The Great Flamarion (Anthony Mann, 1945)

O grande Flamarion é, antes de tudo, Erich Von Stroheim. Um rosto e um corpo retesado e conhecido (lembremos da deformidade desse corpo em A Grande Ilusão, de Renoir), um homem vivido de propósito ao culto da falha, ao raspão que empolga porque há outros corpos em perigo que não o dele – este corpo que coloca os outros à mercê de sua habilidade para servir ao objetivo de sobreviver num mundo esquisitamente filmado por Anthony Mann, pois nesse mundo, no seu entorno, não há absolutamente nada a não ser um olhar espectatório frio, de longe, lá da platéia da tragédia anunciada. Uma visão do rigor difícil de romper a não ser, claro, a partir da ação modeladora de um outro rigor ainda maior – o de Mayer da MGM, ou o de Gloria Swanson em O Crepúsculo dos Deuses, o que quer dizer, nesta ordem, um sistema de produção devastador e uma atriz decadente e maluca que precisa preservar sua imagem para sempre. O que destrói este seu personagem, no filme de Anthony Mann que leva o seu nome, é a imposição de uma ditadura breve contra este rigor. É um rigor ensaiado no acerto, em um doloroso no return.

Esta é uma ditadura da inscrição do acerto no mundo de um personagem que é acostumado a falhar sempre, se olhamos para a dimensão do corpo humano como o eterno alvo em potencial de uma arma de fogo – os westerns estão aí para fermentarem a ideia do corpo esburacado. Em O Grande Flamarion só se é possível falhar justamente naquilo que é um acerto fatal: uma morte, incutida em Flamarion pela mente de outra pessoa (Connie, uma espécie de femme fatale ninfomaníaca ou apenas uma interesseira sem tamanho e sem profundidade). O problema de Flamarion é que sua fama advém de sua destreza ao falhar – seus disparos brincam com a ideia do perigo, ao mesmo tempo que acalmam a sede da platéia porque há sempre alvos a serem atingidos e destroçados com certo humor de um ultra-cênico marido-homem traído (é este o papel que Stroheim fará dentro e fora do teatrinho de armas de fogo que sempre erram o seu verdadeiro alvo – Connie). A admiração do público que o olha não é aquela que diz respeito à quantidade de objetos em cena que são destruídos pelas suas armas e sim pela sua destreza aplicada ao erro constante, ao perigo do acerto. É sempre Flamarion o homem que não mata outros homens e que, nisso, se revela um mestre do rigor de cena, do comportamento profissional clássico, da rigidez da coreografia e do cálculo do movimento.

Então, temos mais uma vez (talvez a primeira) um conflito entre Anthony Mann e seu desejo de um cinema que traz de volta um olhar puro e transparente do espectador (a câmera neutra, ali, tão à mostra que está escondida), um “contra-a-tela”, que se choca com um outro tipo de rigor, este outro que advém de Stroheim naturalmente, já que é ele quem nutrirá a trama e a fará voltar para trás num flashback sempre pontuado em alguns retornos ao palco de sua morte. O cerne de O Grande Flamarion é observar como Mann encontra um rigor igual ao seu, mas oposto na forma de se revelar. Ele, não por acaso, estaciona como local principal do nascimento dramático um palco de teatro de variedades, e assim vai encerrar o filme, já no começo, dentro de um, bem mal iluminado, mal produzido e bastante pobre de recursos. O rigor de Mann diz respeito à instauração do olhar barato e nulo do espectador: sua câmera está ali, à altura da trama, mas fora dela, numa posição de neutralidade que não a redime de participar sempre de todos os acontecimentos (é ela quem vai revelar, entre um corte e outro, o esconderijo de Flamarion-Stroheim acima do palco e isto é um verdadeiro primor).

Enquanto Mann observa, Stroheim simplesmente arma, constrói, estrutura uma noção de espaço e de comportamentos ensaiados na medida exata para a combinação do êxito do erro. A cenicidade de Stroheim o coloca como este mestre do rigor quase imbatível, porque se conhece sua história e seu êxito no fracasso de Ouro e Maldição anos depois, por exemplo. Mann se coloca ali, numa altura em que nos faz pensar num retorno híbrido ao tempo em que as salas de cinema eram agora erigidas onde antes funcionavam teatros (e certamente, isso dará um texto futuro) e no quanto isso também se trata de um rigor impenetrável até pela ditadura do filme épico (El Cid): há, ainda assim, uma espécie de neutralidade que lhe cai bem. Assim como Almas em Fúria, é aqui que Mann coloca sua câmera nos lugares corretos – principalmente como um espectador que não pede transformação alguma (na cena em que Dan Dureya é atingido, o olhar é o da câmera, apenas olhando como quem não espera nada) – para receber um personagem que está em todos os lugares corretos durante todo o filme – em Almas em Fúria, este personagem seria o de Barbara Stanwyck, corrosiva na sua vontade de domar tudo e inclusive a trama – Mann a observa tanto, que perde de captar uma cena chocante, aquela da faca jogada na face de uma senhora. Corretos mesmo que sejam para elucidar o erro e a problemática do acerto cênico de se estar em todos os lugares certos (Cidade do México, Las Vegas, San Francisco…) quase que ao mesmo tempo, ainda que O Grande Flamarion seja também sobre um esqueleto narrado do fracasso. Um fracasso jamais calculado por Mann, mas ensaiado, claro, por Stroheim, um corpo cênico sem destino.

4/4

Ranieri Brandão

8 Comentários

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8 Respostas para “The Great Flamarion (Anthony Mann, 1945)

  1. Caio

    Texto muito bom, mas ainda não consegui imaginar direito o que o filme sugere. Só vendo mesmo.

    E que casal surreal deve ser esse Stroheim/Stanwyck…

  2. Ranieri Brandão

    Oi, Caio! Obrigado pelo comentário.
    A Stanwyck não trabalha nesse filme não. Como dito no texto, ela está em Almas em Fúria, também do Mann – texto sobre ele em breve aqui no MP!. Nesse, a personagem feminina é a Mary Beth Hughes.

  3. Caio

    Caceta, tenho que dormir. hehe

    Desculpa pela confusão.

  4. Ranieri Brandão

    hahahaha! Acontece, Caio, acontece. Vc imagine a pequena maratona de ver alguns filmes do Mann. Confunde-se tudo…

  5. Mas foi ótimo imaginar Stroheim + Stanwick…

  6. Ranieri Brandão

    É verdade, Nando. Seria um casal meio torto, mas inesquecível. hehe

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