A Bela Junie (La Belle Personne – Chistophe Honoré, 2008)

Havia na Nouvelle Vague sobretudo um reconhecimento de todo o cinema que veio antes. Reconhecimento da maturidade, certamente. Muito já se falou da reedição que Christophe Honoré faz do “movimento” francês em seus filmes, mas o que na verdade existe ali é uma edição da paixão que os cineastas do período nutriam pelo cinema. A paixão de Honoré parece ser por aquela época e não pela própria paixão que movia os filmes.

A Bela Junie, por exemplo, é um filme sem pai, logo, um filme sem conselhos. É um filme sobre jovens sem adultos (até os professores são quase colegas, vide aí Louis Garrel) ao redor que tomam por maiores todos os problemas que enfrentam. Não há aquela balança moral (ou amoral, tanto faz) que nos distraia e nos aprofunde de fato em alguma coisa.

Honoré não consegue construir bem a personagem-título ao ponto em que o que vemos não passa de uma má encenação de um problema que não existe (o encontro final entre Junie e o professor de Louis Garrel é de uma falha tremenda de construção de discurso), onde um rosto possuidor de uma expressão erradamente já pretende se valer como o todo.

1/4

Ranieri Brandão

17 Comentários

Arquivado em Comentários

17 Respostas para “A Bela Junie (La Belle Personne – Chistophe Honoré, 2008)

  1. Raniere, interessante o que você disse sobre ‘balança (a)moral’, mas achei que você foi um pouco duro com o filme.
    Na minha opinião, a história quis pertencer ao universo adolescente, sem sair dele. E é meio bobo, como admite o personagem do Louis Garrel numa fala. O professor de italiano, que já se considera alheio a esse mundo, não se apaixona verdadeiramente há tempos, até conhecer a Junie.
    É bonito e simples, vai.
    Parabéns à equipe pelos textos sempre ótimos :D

  2. Ranieri Brandão

    Oi, Dave! Obrigado pelo comentário.

    Eu creio que as coisas que falham no filme do Honoré são justamente aquelas do perigo de entrar num mundo e não saber sair dele. Ou melhor, não saber ficar nele com alguma dignidade. Acho meio simplório demais, o próprio filme encontrar esse universo e através do personagem do Garrel dizê-lo bobo, já que ele mesmo não o coloca assim, muito pelo contrário…

  3. Raniere, interessante o que você disse sobre ‘balança (a)moral’, mas achei que você foi um pouco duro com o filme.Na minha opinião, a história quis pertencer ao universo adolescente, sem sair dele. E é meio bobo, como admite o personagem do Louis Garrel numa fala. O professor de italiano, que já se considera alheio a esse mundo, não se apaixona verdadeiramente há tempos, até conhecer a Junie.É bonito e simples, vai.Parabéns à equipe pelos textos sempre ótimos :D
    +1

  4. Junto de Canções de Amor, o melhor filme do Honoré.

    SPOILER:

    Honoré filma bem e representa um filme que carrega tudo de bom que um drama da vida, um romance da vida, pode nos oferecer. Os melhores filmes sobre algum amor, alguma paixão, são aqueles que nunca se consomem, que nunca se concretizam, que duram um momento e por isso se tornam inesquecíveis. Esse é um deles. Filmaço!

  5. É o que mais gosto em todos os filmes de Honoré. O que fica por falar e nunca é dito, e quase sempre subentende-se por uma série de situações que parecem aleatórias a todo o filme, mas que na verdade estão ali dando uma certa sintonia a todo filme. Meio que um filme sensorial sobre o cotidiano, visto sempre com poesia, o que eu acho lindo.

    E na verdade, é realmente tudo muito bobo, duvido muito que não propositalmente, é só ver toda a situação em volta do suicídio.

  6. Eu já acho a questão do “tolo propositadamente” algo complexa, pois vejo a tolice do filme de Honoré bem longe de algo proposital no sentido de que se pode fazer um filme tolo contando com a industrialização desta tolice. Fica parecendo então que A Bela Junie tem então uma tolice profundamente calculada para ser bela, o que não me agrada de jeito nenhum, já que a tal é tola justamente para fingir que foge de tudo aquilo que é sério no filme (é, sem erro algum, um falho filme sobre a seriedade da tolice).

  7. Eu usei a palavra bobo, tolo está muito longe dos filmes de Honoré. Digo bobo pela simplicidade, pela desnecessariedade de grandes acontecimentos ou quebras de espectativas para levar a história aonde quer.

    Em “Canções de Amor” por exemplo, o ápice do filme, o grande acontecimento, é algo tão importante quanto qualquer outro momento onde nada parece acontecer.

  8. Eu usei “tolo”, pq “tolo” está bem próximo, a meu ver, deste filme do Honoré, Rafaéu, pq por mais que tudo seja “bobo” me parece q ele não sabe encarar assim, o que prejudica e muito seu filme. Em termos de coisas ditas bobas, os filmes do Truffaut (q o Honoré parece querer reeditar a cada filme seu) são bem mais verdadeiros e apaixontes. Tem acontecimento maior, mais bobo, pouco sério, solene e bonito do que aquele da menininha com o megafone em Na Idade da Inocência?

  9. Honoré nunca imitou Truffaut. Um cinema francês que fale sobre os mesmo temas de outrora – sim, falamos da Nouvelle Vague – não está necessariamente fadado ao pastiche. A homenagem existe, assim como em todo o cinema contemporâneo, mas serve apenas como registro.

  10. Ranieri Brandão

    E, em momento algum, foi falado no suposto fado de que toda “homenagem” é um pastiche, né, Pedro? E também, a palavra foi “reeditar”, não “imitar”. A questão do Honoré, a meu ver, é se valer demais das tais “homenagens”, é “embonitecer, poetizar”, com uma fria consciência dessa fácil capacidade, as coisas banais que podem ser igualmente bonitas e poéticas de uma forma mais honesta e, digamos, original (peguemos os filmes do Tarantino, a originalidade que brota das diversas homenagens e referências muitas vezes explícitas). Mas isso é só minha opinião, claro…

  11. Se a palavra é reeditar, tampouco muda, pois. Não existe cinema do futuro que não olha para o cinema do passado. Esse olhar pode as vezes não ter sabor, mas quando encontra uma visão como a de Honoré (não é explícita como a de Tarantino, ao contrário, está tudo implícito na obra dele) não vejo como desassociar a “honestidade” dos filmes dele. E também A Bela Junie acaba sendo o filme menos influenciado dele, pois é um filme de hoje, pertencente a seu tempo. Dificilmente esse filme “caberia” na Era de Ouro francesa.

  12. Ranieri Brandão

    Hum… Eu acho que sim, é possível um cinema do “futuro” com todo o que há de bom e ruim nisso. A não ser, talvez, em termos de linguagem no sentido mais simplório e básico do termo e da coisa – e olha q até isso pode ser “superado”, conforme se vê em alguns filmes do Godard, dos Straub, etc. Alguns filmes do Nolan (q nem souadmirador, aliás) estão nesse balaio de “cinema do futuro” – não coloco Avatar pq ali sim, a meu ver, tem-se um cinema q, apesar de querer mudar conceitos, olha muito para o passado. Acho que, essencialmente, se grande parte dos filmes feitos hj fossem ligados no passado do cinema, teríamos mais filmes interessantes – ficamos então na frase famosa do Rohmer, de que o moderno é o clássico.

    A meu ver, o filme do Honoré em questão entra numa época anterior àquela da “Era de Ouro” (Nouvelle Vague, vc diz, Pedro?), a do “cinema de qualidade francês”, cheio de imagens, todo bonito, mas vazio. Mas é um tanto complicado dizer que cabe ou não na “Era de Ouro” (se for a Nouvelle Vague), já que são de tempos diversos tais filmes e o que o Honoré faz é percorrer o caminho de uma cartilha feita, provinda desta tal “Era”, só que, ao fazer isto, acaba por, no meio desse caminho, instituir os mesmos problemas (transformados aqui em coisa estética, simplesmente, diria até um tanto “poser”) num tempo atual, onde tais problemas são mais questões de uma posição calculada (pseudo-dramática-bonitinha) do que de resistência ou autoria, digamos assim. Novamente, digo q é só minha opinião…

    E valeu pela conversa, Pedro. Estou gostando.

  13. Ranieri Brandão

    Pedro, encontrei um texto interessante na Cinética, o qual concordo bem. Aqui: http://www.revistacinetica.com.br/juniefrancis.htm

  14. Ranieri, só voltei aqui porque a discussão é boa!

    E legal você mencionar o texto do Francis. Eu falei brevemente com ele há três semanas em Gramado sobre cinema francês. Havia lido o texto dele de A Bela Junie quando do lançamento do filme, mas foi bom refrescar a memória.

    Mas, então. Sim, cllaro que é possível um cinema do futuro. Mas você não acha que para chegarmos a esse cinema, em um nível aceitável de originalidade e vida própria, com todas as questões pertinentes a uma época, não necessitamos de uma consciência daquilo que foi feito no passado (até recente, porque não)?

    Quanto a Nolan, ele talvez seja um dos únicos cineastas contemporâneos que está criando para si um universo tão autoral quanto comercial – mas também não sou seguidor fiel dele.

  15. Ranieri Brandão

    Sim, sim, claro, Pedro. Acho sim. Foi o que tentei dizer anteriormente. Mas essa consciência do passado, no cinema como vejo hj, está mais ligado à uma consciência muito básica do que foi feito nesse passado. Parece que, cada vez mais, esse “cinema novo” se apóia num passado recente (muito bem colocado, por sinal, Pedro) que é filho grotesco de um século de cinema. Coloque-se aí o videoclipe, os vídeos toscos, a TV, essas coisas todas…

    Fundamentalmente, esse novo cinema de que estamos falando me parece vir de filhos do cinema do passado; filhos estes que, pela rapidez das coisas hoje, já são passado, certamente. Talvez seja isso…

    E sim, por falar no Nolan, eu ainda não vi A Origem, falei mais lembrando do Batman recente dele e de ,em>Amnésia. Creio que se encaixem bem nessa “premissa” da qual estamos conversando…

  16. Legal! Você falou: “filhos estes que, pela rapidez das coisas hoje, já são passado, certamente. Talvez seja isso…”. Acho que isso sintetiza o que estamos dizendo.

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