O Caminho do Diabo (Devil’s Doorway – Anthony Mann, 1950)

Em Eles Vivem, de John Carpenter, entre brigas épicas com negões e envolvimento até o pescoço num complexo esquema interplanetário onde as bundas de alguns extraterrestres terminam chutadas, nosso herói John Nada consegue pôr as mãos em um par de óculos feito com lentes únicas, lentes que mostram o mundo como o mundo realmente é. Por trás do tecido da sociedade, das convenções, dos rostos, de cada situação e cada conversa inofensiva numa esquina ou balcão de bar. Pra quem não sabe, quem achou que se tratava de mero artigo de sci-fi barato saído da mente torcida por uns tragos de uísque de um velho demente, as lentes nos óculos de John Nada são verdade, e devem estar até hoje perdidas, jogadas em algum porão, nas câmeras que Anthony Mann usou para filmar O Caminho do Diabo.

Eu comentava com o Dan esses dias como não sentia necessidade alguma de ver os filmes do Mann com legendas. Não por minhas maravilhosas habilidades adquiridas no idioma dos gringos (meu vocabulário é game over, go!, 99 rings e flawless victory). Não. No cinema (seja a época, o país, o diabo que for), o idioma é um só, e só pode se chamar “cineasta” o cara que desvendou seus segredos e passeia livre por seus domínios. Como toda arte, cinema é comunicação, é expressão, é dizer com um quadro o que 1000 palavras não diriam.

Em O Caminho do Diabo (caralho, vou começar a falar do filme no 3º parágrafo, eu tô cada vez pior mesmo), Mann manipula as linhas, os ângulos, os objetos e as pessoas em cena como quem rearranja letras num alfabeto, escrevendo o que devemos sentir e o que precisamos saber detrás de cada conflito. O texto é mero capricho, os diálogos são utilitários, estão no filme pelo mesmo motivo que os homens usam chapéus e não bonés da Texaco. Tudo que há para ser dito em O Caminho do Diabo é dito pela câmera, que como indicado inicialmente, atravessa a superfície de cada situação e penetra a um nível de onisciência, compartilhando com o espectador a sensação pura e genuína de ler mentes.

É assim que Mann vai construindo ódio e preconceito através daquela velha habilidade sobre-humana pra compor planos. Trazendo o público para a óptica do índio em oposição ao homem branco (o que por si só já é um verdadeiro evento no gênero), Mann capta todos os sinais de atrito racial e falhas de caráter (talvez invisíveis aos olhos de um branco) como manifestações físicas em cena.

Como da primeira vez que Lance entra no bar e é observado pelo rancheiro em primeiríssimo plano e já quase saindo do quadro, formando uma figura que é mais silhueta do que forma distinta e que domina em absoluto a cena, oprimindo em tamanho e posição os outros três personagens no final do balcão.

Ou na cena da briga, a melhor do filme, das coisas mais secas e enérgicas do cinema. Primeiro a tensão e a atmosfera de iminência de tragédia que se instala com aquela genial virada de câmera / virada de face quando surgem o espelho do bar, a cara de espanto e raiva de Lance, o cartaz com “no liquor allowed for indians”, e os relâmpagos da tempestade que desaba do lado de fora, tudo num mesmo quadro. É quando a câmera volta a se alojar naquele mesmo cantinho da cena anterior, onde o rancheiro e um homem conversam debochadamente sobre as novas leis do Estado e o descaso com os nativos. O que se segue é uma coreografia de movimentos, de cortes exatos e ritmo sustentado na ponta dos dedos. Dois lutam no assoalho do bar enquanto os homens brancos observam impassíveis, filmados como se fossem estátuas ou entalhados em madeira, com um contraste valorizado, uma luz dura nas caras de fantasmas e cada pequena saliência física explorada como se fossem saliências de moral.

*contém spoilers (apesar de que seria pura inocência imaginar qualquer coisa diferente)

O mundo captado por Mann é seco não por um trabalho de criação e elaboração de determinado universo diegético, não há falsidade nas formas, e de certo modo, não há ficção. Por isso O Caminho do Diabo é um filme frio, necessariamente duro e amargo como não poderia deixar de ser (caso contrário resultaria em simples desonestidade), e Mann usa o ritmo como forma de desenhar essa despedida – morte / assassinato de um povo pelo outro – ao de repente quebrar uma sequência eufórica de explosões e invasão e cavalaria armada se dilacerando no campo de batalha para filmar um pequeno réquiem. A câmera pede licença à ação para registrar o triste adeus de Lance à sua amada (jamais ficariam juntos, como ele sempre soube) e acompanhá-lo num caminhar lento e evanescente pelas ruínas da sua raça, o acampamento despedaçado, a poeira da guerra do lado de fora e um sol maciço que atravessa com violência os buracos abertos na madeira. Mann emoldura Lance nesse cenário lúgubre por alguns instantes, como quem emoldura um capítulo da história.

Mas a esta altura os últimos passos já não são mais os passos de um índio ou de um branco. Não importa mais. A figura que marcha com dificuldade sobre a terra tem a pele escura, carrega um uniforme de militar no corpo e bate uma última continência ao chegar ao oficial. Os últimos passos são de um homem, simplesmente; um ser humano sem estirpe. Porque ao matar o índio, o homem branco mata também uma parte de si mesmo.

– Where are the others?
– We’re all gone.

E cai morto.

4/4

Luis Henrique Boaventura

3 Comentários

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3 Respostas para “O Caminho do Diabo (Devil’s Doorway – Anthony Mann, 1950)

  1. maicon

    “no liquor allowed for indians”

    hehe nunca vou esquecer dessa frase quando eu fiquei louco procurando uma pista pra descobrir qual era o filme da contagem.

  2. Hehe, e esse é o início de, sei lá, uma das 3 ou 4 melhores cenas que o Mann já filmou. É imperdível.

  3. Maicon

    Esse com certeza é prioridade pelo “valor simbólico”

    Achei uma citação interessante sobre os Westerns do Mann, nas palavras de Godard, (que presumo, será um dia) meu diretor favorito:

    “both beautiful landscapes and the explanation of this beauty, both mystery of firearms and the secret of this mystery, both art and the theory of art”¹

    poético não?

    __________________________________

    ¹ in GODARD, Jean Luc; Godard on Godard: critical writings by Jean-Luc Godard; Ed. Da Capo Press; 1986.

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