O Tirano da Fronteira (The Last Frontier – Anthony Mann, 1955)

As décadas de 50 e 60 ainda foram bastante fortes na produção de westerns. Grandes diretores e atores criaram diversas histórias ambientadas no oeste americano e blá blá blá. Todo mundo sabe disso. Todo mundo sabe, também, que, justamente pela enorme quantidade de produções, tem western pra tudo quanto é gosto: tem Leone pra quem é de Leone e tem Giuliano Gemma pra quem é de Giuliano Gemma. Teve até filme esquisito sobre xerifes felizes que montavam cavalos mágicos que voavam. Troço genial, mesmo. The Last Frontier não é um “western Z” (vi um dia em algum livro esse termo… sei lá se ainda é usado – ou se alguém mais fora aquele autor já usou – mas acho que é bem explicativo, devido à letra “Z”), mas também não é um Leone. É acima da média pois tem um diretor muito competente e um protagonista com carisma pra caramba. Mas tem um roteiro chatinho que, sinto muito, me incomodou.

Em determinado momento de The Last Frontier, o personagem Jed Cooper (um figuraça encarnado por Victor Mature) conversa com o Capitão Glenn Riordan sobre civilidade. Sobre o que separa o pelotão, do qual eles fazem parte, dos peles-vermelhas que os impedem de contruir um novo forte. Jed nunca precisou de civilidade e viveu toda sua vida como um caçador selvagem, junto com dois amigos. Mas existe algo na inútil civilidade que o atrai. Penso que é sobre isso que The Last Frontier fala: a necessidade do homem de fazer parte de algo.

E penso também que seria melhor se não tivessem falado absolutamente nada. Não que eu ache que cinema é meramente “storytelling”, mas acredito que, quando um filme se propõe a falar algo, um mínimo de desenvoltura é necessário. Senão acontece o que aconteceu aqui: um tiro que saiu pela culatra, em questão de história.

Mas há que se eximir o diretor Anthony Mann. A maneira como ele se apropria das locações e situações para compor planos é absurda. Desde as tomadas calmas e fluídas do deserto ou do interior do forte onde se aquartela um pelotão de soldados até o frenetismo de uma cena de batalha entre os soldados e indígenas locais, Mann trabalha a câmera com desenvoltura impecável. Nada lhe escapa e o que é registrado torna o filme com história chatinha uma experiência intensa, especialmente no momento da já citada batalha. Aliás, admiro muito o ritmo empregado nessa sequência que abrange a tensão dos soldados no “pré-batalha”, o frenesi do embate e a calmaria mortal após estar tudo consumado (e a câmera passeando pelo campo onde jazem índios e soldados abatidos é impactante ao finalizar seu movimento em um sabre ensanguentado).

Por fim, Mann me deixou uma impressão explêndida. Primeiro filme do cara que eu vejo e ele já começa salvando o dia. Não deve ter muito diretor por aí que consiga o que ele conseguiu aqui.

2/4

Murilo Lopes de Oliveira

3 Comentários

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3 Respostas para “O Tirano da Fronteira (The Last Frontier – Anthony Mann, 1955)

  1. Murilo, assisti o filme ontem e acho que seu texto e nota estão excelentes. De fato, eis um Mann que envelheceu mal. Acho que pra mim foi até um pouco pior porque não sonsegui encontrar o carisma do protagonista (meu Deus, como esse Victor Mature é feio…)

    As cenas de ação são bem filmadas sim, e tem uns momentos bem legais conseguidos pela câmera (como o plano sequência que percorre todo o pelotão logo no início), mas nada consegue segurar a fragilidade do roteiro… As tentativas de humor são ridículas, vários dos diálogos são completamente previsíveis e moralistas demais.

    Mas como saldo positivo vou me lembrar por um bom tempo de Anne Bancroft (pelo menos uma saia). Nela sim vejo carisma, assim como uma síntese desse mundo deslocado onde o protagonista foi parar. Incrível como ela chega a parecer uma assombração pairando por aquele ambiente hostil.

    Bem, se esse filme salvou teu dia, corre cara! Vai ver os melhores do Mann que você vai ver o que é bom de verdade!

  2. garami

    Que bom que você gostou do texto, nando!

    Assim… o filme está envelhecendo mal por aqui hehe Mas a impressão que tive é essa mesma: um roteiro bem capenga que o Mann sustenta como dá. E eu acho, sim, um baita feito o Mann conseguir que esse filme não seja uma tortura… não deixou a peteca cair e etc.

  3. Anônimo

    Já assisti a este filme, no tempo da sessão da tarde.
    Mas, foi um dos filmes que gostaria muito de rever, pois não vejo hoje em dia ninguém estar fazendo filmes, que possam receber a denominação que quizerem , e que atraem o interesse do público e passem os anos e a qualidade ainda está aí.

    Fernandes

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