6º – Jefferson Domingos

Avaliações:

Luis Henrique Boaventura

Nutro certa aversão a artigos acadêmicos por considerar que sempre há formas muito mais sensíveis e eficientes de se falar certas coisas sem precisar apelar a um módulo, um manual. Imaginação tá aí pra isso, e por mais que se encorpe o texto com nomes de teóricos e linhas de pensamento, a estrela do seu texto deve ser você mesmo. O que VOCÊ achou, o que VOCÊ sentiu, qual a SUA opinião. Resto é complemento, usado para enriquecer e no máximo adornar o texto, nunca como sustância. Não é preciso concordar com o meu modo de encarar as coisas, mas texto opinativo de cinema pra mim é isso: a obra através dos seus olhos. Não sou radicalmente contra nada, só preciso desesperadamente da sensação de haver um ser humano por trás daquelas linhas.

0/10

Daniel Dalpizzolo

Uma corda de complexidade que enrola o próprio pescoço, e como conseqüência natural fala muito pouco.

4/10

Daniel Costa

O que é isso? TCC? Além de explicar o filme inteiro o texto vem acompanhado de bibliografia. Faltaram só os comentários pessoais do editor… A única coisa que efetivamente traz luz ao texto é o meio onde o autor finalmente pára de lenga-lenga e expõe o que o filme quer dizer para ele.

2/10

Vinícius Veloso Garcia

Ahhh, não vou me alongar, contou ainda mais detalhadamente as cenas do filme, se tinha alguma dúvida como é o fim do filme, vc acabou de tirar, muito obrigado! …além do mais essa 2ª parte do texto nada tem a ver com a primeira, toda floreada, com cara de texto montado em cima de cópias de vários outros textos.

Então, como disse q não ia me alongar, a sua nota é: 0/10 (não suporto cópias, por isso não tirou pelo menos 1)

0/10

Cassius Abreu

“Isto é algo ubíquo na estética kubrickiniana, encontrada em várias de suas obras, principalmente na película tema deste ensaio.”

Que eu saiba o nosso concurso é de resenhas, textos críticos e leves e não ensaios. Como não sou de tirar pontos- lembrando que todos começam do 0 –, vou desconsiderar isso aí e julgar o texto produzido. Ora, como um ensaio, poderia funcionar, mas não cabe aqui. Os termos técnicos da Sétima Arte são às vezes interessantes e fundamentais para a própria concepção ideológica de uma obra. O fato, entretanto, é que o Jefferson não conseguiu me cativar a ponto de tentar entender suas longas explanações, baseadas em autores diversos, passando por fotografia, teatro e algo mais. É um texto prolixo, porque eu, que já vi o filme mais de 5 vezes, já decorei as falas e elas não me interessam por completo. Se não tivesse visto, nem precisaria, pois o texto conta o filme inteiro – e, ao mesmo tempo, não traduz um pingo da genialidade kubrickiana. Até que no primeiro parágrafo após tantas descrições, parece que a coisa vai, só que morre ali. Novamente as idéias são repetitivas. A diferença da perfeita qualidade em português do Jefferson para o Thiago é perdida quando ele, perdoem o trocadilho, perde o leitor com tantas referências. Ou seja, falta conectar melhor – ou sequer conectar – tantas teorias à obra, de maneira aguçada e botando a cara a tapa.

1/10

Total: 7 pontos

Texto:

Laranja Mecânica (Stanley Kubrick, 1971)

“Éramos eu, ou seja, Alex, e meus três drugues, ou seja, Pete, Georgie e Dim. Estávamos na Leiteria Korova, tentando ressudocar o que faríamos naquela noite. A Korova servia moloko. Moloko com velocete, sintemesque ou drencom, que era o que bebíamos então. Ele aguça os sentidos e deixa você pronto para um pouco da velha ultraviolência.”

 

Após um belo plano-sequência iniciado com um close-up do rosto do libertino Alex DeLarge e um recuo de câmera nos mostrando a citada Leiteria Korova (um lugar bem peculiar, onde cadeiras e mesas apresentam-se em forma de mulheres nuas em um ambiente bastante surreal), ouvimos ao fundo a narração acima em voz ouva do jovem Alex que, junto de sua gangue (ou drugues), aprecia um belo copo de leite misturado com alucinógenos (o dito moloko). O anti-herói de “Laranja mecânica” lidera esse grupo de jovens devassos que possuem como única diversão espancar velhos mendigos, estuprar mulheres (ao som de Singin’ in the rain) e provocar qualquer tipo de desordem.

“Uma coisa que nunca suportei era ver um bêbado velho e imundo uivando as imundas canções de seu país e fazendo ‘blurp blurp’ enquanto canta como se houvesse uma velha orquestra em suas tripas. Nunca suportei ver ninguém assim, de qualquer idade, mas suportava menos ainda alguém bem velho…”

 

Alex nos narra a citação anterior enquanto ele e seus drugues espancam um velho mendigo nas ruas escuras de uma Londres futurista, mas que se encaixaria perfeitamente na América moderna, com suas violentas vielas. Logo após eles invadem a casa de um escritor, o espancam e estupram sua esposa. Os comandados de Alex começam a questionar sua liderança e certa noite, após eles invadirem uma casa de SPA e DeLarge assassinar sua dona, os delinqüentes o enganam, fazendo assim que apenas o personagem principal seja preso. O algoz é condenado a quatorze anos de prisão e voluntariamente (ou obrigatoriamente?!) passa por um novo método criado pelo governo para refrear os impulsos violentos e sexuais dos criminosos. Esse método consiste na aplicação de drogas injetáveis e em sessões de filmes altamente violentos mostrando com veemência assassinatos, estupros e até vídeos nazistas, tudo isto ao som de Ludwig van Beethoven, compositor preferido de Alex, que por mais incrível que pareça é um jovem erudito no tocante à arte.

“E eu videei filmes mesmo. Fui levado, irmãos, para um cinema diferente de todos os que já videei. Fui enfiado numa camisa-de-força e meu gúliver foi amarrado a um apoio do qual saíam muitos fios. Aí puseram grampos nos meus olhos para que eu não pudesse fechá-los, por mais que tentasse. […] Aí percebi, em meio a toda dor e náusea, qual música estava trovejando dos alto-falantes. Era Ludwig van. A Nona sinfonia. O Quarto movimento.”

 

Após ser solto, Alex não é aceito de volta em casa por seus pais, nas ruas é espancado por mendigos (entre eles o velho que sua gangue havia surrado) e por policiais que, para sua surpresa, eram seus antigos drugues. Ao pedir ajuda em uma casa, descobre ser o dono dela o escritor, que agora encontra-se paraplégico e sem sua esposa (essa houvera morrido de desgosto após o estupro). Quando a ex-vítima do rapaz o reconhece, o tortura ao som da Nona sinfonia de Beethoven e, por isso, Alex tenta, sem sucesso, o suicídio pulando de uma janela. O final de “Laranja Mecânica” talvez seja um dos mais irônicos já retratados na história do cinema. Alex em um hospital tem retirado de seu organismo a droga que o controlava. Um ministro do governo pede sua colaboração para que as autoridades governamentais corrijam o fracasso da “cura” e não percam eleitores. O jovem colabora até demais, a ponto de aceitar suborno e tirar fotos para jornais apertando a mão do mesmo ministro. Após isso, vemos uma imagem surreal: Alex copulando com uma mulher em ritmo selvagem enquanto uma platéia vestida a rigor vê tudo batendo palmas. Então ouvimos a última narração em voz ouva, “Eu estava curado mesmo”, e entram os créditos finais ao som de Singin’ in the rain.

A trama é uma crítica aos caminhos tomados pela moralidade e discute duas formas distintas de violência: a individual e intrínseca, amparada na ancestralidade humana, não reprimida pela socialização e ainda a violência institucional, sustentada pelas Leis e legitimada pela manutenção do status quo para controle da coletividade. Para tal o filme é dividido em duas partes, sendo a primeira a apresentação do nosso anti-herói e a segunda contada a partir da hora na qual o personagem principal é encarcerado. Na película ainda podemos ver também uma discussão acerca do livre-arbítrio, do domínio e hipocrisia das autoridades e sobre a debilidade das identidades particulares dos indivíduos, reféns dos padrões impostos pela sociedade. O título original em inglês “A Clockwork Orange” já nos leva a duas referências: uma seria a gíria dos Cockneys (grupo de jovens pobres e perigosos da Londres da época que agrediam por puro prazer) e a outra seria uma metáfora utilizada para designar uma pessoa que age mecanicamente. Isto é representado pelo tratamento ao qual Alex é submetido, transformando-o em um sujeito sem escolha. Dizia o sacerdote que o acompanhava no cárcere: “se o homem não pode escolher, deixa de ser um homem”. O rapaz não dá atenção alguma ao religioso e acaba passando de algoz da sociedade para vítima da alienação dos interesses políticos frente aos direitos individuais, convertendo-se em um exemplo bem sucedido, pelo menos na visão da sociedade, do Estado e da mídia, de reabilitação. Vemos então uma forte crítica à falta de indeterminismo do homem moderno, devido à alienação das massas imposta pela mídia e pelo poder político. Faz-se, assim, uma intertextualidade com a obra dos teóricos da famosa Escola de Frankfurt (Walter Benjamin, Theodor Adorno, Max Horkheimer etc.), que tentaram explicar a indústria cultural segundo a visão científica, filosófica e social do marxismo, acusando-a de transformar os cidadãos alheios a tudo ao seu redor.
“Laranja mecânica” é composto por elementos tanto do Formalismo quanto do Realismo, sendo que não podemos denominá-lo como um ou outro, pois nele vemos claramente características marcantes das duas teorias cinematográficas mais importantes do século XX.

O Formalismo estaria amparado em planos-sequências, closes, planos de detalhes, com o objetivo de trazer a atenção forçando a compreensão e a identificação por parte do espectador perante a trama. A montagem com não tão raros cortes e com planos fechados mesclados a planos totalmente abertos, o plano-sequência inicial e os vários outros planos fechados também denunciam o formalismo presente na obra. Uma peculiar característica, que não pode deixar de ser citada, é o fato de o diretor Stanley Kubrick haver disposto vários erros de continuidade, como pratos trocados de lugar na mesa e o nível do vinho nas garrafas mudando em diversas tomadas, com o intuito de causar total desorientação ao espectador, mesmo que inconscientemente.

Segundo Béla Balázs, principal teórico formalista, em seu livro The Close-Up and The Face of Man, a expressão facial é uma manifestação da subjetividade humana, ao mesmo tempo em que os traços do rosto representados não são governados por normas objetivas, sendo assim o close-up uma forma de tornar objetiva a que é a forma mais subjetiva e pessoal das interpolações humanas.

A própria ironia da trama é também um elemento formalista que leva-nos a uma catarse pessoal sobre o caminho da nossa sociedade. Este elemento é visto principalmente na trilha sonora (composta de música clássica e a famosa Singin’ in the rain, de Gene Kelly) e na linguagem de Alex e seus drugues, mistura de russo, inglês e gírias compondo vários neologismos (tais como “drugues”, “moloko”, “vidiar”, “entra-e-sai”, “gúliver” e “horroshow”). O clímax desse escárnio encontra-se principalmente na narração em voz ouva do personagem principal, construída de acordo com suas convicções e com o intuito de levar-nos para dentro de seu mundo e de suas impressões pessoais.

Os elementos realistas estariam no fato de o roteiro retratar uma história social moderna, ou seja, as aventuras e desventuras de um jovem delinqüente (algo bem atual, principalmente se colocado sob o contexto da América Latina recente).

Qualquer obra cinematográfica sai do universo real humano se aproximando da fotografia. Parafraseando André Bazin, o mais notável representante do Realismo, em seu livro Problèmes de la peinture, o conjunto de lentes constituinte do olho fotográfico substitui o olho humano e por isso se denomina “objetiva”. Diz ele ser a fotografia o suporte de credibilidade perante qualquer outra obra pictorial.

Podemos perceber intensamente essa teoria baziniana presente na fotografia de “Laranja Mecânica”, composta de elementos coloridos em contraste com a violência obscura do protagonista. A mise en scéne da obra nos leva, também, à afirmação do teórico a todo momento. A mesma é amparada no mundo dos sonhos compondo seu cenário colorido e, principalmente, os objetos de cena (subjetivamente ligados à estética surrealista). Isto é algo ubíquo na estética kubrickiniana, encontrada em várias de suas obras, principalmente na película tema deste ensaio.

O fato de a obra ter sido toda gravada em estúdio (estúdios de Pinewood, Inglaterra, mais precisamente) e a utilização de atores profissionais, retira o que seriam as principais características exaltadas pelos teóricos realistas, principalmente Bazin.

Por hora deixemos as teorias cinematográficas de lado para entrar no campo das atuações, analisando-se outras teorias, as teatrais agora, que se aplicam a qualquer obra de arte encenada. Dessas podem se destacar Bertolt Brecht e Constantin Stanislavski. Os dois, assim como os estudiosos da Escola de Frankfurt já citados, tem forte influência do marxismo e da sociologia.

O primeiro, em seu livro Estudos sobre teatro, encara o entendimento do homem observando-se as relações sociais em que participa sendo seu intuito a necessidade de encarar um “palco científico” com a capacidade de cessar a mistificação das relações da sociedade, causando catarse no público a ponto de esclarecê-lo sobre algo.

A experiência após assistirmos “Laranja Mecânica” é exatamente esta, pois, pelo fato de vivermos em uma sociedade onde as Leis são pouco respeitadas, nos identificamos com o assunto tratado na trama e também com as vítimas de Alex e, mais estranhamente possível, com o próprio personagem, já que ele torna-se vítima da sociedade onde vive.

O ator e teórico teatral russo Stanislavski criou um sistema de atuação dizendo ser cada ator dotado de uma técnica capaz de representar a vida real o mais fielmente possível, o chamado Sistema Stanislavskiniano. O soviético, em seu livro A preparação do ator, dizia ser o ator responsável por viver, chorar e rir em cena e o tempo todo vigiar suas lágrimas e sorrisos, sendo este equilíbrio a concepção de sua arte. Malcolm McDowell interpreta Alex DeLarge nos moldes stanislavskinianos, ou seja, nos chama a atenção para a situação do jovem moderno imerso em uma sociedade moralista, sendo seu personagem uma metáfora subjetiva sobre a juventude cada vez menos preocupada com o mundo ao seu redor e absorvida apenas em sua diversão (no caso de Alex, sua diversão era sempre à custa dos outros).
“Laranja Mecânica” teve uma péssima recepção da crítica inglesa devido a suas cenas de violência explícita, algo anormal para o contexto do início da década de 1970. Stanley Kubrick com sua prepotência já conhecida chegou a pedir para proibirem a exibição do filme na Inglaterra, mas apenas atribuíram uma alta censura ao mesmo. Isso não foi impedimento à juventude da época que obteve cópias baratas da película e passou a reproduzirem-na de maneiras arcaicas. Esses jovens, ao identificarem-se com Alex DeLarge, sofreram influências tais, a ponto de pouco mais a frente criarem o movimento Punk inglês, que logo depois acabou chegando à música fundindo-se com o Rock and Roll. Claro que o filme teve seu reconhecimento, recebendo três indicações ao Golden Globe e quatro ao Oscar, além de haver faturado os dois principais prêmios da Associação dos Críticos de Cinema de Nova York. Hoje, o filme é reconhecido pelos principais críticos como um dos maiores clássicos da história do cinema e é exaltado e idolatrado por fãs no mundo inteiro.

 

Referências bibliográficas:

– ANDREW, J. Dudley. Principais teorias do cinema, As. Editora Jorge Zahar, 1989.
– BRECHT, Bertolt. Estudos sobre teatro. Editora Nova Fronteira, 2005.
– STANISLAVSKI, Cosntantin. Preparação do ator, A. Editora Civilização Brasileira, 2006.
– XAVIER, Ismail. Experiência do cinema, A. Editora Graal, 1983.
– Revista Bravo! – Edição especial – 100 filmes essenciais – Editora Abril, 2007
– LARANJA Mecânica. Direção: Stanley Kubrick. Produção: Stanley Kubrick. Intérpretes: Malcolm McDowell; Patrick Magee; Michael Bates; Warren Clarke; Adrienne Corri; Carl Duering; Paul Farrell; Clive Francis; Michael Glover; James Marcus; Aubrey Morris; Godfrey Quigley. Roteiro: Stanley Kubrick. Música: Wendy Carlos. Londres: Warner Brothers. 1 DVD (138 min.), wildescreen, color. Produzido por Warner Home Video. Baseado na novela “A clockwork orange”, de Anthony Burgess.

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