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O Homem Errado (Alfred Hitchcock, 1956)

O Homem Errado

Quando percebemos que, ao invés das tradicionais pontas que o diretor fez em quase todos os filmes, ele resolve aparecer logo no início, através de uma tomada bastante dramática dele em um dos cenários do filme apresentando-o, sob a alegação do prório que “isso tiraria a atenção do tema do filme”, é porque estamos diante de um Hitchcock não-convencional.

Em “A Tortura do Silêncio” temos vários elementos um tanto incomuns nos filmes mais conhecidos do Hitch, mas, ainda assim, percebemos o visual estilístico do carequinha na direção. Aqui, esses detalhes praticamente inexistem, apenas em duas cenas (ambas quando o personagem de Henry Fonda está preso, uma delas registrada na foto acima), percebemos o estilo e a ousadia cinematográfica do diretor em questão. Aqui Hitch opta por dar um tom quase que documental à obra (talvez inspirado pelo neo-realismo italiano, ou pela nouvelle vague), o que, juntamente com outros detalhes que compartilham com A Tortura do Silêncio (o tom noir, a questão da fé – representada aqui pelo rosário carregado por Fonda e pela cena da revelação do verdadeiro assassino), dão ao filme um tom muito mais sério e emocional (diria que é o filme mais obscuro, mais dark do Hitchcock), mas ainda calcado nos temas habituais do gordinho. Henry Fonda está magistral, mas quem rouba a cena é Vera Miles (que interpreta a esposa de Henry). A interpretação sutil, que mostra linearmente a degradação psicológica da esposa com o decorrer do julgamento do esposo, é digna de aplausos (e, caso as premiações fossem justas, digno de Oscar). Sério, cada vez que vejo esse filme, me convenço que Vera Miles é uma das maiores atrizes que existiram. Por todos esses pontos, é o filme mais tocante e, por que não dizer, soturno e depressivo de Hitch, o que, provavelmente, foi o causador do relativo fracasso de bilheteria na época. Para mim, entretanto, continua a ser um dos melhores dele.

4/4

Adney Silva

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A Tortura do Silêncio (Alfred Hitchcock, 1953)

A Tortura do Silêncio

Acredito que todos, quando houvem o nome “Hitchcock”, lembram logo de “Psicose”, “Um Corpo Que Cai”, além de vários outros filmes dele. Também lembram das características base da grande maioria dos filmes do carequinha: O Suspense enfatizado pela sua direção, o tema-base do homem que é acusado de algo que não cometeu, entre várias outras. Mas pouquíssmas pessoas lembram de uma característica não tão evidente assim: a questão da fé, relacionada as referências ao catolicismo. Esse assunto acabou gerando dois dos filmes mais pessoais e interessantes de Hitch (que teve uma rígida formação católica). Um deles é exatamente esse que está sendo comentado (O outro é “O Homem Errado”, que comentarei em seguida). E em ambos os filmes é possível observar certas características que fogem um pouco aos filmes de maior notoriedade de Hitch. O característico humor inglês dele (que é inserido para que haja uma pausa para o espectador) é inexistente aqui. Tudo é mais sombrio, mais dark e, por que não dizer, mais noir. E essa característica noir é muitíssimo bem explorada pelo diretor, especialmente na cena inicial. O modo como ele usa as locações em Quebec, os seus prédios antigos, como facetas das expressões da alma e dos sentimentos dos personagns é simplesmente um toque de gênio. Isso também é enfatizado pelas atuações, que aqui, ainda mais do que nos outros filmes dele, dependem (e utilizam brilhantemente) cada vez mais o olhar para expressar a angústia e o desespero dos personagens. E, nesse ponto, destaca-se Montygomery Cliff. Poucas vezes vi olhos tão expressivos como os dele nesse filme. Sua atuação contida expressionalmente, mas cheia de sentimentos nas entrelinhas, é um dos maiores destaques. Temos ainda, um interessantíssimo confronto entre fé X razão (ou, se preferirem, Justica de Deus x Justiça dos Homens), nos embates entre Monyty Cliff e Karl Malden (que faz o metódico policial encarregado da investigação). Um filme que merece linhas e linhas de discussão, e que merece ser estudado em todas as suas entrelinhas.

4/4

Adney Silva

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