El Cid (Anthony Mann, 1961)

Se era com certo espanto que víamos como Anthony Mann podia desfazer toda a direção de cinema desastrosa, simpática e insossamente em Música e Lágrimas deixando o filme sem viço algum, talvez por causa da uma prescrição cruel da biografia que tinha muito a ver com o cinema muitas vezes discreto feito por ele, em El Cid a situação é mais agônica, o ar é bem mais difícil de respirar (sobretudo porque o filme é de uma obediência à regra sufocante). Tem-se, antes de tudo, uma duração enorme, e, pior ainda em se tratando do diretor, cenários enormes para ele usar como esquardinhação e reenquadramento de algumas cenas de passagem a partir do que cabe dentro das formas geográficas das paisagens das locações ou daquelas construídas em estúdio. Essas, especificamente, são parte da especialidade de Mann: ignorar suas noções e proporções usando a câmera para fins de uma neutralidade que, nos seus westerns e noirs, haverá de explodir e se romper numa cena ou noutra. Mas aí então fica a pergunta se a preocupação maior dos filmes feitos por Mann não seria o enquadramento ou o reenquadramento e, nesse sentido, El Cid significaria muito.

Mais uma vez, falta qualquer espécie de rigor narrativo, já que cênico o filme possui em doses difíceis de reter, tamanha a totalidade dos planos que colocam os personagens e suas emoções no quadro espaçoso e por isso mesmo distante de qualquer percepção e proximidade com as figuras que realmente importam (no caso, os personagens de Charlton Heston e Sophia Loren, no romance clássico e mal-nutrido por Mann). É a ditadura do filme épico, que é descrita, frontalmente, pelo poder da produção, pela quantidade de extras, de roupas, de pores do sol, etc. Trata-se aqui de descobrir a anacronia exata e facilmente encontrada que calculou o encontro de Mann – um diretor “inadequado” tanto para El Cid tanto para A Queda do Império Romano e até mesmo para Música e Lágrimas – com um mundo de produção que ele não sabe lidar.

A fratura que destrói El Cid é aquela de uma de organização exata. Mann fará do cinema um local a se cumprir programas e obrigações narrativas muito frágeis. Neste caso, então, o que sobra é que toda a pauta de El Cid é para uma mostragem histórica, frontal, muito encenada e ironicamente sem força já que tudo é deixado de lado para transformar o enquadramento constante das coisas e objetos dos cenários no quadro em naturezas mortas que têm, sem dificuldade, uma dose da apatia de Mann sobre elas. Ou seja, estar em quadro não quer dizer que se participe ativamente da ação – e, como se pode ver, a cada distância tomada da câmera até os personagens, perde-se o que seriam os melhores momentos do filme. Isso porque para Mann e a produção do filme existe uma linha clara que separa dois pilares de criação dessa obra. O primeiro é a pauta histórica (os pequenos clímax que as cenas tentam ser sempre, elucidando com clareza as passagens da História, como que para transmiti-la à crianças), que tem o intuito de passar uma pequena aula sobre os homens, comportamentos, ideias do século XI e do próprio El Cid. O segundo, claro, resta ser o da construção de dramaturgia em cinema, deixada de lado pela força histórica que toma conta de tudo aquilo que narra em El Cid. A crueza com que isso é exposto aparece quando Jimena diz para Cid que ele nunca terá seu amor. Vemos que Mann, no contexto da cena, separa a dramaturgia da História na sua direção ausente (a não ser, claro, que essa dramaturgia sirva a esta História, como nas cenas de luta e de superlativos à honra) por que amor não é o mesmo que sexo. Dramaturgia não caberia na recriação da história.

Mas outra coisa acontece em El Cid. A condição do filme é trabalhar os conceitos dos planos clássicos que compõem a narrativa para que eles pareçam outra coisa, ou, melhor, outros planos. É essa a parcela mais incômoda, porque Mann seguirá as obrigações do filme épico ao transformar – ou querer transformar – plano geral e médio em close up – não é esta a lei principal dos filmes épicos enganados? Logo, teremos que ver sempre os personagens com os cenários eternamento por trás a aprisioná-los (estes, claro, chapados, porque a câmera nunca está de acordo com eles de fato, com suas formas e linhas), as cenas mais interessantes destruídas pela incorporação desimportante dos espaços (isso é uma derrota até mesmo para Mann, já que ele não sabe como esbanjar e filmar estes espaços e o interesse dessas cenas escapole), a instauração da aula tradicional onde vemos os fatos históricos sem vigor algum, a título de um conhecimento direcionado bem claro: o de deixar a escola o quanto antes através do estudo – ou da repetição. Se El Cid é mesmo arquitetado nos moldes da aula tradicionalista, então não há como deixar de louvar que as transfigurações dos planos tenham dado certo. Interessa mais decorar (pelos planos médios e gerais dos cenários e agrupamentos, que, claro, dão imagem àquilo tudo dos livros e da História) do que aprender (pelo close up, a análise próxima ao rosto, ou, no caso, próxima demais à História para desmenti-la). O equívoco de toda escola me parece ser este.

2/4

Ranieri Brandão

22 Comentários

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22 Respostas para “El Cid (Anthony Mann, 1961)

  1. Ranieri Brandão

    Poxa, tem uma parte ali do texto que acho q copiei errado pra vc lá no forum, Luis. No segundo parágrafo. Tá tudo confuso! hahahaha. É só tirar a parte “quando narrar um homem tão comum quanto ele” e pronto! Desculpe-me.

  2. K. Lincoln

    Muito bem escrito,mesmo discordando.Não acho que seja uma obra-prima,mas eu gosto deste Mann…

  3. Hehe, feito.

    Mas Lincoln, o Ranieri não acha obra-prima. Ele deu 2/4 pro filme.

  4. K. Lincoln

    Sim,eu sei.A divergência aqui é que ele não gostou(2/4 seria um “razoável” não?) e eu gostei.Desculpe se houve algum mal-entendido

  5. Daniel Dalpizzolo

    Não, 2/4 é como 3/5, 6/10, 10/20, 1.123/2.246 [/scofield], etc.

  6. Ranieri Brandão

    Exato, Dan. É um filme a se rever, mas, como muitos dos épicos dos anos 50/60, me parece meio perdido, os personagens são quase sempre extensões do nada, bonecos mesmo. Mas tem algumas cenas muito boas, este filme do Mann.

  7. K. Lincoln

    esse “não acho que seja uma obra-prima” não estava pressupondo que o Ranieri tivesse considerado o filme como tal.Acho que foi isso que causou a confusão.
    Afinal de contas,seria muito analfabetismo funcional se eu tivesse chegado a esse conclusão

    então Dalpizzolo,6/10 não seria só um “legalzin”?
    haha

  8. Daniel Dalpizzolo

    Sim, só legalzin. O que significa que é bom filme, não? 7 pra mim já é ótimo.

  9. Ranieri Brandão

    Isso de notas é uma coisa doida. O 2/4 é, para mim, como o Daniel disse. Algo como um 3/5, especificamente. É um filme “legalzim” e que precisa ser revisto, como todos.

    Acho que o único filme do Mann que realmente é bem chato, dos que vi para o especial, foi o Música e Lágrimas.

  10. K. Lincoln

    É,pra mim 7 seria só “bom”.Alias,daria mesmo um 7 pro El Cid.7,5 ou 8 seria “ótimo”…mas é melhor eu parar antes que eu fiquei obcecado com esse troço de notas…o importante mesmo é o texto do cara,que realmente está bacana

  11. Ranieri Brandão

    Lincoln, eu acho que também daria um 7 pro filme. Ou um 6.5. É complicado, isso. hehe.

  12. K. Lincoln

    Nunca vi “Música e Lágrimas”,mas acabei de dar uma conferida na resenha que você fez sobre ele.E por falar em cinebiografias enfadonhas,esse Amélia que saiu recentemente é chato pra cacete,pqp

  13. Ranieri Brandão

    Ah, rapaz. Esse do Mann (Música e Lágrimas) eu achei fraquinho mesmo. Andei comentando com o Nando sobre ele. É o avô das cinebiografias de hj em dia, sem dúvida. Tá ali, um filme chapadamente infeliz…

  14. K. Lincoln

    Então Ranieri,é complicado mesmo.Por isso alguns sites,como a Contracampo,nem dão nota.Mas eu sou fã de notas,estrelinhas,listas-não foi Umberto Eco que disse que listas são fundamentais pra nossa existência?- e derivados

  15. Ranieri Brandão

    Eu sempre fui contra as notas, Lincoln. Mas aqui no MP! eu estou mudando de ideia. Estou me divertindo demais com os tops! que eu sempre condenei bastante por não ter habilidade para fazê-los.

    Em termos de notas, eu sempre preferi as estrelas, de 1 a 5! hehe

  16. K. Lincoln

    Sei como é,eu também sou bem avesso a filmes que usam uma suposta fidelidade histórica pra maquiar a falta de criatividade ou força cinematográfica.Até me deprime quando algumas pessoas argumentam com coisas do tipo “Mas como você não gostou??é verídico!”…Ave Bastardos Inglórios

  17. K. Lincoln

    haha estrelinhas dominam

  18. Ranieri Brandão

    Bastardos… filmaço!!! O filme do Mann me parece sofrer muito disso e também da noção clássica do drama que sempre fica para trás ou na mesma evidência nula dos grandes espaços filmados em prol de uma ação histórica-verídica que supostamente é bem mais importante. Concordo com vc.

  19. K. Lincoln

    Filmaço mesmo. “Amelia ” e “Brideshead” são exemplos recentes de como não se fazer um filme.Cinema quadradinho,pedante,morto,capaz de provocar somente letargia e indiferença…esses dois filmes me trouxeram tantos pensamentos suicidas que ncão recomendo a ninguém.

    Enfim,então nem vou baixar esse Mann…

  20. Ranieri Brandão

    hahahahaha. Eu não tô ligado nesse Amélia não, rapaz. Mas aquele filme sobre o Ray Charles é também uma chatice! Baixa o do Mann sim, pô. A título de curiosidade, ao menos…

  21. K. Lincoln

    Sabe que esse até que eu achei legalzin-é bem arrastado,é verdade-mas tem ao menos uma ótima interpretação do Jamie Foxx.Eu até baixaria a título de curiosidade como você diz,mas acontece que ainda tenho uma omissão imperdoável:não vi “O Homem do Oeste”…melhor quitar a dívida primeiro haha

  22. Ranieri Brandão

    O Homem do Oeste MIL VEZES, cara!

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