Pecado Sem Mácula (Side Street – Anthony Mann, 1950)

Se todo cineasta de essência narrativa tivesse a precisão, a clareza e a expressividade de Mann eu faria questão de defender o cinema como uma arte que se justifica meramente pelo ato de contar histórias – uma simples evolução dos romances literários, como alguns insistem em encarar. Esse Side Street é um exemplo raro de como aliar ao ato de narrar uma trama as ferramentas disponíveis na estrutura dessa tal sétima arte de maneira orgânica e perfeitamente funcional: de voice overs com cobertura de imagens aleatórias à estrutura quase científica da troca de planos existe uma obsessão impressionante por encontrar o plano ideal para cada momento encenado – e não apenas juntar um maço de papéis manchados de café com o pobre do roteiro, pôr a câmera em um plano médio frontal, ligar, berrar AÇÃO, deixar os atores interpretarem aquilo que tá escrito e ir à lanchonete da esquina comer um pastel de queijo pingando gordura.

Os oito minutos iniciais são impressionantes nesse sentido. Mann adota os princípios básicos do cinema neo-realista pós-Cidade Nua e coloca o espectador em meio à suja realidade de um jeito tão direto e brutal quanto fariam os melhores filmes de Samuel Fuller nos anos seguintes. A voz em off abre o filme apresentando uma problemática geral sobre a violência existente no mundo após a Segunda Guerra e em poucos minutos Mann trata não apenas de ilustrar, mas especialmente de justificar esse sentimento de revolta compartilhado pela narração. A cidade é pintada como uma selva de concreto e os planos aéreos de grandes construções e largas ruas onde mal conseguimos enxergar o componente humano desenha um cenário de extrema frieza (e até chegarmos ao protagonista e à trama em si o que vemos é esta frieza se justificando das formais mais brutais – até cadáver de criança boiando num rio o filho da mãe me mostra sem concessões).

Então que depois deste intenso diagnóstico do mundo Side Street se prende a um homem comum cometendo o que imaginava ser um pequeno delito sem parecer muito incomodado com qualquer sentimento de culpa, afinal que gravidade pode existir no furto de alguns maços de dinheiro em um mundo onde nem as crianças são poupadas da violência e das armas de fogo? Era o que pensava o coitado do protagonista no calor do ato, e no restante do filme o que acompanhamos são justamente as conseqüências que este pequeno desvio moral traz para a vida desse homem, que mesmo arrependido e buscando a redenção vai se degradando cada vez mais até estar completamente atolado na bosta.

Não é exatamente um segredo que esse período do cinema b hollywoodiano (anos 40, 50) e alguns cineastas específicos (Nicholas Ray, Otto Preminger, Anthony Mann, Samuel Fuller) foram base para a revolução cinematográfica promovida pela turma de Godard/Truffaut/etc a partir de 1959 (a tal da Nouvelle Vague, acredito que quem esteja lendo um texto desses até aqui já tenha perdido todos os fios de cabelo se informando sobre isso) especialmente no que diz respeito a trabalhar o campo sentimental de seus personagens como um elemento de cena praticamente físico, intrínseco à imagem. Neste sentido Side Street me parece um filme-chave, ao lado de outros como Whirpool de Otto Preminger e In a Lonely Place de Nicholas Ray. Curioso porém é como este filme, que conta com alguns pares/dezenas/quinzenas/pqpzenas de planos de impressionante detalhismo na (des)construção sentimental/psicológica de seu monstruoso protagonista (no sentido de absolutamente sensacional e aquela porra toda) praticamente nunca é mencionado em lugar nenhum. Alguns vão chegar na voadora berrando que estou querendo dizer que descobri o Brasil, mas yada yada e etc e tal.

4/4

Daniel Dalpizzolo

5 Comentários

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5 Respostas para “Pecado Sem Mácula (Side Street – Anthony Mann, 1950)

  1. Pois é, contar uma história é algo que vai além do suporte, seja literário, cinematográfico ou qual for. É uma coisa que ultrapassa o estatuto de qualquer linguagem, e se bem feito, termina por dignificá-la ainda mais.
    É mesmo impressionante assistir esses filmes e ir pescando as referências posteriormente abraçadas pelos cinemas não americanos. E esse aqui ainda conta com o monstro do Granger. Caramba! Quanto mais eu vejo coisa com o moço me espanto. À sua maneira, um ator bastante europeu… Olha aí que beleza de screens!

  2. Onde achou pra download Dalpizzolo?

  3. Daniel Dalpizzolo

    Se não me engano foi no retroflix.

  4. maicon

    Estudar a Nouvelle Vague me ajudou a entender pq uma pessoa pode denominar um roteiro como um pobre maço de papéis manchados de café! # eu fazendo propaganda :)

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