E La Nave Va (Federico Fellini, 1983)

Uma salada exótica, sem sal ou pimenta para agradar. Assim é este delírio egocêntrico de Fellini, em que seus aleatórios devaneios floreados valem mais do que personagens ou uma trama consistente. É bem verdade que, há cerca de um mês, eu louvava sua “viagem” em Oito e Meio; mas o diferencial que leva um filme ao ápice e outro ao descalabro vem desde sua propusta e seu condutor. E La Nave Va, naquilo que se repetirá em certos momentos da obra, começa com uma tentativa de metáfora à essência filmística – como um filme mudo e de tom amarronzado, como nos curtas noticiários e documentários que eram exibidos na década de 1910, em que é situada a obra felliniana -, mostrando seus vários personagens entrando no navio Gloria N., que leva as cinzas de uma diva da ópera. Uma colcha de erros claramente gerada por certo desprezo de Fellini: a obra indefine-se, afinal, não é um painel de personagens atípicos bem estruturado, como parece a capa, não é uma homeangem concreta à ópera, como supõe a contracapa do DVD da Versátil, muito menos é uma metonínima sobre as embarcações / viagens de navio e a I Guerra Mundial.

Pode ser que o objetivo de Fellini tenha sido exatamente esse; engordar e rechear seus 126 minutos, com referências e metáforas que quase exclusivamente lhe cabem respeito; mas, dane-se, não gosto disso. Arrogância pessoal (que tantos brilhantes cineastas tinham, como Hitchcock e Kubrick) não pode se confundir com arrogância profissional. E, pasmem, a chatice de E La Nave Va é muito maior que os meus centopéidicos textos e frases. Deixando de lado a série de disparos objetivos, tentarei argumentar exemplificando rapidamente sobre as indecisões citadas no final do primeiro parágrafo. Quando todos sobem a bordo, quem assume a narração é um cronista que relata picuinhas dos famosos presentes no nvaio; e suas respectivas relações com a falecida (ou não, conforme seja-lhe válido mencionar). Mas nenhum é capaz de chamar a atenção para si, seja a atenção do cronista, disperso (à exceção de uma misteriosa garota – que, como entra, some), seja a da platéia: todas as personas parecem mesquinhas e rasas. O resultado é que, não fossem as extravagâncias físicas – bem destacadas pela maquiagem -, todos seriam iguaizinhos na falta de conteúdo – inclusive, não me recordo do nome de ninguém depois de 2h de ter assistido ao filme. O pior é que os atores parecem destinados e guiados a seguir tal prescriçaõ e idéia: atuações fraquíssimas, também limitadas a preencher extravagâncias físicas com caras-e-bocas dignas de Casseta & Planeta, e cantorias pessimamente filmadas e editadas, além do som ser bizarramente elevado ou destruído conforme a vontade do diretor. A comprovação da ridicularidade deste tema vem na cena em que se cria um estardalhaço em torno de um dos navegantes, por ser ele capaz de hipnotizar uma galinha gritando “óóóó”.

Tão ruim quanto individualmente – ou até pior -, são as personagens coletivamente (na integração quase desperciba de tão artificial) e nos questionamentos que poderiam montar uma figura de Edmea, a tal obituária. A nenhuma conclusão se chega a seu respeito e mais uma patética nea resume a procura pela essência de tal figura: um média incorpora Edmea para desespero de uma bichina tresloucada, que se veste de fantasma e assusta os poucos presentes na sala, fazendo uma senhora desmaiar. Se isso significa alguma coisa para alguém, ótimo. Só que, para mim, isso é a prova da falta de boa-vontade do autor para com seu público. O filme só apresenta alguma melhora quando os refugiados sérvios são resgatados e a cena em que todos dançam é, enfim, de idéia louvável; cada qual com sua loucura e seus problemas, no meio da guerra, unidos pela tal ópera (mas aí fazem falta os 2/3 iniciais para que o espectador não esteja dormindo neste ponto ou verdadeiramente importe-se com cada um ali). A relação com o navio austro-húngaro é igualmente boa (as duas realidades do cronista servem a isso), e só; porque o funeral não comove de jeito algum e a cena “de guerra” é tosca. Aliás, esta faz um panorama geral do que é E La Nave Va: um híbrido de bizarrices sem propósito, como num filme B, e cenas de “ricas leituras” e intepretações cuja serventia é a mesma. O desfecho é perfeito para a minha linha de raciocínio: temos o cúmulo de Fellini filmar-se a si filmando, com ondinhas de papel (para “homenagear” os defeitos especiais de outrora?), sobre a qual terminam o seu cronista – ele – e o rinoceronte, mais um ícone calibrado de parcos recursos; encerrando como começara, fingindo ser um looney-tune genial.

1/4

Cassius Silva de Abreu

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14 Comentários

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14 Respostas para “E La Nave Va (Federico Fellini, 1983)

  1. Caio Lucas

    Faz tempo que vi, mas lembro que gostei.

    Vale mais por isso mesmo, a estética que é interessantíssima. E claro que não se pode esperar algo grandioso de Fellini da década de 80 pra frente.

  2. Thiago Macêdo

    O QUÊ? Salada…hmmm

  3. ltrhpsm

    Digam que é a intenção, que é a estética, o que for; esse troço é um porre, dos filmes mais irritantes, pretensiosos e vazios (não precisa ter conteúdo, mas não precisa dizer que é genial ou que terá grandes coisas) já concebidos de todos os filmes que já vi.

  4. ffeldman

    Absolutamente lamentável. Pior crítica que já li na vida. And I mean it with all do respect.

  5. Ernani Pasetto

    É, realmente vida de artista é isto memo, disputa de égo. Mas no caso do filme de Fellini e retrata uma época em que os cantores líricos eram os astros Rock ou do Sertanejo se preferirem.

  6. Ernani Pasetto

    Na cena em que os cantores fazem uma breve apresentação para os homens que trabalham na casa de máquina da para notar que até as pessoas mais simples apreciavam a música lírica, mas quanto ao teor como pessoa dos personagens ,o objetivo é este mesmo, mostra que grandes astros também são pessoas frágeis e se escondem atras do talento artístico. A vida como ela era em 1910 e porque não hoje também. Para encerrar o Fellini é um verdadeiro artista sem os recursos da informática fabricava sonhos. Para quem gosta de informática recomendo o Gladidor ou os |Trezentos.

  7. Luiz Henrique

    Cè veramente molte sciocchezze in questa critica! Fellini sabia exatamente o que fazia ao produzir esta obra, há intenção por trás do jogo de realidades entre os amigos da diva falecida e os sérvios, há motivo para os militares austro-hungaros surgirem exatamente após a aproximação entre estes mundos extremos. Nella realtà, la preoccupazione del repoter è la stessa dello regista (Fellini), dimostrare – allegoricamente – la situazione politiche nella prima guerra mondiale, attraverso del confronto di mondi paralleli. É, também, uma representação de temática histórico-marxista. Quanto ao rinoceronte, é uma marca de Fellini, metáforas ao fim do filme representando o próprio filme ou sua temática, no caso, creio, se tratar da temática, uma sociedade frívola, à beira da guerra, adoentada e exalando odor fétido, mas que pode voltar ao bom estado caso promova a solidariedade entre ricos e pobres, entre nações, ainda que as circunstâncias sejam periclitantes.

  8. claudia

    Burro logo se ve que não tem cultura nem sensibilidade para ver o que é uma obra de arte, o filme nos remete ao fim da belle epoque , e como a burguesia representada pelo o navio como a Europa na eminência da guerra sem identidade, aprenda a entender nas entrelinhas ai você, poderá realmente se expressar, não ser um ignavo

  9. Izabel

    Cassius você faz jus ao título desocupado, bando de doidos, pois não teve nenhuma sensibilidade para análise ou até simples apreciação do que é uma falsa elite em todas as épocas, o filme mostra de maneira sutil essa diferença, não digo que a elite é podre sempre, e que a plebe é intelectual, você entendeu!!!!

  10. Gustavo Perosini

    É uma pena, mas nenhum de vocês “entendeu” essa maravilhosa obra de arte de Fellini. Na verdade, o filme não é para ser entendido e nem representa nada.
    Alguém se lembra da cena da dança? Se prestarem atenção nela, verão que duas pessoas começam a discutir sobre o significado da dança, mas Fellini os tira de cena no mesmo instante. Tudo porque a dança não tem significado nenhum!!!Ela existe apenas para mostrar a felicidade, a beleza da vida. O mesmo acontece com o filme, que não quer fazer uma crítica, ou significar alguma coisa.
    “E LA NAVE VA” não é para ser entendido, e sim sentido, assim como a grande maioria dos filmes de Fellini, que simplesmente mostram o lado belo da vida, onde a felicidade está em cada pequeno detalhe.

  11. Rafael

    E nas discussões acima podemos ver mais uma vez a disputa de egos da burguesia retratada pelo cineasta.

  12. Para os críticos mordazes de E la Nave Va sugiro que reveja os códigos do surrealismo e estude com mais atenção o Neo Realismo Italiano

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