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Sobre A.L.A.S.

Um indivíduo extremamente saudosista e retrogamer disposto a ser um "Indiana Jones" dos arcades! =D

Corrida Mortal (Paul W.S. Anderson, 2008)

!

Confesso que fui assistir esse filme sem esperança alguma de que possa extrair algo de bom (ou, ao menos, de divertido, nele). Ainda mais quando temos na direção o, para ser bonzinho, abaixo da média Paul W.S. Anderson, diretor de tranqueiras como “Alien Vs Predador”.  Os únicos atrativos desse longa era o roteiro trash (refilmagem de “Death Race 2000”, com o David Carradine e Sylvester Stalone como antagonista!!!!), e a presença do grande papa dos filmes B, padrinho de muitos diretores famosos (Coppola é um deles), e que também produzia essa refilmagem, Roger Corman.

No fim, o que se pode constatar é que Death Race era o legítimo “filme de Macho”: temos a violência sendo servida aos galões, carros com as modificações mais absurdas possíveis, transformando os bólidos corrspondentes em “Máquinas para Matar” (algo como o antigo jogo – que foi proibido no Brasil – Carmageddon), Jason Shatham com cara de poucos amigs (como sempre), frases dignas de figurar em “pérolas do humor involuntário”, Joan Allen como uma “real bad ass motherfucker bitch”, e uma personagem feminina (a co-pilota de Jason, interpretada pela Natalie Martinez. Não sabe quem é? Veja o pedaço de mau caminho da foto.) que está lá apenas para mostrar seus atributos físicos (com direito a close na bunda dela). Só que acabei me divertindo com tudo isso!

Mais do que mostrar litros e litros de sangue, mortes, carros explodindo e tudo mais do que se espera em filmes de ação (com o ponto positivo de não explorar em demasia cenas em CGI, deixando todo o trabalho para os dublês e a física), o filme mantém um climão de filme B, muito provávelmente pela presença do Roger Corman na produção. Isso acaba gerando, se não um entusiasmo grande por uma obra-prima, ao menos um contentamento por uma diversão escapista duranta os 96 minutos do longa. É o típico filme para levar todos os seus amigos (especialmente se você tiver menos de 20 anos) e se divertir com a violência gratuita mostrada. Não é muito, mas acabou transformando “Death Race” na melhor incursão de Paul W. S. Anderson na direção.

Quem sabe isso não é um sinal para que o diretor abrace de vez a idéia de se transformar num diretor de filmes B?

2/4

Adney Silva

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Trovão Tropical (2008, Ben Stiller)

Orçamento de U$$ 92,000,000,00. Um filme com muita ação e explosões, helicópetos caindo, pontes destruídas, milhares de tiros, e que se passa no Vietnã. Tom Cruise no elenco. São todos os predicados de um blockbuster de ação, ou de guerra. Mas se trata de Tropic Thunder, o novo filme do Ben Stiller (como diretor e ator principal) com um grande elenco. Ou seja: um filme de comédia! Talvez seja o maior orçamento dado a um filme do gênero. Mas deu certo? Em partes.

Claro que o filme é bem produzido, temos explosões e mais explosões na tela, a curiosidade de ver o Robert Downey Jr. fazendo um ator australiano loiro de olhos azuis altamente premiado e de temperamento forte que simplesmente mergulha em todos os personagens que faz, os fake trailers também são engraçadíssimos, além da participação impagável de Tom Cruise. Entretanto, essas cenas rendem apenas risos momentâneos, além de não representarem nem um quinto de todo o filme. O restante é pontuado por cenas que vão do “esquecível daqui a 5 minutos” até o “tá! é isso?”. Nada que se configure num desastre completo, mas também não é para ser lembrado. Para resumir a bagaça: pense num filme do Rambo. Agora pense na paródia que já fizeram do Rambo (o maravilhoso “Top Gang 2”!). Agora pense numa comédia pastelão de uma paródia do Rambo não muito inspirada. Perceberam o drama? Pois é.

No fim das contas, apesar da expectativa (sim, estava ansioso por ele), rendeu nada mais do que um pouco menos de duas horas de distração descompromissada. Se você quiser assistir apenas pela curiosidade de ver uma superprodução com vários atores famosos e pelo tema “filme dentro de um filme”, a escolha é sua. Mas, se é para dar um conselho, espere passar na “Tela Quente”!

2/4

Adney Silva

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A Encarnação do Demônio (José Mojica Marins, 2008)

Aqui no Multiplot já falamos algumas linhas sobre como o Terror é, em muitos momentos, considerado por muitos um “gênero menor” (tanto é que, em alguns tops feitos pelo pessoal, os filmes mais explícitos ficaram de fora). Agora, imagine um filme de terror brasileiro. Agora, imagine que o diretor, o ator principal já está nesse ramo há mais de 40 anos. Esse diretor/ator/realizador é ninguém mais do que José Mojica Martins, mais conhecido como o seu alter-ego “Zé do Caixão”.

Encarnação do Demônio fecha a trilogia iniciada com “Á Meia-Noite Levarei a Sua Alma” e “Esta Noite Encarnarei no seu Cadáver”, onde o famoso coveiro sai da prisão depois de 40 anos e continua a sua procura da mulher que gerará o seu primogênito perfeito. Muitos podem pensar que se trata de uma produção trash. E o é. Mas é um filme que se assume trash (mesmo com o investimento de mais de R$ 1.000.000, uma fortuna se comparado ao restante desua filmografia) que se mantém fiel a sua essência, e que, por mais que pareça perder um pouco o rumo em certos momentos, se sustenta muito bem até o seu final, graças a mistura em doses controladas de momentos de riso e terror e a direção segura e guiada com rigidez por Mojica, onde subtramas e personagens são abandonados abruptamente em prol da continuidade da trama.

Mais do que isso, esse filme mostra para muitos telespectadores que o seu realizador é muito mais do que uma figura curiosa e engraçada. Assim, aqueles que foram assistir apenas pela figura sarcástica terão uma experiência totalmente realística e diferente do que esperavam. Como um cartão de visitas do que o Mundo de Zé do Caixão pode oferecer. E, muito provávelmente, nem todos estarão preparados para ele. Digo isso com propriedade: na sessão onde assisti o filme, várias pessoas saíram no meio do filme, enquanto que as que permaneceram até o final se mostraram extremamente tensas nas cenas mais pesadas. O que apenas corrobora o total controle de Mojica sobre o que ele pretende alcançar no público.

Assim, A Encarnação do Demônio, mais do que o fechamento de sua trilogia tão sonhada pelo seu realizador durante 40 anos, é a comprovação de que José Mojica Marins é um dos maiores desbravadores do Cinema Brasileiro. E que venham mais filmes do Zé do Caixão para o cinema!

3/4

Adney Silva

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O Mensageiro do Diabo (Charles Laughton, 1955)

É inegável que essa arte que tanto amamos criou inúmeras (merecidas) celebridades ao longo dos seus mais de 100 anos. Entretanto, com a mesma velocidade que ela alça ilustres desconhecidos em estrelas da mais alta grandeza, também põe abaixo inúmeras carreiras e filmes. Muitos deles são reconhecidos com o passar dos anos (nada como a análise fria do tempo para dar crédito ao que merece), contudo, em muitos casos, fica sempre a sensação de injustiça, com algumas carreiras terminando prematuramente.

Um exemplo claro disso que estou falando é The Night of the Hunter (mal traduzido aqui como “O Mensageiro do Diabo”). Esse foi o único filme do diretor Charles Laughton, um renomado ator dos anos 30 e 40. Isso se deveu ao grande fracasso comercial e a incompreensão da crítica especializada. O desastre foi tão grande que Laughton decidiu nunca mais realizar um filme. Vendo-o, só posso concluir duas coisas: esse foi o típico caso de um filme muito a frente do seu tempo e que, por causa disso, perdemos um grande diretor, quem, caso seguisse a sua carreira, poderia figurar entre os maiores do cinema.

The Night of the Hunter é uma obra única, que se utiliza, dentre outras coisas, dos “ensinamentos” do expressionismo alemão para criar um clima totalmente soturno e, por que não dizer, macabro para a figura maléfica personalizada por Harry Powell, um suposto pastor que, na verdade, é um aproveitador e assassino de viúvas indefesas, e em sua última empreitada, precisa enfrentar duas destemidas crianças (as filhas da última viúva que ele matou).

Charles Laughton se mostra um diretor excepcional, que soube aproveitar como poucos o trabalho de fotografia em p&b para compor esse conto macabro pelo ponto de vista das duas crianças. Se percebe a influência do noir clássico, mas também há várias pinceladas de outras inflências (especialmente no que diz respeito a vários elementos teatrais), criando um estilo quase que único.

Mais do que isso: o filme consegue provocar uma sensação quase que ininterrupta de medo no telespectador. Medo. Muito medo. Medo de um simples cântico religioso entoado em vários momentos por Powell, em cada momento em que a sua sombra aponta no horizonte, medo do que pode acontecer com aquelas crianças, medo em relação com o que ele irá fazer com a mãe dessas crianças. Resumindo: Laughton consegue transpor o telespectador para áquele mundo. A partir desse momento, enxergamos o filme sob a óptica daquelas crianças.

Boa pare do crédito a esse fato se deve também à interpretação soberba de Robert Mitchum. Ele consegue construir um personagem cínico, obscuro, irônico e, o mais importante, assustador. Suas pregações, o olhar profundo e ameaçador, o modo como cerra e prensa as mão uma contra a outra, mostrando o embate entre o amor e o ódio (evidenciado pelas as palavras “HATE” e “LOVE” tatuadas nos seus dedos)… todas essas nuances fazem com que tenhamos medo dessa figura. Mais do que isso: apesar do medo, faz com que ficamos fascinados pela sua persona contraditória, que se vê como um “defensor da moral e dos bons costumes” (na falta de uma definição melhor) e que, por conta disso, precisa limpar à sua maneira toda a sujeira que a luxúria insiste em espalhar.

O filme é também uma crítica mordaz ao fanatismo religioso, representado principalmente pelos habitantes daquele local, que se mostram bastante receptíveis àquela suposta distinta figura de falas tão encantadoras e venenosas, que, por conta disso, se aproveita da situação. Além disso, quando finalmente Powell é desmascarado, esse fanatismo se mostra ainda mais latente, diante a reação inquisitora da população, disposta a “ver derramar o sangue do infiel”. Mais do que a força física, a força da palavra é mostrada com todas as suaas garras. Apesar da história da fita se passar nos anos 30, esse aspecto ainda se mostra atualíssimo.

Ainda nessa análise sob o ponto de vista religioso, percebemos a figura da pureza e da inocência (as crianças) triunfando contra os malefícios de toda uma sociedade. Elas são empurradas para um um mundo caótico, repleto de questões morais, lutando para encontrar um caminho por entre dificuldades espirituais, emocionais e físicas, de forma a cumprir a promessa que fez a seu pai. No final, cansado de levar esse fardo, ele abdica da promessa, abandonando esse peso injusto ao qual foi obrigado a carregar e, com isso, recuperando a sua pureza e inocência.

Por essas e muitas outras coisas (que não serão citadas nessa resenha sob pena dela se transformar num extenso e chato tratado), The Night of The Hunter é um dos filmes mais impressionantes já feitos. Além de mostrar o quanto o mundo pode ser injusto: enquanto vemos uma carreira de diretor que poderia ser promissora, mas que acabou por conta do julgamento mordaz do público e da crítica, abortos da natureza como Michael Bay e Uwe Boll continuam a fazer o que eles têm a audácia de chamar de filmes. Pelo menos todos nós sabemos quais irão permanecer incólumes com o tempo…

4/4

Adney Silva

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Rabid Dogs (Mario Bava, 1974)

Caso você se interesse pelo giallo (e espero que os filmes do gênero que comentamos aqui, aqui, aqui e aqui tenham contribuído para isso), e comece procurando a filmografia do Mario Bava, provavelmente não encontrará esse filme. Explica-se: na verdade existem não uma, muito menos duas, mas TRÊS versões desse filme. Isso porquê, em virtude de uma série de contratempos (ator principal adoecendo, cronogramas apertadíssimos, o finaciador do filme falecendo, briga entre a esposa de Bava e a produtora), Bava não consegui terminar o filme (faltando apenas alguns takes), além das partes filmadas serem arquivadas em virtude do processo judicial. Os rolos de filme só viram a luz do sol nos anos 90, quando a atriz principal do filme, Lea Lender, conseguiu os direitos sobre o filme. A partir daí, foi feita a primeira versão (que não chegou a ser disponibilizada para o público), com o filho do homem na montagem e na direção das cenas restantes (incluindo o take inicial, de uam mulher chorando), beseando-se no workprint do Bava pai. Na virada do século o filme foi adquirido por Alfred Leone, que foi produtor de Bava e está providenciando o relançamento da obra completa dele em DVD. Achando a obra inadequada para os dias de hoje, ele providenciou a segunda versão, com 20 minutos de novas cenas além de uma trilha sonora totalmente nova (esta com o nome já de Kidnapped, que você encontra na filmografia linkada no início do post). Por fim, na virada do século, veio a terceira versão, a “versão do diretor”, sendo quase uma cópia xerox da primeira, apenas com créditos diferentes (solarizados em verde e vermelho) e sem o take inicial.

Depois de resumida a história dessa “obra quase perdida”, vamos ao que interessa: o filme (mais precisamente a versão do diretor). Apesar de não ser um giallo, possui alguns elementos vindos dele (para destacar um principal, as luvas). E ele é muito bom, apesar de algumas ressalvas. Passados os dispensáveis primeiros 15 minutos (onde temos uma infinidade de clichês e maneirismos da época, tornando-se datadas, e quase nenhuma tensão provocada), temos um meio absolutamente fantástico e um final que, se não chega a ser um desastre, faz com que o filme perca um pouco o seu brilho. A grande qualidade dele é a sensação claustrofóbica que Bava consegue a partir do sequestro, com os personagens se espremendo num carro durante a maior parte do filme. Os assaltantes/sequestradores do filme são, no linguagar popular, uns “três filhos da puta como poucas vezes o cinema viu”, não perdendo nenhuma oportunidade de enervar e traumatizar as suas vítimas, fazendo um violento jogo de gato e rato psicológico. A câmera de Bava é realística, e confabula com esse clima claustrofóbico, causando uma experiência brutal para o telespectador.

O filme vai crescendo em suspense até ficarmos angustiados para saber que final terá aquele pesadelo, e na conclusão o que temos é uma supresa que, na minha opinião, apesar de parecer chocante a princípio, parte para uma saída unm tanto quanto amenizadora. Sim, porque, caso Bava tivesse parado o filme um minuto antes, teríamos uma explosão final de sentimentos muito mais impactante e, por que não dizer, redentora. Quase como o que é provocado em Sob o Domínio do Medo, quando o ator principal executa aquele ato. Me pareceu até uma saída um pouco mais cômoda, como se Bava quisesse justificar áquele ato, ou ainda uam tentativa de evocar o tão famigerado “trust no one“. Seja qual for a intenção do diretor, poderia ter resultados melhores.

Enfim, resumindo a minha primeira experiência com o cinema de Bava: Rabid Dogs tinha como matéria-prima um diamante bruto da mais alta qualidade, mas, ao lapidá-lo, surgiram algumas imperfeições na obra. Ainda assim, consegue ser interessantíssimo, tenso em quase a sua totalidade e alcançar um bom nível de qualidade, ainda que os deslizes ditos acima o impeçam de alcançar a nota máxima.

3/4

Adney SIlva

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Farrapo Humano (Billy Wilder, 1945)

Antes da crítica em si, um comentário: eu queria saber o porquê da mania das produtoras e distribuidoras brasileiras colocarem um título nacional que, ou acaba se mostrando totalmente ridículo, ou ainda parece querer resumir todo o filme em apenas duas palavras, sendo, dessa forma, tão discreto quanto um rinoceronte dançando o Lago dos Cisnes. Será que eles acham que isso atrairá os telespectadores? O título desse filme é uma das provas disso que estou falando. “The Lost Weekend” ( O Fim de Semana Perdido) se mostra muito mais apropriado do que Farrapo Humano.

Pronto, feito o desabafo, vamos direto ao ponto.

Já consideraria Billy Wilder um dos caras mais fodas do cinema só pelo fato dele ter concebido “Crepúsculo dos Deuses”, a maior obra-prima do cinema. Mas, graças á Deus e para deleite de nós, amantes do cinema, ele concebeu inúmeras outras obras-primas tão relevantes quanto. Farrapo Humano é uma delas.

Uma das qualidades mais latentes de Wilder é a maneira como ele tratava temas polêmicos com maestria ímpar – a frieza do cinema com estrelas mais antigas em “Crepúsculo dos deuses” ou a idéia de adultério em “O pecado mora ao lado” – e aqui não é diferente. O tema tratado já afligia – e ainda aflige – grande parte das famílias estadunidenses e do mundo: o álcoolismo. E aqui Wilder não poupa esforças para tocar nas feridas expostas do público, trazendo o retrato mais realista do efeitos físicos e psicológicos do álcoolismo.

O Filme mostra, sem fazer concessões na maior parte do tempo, o drama vivido num final de semana (daí o título original) de Don Birman, um aspirante a escritor que têm todas as suas aspirações destruídas pela bebida, sofrendo uma degradação dfísica e moral perante toda uma sociedade. NO meio desse turbilhão, temos o seu irmão, que o abandona à própria sorte depois de seis anos tentando livrá-lo do vício; e sua devotada namorada Helen, uma moça rica absolutamente apaixonada pelo escritor, que não desiste dele mesmo sabendo de seus problemas com a garrafa.

Desde o seu início, quando temos uma panorâmica mostrando toda a cidade, aproximando-se de um prédio onde vemos uma garrafa de uísque presa através de uma corda em seu parapeito (cena essa regstrada na foto acima), percebemos a temática do filme: um mergulho em sensaçôes até o momento totalmente incomuns aos dramas filmados na época: medo, angústia, dor e, principalmente, sofrimento. Se levarmos em conta a época que o filme foi produzido, percebemos com mais clareza o quão ousada foi a obra em questão: além da crise de 1929 estar presente nas mentes dos norte-americanos, tínhamos ainda a segunda Grande Guerra nos seus momentos finais. Com esse quadro, o cinema procurava justamente o caminho inverso: reanimar aquela sociedade tão abatida pr conta desses acontecimentos (por isso não me surpreende o fato do filme quase não ser lançado, devido à fraca reação de prévias exibições para audiência, que, provávelmente, não estavam preparadas para um tema tão forte).

O maior responsável pelo impacto do filme é, sem dúvida, Ray Milland. Sua interpretação pode ser facilmente colocada como uma das melhores de toda a história do cinema (conquistando o mais que merecido Oscar). Apesar de um papel extremamente complicado de interpretar (devido ao grande risco do personagem soar caricato e exagerado), ele nos brinda com um trabalho extremamente detalhista e extremamente intenso. Suas mãos trêmulas, o cabelo despenteado, os olhares se alternando entre o totalmente deslumbrado e o totalmente perdido (de acordo com o “nível de embriaguez” do personagem) renderam uma construção de personagem simplesmente magnífica, provocando uma crecente angústia no telespectador, à medida que acompanhamos a sua intensa jornada rumo à sua degradação por conta do vício. A sensação que temos é de que estamos junto com o personagem nessa montanha-russa de emoções, sofrendo junto com ele – e como nós fôssemos ele – as suas angústias. E, quando um ator consegue isso, pode ter certeza: é a sua consagração.

Mas temos outros fatores que ajudam a construir essa obra. Além das características habituais que encontramos num filme de Billy Wilder (a amargura e a melancolia injetada em suas obras, o roteiro extremamente bem trabalhado, a ironia latente nas falas, a direção precisa e inventiva), é preciso ressaltar a trilha sonora. Composta por uma das pessoas mais requisitadas para a função naquela época (e, para mim, um dos maiores realizadores dela, perdendo apenas para Bernard Herrmann), Miklos Rozsa, ela se utiliza de um tons graves e impactantes. Isso foi graças, sobretudo, a inserção do teremin, um instrumento musical responsável pela criação de um som muito utilizado em filmes de alienígenas. Aqui, ele exerce uma função primordial: ressaltar a situação de embriaguez e depedência de Don, como se fosse uma voz que o instinga a saciar o seu vício.

Exceto pelo seu final (que me pareceu uma solução bastante cômoda do Wilder talvez por imposições da produtora. Mas fiquem tranquilos, temos pessoas aqui no grupo que discordam disso. :D ), Wilder nos entrega uma jornada alucinante, perturbadora, realista e extremamente angustiante sobre as consequências do alcoolismo, no maior retrato do que esse vício pode causar. Em tempos de volta da lei seca aqui no Brasil (pelo menos no que diz respeito às estradas), assistir esse filme é mais do que um deleite cinematográfico: é um grande serviço social prestado pelo cinema dentro de uma excelente obra. E essa é uma das coisas que faz o cinema ser uma coisa única e fascinante.

4/4

Adney Silva

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O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (Glauber Rocha, 1969)

O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro

Meu primeiro Glauber. E, pelo jeito sera apenas o primeiro de muitos.

Durante todo o filme percebemos uma clara influência do western, seja nos cenários (onde o árido sertão nordestino é utilizado tal qual o Momument Valley por John Ford), ou ainda na temática abordada (onde temos inúmeros personagens perdidos no tempo, incapazes de se adaptar ou deter o avanço do tempo, afetados física e, principalmente, psicológicamente por ele). entretanto, Glauber aproveita essas influências e as pincela com uma linguagem estética e política muito contundente. Todos os personagens se sentem, de alguma forma, deslocados, com as mãos atadas, presos a um passado ou ainda a passagem inevitável do tempo. E, quando, num arroubo súbito de desespero, tentam se livrar das suas amarras, isso acontece de forma destruidora, registrado por uma câmera igualmente avassaladora.

Além disso, destaca-se o papel da música na história, guiando o telespectador e o introduzindo nesse mundo de pistoleiros, cangaçeiros; retirantes; esposas adúlteras; latifundiários inválidos estacionados no tempo; delegados subordinados; incapazes de exercer a sua função idôneamente; professores insatisfeitos que se rebelam contra os opressores, e outros persoangens menores, mas não menos importantes. A força narrativa da trilha sonora, impulsionada pelas modas de viola típicas do sertão, é de uma força estupenda, cortando a tela e chegando com o impacto de um terremoto ao telespectador, como um verdadeiro soco na cara.

“O Dragão da Maldade…” pode não ser a obra mais conhecida de Glauber, ou ainda incomodar em alguns momentos devido a alguns dos arroubos criativos do seu diretor, mas não se pode negar a força destruidora de sua narrativa, e que, passados quase 40 anos, muitos podem (assim como eu), graças a um trabalho primoroso de restauração (uma vez que os originais foram destruídos em um incêndio em um laboratório em Paris na década de 70) , conhecer finalmente esse capítulo do cinema nacional.

3/4

Adney Silva

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