O Livro de Eli (The Book of Eli – Albert Hughes / Allen Hughes, 2010)

Eli é um Messias, um ser enviado por Deus para resgatar seus ensinamentos e devolver novamente para população a capacidade de ter fé. E isso seria chato pra cacete. Mas Eli não é um Messias comum, não desses que os livros históricos nos contam, ele é praticamente uma inquietação divina personificada, como se Deus estivesse de saco cheio do que isso se tornou, e das pessoas que nos tornamos, e dessa vez não enviasse alguém que estivesse disposto a ser crucificado pelos seus pecadores, ou tivesse o altruísmo elevado de implorar pelo perdão desses até no momento da sua morte, não, dessa vez o enviado resolve tudo da única forma que esse mundo parece entender: na bala.

Um clarão toma conta do mundo, os raios de sol rasgam a terra e acabam com a imensa maioria da população. Isso não é mostrado, apenas explicado. E essa ação faz com que os poucos sobreviventes vivam em um mundo cinza, de perdas, tomado por subtrações extremas, onde a água vira um produto de luxo, o verde praticamente deixa de existir, o canibalismo se torna quase tão banal quanto ser vegetariano, e, a principal mudança de todas: o extermínio da religião. 30 anos se passaram desde o clarão, os livros que continham esses ensinamentos foram destruídos, e a fé que as pessoas carregavam foram evaporando, de modo que um “amém” se torne uma palavra estranha, fora do vocabulário comum. Com isso cria-se um povo sem medo de consquências futuras, movido apenas pela satisfação do próprio desejo, e cabe Eli tentar levar a palavra de Deus novamente para as pessoas, proteger o último exemplar da Bíblia sagrada que restou no mundo.

Acontece que mais pessoas querem tomar posse desse livro. Usa-lo de forma inversa, como arma, transformar a fé em medo, controlar as pessoas mais influenciaveis. E então Eli ta ali [/ginga] pra protege-lo da forma que pode, da única forma que esse “novo” mundo entende: com a violência extrema. O cara realmente não parece desse mundo, parece um anti-herói tirado de algum quadrinho do Frank Miller, que quando o bicho pega, ele vira um demônio. As cenas de massacre (geralmente é um massacre), são de encher os olhos, com um Eli doente, decepando, desmembrando, desfigurando, metendo bala de 12 na cabeça de qualquer nego que tente tocar os dedos imundos no livro. Ele ta com Deus do seu lado, Deus, uma shotgun, e um facão selvagem que corta carne como se fosse pudim, e tudo isso com a benção do paizão [/ginga].

E tem o visual do filme, que é impressionante também. A fotografia dele já tinha chamado minha atenção no trailer, e realmente é parte fundamental pra dar a real impressão de que aquele mundo ta morto, ou quase que irremediavelmente ferido. Ele tem um visual marcante demais, bonito demais, aposto agora que vai ser o grande vencedor nessas categorias técnicas de quase qualquer premiação que concorrer. O som é coisa de louco, a cena em que uma metralhadora giratória estridente explode uma casa no meio do nada é uma das experiências mais definitivas que eu senti em se tratando de som, é como se aquelas balas te incomodassem mesmo, como se estivesse do teu lado. Técnicamente ele é perfeito demais.

Os que curtem metáforas até no catarro vão se esbaladar aqui, e os que colocam a forma acima de tudo, também vão ter muito o que aproveitar. Muito bom filme, baita surpresa.

3/4

Thiago Duarte

5 Comentários

Arquivado em Comentários

5 Respostas para “O Livro de Eli (The Book of Eli – Albert Hughes / Allen Hughes, 2010)

  1. Maicon

    Thiago, eu não dava muita bola pra esse filme até ficar sabendo que o livro de eli, se trata hum… “daquele livro” e ai me pareceu que o enredo pode ter uma mensagem transgressora bem interesante! vou ver se confiro ele no fim sede semana, ainda mais após as suas recomendações.

  2. Maicon

    que massa! nunca pensei em ver a palavra “catarro” aplicada em uma resenha cinemátográfica.

  3. Daniel Dalpizzolo

    Maicon, aqui é o lugar em que você vai encontrar os mais bizarros tipos de palavras aplicadas a resenhas cinematográficas.

  4. Maicon

    sim, depois do “transar sem camisinha com prostitutas gostosas e cleptomaníacas num beco de um bairro barra-pesada de Nova York”, eu estou preparado para todo tipo de metáfora!

    e adorando hehehe

  5. Djonata Ramos

    engraçado, lendo esse texto do tensor, sensação de o filme ser bem similar ao the road, com a diferença que o do Hillcoat puxa bem mais pro drama.

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