Abra e começar a descer o telhado: Abra dá um grito que impede que Cal caia lá de cima, ao que logo ele questiona sobre como ele teria chegado até lá; Cal percorre caminhos às escuras para chegar sempre à beira do precipício. Abra, neste momento, o salva, mas nada garante que isso será possível por muito tempo. A seqüência citada é específica, mas não é única dentro do filme dirigido por Elia Kazan, adaptação do romance semi-biográfico de John Steinbeck, pois em Vidas Amargas existe a perene sensação de suspensão da estabilidade e tudo que se pode enxergar em cena, desde o primeiro instante, é o anuncio de uma tragédia catastrófica.

Em um primeiro conflito, Cal busca a aproximação de uma senhora desconhecida, que vive em uma cidade próxima da dele, mas distante ao mesmo tempo, cujo acesso só é possível depois de uma longa viagem de trem, que Cal faz em cima dos vagões, sujeito a todo tipo de risco. Cal volta para casa sem ter conseguido falar com a senhora, encontra o irmão que o ama, mas com quem não consegue se comunicar. E também com Abra, sua futura cunhada, uma pessoa que desconhece as intenções de Cal, mas se vê instigada a decifrar o enigma. Cal encontra seu pai, que mal olha em seus olhos ao lhe repreender por não ter dado notícias, por não se importar. Em poucos minutos estamos situados num mundo aparentemente tranqüilo e próspero (o pai de Cal está empreendendo em um negócio pretensamente revolucionário), um paraíso em Terra, como indica o título em inglês, East of Eden (sendo o Éden, o paraíso bíblico). Mas o que podemos assegurar é que a presença inconstante e perturbadora de Cal nesse mundo de paz é o único aspecto de realidade que se exibe diante de nossos olhos. Cal se acha mau e acredita que isso seja herança de sua mãe fugitiva, aquela que o pai fez com que acreditasse que estivesse morta. Ao confrontá-lo sobre os motivos da partida de sua mãe, sobre sua personalidade, Cal percebe que o que o distancia do pai – e do amor que ele sempre esperou – era justamente o fato de ser como a mãe e que as atitudes dela deveriam ter machucado demais o pai para que ele fosse incapaz mesmo de amar o próprio filho. Cal clama para que o pai fale com ele, para depois, já na presença da mãe, fazer o mesmo pedido doloroso para ela. Dos olhos de Cal e das mãos estendidas, nos é atirado uma dor insuportável, reflexo da mais completa impotência perante o amor mais básico, o amor entre pais e filhos. A existência de Cal, marcada pelas perambulações tortuosas durante a vida, é um dos retratos mais terríveis já compostos no cinema, resultado do magistral trabalho de James Dean e Elia Kazan.

Quando escalou Dean para o papel, Kazan o fez justamente por não achar que o ator fosse eloqüente ou organizado, capaz de criar um personagem substancialmente afetado por tanta dor; Kazan sabia que em Dean residia esta dor, essa bagunça existencial, sabia que Dean, assim como Cal, parecia vagar pela vida sem um ponto de conversão específico. Dean era Cal e foi com essa constatação que o diretor levou adiante sua construção dramática. Entre a liberdade artística de James Dean, incapaz de se ater às falas tal como escritas no roteiro ou manter o ritmo da cena sempre do mesmo modo, e o rigor da interpretação de Raymond Massey, que faz o pai de Cal, Adam, Kazan trabalhou as desavenças profissionais que se estabeleceram entre os dois em função de seus personagens. O que vemos em tela, por exemplo, é o terror com que Adam encara Cal, não sendo capaz de abraçar o filho após recusar o presente de aniversário que este lutou tanto para conseguir, ainda que Cal estivesse sucumbindo diante de seus olhos. Adam é incapaz de olhar Cal diretamente, e o resultado impressionante é fruto do próprio ódio com que Raymond Massey encarava James Dean, fazendo movimentos bizarros – para Massey – e não previstos anteriormente. O que estava em cena era real, ainda que ficcional, e como o próprio Kazan dizia, “nenhum diretor seria capaz de conseguir aquele desprezo”. Kazan ainda jogava o jogo dos atores ao captar os momentos mais tensos entre Cal e Adam com câmeras improváveis, que se posicionavam em uma angulação imperfeita, instável (como na cena do balanço), buscando um entendimento daquela relação não compreendida, mesmo tão claramente distante.

Essa noção de realismo dentro da ficção desenvolvida em Vidas Amargas é reiterada quando os conflitos internos de Cal vão além de sua busca pela verdade sobre a mãe, além de seu amor não correspondido pelo pai, além de seus atos impensados. Cal se deixar levar pelo ciúme do irmão (este, reflexo do pai e “bondade em pessoa”, como o próprio Cal proclama) e o encaminha a “ver a verdade”, questionando se é possível que ele a aceite como tal. Na tentativa de ferir o seu irmão, seu semelhante, Cal assina a tragédia e abre o caminho para o fim, da história como relato, da vida como um todo. A morte anunciada desde o princípio é latente e passa a consumir o próprio ser ainda vivo, para que a culpa possa dar cabo do resto. Esse real é levado aos primórdios da crença da humanidade, do ponto de vista bíblico, já que o paraíso ali já está violado, a figura básica a ser seguida (Adão ou Adam, em inglês, o primeiro dos homens) fica distanciada e o que restaria ao que pecou seria a fuga. É sugerida a Cal que seu destino seja este, quando o xerife cita a bíblia em: “Caim levantou-se contra seu irmão, Abel, e o matou. E Caim retirou-se e habitou na terra de Node, ao leste do Éden”. Mas Cal, diferente de Caim, buscará ainda por sua redenção, que é o que faz desde o princípio e fará até o fim, mesmo que não seja verdade. Assim como Dean.

Thiago Macêdo Correia

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Década de 50 (Especial James Dean)

Ao som do rock and roll, a nova música que surgia nos 50, a juventude norte-americana buscava sua própria moda. Assim, apareceu a moda colegial, que teve origem no sportswear. As moças agora usavam, além das saias rodadas, calças cigarrete até os tornozelos, sapatos baixos, suéter e jeans.

O cinema lançou a moda do garoto rebelde, simbolizada por James Dean, no filme “Juventude Transviada” (1955), que usava blusão de couro e jeans. Marlon Brando também sugeria um visual displicente no filme “Um Bonde Chamado Desejo” (1951), transformando a camiseta branca em um símbolo da juventude.

Já na Inglaterra, alguns londrinos voltaram a usar o estilo eduardiano, mas com um componente mais agressivo, com longos jaquetões de veludo, coloridos e vistosos, além de um topete enrolado. Eram os “teddy-boys”.

Ao final dos anos 50, a confecção se apresentava como a grande oportunidade de democratização da moda, que começou a fazer parte da vida cotidiana. Nesse cenário, começava a se formar um mercado com um grande potencial, o da moda jovem, que se tornaria o grande filão dos anos 60. No Brasil, desfilavam os playboys de Copacabana em seus Cadilacs e cabelos penteados com o dedo ao estilo de Elvis. Sapatos brancos mocassim, calça rancheira e camisa Ban-Lan. A juventude rebelde andava de “Lambreta” e mascavam chicletes. Os homens usavam “Ray Ban” e as mulheres, lenço no pescoço. Com a explosão feminista, Marilyn Monroe era símbolo sexual no Brasil e Marta Rocha, que perdeu o titulo de Miss Universo pelas duas polegadas a mais de quadril, passa a ser o ícone de beleza brasileira. Na moda praia, as extensas roupas de banho femininas perderam espaço para o ousado maiô, que mostrava as coxas e os ombros.

Os Anos Dourados (assim chamado pelo crescimento industrial e econômico pós-guerra) também marcaram o Brasil pelo surgimento do Rock. “A musica de quem quer matar o pai” – como diziam os jovens – era repudiada pelos conservadores, que considerava o estilo de vida uma decadência e uma loucura. As músicas eram importadas dos Estados Unidos, assim como o jeito de se vestir dos “rebeldes sem causa”. Percebendo o sucesso do Rock`n Roll, as gravadoras começaram a procurar “homens de família” e “meninas de bem” para formar um grupo de rock. Formado pelos jovens China, Alênio Trindade, Tim Maia, Erasmo Carlos e Roberto Carlos, a “Turma do Matoso” foi uma das primeiras bandas de rock brasileiro. Cely Campelo era ‘ídolo dos adolescentes que lutavam contra a repressão sexual e pela liberdade de expressão. Seus rits foram: Estúpido Cupido, Banho de Lua e Broto Legal.

A Geração Coca-Cola, bombardeada com o crescimento econômico e com incentivo governamental de importação, viveu um consumismo extremado e uma rebeldia quase copiada. O “American Way of Life”, ao mesmo tempo em que deu ao jovem brasileiro da classe média uma sensação de liberdade e prazer, trouxe uma desigualdade social muito grande pelo monopólio industrial `as famílias de classes mais baixas.

O Selvagem (Laslo Benedek, 1953)

As gangues de motocicletas, hoje encaradas com total normalidade, já foram causa de dores de cabeça para as autoridades e até mesmo de medo para a população média nos EUA. Acostumado a uma vida pacata, baseada na boa e velha moral cristã, o povo via com maus olhos aqueles estranhos jovens que, montados em motos, viajavam por aí sem rumo, com o vento a estapear-lhes a face. Entretanto, para muitos jovens da recém-nascida década de 50, ter toda essa liberdade deve ter sido um sonho. Andar de motocicleta, beber, brigar, cuspir em cima da lei… enfim, ser um REBELDE (com todas as letras maiúsculas e, talvez, até separadas entre si por hífen) era o sinal de um novo estilo de vida. Um estilo pouquíssimo preocupado com o ideal de vida norte-americano (ou brasileiro, japonês, russo, uzbequistanês – será que é assim que escreve? – ou seja, até da putaquepariu) e aberto para uma nova era, que despertava com o estridente choro do também recém-nascido rock n’ roll.

Nesta sua quinta aparição na tela grande, Marlon Brando é Johnny. Bem, na verdade, seu nome é John Strabler, mas isso pouca importa, afinal de contas, ele é legal demais para um nome como esse. And he’s bad to the bones, baby! Líder de uma gangue de motociclistas chamada Black Rebel Motorcycle Club, Johnny viaja por aí, como tantos outros motociclistas, em busca de diversão, seja ela em forma de festas, garotas ou uma boa briga, mesmo. Após criar um tumulto durante uma corrida de motos na pequena cidade de Carbonville, onde roubam o troféu do vice-campeão da corrida, Johnny e seus companheiros entram em outra pequena cidade e dirigem-se até o bar local. As pessoas da pacata localidade estranham o bando de jovens alucinados e barulhentos que acaba de chegar, mas tentam ser o mais hospitaleiros possível, afinal, os rapazes podem garantir muito lucro ao bar, com toda a cerveja que certamente irão beber. Entretanto, antes de entrarem no bar, provocam um acidente entre um deles e o carro de um velho senhor. Machucado no tornozelo, o motociclista é levado ao médico, o que leva Johnny a decidir ficar na cidade, enquanto o companheiro se recupera.

Porém, o que os demais motoqueiros vão descobrindo aos poucos, é que Johnny tem outro motivo para querer ficar. A bela atendente do café (e filha do policial responsável pela cidade) chamou a atenção do líder do bando. Enquanto sente-se atraído pela moça que não parece se interessar nem um pouco pela vida desregrada dele, Johnny ainda precisa lidar com o pai da garota, que tenta resolver tudo na conversa, mesmo sabendo que o bando de Johnny não pode ser boa coisa, com o seu bando e com um bando rival que aparece na cidade. Claramente desnorteado pelas novidades que o cercam, Johnny passa a questionar o tipo de vida que leva.

Apesar de toda a aura cult que esse filme recebeu nas últimas décadas, é importante salientar que em momento algum Laslo Benedek exalta a vida que Johnny e seus amigos levam. Mesmo que não os critique de forma aberta, o roteiro de John Paxton, por vezes, até trata os terríveis motoqueiros como quem trata de crianças que ainda não perceberam que suas infâncias já se passaram. Johnny e os demais, portanto, são encarados como um produto de uma época instável e de transição. Se, na época, era difícil classificar tais motoqueiros como um “câncer da sociedade”, eram ainda menores os motivos para classificá-los como “bons”. Por isso, ao invés de crucificar os jovens rebeldes da época, o filme prefere fazer uma crítica ácida à uma sociedade que não conseguia lidar com o problema de frente. E o personagem que melhor representa essa sociedade é justamente o policial pai de Kathie. Claramente amedrontado pelo que os motoqueiros poderiam vir a fazer em sua cidade, ele nunca toma uma postura diante dos eventos que acontecem na cidade. E é essa sua atitude irresponsável que acaba por permitir que os eventos culminem de forma trágica, como os letreiros iniciais do filme anunciam. Por outro lado, os demais moradores da cidade também não parecem compreender o tamanho da situação e, desde o primeiro momento, clamam pela prisão dos motoqueiros, como se estes fossem a encarnação do crime. Compreendendo a fraqueza dessa sociedade, o filme nos permite passear entre esses questionamentos e a confusão que se passa dentro de Johnny.

Confrontado de forma incisiva por uma realidade que ele sempre negou, o rapaz se vê tentado a deixar de ser o que é por uma vida mais tranqüila. É muito interessante perceber como ele é completamente evasivo quando Kathie tenta questionar a vida que ele leva. Mais interessante ainda é perceber como doeu nele o impacto das palavras de Kathie, quando esta descreve um passeio de motocicleta. Basicamente, a moça diz que, ao andar de moto e sentir o vento em seu rosto, por um momento ela esqueceu o medo que sentia. E isso a fez perceber o porquê de Johnny viajar de motocicleta sem rumo. Mesmo que ele jamais chegue a admitir isso, é, realmente, de se considerar se Johnny não estaria meramente fugindo, com medo, de uma vida que ele julga pesada demais para si. O grande momento do filme é este: é o momento em que Marlon Brando, com sua magnífica atuação, nos permite enxergar o que se passa dentro de Johnny. O porquê dele ser quem é… e o porquê dele não poder deixar de ser quem é.

Em aspectos técnicos, digo que Laslo Bedenek cria tomadas belíssimas em grande parte do filme, sobretudo aquelas onde contemplamos Johnny e os demais em suas viagens e a tomada inicial, onde tudo o que se vê são as rodas da motocicleta (e uma delas derrapando pertinho da câmera). Isso, somado à ótima trilha sonora criam um clima incrível de emoção e, claro, rebeldia.

Murilo Lopes de Oliveira

13 Comentários

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Sol Secreto (Lee Chang-dong, 2007)

Já esse eu esperava bem mais. O primeiro terço do filme não chega a empolgar, mas também não compromete. O grande problema é todo o segundo terço do filme (onde acontece a catástrofe com a personagem principal e todo o processo de fuga dessa realidade através da religião), que se torna extremamente chato e efadonho. A última parte do filme, quando se dá a reviravolta, até melhora um pouco, mas o resultado fial já foi totalmente comprometido. Esquecível.

2/4

Adney Silva

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A Fronteira da Alvorada (Phillippe Garrel, 2008)

Grande supresa. Confesso que não esperava muita coisa desse filme francês, mas é muito bom. Versa, através de uma fotografia fabulosa em P&B, de um elenco até certo ponto minimalista (mais da metade do filme é feito apenas pelos dois atores principais) e de uma direção que aposta nos planos fechados e nos closes, sobre o amor e suas consequências. A fotografia, atrelada a uma trilha sonora composta apenas de melodias harmoniosas no cielo, representa muito bem o estado de espírito dos personagens principais, mostrando que, a paixão e o amor são, antes de tudo, sentimentos ligados a tragédia de alguma forma. Recomendadíssimo!!!!

4/4

Adney Silva

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