Os Heróis do Telemark (The Heroes of Telemark – Anthony Mann, 1965)

Os Heróis do Telemark é o penúltimo filme dirigido por Anthony Mann, o último em que o diretor participou tanto da pré quanto da intra e da pós produção – viria a morrer durante as filmagens de Dandy in Aspic, que foi concluído por seu protagonista, Laurence Harvey. Neste filme, Mann trabalha com fatos reais, assim como estou fazendo nessa introdução para situar vocês dentro da história que cerca filme e realizador. Como Mann, também faço isso de forma objetiva e agora vou ao que interessa:

Puta que pariu! Ah, se essas porras de realizadores de cinema soubessem aliar o conteúdo histórico com o que de melhor têm a oferecer dentro de seu estilo/visão/qualquer dessas bostas relacionadas ao seu modo de filmar. Não que Mann chegue com um porra-louca mode on de Tarantino (e nem precisa). O que acontece em Os Heróis de Telemark é simplesmente não haver intimidação com o fato de o filme precisar respeitar a história e desta forma dar a si mesmo a liberdade de trabalhar o material que tem em mãos em favor do cinema, acima de tudo.

E é apenas desta forma que seqüências como aquela invasão da fábrica de água para bombas atômicas é possível, e são seqüências como aquela que fazem deste filme algo tão atrativo – afinal esses “men in mission” são todos iguais, grupo executa missão na guerra e etc, o que difere um bom filme de um ruim é o quanto seu realizador sabe jogar com isso (e é por isso que Os Doze Condenados ruleia total). Como já havia afirmado no texto de Desperate, Mann enquanto cineasta de orçamentos baratos já experimentava o tempo cinematográfico e percebia como tudo pode se tornar mais interessante se manipulado sem a lógica da realidade, do segundo valer por um segundo e yada yada.

Então aqui, em final de carreira e de consciência plena, ele pega uma ação-chave na trama e canaliza para ela todas as atenções do mundo. Ou melhor, duas ações-chave, esta no meio do filme e a do final que também é genial e etc. Mas no caso dessa aqui, que eu tô tentando contar há dois parágrafos [puta enrolação hein seu Dalpizzolo, pqp], que deve durar pra mais de 20 minutos (eu realmente perco a noção do tempo, parece ter durado uma eternidade – que eu sinceramente não queria que acabasse, não sei se por que ali fazia frio e o dia tava quente pra caralho, mas enfim) e que mostra a jornada daqueles noruegueses através da neve, descendo de rapel em montanhas, invadindo silenciosamente o lugar, armando dinamites, explodindo as porras dos reservatórios e indo pro pega pra capar é, enfim, é antológica, com todo aquele bom gosto visual típico de Mann e silêncio absoluto na trilha-sonora, o que promove uma imersão e tanto na situação.

E quando menos imaginamos, lá pro final do filme, na tal da segunda seqüência, além de todo espetáculo que Mann constrói no meio desse microcosmo da guerra (afinal não são muitos filmes que abordam a resistência dinamarquesa ao nazismo – eu nem sabia que esses filhos da puta dos nórdicos tinham a ver com a guerra, por mim tava todo mundo comendo ensopado de javali e enchendo a cara de vinho feliz da vida enquanto se estouravam nos países ao lado // * eu chamei de noruegueses lá em cima e dinamarqueses ali e sinceramente tô perdido, sei lá qual desses tá certo, mas são tudo albino igual e etc), o filho da puta ainda me vem e faz uma seqüência final quase aldrichiana envolvendo uma mulher, um bebê e um barco recheado com explosivos e o Kirk Douglas surtando pra impedir que uma tragédia humana – que atingiria a si mesmo próprio e a pessoas que ele gosta, os nazistas que se fodam – aconteça, algo também bastante caro a este cineasta tão preocupado com os dramas pessoais e que prestou um serviço imenso ao cinema por desenvolver esta habilidade sobrenatural de fazer filmes não sobre histórias, mas sobre pessoas.

Um filho da puta que deixou saudades.

4/4

Daniel Dalpizzolo

3 Comentários

Arquivado em Comentários, Resenhas

3 Respostas para “Os Heróis do Telemark (The Heroes of Telemark – Anthony Mann, 1965)

  1. Daniel Dalpizzolo

    Pelo visto somos em dois por aqui apenas, eheh.

  2. K. Lincoln

    “Ah, se essas porras de realizadores de cinema soubessem aliar o conteúdo histórico com o que de melhor têm a oferecer dentro de seu estilo/visão/qualquer dessas bostas relacionadas ao seu modo de filmar. ” uhauhauh é o que eu sempre digo.
    Ótima crítica,mesmo não tendo visto esse aí ainda…
    baixando

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