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Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds – Quentin Tarantino, 2009)

Muito se falou sobre o filme de guerra que Tarantino pretendia fazer após completar Kill Bill. O elenco traria Sylvester Stallone, Bruce Willis e Arnold Schwarzenegger; depois os rumores migraram para a escalação de Adam Sandler; a seguir o filme trataria de soldados condenados à morte… Veio o projeto Grindhouse, para o qual Tarantino filmou À Prova de Morte. Mas ele não havia esquecido o projeto de Bastardos Inglórios. No fim das contas: o elenco traz Mélanie Laurent, Cristoph Waltz e Brad Pitt. E os tais bastardos inglórios são um grupo de soldados infiltrados na França controlada pelos nazistas durante a Segunda Grande Guerra, com o objetivo de assassinar e aterrorizar soldados alemães.

Há muitos grandes cineastas ao longo da história do cinema. Para ir além do grupo dos ótimos e entrar no seleto rol dos gênios, é necessário fazer pelo menos um filme que seja maior que o próprio cinema, e Tarantino acaba de conseguir isso. Em Bastardos Inglórios ele perde totalmente o respeito por qualquer resposta pronta, por todas as regras. O diretor desmonta e remonta a obra a seu bel prazer, passeia por enquadramentos, por quebras de narrativa, mostra sequências românticas e matanças desenfreadas sem perder a mão em nenhum momento.

Mas o mais importante é que ele faz isso tudo e mesmo assim consegue não se afastar do público. De fato, é o contrário, o diretor parece estar continuamente dialogando com o espectador, questionando as impressões que este leva para o cinema. Quando o artista consegue se aproximar de tal forma daqueles que apreciarção sua arte, sem deixar de imprimir sua marca, como questionar o resultado?

O ato final de Bastardos Inglórios surge como um epifania, e confere tal poder à obra que é capaz de desvanecer qualquer dúvida acerca do que Tarantino vinha construindo até então. Não há pontas soltas, não há equívocos, nem aleatoriedade. Há uma idea brilhante, há um diretor brilhante executando essa ideia. O resultado disso é aquele filme citado no início, aquele que diferencia os artistas. E a conclusão disso você provavelmente já deduziu: Tarantino realizou sua obra prima.

4/4

Marcelo Dillenburg

ou: Bastardos Inglórios (Quentin Tarantino, 2009) – Luis Henrique Boaventura – 4/4

ou: Bastardos Inglórios (Quentin Tarantino, 2009) – Vinícius Laurindo – 4/4

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Arquivo X: Eu Quero Acreditar (Chris Carter, 2008)

Talvez possa parecer contraproducente contextualizar Arquivo X, mas uma vez que essa resenha não pretende se direcionar apenas aos fãs do seriado, comecemos do princípio. Um dos seriados de maior sucesso de toda a História da televisão, Arquivo X acompanhou durante dez temporadas o trabalho de uma divisão do FBI destinada a investigar eventos supostamente sem explicação natural. Seus protagonistas, os agentes Fox Mulder e Dana Scully, tornaram-se ícones queridos de uma legião de fãs. A tensão sexual entre os dois, inclusive, foi um dos grandes motores do sucesso do programa.

E é provável que Chris Carter, o criador da série, e diretor/roteirista/produtor de Arquivo X: Eu Quero Acreditar, segunda adaptação do seriado para o cinema, tenha imaginado que o simples fato de rever Mulder e Scully juntos seria suficiente para arrebatar multidões novamente. Isso explicaria as falhas imensas que se espalham por todo o filme, a começar pelo próprio relacionamento entre os protagonistas, que não têm química, nem quando estão em paz, nem quando estão em conflito. A trama é bastante desinteressante, envolvendo vilões que não assustam nem cativam. Até certo ponto, se mantém o interesse por desvendar o grande mistério, mas falta controle ao roteiro, que se estende demais e aniquila plenamente com qualquer vontade que o espectador tenha de ir adiante.

No fim das contas, Arquivo X: Eu Quero Acreditar tenta criar clima entre Mulder e Scully e falha; tenta manter a platéia em suspense e falha; tenta dar alguns sustos e falha. Se ainda não ficou óbvio qual é a palavra que melhor descreve o filme, que fique então explícito: falha.

1/4

Marcelo Dillenburg

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Sabotagem, ou O Marido era o Culpado (Alfred Hitchcock, 1936)

Atenção, este texto contém spoilers!

Em primeiro lugar, vale esclarecer o seguinte: quando foi lançado originalmente no Brasil, essa obra recebeu o título de O Marido era o Culpado. Mais recentemente, quando do lançamento em DVD, o filme foi batizado de Sabotagem, tradução literal do título original, Sabotage. O que temos em Sabotagem é uma estória de gato e rato, em que um policial disfarçado tenta desmascarar um terrorista, envolvido este em um plano para detonar uma bomba em Londres. O terrorista é casado, mas sua esposa não sabe sobre suas atividades ilegais.

Pertencente à primeira fase inglesa da carreira de Hitch, Sabotagem poderia muito bem acabar sendo relegado ao grupo dos filmes menos notáveis do mestre. Temos aqui alguns vislumbres do talento do diretor para a composição de ambientes e para a exposição, quase ao nível da dissecação, dos sentimentos de seus personagens. Entretanto, a estória em si não apresenta nada de particularmente inspirado, e o elenco é possivelmente dos mais fracos com que Hitchcock já trabalhou.

O que coloca Sabotagem no mapa, por assim dizer, se resume a uma seqüência. O cunhado do terrorista, um garoto de não mais que dez anos, recebe a incumbência de entregar um pacote. O espectador sabe se tratar da bomba, e que ela será ativada por um timer. Enquanto caminha pelas ruas de Londres, o garoto vai sofrendo contratempos, enquanto os minutos se passam e vida e morte lentamente se aproximam com o passar dos ponteiros de um relógio. Hitchcock consegue criar um crescendo de tensão que atinge um nível praticamente insuportável, antes de alcançar seu clímax. E esse clímax deixa a platéia com a sensação de que algo realmente saiu errado, de que não era aquilo que deveria ter sido filmado. Trata-se, sem exagero, de uma das melhores cenas da carreira brilhante do diretor.

Mas isso diz respeito à forma. Algo mais a destacar essa cena é o conteúdo. Em praticamente toda a obra de Hitchcock, a vida humana é tratada com indiferença. Pessoas morrem, e isso serve apenas para motivar ações. Apenas em Sabotagem e, em menor grau, em Agente Secreto, Hitch reflete sobre o valor da vida e sobre o impacto da morte. Especialmente em Sabotagem, a perda de uma vida é medida pelo impacto que ela causa sobre os vivos, trazendo a tona desespero, raiva, vergonha, frustração. A morte não é apenas um evento que prenuncia uma nova jornada para os personagens, é um marco que coloca em xeque suas crenças, e altera sua postura com relação à vida e com relação aos demais personagens. Tanto que essa morte acaba sendo determinante para o desfecho de uma trama política muito mais extensa do que a vida do personagem morto poderia influenciar.

O próprio Hitch comentou essa cena, classificando-a como “um erro”, em função da recepção negativa do público. Exímio na arte de conduzir platéias, o diretor, nesse caso, as presenteou com algo que elas não queriam ver, e se arrependeu. Em seus trabalhos seguintes, ele não mais eliminou personagens destinados a ser estimados pelo público. A questão é que, se esse foi um erro, foi talvez o erro mais bem sucedido da história do cinema, pois, por mais que o público possa ter desgostado, não é função da arte oferecer sempre beleza e finais felizes. E o resultado final, em Sabotagem, dessa subversão da regra básica do filme popular é de um valor artístico destacado.

No fim das contas, Sabotagem acaba tornando-se praticamente uma lição de cinema, uma vez que mostra como uma cena, uma opção narrativa, pode transformar algo essencialmente simples em algo diferenciado, merecedor de atenção e de análise. Era Hitch fazendo história, antes mesmo de se tornar o maior.

3/4

Marcelo Dillenburg

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