A Queda do Império Romano (The Fall of the Roman Empire – Anthony Mann, 1964)

Na década de 60 Anthony Mann daria uma guinada na sua carreira, partindo em direção às narrativas mais épicas e prolixas, num percurso semelhante ao de Martin Scorsese nesse começo de milênio (a comparação já foi levantada pelo próprio Scorsese, acerca dos seus Gangues de Nova York e O Aviador). O sentido épico, que antes vinha de dentro para fora em seus filmes (como nos seus faroestes), agora se manifesta em sua completa totalidade, numa propensão indisfarçável à grandiloqüência. Ainda assim, é um tanto quanto complicado para o seu público mais cativo passar do universo pulp dos seus noirs e da tradição dos faroestes para um estilo um tanto difícil de engolir quanto o filão dos épicos dos anos 50/60, como se essa transição exigisse um processo de reeducação do olhar do espectador, desacostumado em ver na filmografia de Anthony Mann toda a pompa encontrada nas superproduções desse período. Dito isso (e ainda que inferior ao majestoso El Cid), A Queda do Império Romano é um filme que, se não foi bem-visto em seu lançamento, agiganta-se com o passar do tempo e eventuais revisões.

A Queda do Império Romano traz consigo o melhor e o pior do seu gênero, o que inclui também alguns vícios como a tendência a se arrastar em alguma passagem ou outra. É o mais político dos épicos hollywoodianos, intercalando duelos verbais com cenas de ação e batalha, ao mesmo tempo em que repete o bom gosto característico de Mann para a composição de imagens, nesse que é um de seus filmes de maior beleza visual ─ o que, vale dizer, não se refere tanto à fotografia “bonita” típica dos épicos daquele tempo, mas sobretudo ao domínio da linguagem , do conceito de plano, de sua duração, dos movimentos de câmera, do uso do corte, da sua pertinência e adequação. A história é a mesma que se encontra parcialmente no lixo Gladiador, o que faz pensar que mesmo um filme menor de um Anthony Mann costuma ser infinitamente superior à supostas obras-primas filmadas por embusteiros como os Ridley Scott da vida. É a tragédia romana da sucessão do trono do imperador-filósofo Marco Aurélio (Alec Guiness), que prefere passar a coroa ao general Livius (Stephen Boyd), e não ao filho sociopata Cômodo (Christopher Plummer), que manda envenenar o próprio pai e se torna o governante, desencadeando o começo da derrocada do Império.

É um filme de ocaso. De fim da carreira de Mann, de encerramento da era do cinema clássico, num período em que os filmes passavam a se concentrarem mais em preocupações mundanas e contemporâneas (o que o torna ainda mais deslocado no panorama da época em que foi produzido). De ocaso não apenas do império romano, mas de todos os impérios, visto que o que reproduz em sua essência serve como representação da queda de todos os impérios e governos, levando em conta que a História se repete perpetuamente em suas linhas gerais invertendo apenas o cenário e a nomenclatura dos seus protagonistas. Os jogos de poder e intrigas palacianas, as manipulações políticas e as guerras de expansão imperialista, o terror espalhado pelas invasões bárbaras e o final com os soldados e plebeus desistindo da revolta popular ao receberem doações de moedas de ouro pelo imperador são todos acontecimentos que fazem pensar que Anthony Mann poderia estar também falando de nossa própria época (ou de qualquer outra). É também um raro épico que retrata um mundo sem heróis, visto que o casal formado pelos personagens de Stephen Boyd e Sophia Loren, por mais que queiram salvar Roma, não conseguem alterar os rumos da História e a marcha dos acontecimentos. Em Mann, como de praxe o estrago há muito já foi feito, resta aos personagens trilhar uma descida ao inferno sem possibilidades de retorno.

3/4

Vlademir Lazo Corrêa

6 Comentários

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6 Respostas para “A Queda do Império Romano (The Fall of the Roman Empire – Anthony Mann, 1964)

  1. Ranieri Brandão

    Pra ser sincero, lembro bem pouco deste filme. Lembro q tem uns movimentos de câmera, mostrando Roma, bem insinuantes. Certamente, da memória pouca q tenho, prefiro este a El Cid.

  2. Vlademir

    O período histórico desse me interessa mais do que o de El Cid, embora prefira o de 1961. Mas ambos são aulas de Cinema, não de História (até pq cometem muitas incorreções nesse sentido). Mas ambos os filmes cometem o pecado de se arrastarem e inflarem demais, se comparados àqueles primeiros do Mann na década de 40, bem rápidos e enxutos.

  3. Ranieri Brandão

    Pra vc ver, Vlad, eu acho mais cinemático (em termos de aula) o filme de 1964. Em se tratando de aula-aula mesmo, em El Cid, independente de verossimilhança com a História ou não, o que importa me parece ser a didática de transmiti-la, de colocá-la em pauta através do deslumbre do cinema.

  4. Nossa, que texto bom!
    Eu, por aqui, continuo me questionando sobre essa virada do Mann que você aponta: anos 4o enxutos e objetivos X anos 60 prolixos e excessivos. Chega é difícil acreditar que tudo foi feito pelo mesmo cara…

  5. Vlademir

    Valeu, Nando!
    Acho que a maioria prefere a pegada dos noir e dos faroestes do diretor. O pior é saber que ele faleceu com apenas sessenta anos, em plena atividade criadora, podendo ter feito muito mais nos dez ou quinze anos seguintes caso não tivesse morrido tão cedo.

  6. Realmente foram dois filmes com belas historias interpretadas por artistas de primeira e principalmente nos dias do lançamento as filas eram enormes ,e o grande produtor mais uma vez fora aplaudido.

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