O Espião de Dois Mundos (A Dandy in Aspic – Anthony Mann, 1968)

Grandes diretores costumam encerrar suas carreiras com belos filmes. Pena Anthony Mann não ter tido essa oportunidade por morrer em meio às filmagens desse O Espião de Dois Mundos, que acabou se tornando o seu último filme, onde infelizmente não se reconhecem traços do estilo nem do talento do mestre, muito por conta do filme ter sido finalizado pelo ator principal Laurence Harvey (até então sem experiência alguma na função de diretor). O anterior, Os Heróis de Telemark, pode ser considerado o seu verdadeiro “testamento” cinematográfico.

A primeira vista pode parecer um retorno de Anthony Mann aos thrillers contemporâneos que dirigira na década de 40, depois de vinte anos dedicado a contar histórias de tempos mais remotos. Mas o filme pertence ao filão das histórias de espionagem muito em voga na década de sessenta desde a explosão dos best sellers de Ian Fleming e John Le Carré, e que rendeu uma reciclagem interminável de aventuras envolvendo espiões e agentes secretos pelo mundo.

Adaptado do livro de um autor qualquer (um tal de Derek Marlowe), traz um ponto de partida bastante promissor: um agente duplo que mora em Berlin e trabalha para ingleses e soviéticos recebe uma tarefa ingrata de cumprir: descobrir e matar quem é o traidor do seu grupo. Mas como delatar a si mesmo? O filme desenrola esse plot com muita enrolação, seguindo uma linha mais séria do que a das histórias de 007, mas sem a engenhosidade do já citado Le Carré (mestre dos livros de espionagem) e nem há muito que dizer além de que a história é datada demais da época da Guerra Fria. Outros filmes desse mesmo contexto sobreviveram bem melhor, por carregar uma essência que permanece mais atual em meio àquele período histórico ultrapassado, como Sob o Domínio do Mal (que teve até mesmo um ótimo remake atualizando a sua narrativa) e O Fator Humano, filmes em que muito além do combate a monstruosa ameaça soviética, havia também a denúncia dos males das organizações capitalistas, tornando mais aterrador um contexto que ainda perdura como uma estrutura vigente. Já O Espião de Dois Mundos não consegue ultrapassar o padrão de historieta de livros de bolso de espionagem, ainda que muito dessa decepção seja por se tratar de um cineasta que nos habituou com um grau de excelência o qual não pôde concretizar nesse seu último trabalho. Mas talvez não seja tão ruim, e certamente poderá valer a pena aos fãs de histórias de espionagem, como também para os que se dedicarem a completar a filmografia de Anthony Mann.

Apesar disso é difícil não sentir um gosto amargo, ao final, quando se sabe que toda uma era se findava no último plano.

1/4

Vlademir Lazo Corrêa

3 Comentários

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3 Respostas para “O Espião de Dois Mundos (A Dandy in Aspic – Anthony Mann, 1968)

  1. Eduardo Aguilar

    No meu imaginário e até mesmo qdo assisti o filme na tv -fazem uns 35 anos-, ficou a sensação de um grande filme, algo mto forte sobre ‘aparências/ambiguidades’. Acredite se quiser, é um dos meus preferidos de Mann, mas claro, talvez não resista a uma revisão.

    Pergunto: o filme foi lançado em dvd? Ou vc. assistiu de outra forma?

  2. Vlademir

    Aguilar, consegui o filme por download. No Brasil não foi lançado em dvd.

  3. marcio mourA

    PODE ME ENVIAR O FILME?

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