Um Certo Capitão Lockhart (The Man From Laramie – Anthony Mann, 1955)

O título original de Um Certo Capitão Lockhart, The Man From Laramie, já determina, antes mesmo que qualquer personagem apareça na tela, que o filme em questão é muito mais sobre uma idéia geral que sobre um indivíduo em particular. James Stewart é um desconhecido quase completo, do qual só se sabe o nome e o lugar de onde vem (talvez, as duas únicas informações definidoras do homem), mas que aos poucos vai deixando pistas de quem possa ser. Mas em nenhum momento isso se torna um jogo de mistério com o público e muito menos as coisas novas que passamos a saber sobre o personagem são fundamentais para compreendermos a história. Pela própria persona de Stewart, Lockhart se apresenta como um ser humano distinto, ainda que aparentemente humilde, educado e defensor de um senso de justiça que a terra que ele visita – e onde busca sua vingança – parece não saber o que é. Isso já é o bastante para compreender o universo colocado em discussão por Anthony Mann, uma sociedade que utiliza o poder como forma de moeda e a ganância e a corrupção superam valores mais antigos do homem, como a honra. The Man From Laramie é um western moderno, mas com sangue antigo nas veias, fator que faz dele uma obra peculiar, até os dias de hoje.

Não existe uma lógica de construção narrativa inovadora, nem mesmo uma necessidade de estilizar o filme de uma forma clássica. Em The Man From Laramie, a simplicidade da câmera, revela a crueza dos pontos que ela quer direcionar. Mann não orquestra nenhuma grande seqüência imponente, a la Ford, por exemplo, pois prefere se manter numa idéia de “realidade” que se valeria de menos, para gerar um resultado mais eficaz. Lockhart é visto com olhos tortos na cidade, perseguido, mesmo sem que as pessoas saibam quem ele é e muito menos ofereça um perigo evidente, afinal ele é um mero forasteiro que anda mal vestido, se locomove com uma mula (ao invés de um cavalo magnífico, como em qualquer outro western), e que até mesmo quando briga (ou é metido em uma), não se impõe como um grande herói. A seqüência da briga entre Lockhart e o filho do dono da cidade é um bom exemplo dessa visão mais direta das coisas, por Mann. O diretor fotografa a cena por ângulos pouco usuais, até mesmo embaixo de um cavalo, e à medida que a luta vai se desenvolvendo, os personagens (agora Lockhart e o capataz) mal conseguem se acertar e vão basicamente se empurrando em meio à poeira, que impossibilita que o público saiba o que está acontecendo de fato. É como se Mann dissesse que não interessa muito alguém ganhar uma luta, mas sim o que motiva o ato e que está por trás e além do que estamos vendo de fato.

A incapacidade de julgamento do homem diante de suas emoções é outro aspecto abordado e colocado em outra cena que de tão direta, chega a ser constrangedora, pelo estado dos personagens em cena. Lockhart tenta se defender, com a mão ferida, de um pai sedento por vingança que cavalga em sua direção, mas literalmente cego. Dois incapazes tentando provar seus pontos, ambos motivados por um desejo de justiça que se origina na perda de uma relação familiar. E como resultado, o óbvio, levando-se em conta a decisão de Mann de não aplicar respostas evidentes à ação: ninguém se torna o vencedor numa luta já perdida dos dois lados.

Mesmo quando já está claro o que levou o personagem de Stewart àquela cidade que não é sua, receber uma espécie de dívida que ele crê ter, o filme não aplica respostas sobre o passado dele, nem desenvolve o personagem em seu próprio meio; Lockhart continua sendo um esboço, uma sombra, e sai de cena para retornar ao lugar de onde veio e onde realmente pertence. O Homem de Laramie é qualquer homem que se desloca de sua origem buscando respostas e definições sobre o mundo e, uma vez encontradas, retoma o curso natural de seu caminho. Mann, Clint Eastwood, David Cronenberg, todos homens de Laramie aplicando em seus personagens caminhos tortos de redenção.

3/4

Thiago Macêdo Correia

6 Comentários

Arquivado em Comentários, Resenhas

6 Respostas para “Um Certo Capitão Lockhart (The Man From Laramie – Anthony Mann, 1955)

  1. Ranieri Brandão

    Filme q preciso rever com urgência, Thiago!
    E belíssimo texto, também! Gostei.

  2. Melhor do ciclo de westerns do Mann na minha opinião. Toda a cena em que ele atravessa a cidade, a câmera se afastando e ele se aproximando mais rapidamente, é fabulosa.

  3. Márcia

    Gosto muito do site, vez ou outra venho por aqui pegar umas dicas, venho conferir minha crítica de alguns filmes, etc… E hoje resolvi dar uma olhada na parte ‘equipe’ pra saber quem estava por trás, enfim… E com um discurso feminista, pergunto: Porque não tem uma única mulher nessa equipe? E nem nunca ‘passou por aí?’.
    Sou cinéfila, discuto muito sobre filmes, e muitas vezes, em debates, vejo que muitas opiniões de meninas, diferem dos meninos. Não seria bom uma redatora?! Acredito que pro público feminino, como eu, se sentir um pouco mais em casa?!
    ;]

  4. Daniel Dalpizzolo

    Bem que tentamos na formação inicial, mas parece que andaram rolando alguns problemas com uns tarados (Djonata, se acuse). De qualquer forma, os textos do Thiago Duarte meio que suprem essa necessidade, não?

  5. Maicon

    isso pq ela nem deve ter visitado o Forum!

    ia ter que queimar todos os sutiãs da casa dela

    hauhauhau :P

  6. Toda a cena em que ele atravessa a cidade, a câmera se afastando e ele se aproximando mais rapidamente, é fabulosa. [2]

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