A Sombra da Guilhotina (Reign of Terror / The Black Book – Anthony Mann, 1949)

De tempos em tempos – e em intervalos cada vez mais largos – surgem esses objetos sobrenaturais como A Sombra da Guilhotina, que te fazem revisar a aplicabilidade de adjetivos como “obra-prima” e toda aquela gama de superlativos carnavalescos que a gente adora usar por aí. Apesar de que é complicado, há três meses que eu venho me apaixonando pelo cinema do Mann numa regularidade que já me fez colocá-lo ao lado de Tourneur, Hawks, Bava e todos os meus outros 492 diretores favoritos. Hoje mesmo revi O Homem dos Olhos Frios (que aguarda texto do Vlad aqui no mp), e comentava com o Dan como não sabia escolher um só na filmografia do cara. Como é que eu vou pôr Winchester acima de O Homem do Oeste, ou Tall Target acima de Devil’s Doorway… Se eu fizesse uma lista de Manns, o top 1 se estenderia até o 7º ou 8º filme. Mas isso foi antes.

A Sombra da Guilhotina (ou “No Reino do Terror”, como também aparece em alguns lugares, ou “The Black Book”, fazendo referência ao mcguffin) é obra absoluta. Tem no espírito o film noir que dominou a criação do diretor durante a década de 40, mas não é um noir, é um drama histórico que remonta os últimos dias do “Reino do Terror” e da queda de Robespierre na Revolução Francesa, mas também não é um drama, é um suspense de fritar os nervos a cada diálogo e cada traição, conspiração e reviravolta da trama que Mann manipula como se estivesse fazendo pizza; mas se for um suspense, é também um horror recheado de subterfúgios com fotografia expressionista, atmosfera medieval e cantos escuros de onde saem braços, revólveres e todo tipo de objeto cortante; mas se fosse mesmo um horror genuíno, não teria espaço pra um romance clássico conduzido por uma mulher que traga o protagonista pro seu próprio campo de gravidade como uma legítima femme fatale faria; e se estamos falando de femme fatale, estamos falando é de film noir, ou não, enfim, não sei de mais nada. Se pedir pra traçar uma linha de “A Sombra da Guilhotina” até o seu “respectivo gênero”, ou sub-gênero, ou pseudo-gênero que o fosse, qualquer pedaço de cartilha ou lista de características que oferecesse uma posição plausível de como definir o que não pode ser definido, eu acabo é me enforcando com a linha. Como disse no início, absoluto.

A condução da coisa também é algo que eu vou ficar anos tentando entender. A Sombra da Guilhotina é um bolo de elementos, é como se alguém pegasse mostarda com morango com calda de chocolate com uma jaca bem grande + o peixe que sobrou da sexta-feira santa, jogasse tudo no liquidificador e conseguisse servir o drink mais refinado de todos os tempos. E a porra do filme tem 86 minutos.

Daí que mesmo que o Mann conseguisse entregar o melhor de cada fragmento de gênero e pedaço da trama com êxito completo (pro romance temos duas ou três cenas-chave, pro desenvolvimento da parte histórica temos o prólogo, pra estabelecer antagonismo 5 segundos bastam. É fazer demais com quase nada), ainda assim é preciso algum tipo de bruxaria ou macumba do Zé Caolho pra reger cada menor detalhe como quem rege uma orquestra [/clichês de críticas de cinema = off], caso contrário uma coisa atravessa à frente da outra, a outra se coloca sobre a uma, a uma atropela a primeira, e o que era pra ser o maior samba do crioulo doido segue como se nem houvessem centenas de elementos pra coordenar. A Sombra da Guilhotina desfila ao longo da curta metragem como se fosse o filme mais normal do mundo, é uma loucura. Como Romário fazendo gol de cabeça com 1,68, como Garrincha jogando aleijado, como um imbecil enfiando analogias futebolísticas num texto sobre cinema e achando que tá tudo certo.

E já que narrar A Sombra da Guilhotina é 3º segredo de Fátima – eu não tenho idéia de como ele consegue, vou catar os momentos. Trata-se de um filme pleno e limpo como obra completa, ok, mas também se trata de uma sequência ininterrupta de momentos brilhantes do início ao fim. Sendo estupidamente seletivo, consegui reduzir bastante coisa a 50 screenshots de 7 cenas diferentes. Como é coisa demais (e dá trabalho, acreditem, eu não faria se não valesse a pena), coloquei em outra página que pode ser acessada pelo link abaixo. Até porque é lá que esse texto termina:

Screenshots!

7 Comentários

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7 Respostas para “A Sombra da Guilhotina (Reign of Terror / The Black Book – Anthony Mann, 1949)

  1. Pois é, nada é por acaso…

    Meu irmão, que coisa linda ficou essa postagem! A parte das screens está entre as melhores coisas que o especial legou até aqui, sem dúvida. Ainda bem que você pegou esse filme, porque eu não teria dado conta mesmo pra fazer algo tão bom. Parabéns, cara!

    E que bom limpar a consciência em saber que finalmente você avaliou um 4/4…

  2. maicon

    Putz! Hoje o dia vai ser corrido demais!

    Mas nada que vá me impedir de comentar esse post diferenciado, cara eu me senti imerso no filme na segunda parte e foi uma experiência intensa pra quem ainda não conseguiu vê-lo.

    Parabéns pela originalidade e mais um “punhado” de elogios que não vai dar tempo de escrever aqui…………

    ……………..fui

  3. Ranieri Brandão

    Postem esse no MKO! As screens que o Luis selecionou são fantásticas. Meio Bava em p&b mesmo…

  4. MKO = Making Off [um fórum para downloads de filmes, na minha humilde opinião, o melhor]

  5. êêê! valeu o/ Depois dos dois piores filmes do especial até aqui, alguma compensação tinha que vir. Até editei meu top 20.

  6. Djonata Ramos

    bah, vi muito do Nosferatu do Murnau aí.

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