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RIP!: A Remix Manifesto (Brett Gaylor, 2009)

O primeiro filme que assisti no Festival do Rio é na verdade um manifesto disfarçado de documentário onde há uma discussão acerca da questão dos direitos autorais, além de toda a polêmica em cima da questão dos downloads ilegais, remixes ilegais e tudo relacionado a isso.

Claro que foi oferecido uma visão quase que unilateral (exceto por uma entrevista rápida com uma das representantes do Conselho de Direitos Autorais dos EUA), e também há uma certa dose de sensacionalismo a lá Michael Moore, mas não há como negar que há momentos interessantes e divertidos, especialmente nos créditos finais.

Claro que concordo com muito do que foi apresentado, mas estamos avaliando o filme, e não somente as propostas apresentadas nele.

2/4

Adney Silva

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Moscou (Eduardo Coutinho, 2009)

É possível que se leia em algum lugar que o novo filme de Eduardo Coutinho é sobre o teatro, ou sobre os ensaios do Grupo Galpão para uma peça – nunca encenada por eles – de Tchekhov, ou sobre o modo de criação. Moscou não é sobre nada disso, nem somente é filme simplesmente sobre a metalinguagem; Moscou é um filme sobre o impossível. Tudo que não é visto, não feito, não pronto. Para todo produto, nós saímos obrigatoriamente do zero para chegar a um ponto total, seja 10, 100 ou 3.79. Todo o espaço entre zero e o total é o espaço indefinível, que não é produto, só processo, só coisa alguma mas ainda assim tudo ao mesmo tempo. Isso é Moscou, o lugar entre lá e cá, Céu e Inferno, vida e morte; Moscou é um purgatório.

Em determinado momento, um dos atores diz para outra atriz/personagem que “você nunca voltará a Moscou”, uma dessas afirmações que de tão drásticas e improváveis acabam ganhando um tom de verdade absoluta, mesmo que seja complexo demais afirmar essa impossíbilidade. Mas o filme de Coutinho é sobre esse impossível, sobre a Moscou que ninguém ali nunca mais vai ver.

3/4

Thiago Macêdo Correia

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Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei (Claudio Manoel / Calvito Leal / Micael Langer, 2009)

A ditadura é uma época que muitas pessoas (especialmente as mais velhas) não gostam muito de recordar. Cavucar nessa época bastante obscura da história brasileira é motivo de ânsia de vômito para muitos. Muitos militantes e artistas foram perseguidos, torturados, e, os que tiveram mais sorte, foram exilados. Mas alguns, por conta do radicalismo da época, somado ao racismo (que, apesar da maioria não admitir, ainda é fortíssimo nesse país), e a ingenuidade de alguns, acabaram sofrendo uma pena ainda maior. Wilson Simonal foi, talvez, o que mais sofreu essa pena.

Aqueles que acompanham a carreira meteórica do cantor não têm a menor dúvida de que ele foi um dos grandes da música popular brasileira. E, ao ver esse documentário, tive duas constatações: a primeira, que, realmente, ele, naquela época, era tão famoso que Roberto Carlos, o que não é pouco; e, segundo, nas palavras do Tony Tornado, que participa do documentário:” Um negão com Três Mercedes incomoda muito.”.

O grande acerto desse documentário (que, apesar de interessante, se mostrava simples, linear e esquemático até) está já no final do filme, quando aquele que, segundo conta a história, foi o catalisou de toda a queda vertiginosa do cantor, o seu ex-contador que, segundo conta a história, teria dado um desfalque nas contas dele, dá a sua versão dos fatos. Além de, naquele momento, fugir do esquema “documentário chapa-branca”, onde o homenageado é apenas exaltado, ainda permite a um consenso geral: de que Wilson Simonal pagou caro demais pela sua ingenuidade, pela sua irresponsabilidade. Sem dúvida nenhuma era uma história que precisava ser contada e resgatada.

Quem diria que um Casseta (Cláudio Manoel, um dos integrantes do grupo humorístico, é um dos diretores) conseguiria fazer um documentário de tal importância?

3/4

Adney Silva

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Verdades e Mentiras (F For Fake – Orson Welles, 1975)

De certa forma, o que Welles faz em Verdades e Mentiras não está muito longe daquilo que havia feito antes em qualquer um de seus filmes, com a diferença de que neste caso ele realmente assume estar brincando o tempo todo com a percepção do espectador e com a profundidade das imagens. E talvez tenha sido justamente essa liberdade de escancarar o verdadeiro sentido de sua arte – não é coincidência alguma ele começar F For Fake com um show de mágica e ter iniciado sua própria carreira fazendo números desta espécie – a grande responsável por transformar esse falso-documentário sobre falsificação no trabalho mais pessoal de Welles.

O jogo armado aqui, aliás, muito distante de pesquisar qualquer ponto de dissolução entre a verdade e a mentira, termina sendo uma das grandes obras-primas da carreira desse mestre obscuro do cinema – explico o obscuro: obscurecido detrás de seu filme mais famoso, o revolucionário Cidadão Kane, nem de longe seu melhor filme, embora excelente -, sempre instigante e dono de algumas das seqüências mais emblemáticas assinadas por ele, além de servir como uma espécie de mídia confissionária nos momentos em que Welles finalmente assume a charlatanice como sendo sua principal característica desde sempre, comparando seus próprios atos – ou simplesmente colocando-os lado a lado – com os de alguns dos mais famosos falsificadores do século XX.

É uma seqüência-chave da própria filmografia do Welles, e fica clara a vontade que o diretor tinha de se assumir desde sempre como um grande filho da mãe – coisa que todo o artista é, mas que alguns, em especial quando o termo é ligado ao cinema, vêem incompreensivelmente como um termo pejorativo – não fora, mas dentro das telas, enquanto ator dos seus próprios filmes. Acabou fazendo isso da maneira mais justa, entregando ao espectador um trabalho complexo e instigante que, como sempre, mantém sua cerne totalmente desenhada sobre a trapaça cinematográfica, grande responsável por fazer de Welles um dos mais importantes e fundamentais cineastas de toda a história – posto que qualquer plano ou seqüência montada deste ou de A Marca da Maldade pode justificar sem mais palavras.

4/4

Daniel Dalpizzolo

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