Conspiração (The Tall Target – Anthony Mann, 1951)

Filme histórico estruturado sobre uma clássica fórmula de filme noir, Tall Target resgata a rejeição de grande parte da população dos Estados Unidos a Abraham Lincoln e sua ousada visão política que transformou decisivamente os rumos daquele país no século XIX, e mais impressionante do que as observações factuais de Mann é exatamente como o diretor é capaz de construir um filme político/histórico tão preciso e complexo (no sentido de abranger várias nuances em um material relativamente genérico – afinal, é um policial narrativo até o talo) sem esquecer que seu negócio é o cinema e que acima de tudo está ali para fazer um filme, não reproduzir um livro de história de ensino médio com linguagem para adolescentes disléxicos.

Tudo se passa dentro de um trem que transporta centenas de pessoas (algumas eufóricas, outras cuspindo o fogo do demônio de tanto ódio) para a cidade onde Lincoln faria o primeiro discurso como presidente dos Estados Unidos. Um policial que recebeu informações de que haveria uma conspiração para assassinar o novo presidente faz de tudo (até largar seu emprego e enfrentar grandes oficiais) para conseguir embarcar e tentar impedir que isto aconteça. Coisas suspeitas vão rolando desde o início, seu bilhete some, outro homem aparece utilizando a sua identidade e pessoas fazem de tudo para tirá-lo do trem.

São pouco mais de 70 minutos de filme, e nesse curto espaço Mann constrói uma enérgica e sempre instigante atmosfera de filme policial b e um painel político irrepreensível a partir de um conflito muito simples: existe mesmo a conspiração, quem está armando e etc. Ele transporta as regras do noir (aliás, dá um charme desgraçado o vapor do motor) para o século XIX e utiliza-se do cenário único (filmar uma história inteira dentro de um trem é coisa que só um Mann ou Tourneur saberiam fazer – Lumet que nem é mau cineasta, por exemplo, não conseguiu) e das relações de poder pra montar uma grande pista de obstáculos que, somadas à sensação de urgência da situação (afinal tudo precisa se resolver antes de o trem chegar ao discurso), rendem um filme hipnótico e que parece projetado na velocidade de um daqueles trens bala japoneses.

A habilidade de Mann ao refazer a história e apresentar o contexto daquele país durante um fato específico através de um filme que segue à risca as convenções de um gênero tão restrito é a principal qualidade desta obra-prima, mas o filme é tão sensacional que mesmo quem não liga pra essas porras tem grandes chances de sair impressionado. Isso por que há uma penca de cenas incríveis, brigas sobre trens em movimento, ângulos de câmera que como em todo bom filme de Mann conseguem sempre chegar ao cume da expressividade e um jogo de gato e rato frenético e instigante [/propaganda do Super Cine]. Mann faria seus grandes filmes (Pequeno Rincão de Deus, O Homem do Oeste) posteriormente, mas este Tall Target fecha o ciclo noir do diretor (que é tão bom quanto o do western e cumpre um papel interessante em sua filmografia  – afinal se o velho oeste era a estruturação social dos Estados Unidos modernos o submundo do noir só pode ser a ruptura) devendo muito pouco a esses filmes.

4/4

Daniel Dalpizzolo

4 Comentários

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4 Respostas para “Conspiração (The Tall Target – Anthony Mann, 1951)

  1. Maicon

    Achei que já tinham acabados os noir…não devia ter parado de ler aquele maldito livro :(

  2. Absurda essa habilidade do Mann pra ilustrar eventos históricos sem nem escravizar o filme pelos fatos ou mesmo deixá-lo ter o ritmo alterado pela mais inofensiva das influências. É esse clima frenético de tramas de conspirações e assassinatos de Tall Target (e não dá pra conceber nada mais adequado que a ação se passar num trem), a atmosfera de horror em Reign of Terror, a poesia de mais um western sobre a morte em Devil’s Doorway.

  3. Daniel Dalpizzolo

    Multiplot > o livro, Maicon.

  4. maicon

    isso com certeza :)

    Maicon = fã nº 1 do Multiplot!, já tenho até a carteirinha oficial

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