Música e Lágrimas (The Glenn Miller Story – Anthony Mann, 1953)

A rigor, a cinebiografia parece obedecer às regras da neutralidade. Geralmente, em produções desse tipo, não há senso de direção, de construção da história, da acumulação de fatos, porque parece que toda a história humana do biografado deve sobreviver a qualquer “interferência” do diretor ou de quem quer que seja – ela é bem maior do que um filme, porque o cinema é a máquina de reproduzir inútil. O erro, claro, sempre reside aí – é o que nos mostra um filme como Não Estou Lá (2007), de Todd Haynes, uma biografia de ideias e não somente uma cinebiografia sem alma. Logo, perde-se totalmente o sentido de dimensões, de espaços, de locais mais humanos ainda a se adentrar.

Isso acontece bem em Música e Lágrimas, quando se podia pensar que Anthony Mann seria o nome ideal para estar no comando do filme. A ideia atrai: Mann, com seu senso de direção neutra, com sua discreta habilidade técnica (aqui completamente engessada, morta, nula, porque nunca há um momento certo para demonstrá-la), seria o responsável perfeito por encenar a história de um homem comum que se transforma no músico dos discos mais vendidos, um tipo de símbolo mal explorado pelo drama. Por parcelas, Mann poderia dar conta da metade conformada do personagem de James Stewart, o biografado Glenn Miller, quando ele simplesmente só tem a si mesmo como dificuldade para encontrar o talento que lhe é nato, colocando-o como o centro das atenções naquela sua falta de iniciativa já conhecida ao explorar muito pouco (ou nada) o dinheiro da produção gasto na construção dos cenários (que praticamente, para Mann, parecem fazer parte do presente, tamanho seu desinteresse característico por eles). Entretanto, esta forma chapada de contar a história já me parece ser impossível de colocar de lado pelo próprio peso morto da figura principal, anterior ao filme. Haverão momentos que Mann não dará conta. É neutralidade demais, vinda de dois lados – do biografado e do próprio diretor.

Não há conflitos, não há de fato um problema sequer, nem quando Miller vai para a II Guerra. Talvez o que coloque o filme numa situação verdadeiramente delicada (e por isso instigante) é perceber que Mann não era o homem certo para conduzi-lo – e isso não é safar sua cara, de forma alguma: o filme é de uma falta de pulsão fortíssima, de um equilíbrio viciado e grande parte disso vem da inabilidade de Mann ao não se colocar no filme. Isso porque ele precisa sempre de um drama para construir, fazendo crer que não há edificação alguma à vista a não ser aquela esperada (o Stewart de O Preço de um Homem é a prova disso, quase um maluco se metamorfoseando ao vivo), a surpresa é sempre esta, o estouro. Ele necessita que, por exemplo, o James Stewart de Winchester 73 ganhe a arma para perdê-la para o irmão que assassinou o pai de ambos. Há uma obsessão a gerar e rapidamente a gerir. Daí que os filmes de Mann funcionem melhor com a câmera no chão, excutando movimentos rápidos, do que em gruas, com movimentos lentos, discretos e mortos.

Música e Lágrimas, pelo contrário, com um movimento quase imperceptível de grua, insere o já obsessivo e pobre Glenn Miller e sua situação arquitetada para ser destruída e mudada. Aparece então um problema: Miller, antes de qualquer coisa, tem uma vida individual, que não diz respeito ao filme. Ele já começa vivo, ao contrário do que se vê nos westerns que Mann fez, em que a vida dos personagens só se dá na consciência de uma grande raiva.Música e Lágrimas é o encontro do diretor que não consegue conduzir com emoção um mundo de emoções pré-concebido e pré-traçado, com um personagem completo, decidido e já vivido, que não se opõe a aparecer em todas as cenas e não demonstra um prazer perceptível de ser o protagonista, tal sua impossibilidade de decalque e de criar situações realmente interessantes.

O mais curioso é que tanto Stewart quanto Mann compartilham dessa ideia de mostrar tudo, até o final – que ironicamente não mostra nada. Sendo uma biografia, campo de omissão só do necessário para que não se suje o centro de tudo (o biografado), acaba-se por tratar de um exagero imenso dentro do cinema de Mann, diretor acostumado a fazer filmes em que as situações encerravam um mundo com começo, meio, fim e contendo todos os personagens essenciais ou não possíveis à trama. Lembremos do filme do ano anterior, E o Sangue Semeou a Terra, que os índios aparecem antes de terem sua imagem em cena, e onde mineradores mal encarados são postos para entupir a tela – ou entupir aquelas montanhas – de gente. Aqui, há muitas situações sem profundidade dramática ou cênica, sem crise. Uma dessas sequências expressa bem como esse desejo de mostrar o que for possível se degenerou. Nela pode-se ver Louis Armstrong numa sensacional sessão de jazz, iluminada pelos mais variados filtros da fotografia – um alívio psicodélico, totalmente deslocado, mal filmado e curioso como peça alienígena que é. Ao mesmo tempo que a neutralidade de Mann, a princípío, coloca Miller no local ideal para se olhar, com o passar do tempo essa sua mesma característica de realizador tranquilo, constrói um muro. É com dificuldade que se vê através dele. É muito difícil enxergar.

1/4

Ranieri Brandão

1 comentário

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Uma resposta para “Música e Lágrimas (The Glenn Miller Story – Anthony Mann, 1953)

  1. Vou deixar pra ver este por último… rsrsrsr

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