O Homem do Oeste (Man of the West – Anthony Mann, 1958)

Não sei bem que estranha justiça ou força maligna é essa pra que todos os maiores filmes do gênero versem exatamente sobre a própria morte. Talvez a mesma que tenha feito de O Homem do Oeste o último western puro de Anthony Mann, epílogo de uma filmografia através da qual se lê a história do gênero-símbolo da cultura americana com a clareza do meio-dia.

O faroeste by Mann é um só, é composto da mesma terra e das mesmas coisas, dos mesmos elementos batidos elevados a um nível sacro de instituição, colunas de uma paisagem que serve de cenário para todos os seus filmes por se tratarem todos e no fundo do mesmo filme; um cenário pisado por homens condenados sem a ilusão da esperança e que possuem apenas o presente para sofrer e o passado que os amaldiçoa, porque se tratam todos e no fundo do mesmo homem.

Winchester ’73, E o Sangue Semeou a Terra, O Preço de um Homem, Região de Ódio, Um Certo Capitão Lockhart, O Homem dos Olhos Frios. Todas versões de uma mesma história / capítulos de uma mesma obra que, a esta altura, perde sentido se observada aos pedaços. Pois se em todos estes o homem é o viajante eterno, the man from Laramie, sempre de passagem, sempre vindo de algum lugar distante em busca de paz derradeira, sempre deixando seu passado para trás mas relutando em aceitar que o carrega o tempo todo dentro de si; agora então ele retorna por fim para onde pertence. Seja Stewart, seja Fonda, seja Cooper – seja Lockhart, Morgan ou McAdam… O homem do oeste está finalmente voltando pra casa.

Aqui, ele começa num fim de jornada, numa espécie de pós-aventura de todos os seus outros filmes juntos. Estabelecido, em paz, encontrou a tranquilidade de um fim de vida no simbólico e impossível povoado de Good Hope, lugar onde todos não apenas sabem quem ele era e o que fazia como – e por isso mesmo tão irreal quanto um sonho – o perdoaram por tudo; um perdão perseguido por quase uma década desde Winchester ‘73. Num resumo simples, o homem do oeste é feliz; e este é o problema, porque no fundo até ele sabe que a felicidade é uma puta velha que fala ao pé do ouvido o que qualquer homem gosta de ouvir antes de chutá-lo de volta ao lugar de onde nunca deveria ter saído.

É assim que o filme se divide, em dois, um antes e um depois dessa queda apenas para atenuar este carregado contraste entre o homem do oeste e um mundo novo ao qual ele tenta se adaptar desastradamente, e isso Mann fazia dez anos antes de Leone / quinze antes de Peckinpah. São alguns pequenos detalhes icônicos em menos 10 minutos, como deixar cair uma bolsinha de moedas, se assustar com o vapor do trem, enrolar e guardar com certo senso de ritual o cinto, o coldre e o revólver numa bolsa velha de viagem como quem enterra um amigo de longa data esperando jamais encontrá-lo novamente, por azar não fosse O Homem do Oeste um filme de terras esquecidas e ruínas mal-assombradas.

É para reencontrar fantasmas que, com nem 20 minutos, o homem cai do trem. Desnecessário explorar o fato, a metáfora se auto-explica de dez jeitos diferentes. Há muito de Marcas da Violência em O Homem do Oeste, assim como de Era uma Vez no Oeste, Pat Garrett & Billy The Kid, Os Imperdoáveis, Pistoleiros do Entardecer… mas nenhum deles passa perto de ser tão negro e macabro como a obra-prima de Anthony Mann. Assim que o homem é deixado no meio do caminho pelo trem que segue sem ele, o mundo já não é o mesmo que aquele mundo radiante de quando ele embarcou na estação. Sequer o tempo é o mesmo. Voltamos 20, 30 anos atrás.

É ao mesmo tempo lindo e terrível que o velho bando de cavaleiros-sem-cabeça, vagando por algum plano entre os planos, decida por fim dar o golpe sonhado décadas antes, só para então chegarem à outrora próspera cidadela e encontrarem não mais que um amontoado de casebres vazios e madeiras consumidas pelo tempo. O lugar transforma-se num cenário de abate, um covil de mortos-vivos e almas imperdoáveis sem nenhum outro destino possível que não o de exterminarem umas às outras.

Em O Homem do Oeste, Anthony Mann pega o personagem que o acompanhou por toda a década de 50 e, pela primeira e última vez, coloca-o para enfrentar o passado do qual fugiu por mais de meia-dúzia de filmes, sentenciando por fim que é a este passado que o homem do oeste pertence, não ao futuro tranquilo de Good Hope, sempre contemplado como uma vertigem a cada marchar de charrete em direção ao horizonte eclipsado por um ingênuo The End que, neste caso, nunca foi tão literal. Assim como nunca as últimas palavras de uma mulher para o seu herói foram tão dúbias e bonitas, admitindo saber que seria impossível ficarem juntos, mas dizendo bastar que o sentimento daquele instante era intenso o suficiente para preencher sua própria ausência pelo resto de uma vida.

Ao narrar o fim do western, Mann também sela o destino do gênero no verso do de seu personagem, só encontrado por aqueles que – assim como você, assim como nós neste especial – se lançam de volta no tempo. Porque quando o homem do oeste é deixado pelo trem, a impressão imediata é de que o mundo todo o deixou com ele; de que dessa vez, ao partir em direção à linha do horizonte como um prelúdio antes sempre alegre dos créditos finais, não terá ninguém esperando do outro lado. Porque o homem do oeste está sozinho na Terra.

4/4

Luis Henrique Boaventura

Screenshots!

5 Comentários

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5 Respostas para “O Homem do Oeste (Man of the West – Anthony Mann, 1958)

  1. Ranieri Brandão

    Poxa, Luis! Q belo texto! Eu gostei.

  2. Maicon

    O luis é o único que tem pena dos leitores e coloca umas screenshots! bem legal!

  3. Eita que o Maicon tá ficando velho mesmo… Dá uma olhada nas minhas duas últimas postagens, meu filho.

  4. Daniel Dalpizzolo

    Esse filme é maravilhoso, top 2 do Mann.

    Belo texto, fdp!

  5. O Homem do Oeste é uma obra-prima sensacional. Se John Ford, dois anos antes com Rastros de Ódio, apresentara uma visão mais melancólica e desiludida ao gênero, Anthony Mann acrescentou ainda mais ao que estava sucedendo na época: o declínio daquele que pode ser considerado o cinema americano por excelência, o faroeste. E, devido à sua qualidade, não nos resta outra opção além de o analisarmos no mesmo patamar da obra-prima de John Ford ou a outros gigantes como Rio Vermelho e Matar ou Morrer.

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