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Ascensor Para o Cadafalso (Ascenseur Pour L’Echafaud – Louis Malle, 1958)

Ascensor Para o Cadafalso é um noir de acidentes. Não (apenas) na superfície dos fatos, mas na estrutura. Se partirmos da matriz americana, ele começa no terceiro ato; é quebrado, interrompido e invadido pelo espírito inconsequente da juventude francesa naquela mistura irresistível de infância e tragédia como que prelúdio do fim de um capítulo e do início de outro / introdução à nouvelle vague e epílogo do film noir.

O anti-herói típico comete um erro patético que o mantém preso no elevador da cena do crime quase o filme inteiro; a femme fatale vaga sem rumo pelos bares madrugada afora à procura de seu amante. Enquanto isso, os jovens roubam o filme para si e tecem uma subtrama que, pelos ‘imprevistos planejados’ por Malle, ascende ao status de ação dominante. O desenvolvimento do noir é lento, lamentado, obscuro (sempre revestido pela trilha de Miles Davis que parece conferir uma classe melancólica às coisas); enquanto que a aventura do jovem casal transcorre impulsiva e cheia, contaminada, atingida fatalmente pela paixão.

O último terço é uma trégua entre os gêneros. O dia amanhece, a resolução dos fatos entra em cena (na pele do invariavelmente marcante inspetor da polícia, nesse caso vivido pelo fodástico Lino Ventura) e os “sub-filmes” que antes seguiam paralelos, cruzando um a frente do outro, agora convergem para o que parece ser um acordo elegante proposto por Malle (e seguido/perseguido na mesma época por Jean-Pierre Melville), cujo final coloca na mesa uma regra entre cavalheiros: no cinema, os autores mudam, as eras passam, mas a verdade (enquanto instituição) seguirá propriedade irrevogável da imagem.

Encenação do nascimento do neo-noir.

4/4

Luis Henrique Boaventura

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Lua Negra (Black Moon – Louis Malle, 1975)

Muito interessante que uma releitura de Alice no País das Maravilhas acabe matando, desastradamente, aquele que é o recurso narrativo mais notório da obra de Lewis Carroll: o maldito coelho branco. No caso do filme de Malle, um unicórnio, mas enfim, toda a noção de fascínio e fantasia como ferramenta extraordinária para manter o espectador preso, refém de sua curiosidade, adicionando por conseqüência do próprio mistério um sopro violento de encanto e de elemento fundamental, literalmente o ponto de partida de todo o universo mágico construído tanto no livro quanto no filme.

Mas não é apenas ou exatamente por conta de Alice conseguir encontrar seu coelho na metade do caminho (caminho que termina precisamente neste momento, parte por coincidência, parte por conseqüência) que Lua Negra se torna um filme menor do que deveria ter sido. Trata-se de um acontecimento que, além de derrubar um dos pilares pra manipulação narrativa, inaugura um processo vicioso e redundante de voltas e voltas e over and over sobre si mesmo, onde o deslumbramento do novo – e o charme do encanto e a provocação meio infantil daquele instinto explorador que nos pega pela mão e nos tira pra dançar nos primeiros 30 minutos – é bruscamente substituído pela saturação injustificada (e como eu torci pra que o Malle acertasse tudo no final e risse da minha cara de bobo por ter realmente achado que ele deixaria escapar uma obra-prima entre os dedos) de elementos fascinantes num passar de olhos, mas frágeis sob uma análise mais apurada (e é o próprio Malle que obriga o espectador a parar e realizar esta análise, enquanto o público convertido em criança pela condução lúdica e inconseqüente da primeira meia hora desejava, apenas, continuar a brincadeira de correr ao ar livre como se ainda não soubesse nada do mundo).

Ainda assim, um grande filme, realizado todo numa diegese seqüencial e cujo primeiro terço é um dos mais brilhantes exemplos de como se canta no idioma raro das imagens, e com que classe e elegância Louis Malle dita o ritmo da ação provocando o espectador para seguir e desbravar loucamente o seu mundo. Cinema feito espírito voraz e adolescente.

3/4

Luis Henrique Boaventura

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