E o Sangue Semeou a Terra (Bend of the River – Anthony Mann, 1952)

O assunto de E o Sangue Semeou a Terra é uma forma geográfica e geométrica, porque no título original “bend” pode ser uma “curva” do tal rio. A curva sempre aproxima (e cria mais) linhas e, para Anthony Mann, não há nada difícil o suficiente para ele trazer para perto. Isso porque, como já se via emWinchester 73 (1950) e nos seus westerns subsequentes com James Stewart, o Oeste das imagens não é só aquele lugar longo, infinito nas planícies (embora hajam muitas delas nos filmes que fez para o gênero); o Oeste é o filme, é do tamanho dele, é o alcance da câmera e tudo o que ela consegue trazer para perto – o Oeste é a maldição da narrativa, que Mann sabe encurtar no caminho como poucos. Tudo está muito próximo. É uma distância fácil para a câmera percorrer e para o corte unir. Por isso, era bastante natural ver índios, apostadores e tudo o que faz parte da mitologia do western em cena no mesmo filme de 1950, enquanto a arma-título cruzava todo um território hostil. Também por isso, é muito comum uma flecha atingir uma mulher no peito, antes da imagem formal do índio aparecer para os outros personagens (tem-se somente um som, que os anuncia).

Em E o Sangue Semeou a Terra temos esta cartilha. Mann vai colocar tudo na mesma cena ou, pior, no mesmo quadro. Elementos heterogêneos: tanto índios como barcos e cais fazem parte de uma ânsia muito tranquila de registrar o tamanho do Oeste (do filme) e todos os elementos que vivem nele (coloque-se aí, outra vez, pequenas caravanas cruzando os EUA, os já citados índios e apostadores, capitães de barco, novos “barões do ouro”, etc), durante o tempo da projeção. Neste sentido, uma cena exemplar é aquela em que, num deslocamento de quadro, a câmera corta da silhueta de James Stewart montado num cavalo para o rosto de um homem prestes a ser enforcado. Uma proximidade absurda e violenta com o que até então estava fora da vista. Isto é algo que serve mesmo para ter sua re-exibição já perto do final, só que invertida em todos os sentidos – é do rosto do homem quase enforcado, feito pelo Arthur Kennedy, que a câmera corta, velozmente, para a silhueta de James Stewart, agora querendo matá-lo.

A aproximação das coisas e pessoas pela câmera é um elemento quase vital para o filme. E o Sangue Semeou a Terra revela que Mann, antes de tudo, talvez pregasse um tipo de forma estética e narrativa que não dialogava muito com o dinheiro da produção – a câmera “neutra” vive somente dela mesma e de sua desatenção ao espaço. É uma narrativa “de sub-existência”, que se nutre dela mesma e dos elementos que brotam no seu interior – ao menos nestes filmes dos anos 50 com James Stweart. Esses “cortes de câmera” citados acima, parecem menosprezar qualquer noção de espaço, isto é, de cenário produzido, já que, assim como aqui, em Winchester 73 e em O Preço de um Homem, as coisas e lugares que situam o filme são naturais – a arma, o próprio “the naked spur”. Isto acaba por não economizar em outro setor, na inserção imediata das figuras humanas no quadro – em Mann, não há pudor ao inseri-las, pelo contrário, elas são bem vindas, porque são parte deste pequeno Oeste que o filme carrega completo. Em E o Sangue Semeou a Terra tem-se esta ideia de uma forma que dispensa alguma aproximação com a suntuosidade dos espaços e objetos que filma. A Mann parece interessar o registro da jornada de homens pequenos e confusos com seu outro lado (“negro”). É o caso do personagem de James Stewart aqui e nos outros filmes.

É algo complexo, já que o filme é justamente sobre este homem que precisa refazer uma imagem de si mesmo para sobreviver para o filme como personagem dúbio numa condição em movimento através dos EUA – ser bom para ajudar na colonização de terras. Para isto, ele precisará recorrer mais uma vez à sua velha imagem – aquela do assaltante da fronteira – diáfana, deslocada e incompatível com este mundo. Este é um processo rápido, filmado por Mann com uma sempre anacrônica secura acadêmica (ou, para ficar mais claro: um desvio acadêmico para o quê olhar, já que as paisagens não importam tanto e sim certos locais específicos, certos pequenos dramas), já que talvez, para ele não haja caminho suficiente que sua câmera não dê conta de cobrir nos filmes. Câmera esta sempre generosa com os atores. Basta ver as expressões não solicitadas por ela nem por Mann, feitas pelo James Stewart quando finalmente é posto de lado para um novo comando da caravana: um close up em contra-plongée, num rosto meio sujo, que já é o rosto da velha imagem do Stewart-personagem.

É um adeus à tirania da produção (os cenários, o barco, a cidade, todos filmados sem exploração nenhuma, sem noção de espaço, mas com estes espaços sempre sortidos de personagens os mais diversos, eternamente apinhados – até as planícies desérticas e montanhas estão recheadas pelas pessoas da caravana) feito da ausência de suntuosidade, num local em que, definitivamente, a forma de filmar se liga ao conteúdo dos personagens. São eles quem moldam estes westerns de Mann, e este é o motivo pelo qual eles são fantásticos, porque deixa-se o personagem se mostrar e não se pede drama algum em troca, embora ele sempre venha, afinal os personagens estão em testes constantes. Isso tudo com a obsessão de ser outro sempre no limite da cena, e não ao seu entorno de produção. Talvez isto explique o anacronismo entre produção e direção em E o Sangue Semeou a Terra e em alguns outros filmes de Anthony Mann, pré-60’s.

3/4

Ranieri Brandão

7 Comentários

Arquivado em Comentários, Resenhas

7 Respostas para “E o Sangue Semeou a Terra (Bend of the River – Anthony Mann, 1952)

  1. Ranieri Brandão

    Finalmente…

  2. caiolefou

    Pelo menos é 3/4, tava com a consciência pesadíssima por ter deixado as oportunidades passarem no TCM.

  3. Ranieri Brandão

    Mas 3/4 é uma boa nota, rapaz! Quando passar no TCM de novo, dê uma olhada. É dos melhores westerns do Mann, na minha opinião, Caio…

  4. Daniel Dalpizzolo

    Esse ta entre as ops de Mann, eh filme 5/4.

  5. Mateus Barros

    Vi esse semana passada, o primeiro filme do Mann que vejo. Ótimo western, gostei muito.

  6. Edivaldo Martins

    Por volta de 1962, E O Sangue Semeou a Terra foi reprisado no Cine Art Palácio e circuito serrador
    Assisti várias vezes ao trailer que até hoje eu me lembro…
    O Narrador era o excelente Gaspar Coelho que além de narrar os trailers dos filmes da Universal também fazia as legendas.
    A narração é esta: E O Sangue Semeou a Terra. Protagonistas: James Stewart no papel de um intrépido guia; com Arthur Kennedy, cujo sorriso significava morte; Julia Adams cujo erro fora amar dois homens;com Rock Hudson que jogava para matar e nunca perdia. Um ano de intensivos preparativos. Dezenas de atores e tecnicos se descolocaram de Hollywood para região montanhosas do Oregon. Desafiando a aspereza do terreno, a neve e as torrentes geladas…

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