Almas em Fúria (The Furies – Anthony Mann, 1950)

Não é à toa que nem sequer um touro possa levar o nome de “rei” de um pedaço de terra chamado “The Furies”, em Almas em Fúria, de Anthony Mann. “The Furies”, na verdade o ideal título original, é um espaço que, logicamente, é o próprio filme, um pequeno reino familiar rodeado por certos perigos de espaço (alguns mexicanos que reivindicam propriedade de algumas áreas do imenso local) e de época (os bancos começavam a recebê-las como hipoteca). Trata-se então de um espaço a se requisitar e conquistar, porque “The Furies” é um local e, por consequência, um filme concorrido, totalmente disputado.

Toda a atenção que o personagem de Barbara Stanwyck solicita para os outros personagens é na verdade para assumir de vez o olhar do filme. Seria então o extremo e estranho caso de um bovino comandar, ter as rédeas numa inversão indevida do cinema de Mann, de toda uma narrativa modesta sobre um local (um filme) espetacular, porque é sobre este lugar que os personagens não só colocarão uma narrativa movimentada, doentia e obsessiva para frente, como viverão, de fato, a partir dele, a partir do golpe de conquista do local e, sobretudo, da lente. Principalmente os de Barbara Stanwyck e Walter Huston – pai e filha – que não receberão os close ups adequados e por isso mesmo sobreviverão como personagens a uma história que os une e separa constantemente. Isso porque Mann está distante demais para criar planos discretos para eles (os atores), mas próximo o suficiente para dar-lhes certos olhares e certos movimentos tão bruscos (para os personagens) que não cabem na tradicional e simples decalagem entre roteiro (sonoro, bruto, direto) e direção (um Mann que nem sequer apara as arestas, deixa o inchaço aumentar): tudo se supera, tudo é mostrado.

A anacronia, aqui, é justamente esta: Mann, discreto até no movimento simples e brilhante de câmera atrás da escada depois da famosa cena em que Barbara Stanwyck joga uma tesoura no rosto de uma mulher, permanece numa calmaria que de forma alguma impede de instaurar sua direção e seu simples senso cênico dentro da história impossível de penetrar, visto que, em Almas em Fúria, o quadro é o local para a lotação total, para um problema sobrepujando o outro a cada instante, afinal, o filme, naquele momento, está ali, logo, todos devem aparecer para capturá-lo. Está tudo abarrotado. Não é por acaso que, na primeira meia hora de filme, Stanwyck beije três homens diferentes na boca (um deles, seu próprio pai, uma figura da qual ela é cópia) e acumule um reinado de personagem que controla o filme pelo encurtamento dos espaços que ela domina, como aquele da família mexicana oprimida.

Não há, entretanto, um espaço para o suspiro ou para o fôlego, porque a narrativa do filme é aquela que não pode ser contida, é a narrativa de um voltar ao mesmo lugar, mas com sua posse – é um mundo desgovernado que Anthony Mann, claro, nunca poderia parar, e por isso ele o ilustra. Isso, porque, sabemos, Mann sempre foi o cineasta para o qual a ação está ao alcance de um corte, logo, a fala dos personagens, por si, já se configura como mais um mundo montado por dentro, diegético, de ação extremada, movimentada e algo desequilibrada.

É curioso como Anthony Mann fez filmes em que o motivo central era um objeto ou lugares a se chegar, conquistar e, em seguida, lutar por eles para reavê-los. Winchester 73, Bend of the River, Far Country: locais a se conquistar, a tomar direito e a viver. É bem por isso que “The Furies”, a imensa fazenda, mais do que os outros títulos-lugares, seja mais uma disputa descontrolada e de uma verborragia de acontecimentos costurados pelo roteiro que, se não chega ao limite do inchaço é porque os melhores filmes de Mann convivem com esse acúmulo de situação desde muito tempo, para liberá-la de uma vez só, talvez porque o espaço (e o filme, claro) sejam pequenos demais para a contenção de tantos personagens, locais e situações. Em algum momento eles explodirão para o branco da calmaria ou a grafia de um “the end” conciliador.

4/4

Ranieri Brandão

2 Comentários

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2 Respostas para “Almas em Fúria (The Furies – Anthony Mann, 1950)

  1. Nossa, tô louco pra ver esse filme.

  2. Curioso seu apontamento sobre a anti-recorrência aos closes, porque Mann sabia fazê-los como ninguém. É como se a falta, tema de seu cinema, fosse sentida pela própria câmera…

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