Screenshots! – A Sombra da Guilhotina (Reign of Terror / The Black Book – Anthony Mann, 1949)

Então, continuando, a primeira cena logo após o prólogo. A Sombra da Guilhotina tem umas tomadas externas fantasmagóricas, e o Mann sempre dá um jeito de emoldurar seus personagens com a composição que der na telha, seja através de uma janela, de uma porta ou de um buraco numa porta, como é o caso. O homem cavalga ao pôr-do-sol, chega a um velho moinho que parece abandonado, entra, e um punhal salta detrás da câmera:

Quase não há luz no quarto onde ocorre o primeiro assassinato do filme. O homem se olha no espelho tranquilamente e uma mão surge do meio da escuridão (é quando Mario Bava, de O Chicote e o Corpo, agradece). O espelho se inclina para baixo onde vemos apenas uma das mãos do homem, enquanto que em primeiro plano um punhal se ergue e desaba rapidamente. A mão no espelho reluta por um instante e, enfim, desaparece. A outra mão se levante e apaga a vela sobre a penteadeira. Show is over:

Mann não deixa os personagens darem um passo sem se aproveitar de cada pequeno momento para compôr um painel de sensações que vão desde a ternura, a iminência de perigo até o mais dominante dos medos:

E da lista dos que sem dúvida viram A Sombra da Guilhotina, Charles Laughton. Tem muito de O Mensageiro do Diabo nessa sequência, com a diferença de que Laughton chega tocando a campainha e Mann chega quebrando tudo. Espada na garganta das criancinhas. o/ :

Olha que lindo isso. Mais uma vez Mann revela ocultando, abre a cena não pela ação de frente, mas pelas sombras na parede do fundo. À esquerda a figura de um homem esmagando algo/alguém, à direita a sombra de Robespierre vai crescendo conforme o tom de ameaça do diálogo aumenta até se tornar completamente opressiva no penúltimo quadro. No último, já depois de Robespierre ter sua sala invadida pelo povo, é a bandeira da França quem se erige diante dele:

Mais uma travessura com sombras na composição de planos e dilatação do tempo antes de revelar a pessoa torturada, mas não antes de cozinhar sem pressa nenhuma os nervos do espectador:

O final – uma noite de relâmpagos, gritos, fúria em massa e ângulos erráticos de Anthony Mann num misto de agressividade com desesperança:

That’s all. Obra-prima.

4/4

Luis Henrique Boaventura

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