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O Homem dos Olhos Frios (The Tin Star ─ Anthony Mann, 1957)

Os faroestes mais lembrados de Anthony Mann costumam ser os de sua prolífica parceria com James Stewart nos anos cinqüenta, após os quais ainda restou fôlego ao cineasta para criar, no final daquela década, mais algumas obras-primas do gênero, com a maestria de sempre no manejo da psicologia dos tipos humanos e da ação física presentes na maioria dos seus filmes. The Tin Star começa de modo inteiramente sombrio, com Morgan Hickman (Henry Fonda), o homem dos olhos frios, chegando a cavalo em uma cidadezinha do oeste sob os olhares curiosos e assustados da população, puxando pelas rédeas de seu cavalo um saco com um cadáver, que será entregue ao xerife novato e temporário interpretado por Anthony Perkins. Com os dois ou três planos-sequências dessa abertura, Mann descreve e localiza o cenário, estabelece o princípio da intriga e apresenta os personagens centrais do seu filme, tudo sem um diálogo sequer.

Desleixado com a própria aparência (o filme o apresenta com a barba por fazer), Morgan é um ressentido com o mundo, um caçador de recompensas que tem contas a ajustar consigo próprio, com o seu passado. Um pária que passou anos de cidade em cidade, perseguindo sua própria sombra, fugindo de si mesmo e unanimente desprezado e malquisto pelos habitantes que observam sua chegada em um lugar em que mulheres discutem batendo portas e homens sacando armas. O filme estabelece um espelhamento entre Morgan e o jovem xerife, que luta para fazer por merecer o seu posto e para impor respeito no local, fazendo questão que tudo seja resolvido dentro da lei. Morgan se reconhece diante do rapaz, enxergando o homem que ele próprio era há algum tempo, até renunciar ao status, ao respeito e a estima determinada por uma simples estrela de xerife, à qual não já não vê valor ou significado. Logo descobrimos que a verdadeira ameaça reside em Bogardus (Neville Brand), um desordeiro que cobiça o cargo de xerife, para poder matar à vontade e causar um rastro de destruição.

O filme então se revela como a luta pelo objeto de metal (como indicado no titulo em inglês), com o mais velho (Morgan) já tendo abdicado dessa condição, porém colocando-se entre os outros dois contendores mais jovens, tirando o xerife novato de encrencas e ensinando-o a conservar a calma na hora de empunhar uma arma diante dos rivais, além de com esse aprendizado criar a confiança necessária para impor a lei e levar o seu ofício adiante. Por outro lado, Bogardus aparece pouco em cena, por um determinado tempo ele é mais citado do que presente na tela, simbolizando todo o mal e a falta de ética e de valores contra os quais Morgan e o xerife lutam.

Com O Homem dos Olhos Frios, o diretor Anthony Mann repete os mesmos temas e procedimentos que o transformaram em um grande autor, mas seu cinema é quase sempre renovado de filme a filme, plano a plano. Um cinema sobretudo de fibra, mas também conseqüência da visão de um esteta, que filma as grandes planícies transformando-as em uma paisagem melancólica, seca e árida como um grande espaço desolado, que serve como palco para o campo de batalha que se estabelece com os conflitos entre os personagens. Há também a densidade narrativa que normalmente encontramos nos trabalhos de Mann, com paralelo à ação principal, a existência de diversas outras, com o menor dos personagens adquirindo uma dimensão própria, o que resulta em algumas das imagens e seqüências mais inesperadas já vistas num faroeste, como a barulhenta festa interrompida com a chegada da carruagem trazendo o médico morto (a quem a festa era dedicada!). Prestem atenção também em Lee Van Cleef, como um dos malfeitores presos perto do final, o que desencadeia a briga no desfecho. Com toda a reciprocidade que se estabelece entre Morgan e o xerife, o primeiro é forçado a encarar um passado que ele pensava ter deixado para trás, aprendendo então que um homem não consegue nunca fugir do seu dever.

4/4

Vlademir Lazo Corrêa

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O Homem Errado (Alfred Hitchcock, 1956)

O Homem Errado

Quando percebemos que, ao invés das tradicionais pontas que o diretor fez em quase todos os filmes, ele resolve aparecer logo no início, através de uma tomada bastante dramática dele em um dos cenários do filme apresentando-o, sob a alegação do prório que “isso tiraria a atenção do tema do filme”, é porque estamos diante de um Hitchcock não-convencional.

Em “A Tortura do Silêncio” temos vários elementos um tanto incomuns nos filmes mais conhecidos do Hitch, mas, ainda assim, percebemos o visual estilístico do carequinha na direção. Aqui, esses detalhes praticamente inexistem, apenas em duas cenas (ambas quando o personagem de Henry Fonda está preso, uma delas registrada na foto acima), percebemos o estilo e a ousadia cinematográfica do diretor em questão. Aqui Hitch opta por dar um tom quase que documental à obra (talvez inspirado pelo neo-realismo italiano, ou pela nouvelle vague), o que, juntamente com outros detalhes que compartilham com A Tortura do Silêncio (o tom noir, a questão da fé – representada aqui pelo rosário carregado por Fonda e pela cena da revelação do verdadeiro assassino), dão ao filme um tom muito mais sério e emocional (diria que é o filme mais obscuro, mais dark do Hitchcock), mas ainda calcado nos temas habituais do gordinho. Henry Fonda está magistral, mas quem rouba a cena é Vera Miles (que interpreta a esposa de Henry). A interpretação sutil, que mostra linearmente a degradação psicológica da esposa com o decorrer do julgamento do esposo, é digna de aplausos (e, caso as premiações fossem justas, digno de Oscar). Sério, cada vez que vejo esse filme, me convenço que Vera Miles é uma das maiores atrizes que existiram. Por todos esses pontos, é o filme mais tocante e, por que não dizer, soturno e depressivo de Hitch, o que, provavelmente, foi o causador do relativo fracasso de bilheteria na época. Para mim, entretanto, continua a ser um dos melhores dele.

4/4

Adney Silva

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Era uma Vez no Oeste (Sergio Leone, 1968)

“Se esse homem sobreviver, ele virá aqui, pegará suas coisas e vai dizer ‘eu tenho que ir’. Esses têm algo a ver com a morte”

Era Uma Vez no Oeste é uma poesia de 165 minutos em homenagem a todos esses que têm algo a ver com a morte. À violenta época dos xerifes e foras-da-lei, que já entraram imortalizados no imaginário popular pelo cinema. Esses mocinhos e bandidos que fizeram a festa nas salas de cinema durante mais de vinte anos, e que hoje, estão ausentes. O gênero está desgastado e é visto com maus olhos por parte da nova geração. O filme se situa em uma época onde a civilização estava chegando ao violento Velho Oeste. E o arco dramático do filme é centrado em três personagens que estão cada vez mais desolados e deslocados devido à esta mudança.

Esse é um dos temas mais recorrentes na cinematografia mundial, sempre memorável por gerar obras-primas: o efeito destruidor que o tempo faz no ambiente que as pessoas vivem, e a dificuldade em se adaptar a isso. No caso, isto chega até a ser metalingüístico: enquanto no filme Charles Bronson, Jason Robards e Henry Fonda estavam sendo atropelados pelo trem do desenvolvimento e do avanço tecnológico, John Ford, John Wayne e outros mitos do western americano também estavam sendo atropelados pelo trem da indústria cinematográfica, do gênero que estava se desgastando. O ciclo dos grandes filmes americanos de western se encerrou na passada da década de 50 para a década de 60. Não que os filmes tenham se esgotado (até a década de 70 ainda eram produzidos westerns, mas depois disso os títulos são possíveis de se contar nos dedos), mas a produção do gênero estava em declínio. Foi quando Sergio Leone surgiu fazendo filmes estranhíssimos, a visão italiana dos filmes de western. A famosa trilogia dos dólares, composta por Por um Punhado de Dólares (1964), Por uns Dólares a Mais (1965) e Três Homens em Conflito (1966), produzida na Itália e na Espanha, fez um sucesso imenso nos Estados Unidos no ano de 67 e animou os executivos da Paramount para fazer com que esse diretor arquivasse o projeto no qual estava desenvolvendo (que era Era Uma Vez na América, filme lançado em 1984) para gravar mais um western, com um orçamento altíssimo. Não sei o que deve ter sido a cara dos executivos quando eles viram o filme pronto. O italiano apareceu com um épico de quase três horas de duração, muito lento até para os padrões da época, que esperavam mais ação e um filme rápido como Três Homens em Conflito (que, ironicamente, é considerado lento hoje em dia).

Era Uma Vez no Oeste é um dos filmes mais tristes de todos os tempos. Leone filmou uma ópera, uma poesia sobre o fim da época do western, no tempo em que os filmes de cowboys estavam escasseando. O filme é centrado em cinco personagens: Harmonica (Charles Bronson), Cheyenne (Jason Robards), Jill (Claudia Cardinale), Frank (Henry Fonda) e Morton (Gabriele Ferzetti). Morton, um aleijado, é o responsável pela ferrovia e os trens, um homem de negócios. Frank é o pistoleiro que trabalha para Morton indo acertar contas (leia-se “matar”) pelos eventuais tropeços aos tratos impostos pelo homem de negócios. Bronson é um homem misterioso de raízes indígenas, que anda sempre tocando uma gaita. Quando Frank questiona seu nome, ele responde nomes “de pessoas que estavam vivas até te encontrar, Frank”. Jill é uma mulher de New Orleans que se casou com um irlandês e ia morar no campo. O irlandês é Brett McBain, e estava desenvolvendo terras no meio do nada, que pela localização geográfica, futuramente seriam uma estação de trem. A estação não estava pronta no tempo prometido para Morton, então Frank tornou Jill uma viúva (o massacre da família, do marido e das crianças e a revelação dos olhos azuis de Fonda no assassino é uma das cenas mais terríveis já vistas em um filme). E Cheyenne é um notório bandido que acaba envolvido nessa história por conta de evidências falsas criadas por Frank. Toda essa história poderia se tornar um ótimo western, porém “banal”, por assim dizer. Sem nenhum demérito, Três Homens em Conflito é um western “banal”. Mas Leone fez diferente aqui. O longa é lento, lírico. Filmado na Espanha e nos Estados Unidos, o diretor capta paisagens como ninguém. O tom lento da narrativa dá uma característica de despedida, de adeus, muito grande quando unido à belíssima trilha de Ennio Morricone, obrigatória em qualquer lista de “10 melhores trilhas de todos os tempos”. As interpretações dos atores estão irretocáveis, todos exibem expressões dos personagens com as nuances do estranhamento que todos percebem que está ocorrendo algo diferente com o mundo nesse período de transição. Só vendo o filme para perceber todo esse clima de despedida. Leone capta os sentimentos como ninguém e fazia isso de maneira inusitada: solicitava a seu escudeiro, o compositor Ennio Morricone, que de preferência, terminasse a trilha antes do filme ser filmado. Para falar a verdade, Era Uma Vez no Oeste circula entre 3 e 5 melodias diferentes, cada uma relacionada a um personagem. E o diretor captava as expressões dos atores com a música pronta. Tanto isso que uma das marcas de Leone são os mega closes no rosto dos atores, facilmente reconhecíveis e de apelo imenso. O resultado é maravilhoso.

A semente da discórdia: quem vai mexer com a vida de todos esses personagens? O trem. Que por sinal, não deixa de ser simbólico. Grande avanço tecnológico da Revolução Industrial, foi um dos responsáveis por trazer a civilização para o Velho Oeste. Civilização da qual o Leste dos Estados Unidos já tinha em parte. Disse Leone: todos os personagens, exceto Claudia, têm consciência de que não chegarão vivos no fim. Sintomaticamente, ela viajou ao Oeste, mas não era de lá, veio da civilização do Leste. Civilização esta que invadiu o cinema e acabou por enterrar a era de homens como Frank, Cheyenne e Harmonica. O ritmo do filme é terrível, doloroso, uma dança da morte, como diz o diretor. Como já foi levantado, os atores captam o espírito da época de mudanças em que o filme se passa. A trilha e o ritmo lento selam todo o espírito de despedida, de adeus do filme.

É um filme muito nostálgico. O grande confronto não parece ser apenas entre a nova civilização e os (anti)heróis do Velho Oeste, mas entre os últimos, se auto-destruindo. Morton, o representante da chegada da civilização, raramente põe a mão em um revólver. Ele contrata Frank, de natureza diametralmente oposta a dele, responsável por milhares de duelos, roubos e mortes entre foras-da-lei e cowboys. Frank se questiona em alguns momentos se poderia ser um homem de negócios como Morton. Às próprias custas, descobre que, apesar de matar crianças sem piscar um olho, não tem o sangue frio necessário. O roteiro de Leone e Sergio Donati (baseado em idéias dos diretores Bernardo Bertolucci e Dario Argento) levanta essas questões, costurando uma sub-trama de vingança pessoal com talento, reforçando ainda mais a idéia de que pessoas como Frank se auto-destroem. É uma visão nostálgica e paradoxalmente pessimista: o filme tem cheiro de morte e você sai correndo caçando os últimos suspiros desse cheiro. Digo mais uma vez: nada disso seria possível se a narrativa de Era Uma Vez no Oeste não fosse a narrativa de Era Uma Vez no Oeste; um ritmo lento que você deve aproveitar cada segundo por completo, o novo mundo se aproximando, o trem atropelando, o espectador correndo atrás do cheiro de morte e a sensação de estar aproveitando os últimos momentos da vida daqueles homens violentos. Os últimos momentos de uma terra sem lei. Os últimos momentos de uma era de filmes antológicos. A sensação de despedida daquele mundo perigoso e de índole questionável, mas que marcou a todos, seja no cinema ou na realidade. É quase o fim de uma vida.

Não obstante, a escolha dos atores não foi por acaso. Favorecido por estar na época do fim do western, os atores já demonstram experiência e vivem personagens visivelmente calejados (Henry Fonda tinha 63 anos, por exemplo). E o mais importante: na categorização mais clássica, Charles Bronson é o mocinho e Henry Fonda é o bandido. Isso é relevante por dois motivos: o primeiro de brincar com a percepção do público com Henry Fonda; ao que consta, esse é o primeiro e último vilão interpretado pelo ator no cinema. E, ele está chutando bundas no papel! Nem parece o mesmo ator do mocinho 12 Homens e Uma Sentença, tamanho o poder da(s) interpretação(ões). Deve ter sido engraçado na época testemunhar tamanho contraste. O segundo motivo de escalar esses dois atores é mais relevante: os olhos. Os olhos e as feições de Charles Bronson são fatores decisivos para mostrar o quanto ele parece com um índio. E os olhos de Henry Fonda, azuis-brilhantes, são característicos do por assim dizer, “homem branco” (já que o caucasiano de olhos castanhos pode se confundir com os outros devido à pele queimada pelo sol). Geralmente os mocinhos de olhos azuis corriam atrás de bandoleiros chicanos, ou de tribos indígenas. Leone inverteu o jogo sem fazer nenhum maniqueísmo, o que soma mais pontos para Era Uma Vez no Oeste, um filme fora de série.

O roteiro tem tiradas ótimas que dão aos personagens uma característica irônica e até rancorosa. A montagem cria obras-primas pequenas, a seqüência inicial que circunda entre os ladrõezinhos com barulhos pitorescos, como de goteiras ou de moscas, com o som aumentado; outra cena mitológica é o emocionante duelo giratório ao final, exaustivamente imitada, com a trilha de Morricone (GODDAMN HIM!), de arrepiar qualquer um. Outras sutilezas são notáveis, como quando Jill está chegando em casa para encontrar a futura família morta usando um vestido preto. Ou quando um dono do lugar onde Claudia Cardinale pára durante a ida à casa dos McBain, dizendo “eu ia para New Orleans, mas estou contente aqui, com a vida no campo”.

Leone deita e rola para fazer sua obra-prima lírica sobre a época e a região que marcaram profundamente o cinema. Na época do lançamento, Era Uma Vez no Oeste foi um fiasco de público e crítica em todos os lugares do mundo, exceto na França. Parece ser irônico que uma obra até saudosista faça sucesso na França da época dos protestos de Maio de 68, da libertação dos costumes, libertação sexual; mas o olhar que o filme oferece é muito mais crítico para ser chamado de saudosista. O que o resto do mundo não pareceu perceber foi que este filme ficaria marcado. Anos à frente do seu tempo, é um termo atribuído a muitas obras. Um dos filmes em que essa expressão se aplica perfeitamente é Era Uma Vez no Oeste.

“O ritmo do filme pretendeu criar a sensação dos últimos suspiros que a pessoa exala antes de morrer. Era Uma Vez no Oeste é, do começo ao fim, uma dança da morte. Todos os personagens, exceto Claudia (Cardinale), têm consciência de que não chegarão vivos no fim.” – Sergio Leone

4/4

Pedro Kerr

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