O Demônio da Noite (He Walked By Night – Alfred L. Werker / Anthony Mann, 1948)

O Demônio da Noite abre com a narração que já insere aquele tom semi-documental, parte pra um ensejo puramente cinematográfico, filmado e coreografado com o tipo de classe que se espera de Anthony Mann, apenas para voltar a cair na vala do realismo engessado que – ao contrário de Cidade Nua – permite que sua virtude pra reportagem de TV infle e tome conta do filme não abrindo espaço para que o cinema possa aparecer, salvo em algumas raríssimas ocasiões.

Primeiro que a minha determinação do quê, em O Demônio da Noite, cabe a Werker ou a Mann (não-creditado) é puramente hipotética / fantasiosa / empírica / preconceituosa. Nunca vi nada do Werker mas o saldo do Mann comigo é tão positivo que acho natural atribuir-lhe essa bela sequência inicial e os últimos 10 minutos (a composição do cerco em torno da casa do assassino é pura poesia), enquanto que também considero normal pensar que, caso Mann tivesse tido alguma liberdade – nem que se mantivesse esse realismo amorfo -, o resultado seria muito diferente. Mas falar sobre o que poderia ser é fácil (e inútil).

O pouco de linguagem cinematográfica que resta é deixada pra quando acompanhamos os passos do assassino, por natureza – já que O Demônio da Noite é ‘baseado em fatos reais’ – uma jornada de hipótese construída com pura imaginação, por óbvio o oposto da reconstituição de cada detalhe da investigação na delegacia de polícia (infetada de personagens duros e desprovidos de personalidade, e aliás, se muito me engano, o único close do filme é dado de presente exatamente ao vilão de Richard Basehart, que se transforma no cúmplice do espectador, o único personagem capaz de recriar alguma empatia e captar o interesse e a preocupação do público, e que fique claro que isso – apesar de parecer ótimo – não passa de mero acidente, já que o suposto protagonista é todo envolto do velho plot do policial que transforma o caso em questão de honra por causa do amigo ferido, que teria alguma chance de funcionar se, a toda hora que aparecesse, não tivesse que dividir a tela numa disputa desleal com o detalhismo maçante de cada pequeno processo da investigação policial, pra qual sobra toda a atenção da câmera).

Mas enfim, como dito no início, alguns pares de sequências quase alienígenas diante do contexto onde estão inseridas resgatam He Walked By Night do meio da bosta. E percebe-se claramente que o tom muda, que a preocupação e o objetivo da câmera na cena já é outro, que é a IMAGEM quem finalmente vem à superfície pra dar uma respirada. A fuga pelos esgotos encontraria um eco em O Terceiro Homem, lançado no ano seguinte. Já pra sequência do assassinato (ou tentativa, que seja) eu fiz questão de tirar esses screens aí – além de outros de alguns bons momentos. Dilatação do tempo e atmosfera encontram casa nessas esquinas que não existem em época / lugar / gênero qualquer que não seja o film noir.

1/4

Luis Henrique Boaventura

Screenshots!

Não é lá nada espetacular, mas antes que nada.

6 Comentários

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6 Respostas para “O Demônio da Noite (He Walked By Night – Alfred L. Werker / Anthony Mann, 1948)

  1. Maicon

    ô Luis

    foi azar, te sacanearam ou vc que gosta de pegar os filmes ruins?

  2. Pra ver a merda que eu tô em termos de filmografia do Mann, é o primeiro desse especial que eu posso dizer que vi, e ainda nem é um filme, exatamente, do Mann.
    Mesmas impressões que você em quase tudo. A cena inicial, o cerco à casa do assassino e a sequência dos esgotos são o que se salvam, mas parecem extraídos de um outro filme. É irregular demais, e eu gostaria de poder dizer que o Mann é responsável pelas partes boas e o Werker pelas ruins.

  3. É mesmo, sacaneamos o Luis…

  4. Ranieri Brandão

    Poxa, pelo texto do Luis eu fiquei com MUITA vontade de ver esse filme, mesmo não sendo um filme tão razoável. hehe… Ótimo texto.

  5. Maicon

    Achei uma curiosidade interessante, He Walked by Night está incluído na lista de filmes em Domínio Publico nos EUA e, pelo que vi, acho que o único do Mann.

    Também dizem que há distinções gritantes entre as cenas dirigidas por cada um dos diretores ( e o Werker ainda foi creditado sozinho, em um caso que nunca foi bem explicado porque o Mann se uniu a equipe bem logo após o inicio da produção do filme ), concorda com isso Luis?

  6. O Werker foi creditado sozinho mas o tempo tratou de tornar o filme mais famoso pelo não crédito ao Mann do que propriamente ao Werker.
    Assim como “O Monstro do Ártico” é considerado, praticamente, um filme do Howard Hawks.

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