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As 3 Faces do Mal (The Washing Machine / Vortice Mortale – Ruggero Deodato, 1993)

Tem um tom de thriller convencional que vai sendo frame-a-frame ‘estragado’ e sugado pra uma atmosfera erótico-hermético-onírico-wtf quase como uma representação do plot policial comum quando absorvido pelo horror (no caso, o italiano [no caso, o de Deodato **no caso, o do cara que fez Cannibal Holocaust**] – dois gêneros que se combinam pra parir uma aberração de muito mau gosto da ‘genética’ cinematográfica – ou qualquer merda nesse sentido).

A estrutura copia o conceito do “Vortice Mortale” (título original), ou seja, segue em ciclos se perdendo e submergindo num espiral de acontecimentos e bizarrices, quando aquela linha espessa entre o sóbrio e o lunático vai se decompondo até que o nosso herói não passe de uma bola de vôlei jogada de um lado pro outro pelas tais “3 faces do mal” do título nacional, três das mulheres mais fantasticamente vagabundas-filhas-da-mãe já representadas num filme (uma delas literalmente o estupra, a outra mantém uma relação lésbico-pedófila com uma garota cega, e a outra quase dá pra ele em um museu diante de dezenas de deficientes visuais – isso pra ficar nos fatos mais notórios).

Não que seja mais um italiano totalmente doido e desorientado, pelo contrário, a elegância da narração do Deodato e o ritmo todo habilidoso com que ele vai te cercando e te trazendo pra o que mentia ser um suspense ordinário e que na verdade é puro delírio são troços que, por mais que travistam o filme em uma aura de anarquia e porralouquice “e ok, derramei chá de coca no roteiro, vâmo filmar essa porra de qualquer jeito”, trazem lá dentro girando uma em torno da outra a mais absoluta loucura coexistindo com a mais transparente consciência, ou seja, sabia que o sabiá sabia assobiá.

4/4

Luis Henrique Boaventura

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Se alguém entendeu alguma coisa de toda essa merda que eu vomitei aí, beleza, pra todos os outros, vejam The Washing Machine; vai ficar claro feito água:

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Teu Vício é um Quarto Fechado e Só eu Tenho a Chave (Sergio Martino, 1972)

O Martino parece ter uma tendência irresistível e maravilhosa pra sempre torcer e anular o gênero conforme lhe der na telha. Aqui ele desmente o giallo (como já havia feito ao final de Sra. Wardh) pra se assumir como uma adaptação de Allan Poe, ter lapsos de thriller erótico/lésbico, depois se transformar num horror claustrofóbico e psicológico permeado por triângulos, quadrados e retângulos amorosos, só pra mudar de idéia outra vez e cair de cabeça numa trama esquizofrênica de conspiração. Pra se ter uma idéia ele troca de protagonista três vezes em 90 minutos, e o modo sem vergonha como usa e joga fora cada personagem é uma das manifestações mais exemplares daquele fluxo de (in)consciência incontido que dominou o jeito de filmar desses italianos. Basicamente tem dois tipos de personagens no filme: os que entram pra morrer e os que entram pra trepar. Apesar de que os que entram pra trepar acabam morrendo também então eu sei lá, enfim.

O mais podre, demente, errado e pervertido dos giallos. Ou seja, é obra-prima.

4/4

Luis Henrique Boaventura

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Giallo (Dario Argento, 2009)

*spoiler no 3º parágrafo

É preciso cuidado. Desde os 5 minutos de filme, quando o primeiro clímax é um rapto ao invés de um assassinato, qualquer fã de cinema fantástico vai notar que Giallo NÃO É um giallo, e principalmente que precisará reorganizar suas expectativas ao longo da sessão. Isso por que, antes de mais nada, não se trata de um trabalho explícito, daqueles onde se sente a mão de Argento como fogos de artifício na tela. Câmera subjetiva, travellings, cores, uma atmosfera qualquer meticulosamente preparada, etc… Nada disso. Os assassinatos pontuando a trama – sempre pretextos para que os italianos exercessem cada qual o seu estilo – são coisa de um ‘gênero’ que ficou para trás, cristalizado entre anos 70 e 80, e cuja última menção honrosa é o já distante Sleepless.

Giallo é um thriller policial cuja estrutura se molda a dos filmes de serial killer contemporâneos (e que de todo modo não deixaram de beber da fonte inaugurada por Mario Bava). A ação principal é a do detetive em busca da solução do caso, enquanto que os momentos de corte do ritmo são exatamente os do assassino no esconderijo torturando sua vítima (ao invés de sair à noite por vielas soturnas em busca de outras). A tensão então se daria simplesmente através do resgate da vítima, de o detetive chegar a tempo, etc… Mas é quando ameaça decepcionar, quando você pensa que mataram Argento, esconderam o corpo e puseram a câmera na mão do sobrinho do produtor, que Giallo se mostra narrativamente brilhante.

Desde o primeiro momento, Argento estabelece uma conexão entre o detetive e o assassino, fazendo-nos crer que se tratam da mesma pessoa assim que Adrien Broody surge com lentes de contato no retrovisor do táxi. Em seguida são as memórias do detetive que colocam em jogo todos aqueles elementos-base do universo argenteano pra construção de uma mente psicótica. Logo depois, Argento tira o “Yellow” das sombras, e o que temos é um Broody coberto de maquiagem. Não existem outros personagens dividindo a atenção, não existem suspeitos possíveis, não existem dúvidas. Mesmo com as ações transcorrendo em aparente simultaneidade, o espectador não desconfia, ele SABE a solução para o whodonit. E toma no cu bonito.

O “giallo” do título está subvertido. Subvertem-se as expectativas, subverte-se o estilo do seu autor, subvertem-se os elementos que o compõem. O whodonit está do avesso, a câmera está presa, aquela velha lâmina reluzindo no ar é agora substituída por seringas, martelos e alicates. Mas o giallo está subvertido pelo próprio cinema, não por Argento, e Giallo nada mais é que uma representação do contemporâneo em relação ao passado, não em tom nostálgico ou de réquiem, mas de passagem. De alguém que reconhece que o fôlego acabou, que o cinema e tampouco o público são o que costumavam ser.

Argento então faz dos flashbacks a sua fuga. É através das lembranças do detetive que ele acessa esse mundo perdido pelos amantes do velho giallo ao pintar a tela de laranja e trazer de volta a câmera ao status de personagem, movimentando-a como se boiasse à deriva na água. Se dispostos um ao lado do outro e linearmente, os flashbacks montam um giallo fechado, independente do resto do filme; com início, meio e fim próprios. Com apresentação de personagens, testemunho do crime e vingança, tudo concebido a facadas. Em Giallo, é apenas na memória que as coisas continuam belas. O tempo presente é apenas seco (compare os finais de Giallo e Profondo Rosso).

E o filme permite esse respiro. Te convida a fugir dessa opressão do convencional para viajar trinta anos no tempo e voltar pra um mundo que parece desconhecer o fato de simplesmente não existir mais. Desde Terror na Ópera.

Giallo é o filme mais lúcido de todo o cinema fantástico italiano.

3/4

Luis Henrique Boaventura

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Assassinatos do Expresso da Meia-Noite (L’Ultimo Treno Della Notte / Night Train Murders – Aldo Lado, 1975)

Assassinatos do Expresso da Meia-Noite, apesar de estar um pouco longe das obras-primas do terror setentista, é absolutamente único em sua proposta: na teoria, um longa. Na prática, 3 filmes em 1, com três partes de 30 minutos cada que, embora (óbvio) sigam uma ordem cronológica típica, são travestidos de tons absolutamente diferentes. O primeiro terço é um princípio de road movie/aventura, com umas inserções cômico-sexuais bem divertidas. A segunda meia hora desbanca pra um suspense que vai se convertendo lentamente ao horror puro e violentíssimo; e a 3ª é quase um western moderno.

O melhor é que o Aldo Lado (que é um velho muito do sem-vergonha) não tem qualquer intenção de conectar de forma orgânica estas três partes, nem tentativa de fazer a salada funcionar como um todo, muito pelo contrário. É como se mudassem os filmes mas permanecessem os personagens, pulando de gênero em gênero.

3/4

Luis Henrique Boaventura

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Hehe, esses italianos depravados, quem deixou eles saírem? Aqui uma virgem é estuprada por dois vagabundos tarados e uma ninfomaníaca. Com uma faca.

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Arraste-me Para o Inferno (Drag Me to Hell – Sam Raimi, 2009)

Arraste-me Para o Inferno é um embuste, mas um embuste tão divertido que se torna impossível tomar uma posição de contrariedade. A precisão de Raimi e o cuidado com detalhes, desde os mais ínfimios àqueles que fazem toda a diferença, são fantásticas (Raimi me parece ser um diretor que saberia utilizar a mais picotada das edições como ponto favorável de um filme, principalmente por saber posicionar uma câmera de forma a captar o movimento mais importante da ação e ao mesmo tempo jogar com inteligência com a mudança de ponto de vista da imagem – as seqüências de embate físico entre a velha e a moça são um primor nesse sentido). E no final das contas, por estes motivos e outros tantos,  o filme acaba sendo mais do que uma emulação, mas uma peça que realmente parece ter sido desencaixada do movimento terrir dos anos 80 e descoberta duas décadas mais tarde (também remete bastante a Tourneur e sua obra-prima A Noite do Demônio, pela bela construção atmosférica, através de sombras, do vento e da própria fundamentação da mitologia e da história em si). E tem uma composição de quadro impecável, que no final das contas é o que faz toda a diferença em relação ao cinema de horror contemporâneo. Algumas ironias pinceladas por Raimi são impagáveis, como quando a protagonista come o primeiro pote de sorvete, em que maços de dinheiro vão fazendo escadinha no quadro até conduzir o olhar ao objeto. E caramba, adoro quando o filme descabela totalmente, naquela seqüência da dança do espírito. É um carnaval de bizarrices que somente poderia terminar em gargalhadas. E nem preciso comentar o final, que é genial e etc (desde a seqüência do cemitério, um primor visual).

Seria um filme comum nos anos 80. Não tem a mesma força e qualidade e inventividade de um A Morte do Demônio, por exemplo. Mas Raimi acaba comprovando que o feijão com arroz daquela época é superior à média atual. Década perdida é o caralho.

3/4

Daniel Dalpizzolo

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O Gato Negro (The Black Cat – Lucio Fulci, 1981)

Não surpreende que Gato Preto, uma das obras mais extraordinárias importadas do cinema fantástico italiano, seja até hoje tão mal-interpretada. É um filme feito nos parâmetros particulares do diretor Lucio Fulci, ou seja, quem reluta em aceitar a ficção num nível mais extremo (geralmente levada ao grande público como mera imitação da realidade) periga encará-lo como produto de humor involuntário, o que acontece muito e que, com todo respeito, é uma puta burrice.

O conto de Allan Poe, inúmeras vezes adaptado e referenciado no cinema, funciona quase como uma espécie de termômetro pro estilo de cada autor do horror italiano nas três grandes obras-primas como versões do texto: o média-metragem homônimo de 1990 de Dario Argento, o surto narrativo de Sergio Martino em Teu Vício é um Quarto Fechado e Só eu Tenho a Chave (73) e, finalmente, o filme que é assunto desde texto. E “versões” do conto como forma de dizer, na verdade, porque no caso de Martino e Fulci, Poe é pego de referência meio distante, fuzilado, desmembrado, esfolado até o osso e, finalmente, reconstruído, do jeito que der. E se não der, também, os caras estão pouco se fudendo.

Em Gato Preto, Fulci versa por um equilíbrio entre a classe do horror climático e aquela conhecida demência criativa num misto de tons. Nem o 8 de Uma Sobre a Outra, nem o 80 de Zombie, nem o 800 de Terror nas Trevas. Gato Preto é o tipo de filme onde a câmera se movimenta deslizando pela rua na companhia de um homem solitário, em plena madrugada, numa belíssima composição de neblina e arquitetura européia com um sopro de film noir. Em seguida, no palco de uma das atmosferas mais bem compostas do cinema fantástico italiano, o homem começa a fugir desesperadamente de um gatinho, até ser preso, encurralado e morto pelo bicho, que é um dos vilões mais diabólicos e dissimulados do cinema, além de ser de longe o personagem mais inteligente do filme.

Insights geniais como sempre, travessura com os personagens (o Fulci chega a literalmente mentir para o espectador, em certo momento), referências a Hitchcock, e o plot que pega o pouco de insanidade do conto original e se reinventa e ultrapassa criando um filme que ri na cara de quem acha que arte tem que ter chão, teto e quatro paredes.

Filmar um giallo é fácil, amigo. Agora, pra fazer a porra dum gato assassino de meio palmo de altura funcionar no nível dessa obra-prima, o cara tem que ser muito cuiudo, ou nascer Lucio Fulci.

4/4

Luis Henrique Boaventura

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Farsa Trágica (Jacques Tourneur, 1964)

Quase que um mais do mesmo (comparando com O Corvo), só que ainda melhor. Aqui o humor é mais negro do que nunca e o timing cômico atinge o ápice. Contando com quase a mesma equipe formidável de O Corvo (acrescido de outra lenda, Basil Rathbone), The Comedy of Terrors é um clássico absoluto.

O humor negro contido nesse filme é absurdo, a começar pelos personagens: um velho decrépito, meio surdo e dominhoco; um dono de uma funerária mesquinho, inescrupuloso e bêbado, que tenta assassinar o seu sogro durante todo o filme; sua esposa, que sonha ser cantora de ópera e vive quebrando os copos da casa com seus gritos agudos; um ladrão desengonçado, especialista em abrir portas – que não consegue abrir nenhuma delas durante todo o filme; e o proprietário do prédio onde funciona a funerária (e que abriga os outros personagens), que sofre de catalepsia. Esse arquétipo de sombrios personagens, junto com o roteiro fenomenal de Richard Mathelson, e a direção segura do veterano Jacques Tourneur, tem como resultado um filme digno das “screwball comedies”, com uma pitada gótica de filme de terror. São tantas partes engraçadas que é impossível destacar uma só.

Por tudo isso, Farsa Trágica não é apenas um clássico do humor negro refinado, que não se utiliza de sangue nem de violência: é uma obra-prima e uma das melhores comédias de todos os tempos.

4/4

Adney Silva

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