O Pequeno Rincão de Deus (God’s Little Acre – Anthony Mann, 1958)

É em O Pequeno Rincão de Deus que as obsessões formais e temáticas de Mann encontram todas uma espécie de ponto de convergência que ao mesmo tempo sintetiza, expande e extravasa [/Claudia Leite mode off] a noção de cinema que se construiu ao longo de sua brilhante carreira. Na cara-de-pau mesmo vou dizer que esta adaptação de um best-seller da época é seu projeto mais pessoal e a suposição provavelmente deveria explicar o que levou este filme a ser tão rechaçado pela crítica e pelo público à época do lançamento.

Primeiro por estar todo estruturado sobre um dos temas favoritos de Mann, a instituição familiar, que neste caso é liderada por um agricultor (um absolutamente ensandecido Robert Ryan na atuação de sua carreira, o que quer dizer muita coisa) que ao invés de cuidar de sua plantação perde os dias cavando buracos em sua extensa propriedade para encontrar um tesouro que poderia ter sido enterrado ali há anos pelo seu avô.

Em sua terra mantém uma cruz que é homenagem ao senhor Jesus Cristo, ou a Deus (não lembro, mas enfim, não que faça muita diferença no momento), que marca um pedaço de terra destinado à sua homenagem. Bem, claro que dependendo do quanto já foi cavado no restante do lugar a cruz vai de lá pra cá trocando o pedaço de terra santa, numa sacada que parece ter saído de algum filme perdido de Buñuel. Enquanto faz isso, também chega ao ponto de seqüestrar um moleque albino e obrigá-lo a cavar o dia todo por acreditar que albinos tem alguma facilidade para encontrar tesouros.

Existe neste personagem de Ryan um filme muito forte sobre a crença, sobre a loucura, sobre o homem em um estado de desnudamento completo de qualquer sombreamento das suas peculiaridades (falei bonito, diz aí). O homem no caso é um anormal completo, excêntrico até o talo, e é claro que tudo o que está em sua órbita não pode ficar muito aquém. E é aí que o domínio completo de tempo/espaço/temas/caralhinhos voadores de Mann entra em cena e esta premissa de homem louco se destroça em duzentas e vinte e sete subtramas envolvendo outros membros de sua família, fragmentos que guardam a mesma coragem e a mesma subversão deste insano esqueleto narrativo e por vezes amplificam estas características em cenas que em 1958 somente poderiam ser filmadas por alguém com muito crédito ou com muita droga na cabeça – ou com os dois, o que é mais estimulante ainda.

Do material para um novelão a la E O Vento Levou Mann acaba fazendo um filme doido, engraçado e pertinente e subversivo e polêmico, que conta com seu preciosismo estético sobre-humano (comentar composição visual de Mann já deixou de ser novidade por aqui, então etc) e alguns momentos de fazer sair pulando e batendo a cabeça nas coisas de tanta empolgação. E enfim, essa porra de filme tem de tudo, de insinuações sinuosas de sexo a putaria entre parentes a desfile de vagabundas a rebeliões a parentada falando verdades na cara dos outros – vai dizer, é uma delícia – a gente morrendo de formas bizarras a yada yada. É um dos filmes mais prazerosos de se ver em toda carreira do diretor, se mantendo muito forte na memória mesmo depois de anos. Sim, escrevo utilizando única e exclusivamente as minhas recordações longínquas dessa obra-prima, porque eu pretendia rever e fazer um texto bonitinho sobre este que é um dos meus filmes favoritos, mas como eu não consigo fugir dessa camisa de força que sou eu mesmo próprio estou novamente digitando tudo isso alucinadamente de um ônibus fedido numa auto-estrada mais esburacada que a coxa da Mulher Melancia sem Photoshop pra poder postar nessa merda de especial.

Mann merecia coisa melhor, sinceramente.

4/4

Daniel Dalpizzolo

20 Comentários

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20 Respostas para “O Pequeno Rincão de Deus (God’s Little Acre – Anthony Mann, 1958)

  1. djonata

    nossa, esse é muito, muito foda. esse era o texto que eu mais esperava, depois leio com a devida atenção.

  2. (…) mas como eu não consigo fugir dessa camisa de força que sou eu mesmo próprio estou novamente digitando tudo isso alucinadamente de um ônibus fedido numa auto-estrada mais esburacada que a coxa da Mulher Melancia sem Photoshop pra poder postar nessa merda de especial.

    Deus do céu, só no Multiplot pra eu ver uma coisa dessas, HAHAHAHA. Falou bonito, filho.

  3. Maicon

    E finalmente! eu antecipei um filme desse especial (nos 45 do segundo tempo, mas valeu \o/).

    Prometi pro Djonata um comment de 1000 caracteres, mas a realidade é um pouco dura…

    pq:

    a) apenas um filme já é um começo, mas não me credita à estratosferica experiencia de uma filmografia completa.

    b) O Dalpizzolo já (sempre) diz tudo

    mas se humildemente eu conseguir acrescentar algo que valha da minha primeira experiência, o Maan certamente condiz a todos os elogios superlativos que povoam os textos dos editores do Multiplot, e isso é uma convicção a partir de apenas uma obra! deve valer a pena mesmo hehe

    E só por curiosidade o Pequeno Rincão de Deus demarca um lote na propriedade onde tudo o que é gerado pertence à igreja.

    619 caracteres, foi mais da metade :)

    …Claudia Leitte…

  4. Existe neste personagem de Ryan um filme muito forte sobre a crença, sobre a loucura, sobre o homem em um estado de desnudamento completo de qualquer sombreamento das suas peculiaridades (falei bonito, diz aí).

    Pelo menos…

  5. djonata

    alguém sabe pq a opção pelo P&B?

  6. Maicon

    hum…no livro não há explicação para isso…

  7. Maicon

    mas achei uma coisa legal, Mann considera Winchester’73, El Cid, God’s Little Acre e Men in War seus melhores trabalhos.

  8. Também não sei o porquê da opção pelo P&B, mas graças a Deus por ela…

  9. Maicon

    ….men in war deve ser um puta filme, mais de dez paginas dedicados a ele….alias, falando nisso…

  10. Maicon

    Mateus, confira a história completa sobre “o livro” e sua origem, nos comentários do post “strangers in the night”, é um diálogo bem interesante!

  11. Daniel Dalpizzolo

    Nando, pelo menos o que? Não saquei, heh.

    Sobre o p&b, não sei se existe realmente um motivo – deve existir, claro, mas não explicitamente. Ao final dos anos 50 ainda era bastante utilizado.

  12. Daniel Dalpizzolo

    Sobre Men in War, é realmente um de seus melhores trabalhos.

  13. caiolefou

    p&b é mais bonito [/fufi]

    E esse texto tá bizarro mesmo.

    “Bem, claro que dependendo do quanto já foi cavado no restante do lugar a cruz vai de lá pra cá trocando o pedaço de terra santa, numa sacada que parece ter saído de algum filme perdido de Buñuel.” – Wtf? Eu ri.

    Sobre o filme, vejo hoje ou amanhã e volto aqui. Mas a atração principal acabou sendo o Dan mesmo dessa vez, haha.

  14. Pelo menos falou bonito ali…

  15. Li. E não entendi nada, o que aquilo tem a ver com “livro”?

  16. Maicon

    Huahauhau Mateus, dessa vez não tem pegadinha nenhuma, tá o nome do livro lá, só isso…

  17. caiolefou

    Enfim, realmente um filme genial, duvido muuuito que outro do diretor supere.

    E até o texto ficou menos estranho agora.

  18. caiolefou

    Tá, vou tentar um comentário menos óbvio. Fiquei impressionado como o filme conseguiu passar de um assunto tão bobo/surtado (no começo parecia ser apenas simpático) para depois extrair algo tão sério dessa experiência toda.

    E Ryan é definitivamente top 20 atores que chutaram bundas pelo mundo.

  19. Maicon

    O Caio tocou em um assunto que estava com um pouco de receio pra comentar, o filme me pareceu bem ingênuo na parte inicial.

    Foi um susto…mas passou heeh

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