Os Que Sabem Morrer (Men in War – Anthony Mann, 1957)

Uma frase repetida inúmeras vezes. Um pedido de socorro, uma tentativa de localização, uma busca desesperada por salvação? Men in War tem início com uma dúvida que logo será dissolvida. O filme que iremos ver deixa muito claro o posicionamento do espectador diante da obra: somos todos os próprios personagens, olhando de dentro para fora, focos absolutos da atenção, da tensão e do risco. O uso constante da câmera panorâmica determina esse olhar difuso, buscando ao redor um caminho de saída, uma brecha de luz ou um pouco de ar limpo em meio ao caos gerado pelas incontáveis explosões que pontuam o percurso das quase duas dezenas de militares que atravessaram o tempo do filme, nenhum deles com garantia de chegar até o fim vivo.

Anthony Mann desenvolve um filme onde o embate físico não se estabelece de modo fundamental; os “vilões” não têm um rosto, pois talvez nem sejam isso mesmo, somente o lado oposto ao que estamos acompanhando. O posicionamento no conflito não é questionado, nem lados certos ou errados são apontados. A única verdade necessária é a da sobrevivência, buscada a todo custo, de forma sufocante e desesperadora. Tal estrutura é tão pungente, que até hoje revela sua força, independendo a própria questão política eventualmente tratada. Um exemplo da precisão narrativa proposta por Mann é a semelhança absurda com o último filme campeão do Oscar, Guerra ao Terror, e por conta disso cabem alguns paralelos entre as duas obras, para compreender a força de ambas.

Kathryn Bigelow parece buscar em Mann as vísceras de sua narrativa direta, pouco romanceada, baseada fundamentalmente na tensão da expectativa muito mais que na ação propriamente dita. Em ambos os filmes existem seqüências terrivelmente angustiantes, quase insuportáveis para o espectador (e seus personagens), mas de forças dramáticas e narrativas imensuráveis. Cada feixe de luz que escapa por entre as árvores na seqüência da floresta, em Men in War, mais ainda que vestígios de esperança por um final feliz, são pequenas aberturas para que se possa respirar diante do horror eminente.

Nos dois filmes também existem os heróis erráticos, não buscando somente redenção, mas a compreensão de suas motivações e aceitação mútua. Personagens que não estão em cena para servir de emblema para uma tese, mas como resultado de seus próprios contextos. Mann e Bigelow anulam a teoria por trás da guerra, deixando em muitos momentos a imagem falar por si. Nos dois casos, cinema de alto nível. O passado e o presente no cinema, provando que uma grande obra pode ser atemporal e falar diretamente a qualquer público.

3/4

Thiago Macêdo Correia

6 Comentários

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6 Respostas para “Os Que Sabem Morrer (Men in War – Anthony Mann, 1957)

  1. Brilhante, Thiago. Mas ah, deixa de ser sovino, esse merecia nota cheia!

  2. Maicon

    Pela fama, também achei que seria 4/4, e o texto não traz um único vestígio negativo.

  3. Thiago Macêdo

    Que isso, me chamar de “sovino”…me senti um desses velhos, tipo os rabinos do filme dos Coen. hahahaha

  4. Ranieri Brandão

    Demorou, mas chegou bem!
    Valeu demais, Thiago!

  5. Daniel Dalpizzolo

    Thi, velho você já está ficando, falta apenas a referência cultural!

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