Arquivo do autor:Daniel Dalpizzolo

That’s all, folks!

Mais de três anos se passaram desde que, naquele 11 de maio de 2008, em nossa então nova página de blog, postávamos os primeiros textos do que viria a se transformar dias depois no MULTIPLOT. Nada daquilo foi por acaso. Aliás, quem dera tivesse sido. Foram muitos, muitos meses de brainstorms, de ideias insanas se cruzando por conversas alucinadas em messengers e fóruns alternativos, de madrugadas mal dormidas e dias de trabalho procrastinados, tudo isso para que finalmente conseguissemos ter a coragem necessária para dar o primeiro passo e, de fato, criarmos nosso tão sonhado espaço para escrevermos sobre cinema na internet.

Nossa proposta, meus amigos, era gigante. Queríamos dominar o mundo. Queríamos sequestrar todos os cinéfilos habitantes da rede em nossa página e ficarmos aqui pra sempre, nesse cantinho maluco de contemplação à arte, discutindo e vivendo o cinema, com o cinema e pelo cinema. E, por maiores que fossem as pretensões, elas jamais poderiam contemplar em seu modesto espaço virtual toda a ansiedade e a empolgação que emergia de cada um de nós naquele momento.

Depois de inaugurado o MULTIPLOT, aos poucos fomos visualizando o que realmente estava acontecendo aqui, e a ansiedade se transformava em receio. Será que vai dar certo? Isso será levado a sério? Seremos lidos? Muitos projetos depois, acreditamos que todos nós podemos olhar para nossa história e constatar que, sim, algo importante aconteceu aqui. Algo que mudou nossas vidas, e que, podemos orgulhosamente dizer (e pretensamente, mas não podemos negar que somos sim pretensiosos pra caramba), de alguma forma mudou a vida das tantas pessoas que confiaram aos nossos textos um pouco de seu precioso tempo.

Muitas coisas aconteceram nestes três anos. Gente trocando de emprego, indo à faculdade, se formando, trocando de sexo, vivendo outras realidades e doando-se a outros projetos (ok, a troca de sexo foi brincadeira). Por essas e outras, o MULTIPLOT passou por dois longos recessos (um deles, por sinal o atual, com mais de um ano de duração) que deixaram nossa casa desamparada e silenciosa, um cenário que por pouco não lembrava a cidade fantasma de O Homem Do Oeste, western de Anthony Mann, nosso último cineasta homenageado, lá no distante abril de 2010.

Mas a ciranda da vida (parafraseando um de nossos próximos homenageados) fez com que esse bando de doidos voltasse a planejar, a discutir, a sonhar juntos. Para quem deseja dominar o mundo, fizemos pouquíssimo. Quase nada. E não pretendemos, de forma alguma, deixar esse sonho morrer aqui.  Do início até aqui nossa equipe perdeu alguns membros, mas ganhou outros tão importantes quanto. E o que apresentaremos nos próximos dias será mais um capítulo desta história. A ansiedade, aquela maldita e velha vilã do longínquo ano de 2008, voltou com um exército gigantesco para nos pressionar 24 horas por dia.  Mas aguardem. Falta muito pouco.

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Novidades em breve no Multiplot. Aguardem.

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Conspiração (The Tall Target – Anthony Mann, 1951)

Filme histórico estruturado sobre uma clássica fórmula de filme noir, Tall Target resgata a rejeição de grande parte da população dos Estados Unidos a Abraham Lincoln e sua ousada visão política que transformou decisivamente os rumos daquele país no século XIX, e mais impressionante do que as observações factuais de Mann é exatamente como o diretor é capaz de construir um filme político/histórico tão preciso e complexo (no sentido de abranger várias nuances em um material relativamente genérico – afinal, é um policial narrativo até o talo) sem esquecer que seu negócio é o cinema e que acima de tudo está ali para fazer um filme, não reproduzir um livro de história de ensino médio com linguagem para adolescentes disléxicos.

Tudo se passa dentro de um trem que transporta centenas de pessoas (algumas eufóricas, outras cuspindo o fogo do demônio de tanto ódio) para a cidade onde Lincoln faria o primeiro discurso como presidente dos Estados Unidos. Um policial que recebeu informações de que haveria uma conspiração para assassinar o novo presidente faz de tudo (até largar seu emprego e enfrentar grandes oficiais) para conseguir embarcar e tentar impedir que isto aconteça. Coisas suspeitas vão rolando desde o início, seu bilhete some, outro homem aparece utilizando a sua identidade e pessoas fazem de tudo para tirá-lo do trem.

São pouco mais de 70 minutos de filme, e nesse curto espaço Mann constrói uma enérgica e sempre instigante atmosfera de filme policial b e um painel político irrepreensível a partir de um conflito muito simples: existe mesmo a conspiração, quem está armando e etc. Ele transporta as regras do noir (aliás, dá um charme desgraçado o vapor do motor) para o século XIX e utiliza-se do cenário único (filmar uma história inteira dentro de um trem é coisa que só um Mann ou Tourneur saberiam fazer – Lumet que nem é mau cineasta, por exemplo, não conseguiu) e das relações de poder pra montar uma grande pista de obstáculos que, somadas à sensação de urgência da situação (afinal tudo precisa se resolver antes de o trem chegar ao discurso), rendem um filme hipnótico e que parece projetado na velocidade de um daqueles trens bala japoneses.

A habilidade de Mann ao refazer a história e apresentar o contexto daquele país durante um fato específico através de um filme que segue à risca as convenções de um gênero tão restrito é a principal qualidade desta obra-prima, mas o filme é tão sensacional que mesmo quem não liga pra essas porras tem grandes chances de sair impressionado. Isso por que há uma penca de cenas incríveis, brigas sobre trens em movimento, ângulos de câmera que como em todo bom filme de Mann conseguem sempre chegar ao cume da expressividade e um jogo de gato e rato frenético e instigante [/propaganda do Super Cine]. Mann faria seus grandes filmes (Pequeno Rincão de Deus, O Homem do Oeste) posteriormente, mas este Tall Target fecha o ciclo noir do diretor (que é tão bom quanto o do western e cumpre um papel interessante em sua filmografia  – afinal se o velho oeste era a estruturação social dos Estados Unidos modernos o submundo do noir só pode ser a ruptura) devendo muito pouco a esses filmes.

4/4

Daniel Dalpizzolo

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Screenshots! – Ilha do Medo (Shutter Island – Martin Scorsese, 2010)

Por Daniel Dalpizzolo

O miolo de Shutter Island é um surto demente e hipnótico tão intenso que me deu a impressão de que Scorsese tá de volta com as drogas. Se sim, putz, expectativas pros próximos trabalhos crescem imensamente. Aí vai um grande apanhado de alguns planos e cenas geniais do filme, e eu tô pouco me fodendo se tem spoilers ou não porque meu interesse é único e exclusivamente o de encher o Multiplot! com essas lindas imagens registradas pelo taturana-man pra galera cair aqui nas pesquisas pelo Google Images.

Texto: Ilha do Medo (Martin Scorsese, 2010) – Murilo Lopes de Oliveira – 3/4

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Eles Vivem (They Live – John Carpenter, 1988)


Uma que é o filme mais charmoso do mundo. Dos diálogos (“Vim aqui mascar chicletes e chutar bundas, e meus chicletes acabaram”) a cada uma das cenas (Nada encontrando os óculos, Nada descobrindo como os óculos funcionam, Nada surtando com a 12 e caçando os alienígenas na rua, etc) Eles Vivem é talvez o representante mais classudo e indefectível do cinema B. Tem um bilhão de ideias e conceitos sendo trabalhados (desde a ironia com o consumismo e o capitalismo e o apocalipse sendo gerado através deles até a relação entre filme e a própria carreira de Carpenter, um brutamontes caçando alienígenas é provavelmente a verbalização de tudo o que o restante trabalha nas entrelinhas), um esquema narrativo absolutamente fantástico, uma noção de ritmo que não encontra parâmetros em nenhum outro filme (o único filme que possui uma cadência tão precisa quanto a de Eles Vivem é Rio Bravo), é um filme que desliza, flutua de cena em cena com uma facilidade assustadora – a trilha sonora nesse sentido é um achado também, a maneira com que Carpenter vai conduzindo o filme através dela, mais ou menos como o baixo faz no blues (o Kerr ex-multiploteiro e atual tocador de batuques  em noites paulistas já diria que Eles Vivem é um blues filmado, melhor definição impossível), enfim, é uma fonte inesgotável de coisas geniais sendo trabalhadas por debaixo dessa aurea de filme B, de filme tosco, de filme vagabundo, mas que na verdade tem mais a dizer, tem mais classe cinematográfica, tem mais observações brilhantes (“this is our god” refletido num maço de dinheiro!!!) do que qualquer filme pretensamente político do cinema contemporâneo. É um filme onde Carpenter constrói um mundo e rui inteiro na nossa frente, um filme em que ao herói só resta chutar a bunda de tudo e de todos, um legítimo filme do caralho.

4/4

Daniel Dalpizzolo

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Screenshots! – Passion (Jean-Luc Godard, 1982)

– por Daniel Dalpizzolo


Em dias de premiações insossas nada melhor que Godard pra iluminar nosso saudoso cinema.

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Crime e Paixão (Hustle – Robert Aldrich, 1975)

Aldrich passou a maior parte da carreira dirigindo filmes de gênero para estúdios de Hollywood e enquanto isso, já que não tinha toda liberdade do mundo pra falar na lata aquilo que pensava, trabalhou de diferentes formas os arquétipos de gênero procurando pontuar esses trabalhos com algumas observações mais incisivas sobre a sociedade, a violência, a paranóia das relações humanas em tempos de pós-guerra – e vá lá, em todos os tempos – e as situações limites em que muitas vezes o homem se encontra e que podem despertar nele reações extremas e perigosas. Com o sucesso de Os Doze Condenados, feito para a MGM no final da década de 1960, Aldrich ganhou muito dinheiro, e como era doido de pedra – não daquela pedra, pelo menos até onde sei – torrou toda grana abrindo uma produtora própria pra fazer os filmes que queria do jeito que desse na telha e sem dever nada a ninguém.

Ele é um cara fodão em praticamente todas as fases de sua filmografia, mas ver um filme de Aldrich pós-68 é uma sensação tão intensa quanto transar sem camisinha com prostitutas gostosas e  cleptomaníacas num beco de um bairro barra-pesada de Nova York. Você está de cara com algumas questões-chave para a degradação social tão trabalhada pelo cinema americano da década de 1970, e como Aldrich está muito distante de ser um cineasta cínico – como um Haneke, por exemplo – existe em seus filmes uma áurea impassível de indignação e revolta com toda essa merda que acontece diariamente, um posicionamento de alguém realmente puto com a realidade que não se omite nem faz de conta que mora num castelo nos Alpes e observa tudo como se estivesse acima de todas as coisas.

Nesse sentido, e pra acabar de vez com a enrolação, Crime e Paixão é um filme de síntese tão extremo quanto funcional. Aldrich assim como seu protagonista, um detetive que precisa resolver o caso do assassinato de uma atriz adolescente de filmes pornôs, passa o filme inteiro tentando fugir de sua “missão” – contar a história de uma investigação, que na verdade só começa no final – e nos convida a percorrer as ruas de uma metrópole para observar e eventualmente confrontar os mais variados tipos de corrupção moral e social – assassinato, estelionato, drogadição, prostituição, aliciamento de menores, assaltos, estupros, vingança, seqüelas de guerra, enfim, o protagonista está no front contra a delinqüência e as merdas do mundo e quanto mais tenta se afastar delas mais parece ser engolido por este redemoinho aparentemente insolucionável de instabilidade social.

O personagem de Burt Reynolds é visivelmente a representação carnal da própria indignação de Aldrich, a materialização de um momento em que ele resolveu chutar o tal do balde e mandar tudo pra puta que pariu. Quanto mais tenta se esconder da sujeira e da escória (parafraseando Travis Bickle pra ficar bonito) mais ela o procura – e visto que é apaixonado por uma prostituta, ainda assim, parece realmente estar disposto a deixar certas coisas de lado com a expectativa de que tudo um dia possa ser diferente. Mas Aldrich é um pessimista, e com esse filme sujo, feio – esteticamente inclusive, o que para quem conhece Aldrich é perceptivelmente um afronte do diretor – e cheio de amoralidades não nega que aqueles valores que busca resgatar estão ameaçados, mas que eles existem. Era este o dilema de Aldrich, um homem que saudava os novos tempos com uma raiva tremenda, mas que sabia que esta raiva que sentia não representava necessariamente a maldade intrínseca do homem, mas apenas sua indignação com o fato de que as coisas não eram do jeito que queria que fossem – a cena de violência/amor bruto dele com a prostituta é genial nesse sentido. As ações estão ligadas com temperamento e emotividade, e não são fruto de uma equação matemática – te educaram dum jeito, vai ser daquele jeito a vida toda, etc. Sim, eu tinha que cutucar A Fita Branca, mas foda-se, o que eu queria dizer mesmo é que Aldrich é foda!!!!!!!!! [/piada interna mode off].

4/4

Daniel Dalpizzolo

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