Espírito Selvagem (All the Pretty Horses – Billy Bob Thornton, 2000)

Cormac McCarthy está em alta. Desde o sucesso estrondoso de Onde os Fracos Não Têm Vez (pra quem não sabe: filme de 2007 dos Coen Brothers, que ganhou uns Oscars e yada yada), já foram adaptados mais dois romances seus para o cinema: A Estrada e Outer Dark (curta metragem), ambos de 2009. Além deles, foram anunciadas as adaptações de Meridiano de Sangue (com Todd Field na direção) e Cidades da Planície (direção de Andrew Dominik). Esse último será continuação direta deste Espírito Selvagem.

Baseado no livro “Todos os Belos Cavalos”, lançado por McCarthy em 1992, Espírito Selvagem conta a história de John Grady Cole e seu primo, Lacey Rawlins, que fogem de casa, na metade do século XX para ir ao México. Pouco antes de cruzarem o Rio Grande, juntam-se com Jimmy Blevins, um moleque de não mais que 13 anos. Após uma tempestade que faz com que Blevins perca seu cavalo, eles entram em uma cidade mexicana onde encontram o cavalo em poder de outro homem. Blevins, então, rouba seu próprio cavalo e se separa dos dois primos que seguem até um enorme rancho, onde conseguem trabalho. Porém, John Grady se engraça com a filha do fazendeiro e, por isso, o pai da moça chama a polícia, que prende os dois rapazes por serem cúmplices de Blevins no roubo do cavalo. Aí eles vão pra cadeia e se fodem um monte.

Espírito Selvagem possui um belo trabalho de fotografia e um elenco competente, porém, peca em seu ritmo, derivado de uma adaptação falha. É evidente que a adaptação do livro do McCarthy consistiu, simplesmente, em definir o que entrava e o que deixava de entrar no roteiro, o que gerou um filme que fala, somente, aquilo que escrevi como sinopse. Os eventos que os personagens passam não fazem diferença alguma no filme, uma vez que os próprios personagens não são impactados pelo que acontece, afinal de contas, a parte do livro que conta o se passa na cabeça dos personagens foi suprimida na adaptação. Não estou dizendo que o filme é ruim porque não é igual ao livro, longe disso. Mas penso que a adaptação deve ser mais do que um simples “recorta-e-cola” do livro. Os Coen, por exemplo, foram extremamente felizes na adaptação de Onde os Fracos Não Têm Vez: mesmo que, em questão de enredo, o filme pouco se diferencie do livro (a título de curiosidade, o filme e o livro são quase idênticos, à exceção de que umas duas ou três partes do livro não entraram no roteiro). A diferença cabal, que torna a adaptação dos Coen genial é que eles souberam como se inserir na história de McCarthy, empregando o estilo que eles construíram no decorrer de suas carreiras. Thornton não emprega estilo algum e se pendura, completamente, na força da obra original, o que é um erro. Cinema é diferente de Literatura. E, se o roteirista tivesse prestado um pouquinho mais de atenção no que estava fazendo, teria percebido que toda a mensagem central do livro (que é o que deve tê-lo cativado) se perdeu durante a adaptação e não foi substituída por nenhuma outra mensagem. O filme se tornou um invólucro vazio e sem força, nem mesmo na parte técnica.

No final das contas, McCarthy sabe se virar com um enredo simples (convenhamos: a trama não tem nada de surpreendente, mas McCarthy consegue dar ao livro porte de gigante)… Thornton não.

1/4

Murilo Lopes de Oliveira

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